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Todos a uma mesa...





Quando há cerca de quinze dias houvemos de interromper a leitura da escritura do dote de casamento de José Pereira de Melo e da Teresa Angélica, não se tinha falado ainda da dádiva oferecida aos noivos pela D. Joana Maria, mãe do futuro esposado. Em primeiro lugar veremos hoje como a «Donna Viuva» foi também assaz generosa. Chegada a sua vez de falar, disse, cheia de contentamento, dotar o filho e a futura esposa com «a quinta do Outeiro», que possuía na freg.a da Raiva, incluindo «todas as medidas sabidas» ali pagas, e «o engenho de azeite», também sua pertença. Em seguida, o filho José vem dizer que se dota a si mesmo com «a fazenda que houve por Carta de compra», situada na dita freg.a. Além disso, o irmão deste, P.e Ant.° Per.a de Melo e Alvim, aparece também como doador, por ter «grande desejo» de ver o irmão José casado com a Teresa Angélica; faz-lhe doação de «hua morada de cazas», sitas na «Rua de simo da Lada», no Porto.
A tudo isto que fica dito, podiam acrescentar-se ainda certas disposições referentes a dinheiros e bens de alma, contidas na mesma escritura, mas para evitar delongas dá-se por terminada neste ponto a relação sucinta deste dote de casamento. Importa todavia não deixar de referir o que disse, em último lugar, o Cón. Ribeiro Nunes palavras que foram afinal um esclarecimento sintético do pensamento orientador de toda a dotação feita. O cónego «declarou» então o seguinte: «os ditos dotados viverão em esta quinta (da Boavista) com as dotadoras e dotador, e os terão todos a hua meza, e todo o dispêndio que fizerem sahirá dos rendimentos de todos os bens dotados, de parte a parte, nesta escritura...».
A expressão «todos a hua meza» merece ser sublinhada, porque muita sugestiva...
— Não é ela uma feliz imagem evocadora dos mais puros sentimentos familiares do Cónego Domingos?
De verdade, dera sempre testemunho de muita dedicação à família. Nos primeiros tempos da sua carreira eclesiástica, como já se disse, ele «tratava e curava com grande amor e zello» a segunda esposa de seu pai, aquando de «grave idade e muito doente»; pelo falecimento do Alferes Manuel Ribeiro Nunes, em Vilarinho de Peroselo, recebeu em sua casa da Boavista a cunhada viúva, Maria Ferreira da Cruz, que ali passou o resto dos seus dias, na companhia das filhas; a todos os sobrinhos ajudou o mais possível a elevarem-se na vida. Sem dúvida, trata-se duma simpática faceta da personalidade profundamente humana deste Cónego da primeira metade do século de setecentos...
Na mente do Cónego Domingos, o dizer-se «todos a hua meza» não equivalia sòmente a afirmar vida familiar em comum, em regime de inteira comunhão de bens, mas era mais que isso, — vida de perfeita sintonização de almas e corações!
O caro leitor desculpará de me ter deixado dominar por certo entusiasmo de momento, quase me esquecendo do fio da narrativa. Dou-me pressa em retomá-lo para chegarmos ainda hoje à festa do casamento de José e de Teresa Angélica.
Aos 7 dias de Julho de 1734, feitas as denunciações sem aparecer impedimento algum, na Capela da Senhora da Conceição, da Quinta da Boavista em presença de «muitas pessoas» — o Cónego Ribeiro Nunes recebeu em matrimónio, como manda a Santa Madre Igreja, José Pereira de Melo e Alvim com Teresa Angélica de Melo.
Se o casamento de Mariana se revestiu de certo aparato (socialmente falando), de não menor importância deve ter sido o de Teresa Angélica. Nesse particular, cada um de nós poderá imaginá-lo a seu bel-prazer. Quanto a mim, o que mais me prendeu a atenção foi o facto de Teresa não ter usado no dia do casamento, bem como em todo o tempo ao diante, nenhum dos apelidos de seus progenitores — segundo creio, porque eram de sabor plebeu.
O apelido «de Melo», que figura no assento de casamento e se há-de manter pela vida fora, com exclusão dos da sua família de origem, fora tomado de empréstimo!
Oh! vaidade das vaidades, de qualquer forma, sempre andaste ligada, em todos os tempos, a todos e a tudo que é humano...
Por MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1972-03-12, p.06

Casariam mal?





Mal cabia em si de contente o Cón. Ribeiro Nunes sempre que lhe vinha à lembrança o feliz casamento da sobrinha Mariana com o Jerónimo das Quintãs de Valpedre. Coisa natural, sem dúvida, já que fora ele o artista principal de obra tão bem acabada. Preocupava-se todavia de não ter encontrado ainda quem houvera de ser digno consorte da sobrinha Teresa Angélica.
Não sei bem por que artes, certo dia foi descobrir, adentro dos muros da cidade do Porto, um jovem dotado dos melhores predicados requeridos para o seu caso. Tratava-se dum filho de família distinta, morador na «rua de Sima do Muro», onde vivia na companhia de sua mãe, D. Joana Maria de Melo e Alvim — «Donna Viuva que ficou do Cappitam Manuel Pinto Pereira». Chamava-se José Pereira de Melo e Alvim. O Cónego Domingos simpatizou com o rapaz por ter apelido indicativo de origem fidalga e além disso porque a sua mãe era senhora duma boa quinta, na freg.a da Raiva, em terras do conc.o de Paiva. Convém acrescentar ainda que ele era irmão do Rev. Fernando de S. Pedro — «Cónego secular do Evangelista» —, como irmão era também do clérigo P.e Ant.o Pereira de Melo e Alvim. A D. Joana Maria, quando soube dos desígnios do Cónego Ribeiro Nunes, parecia ter ficado aliviada do pesado luto da sua viuvez, por antever o filho casado com a prendada sobrinha dum Cónego da Sé Catedral, dono da Quinta da Boavista. Desde aí, começaram a estreitar-se as relações de amizade entre as duas famílias e deste modo, dia a dia, se iam entrelaçando mais, em mútua afeição, os corações do José e da Teresa.
Nada se estranhou por isso que dentro de pouco tempo se ajustasse o casamento entre os dois. O tio Cónego Domingos mandou vir então à sua Casa da Boavista o tabelião e foi lá que se lavrou a escritura de dote, no dia 8 de Junho de 1734. Uma cópia fiel desse curioso documento habilita-me a contar o que se passou nessa ocasião
Além do Cón. Ribeiro Nunes, dos futuros esposados e suas mães — ambas viúvas — estiveram presentes qualificadas testemunhas, quais foram o Deão da Sé portucalense, Jerónimo de Távora e Noronha, o Rev Arcediago do Porto, Dom Manuel de Noronha e Meneses, e ainda o Cón. Sebastião de Prada Lobo. Na presença de todos o tio Cón. Domingos começou por dizer que o José e a Teresa «estavam contratados por palavras de presente para, com o favor de Deos e graça do Divino Espirito Santo, haverem de cazar». Declarou em seguida que «recebendo-se hum com o outro, em face da Igreja», dotava à sua sobrinha e futuro marido «a quinta da Boavista, com todas as suas cazas, Cappella, e Campos e almazens». Mais acrescentou ainda que também Ihes dava em dote as «fazendas» e «casas» de Vilarinho e Valqueira, em Peroselo; um «olival» na Quebrada de Rio de Moinhos; «huas terras», na Salgã de Oldrões, bem como a «tapada» da Formiga, na freg.a de «Campanham».
Nesta altura, afigura-se-me ver o prezado leitor a interrogar-se a si mesmo se o nosso Cónego Domingos seria de verdade pessoa muito desprendida dos bens deste mundo.
Deixemos tal consideração mais para diante, que agora nos escasseia espaço para tratar do dote com que a mãe de Teresa Angélica presenteou os noivos.
A viúva Maria Ferreira da Cruz, depois da fala do seu cunhado Cón. Domingos, disse que, «atendendo ao grande gosto e contentamento que tinha em cazar a filha com o dito Joseph Pereira de Mello», dotava-lhes a sua «fazenda» da Quintã e o «serrado» da Devesa, em Peroselo, mais um «olival» na Salgã e «dous olivais», junto «à preza do Inferno», em Luzim.
Agora, de mau grado meu, tenho mesmo que interromper aqui a súmula do dote consignado na referida escritura, por me sentir fatigado de nomear tanta fazenda... O resto virá ao depois.
A avaliar pelo que já vimos, pergunto eu, caro leitor, acha que o José e a Teresa casariam mal?
Por MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1972-02-25, p.06

 

Três sobrinhas para casar


São três irmãs que vão casar, sobrinhas do cónego Domingos. Somente havia nomeado a Mariana mais a Teresa, mas hoje acrescento a Perpétua.Como as outras duas donzelas, fora esta um dia de casa de seus legítimos pais, em Vilarinho de Peroselo, para a Quinta da Boavista, junto aos muros da cidade do Porto, que pertencia ao seu tio cón. Domingos Ribeiro Nunes. Mas antes de prosseguir, será melhor justificar-me da omissão cometida.Foi o seguinte. As duas primeiras sobrinhas é que foram casadas pelo tio cónego; tendo ele falecido antes do consórcio da Perpétua Luísa, coube ao sobrinho, seu homónimo, o gosto de o realizar. Quer dizer, o Domingos (júnior) não só foi sucessor no canonicato do tio, mas também dele herdou a arte difícil de promover bons casamentos...Dada a justificação, vamos agora ocupar-nos do enlace matrimonial das três sobrinhas do cónego Domingos (sénior).Como tenho, na minha arca velha, abundante documentação a respeito de cada uma delas, vou contar as coisas bastante por miúdo, de modo que hoje não irei mais além da apresentação do noivo da Mariana Luísa Clara, que foi a primeira a casar. O senhor a desposar pela D. Mariana tem um nome completo de muita importância social, dentro da nossa região: Jerónimo de Araújo Leão de Macedo e Melo. Sem dúvida, nome muito bem sonante!Foi ele nascido em Valpedre, na Quinta das Quintãs. Esta casa e quinta, desde remotas eras, andou na posse dos Araújos — gente da melhor sociedade, no quadro geral das famílias de antanho de Valpedre, S. Vic. do Pinheiro e outras freguesias circunvizinhas. Não se pode duvidar da estirpe fidalga do noivo. Embora não se aprofunde aqui tal assunto — muito da predilecção dos linhagistas — sempre convém falar, em breve resenha, dos ascendentes mais próximos de Jerónimo.Foram seus pais o Capitão António de Araújo Leão e Águeda de Macedo e Melo, casados em 1701. Em primeiro lugar a ascendência paterna.O apelido Araújo entrou naquela Casa das Quintãs, pelo casamento de Isabel de Araújo com António da Rocha, avós do referido capitão, pelo lado do seu pai. A mãe de Isabel, chamada Ângela de Araújo — casada em 1604 com Gonçalo Fernandes — era filha de Cristóvão Soares e Isabel Carvalha. Cristóvão Soares era irmão do Ab.e Afonso Soares, fundador do Morgadio das Quintãs, em S. Vicente do Pinheiro.Jerónimo de Araújo Leão de Macedo e Melo, pelo lado materno, vai entroncar na mesma família dos Soares de S. Vicente do Pinheiro e na dos Macedos e Melos da freguesia de Fonte Arcada, sendo estes outrossim de fidalga geração. Ora veja-se como é.Águeda de Macedo e Melo, mãe de Jerónimo, era filha de Isabel Barbosa da Cunha — nascida esta na Quinta de Vila Verde, em S. Vicente do Pinheiro (dos Soares das Quintãs) — do seu legítimo 2.º marido Jerónimo de Macedo e Melo, moradores que foram em S. Tiago de Fonte Arcada.O pouco que se disse acerca da genealogia de Jerónimo bastará para ninguém pôr em dúvida a distinta linhagem do noivo de Mariana Luísa Clara.Esta sobrinha do cón. Domingos, nascida em Vilarinho de Peroselo, não poderia apresentar-se com fidalguia de pergaminhos, mas decerto possuía muita nobreza de alma e coração, aliada a uma educação primorosa que pudera adquirir em casa do seu tio, na Quinta da Boavista.Os amigos leitores querem assistir ao auspicioso enlace de Jerónimo e Mariana?Pois venham, que hão-de gostar!


 

MONAQUINO

Casou bem





Está hoje em cena D. Mariana por ser a primeira a casar das três sobrinhas do Cón. Ribeiro Nunes.
Foi no mês de Janeiro de 1732 que o Jerónimo de Araújo Leão de Macedo e Melo se consorciou com D. Mariana Luísa Clara Ribeiro. Com muitos dias de antecedência, em casa do Rev. Cónego Domingos — na Quinta da Boavista — um tabelião do Porto lançara no seu Livro de Notas uma escritura de dote a favor dos futuros esposados. Quanto ao dote, as coisas passaram-se, mais ou menos, como vou contar em resumo.
A noiva dissera que se dotava com quinhentos mil réis que lhe deixara seu tio António Ribeiro Nunes, falecido no Rio de Janeiro; a mãe de Mariana, a Snr.a Maria Ferreira da Cruz, que estava presente — já viúva do Alferes Manuel Ribeiro Nunes — deu em dote à sua filha duzentos mil réis; o tio Cónego Domingos, «pello muito amor que tinha à sobrinha», fizera-lhe mercê de quinhentos mil réis, sem levar em conta os quatrocentos mil réis que havia gastado com ela, «em pessas de ouro e prata, custosos vestidos, moveis e trastes de caza».
Por outro lado, o Capitão António de Araújo Leão — «para os encargos do dito matrimónio, se tivesse effeito» — dotara o filho Jerónimo com a «quinta ou Casal das Quintains, com todas as suas pertenssas», em que vivia em Valpedre, juntando-lhe as casas e terras que possuíram os seus tios P.e Agostinho da Rocha e P.e Manuel de Araújo — além de outros bens. E mais disse ainda que reservava para seu sustento e dos dois filhos solteiros — Manuel e António — o terço de todo o pão, vinho, azeite e castanhas, bem como de toda a espécie de legumes colhidos nas mesmas propriedades. No caso de não ficar a viver com seu filho e nora, utilizaria «a salla nova que fés e a cozinha da heira e a logea para ter sua besta, que pensará na dita quinta».
Esta escritura de dote, com que haviam de casar Jerónimo e Mariana, foi testemunhada pelo Abade Inocêncio Murrão de Morais Alão e pelo Governador das Armas da cidade do Porto, António Monteiro de Almeida; nela se encontram as suas assinaturas, assim como as de todos os intervenientes deste público documento. Só lhe falta a assinatura da mãe de D. Mariana, «que por dizer não sabia ler nem escrever, rogou a seu filho, o Rev. Con. Domingos Ribeiro Nunes (júnior), que por ella assignasse».
Decorrido mais de mês e meio, realizou-se, a 9-1-1732, o enlace matrimonial. Com licença do «Senhor Governador do Bispado», o casamento pode efectuar-se na Capela da Senhora da Conceição, pertença da mesma Quinta da Boavista.
Como era de esperar, assistiu como oficiante ao solene acto religioso o tio Cónego Domingos.
Foi um dia de muito júbilo na Casa da Boavista! Estiveram ali presentes «muitas pessoas», como se pode ler no assento do casamento. Lá estavam com certeza convidados das famílias da Cidade mais intimamente relacionadas com os dois Cónegos Domingos; fora de dúvida também foram presentes amigos e parentes dos noivos, vindos das freg.as de Peroselo, Gandra, Valpedre e Lagares. Serviram de testemunhas do acto religioso dois primos do noivo: Manuel Leite de Melo, senhor da Casa da Granja, em Lagares, e o P.e Jerónimo de Melo e Macedo, da Casa de Perosinho, sita em Gandra da Cabeça Santa.
Jerónimo e Mariana foram viver na sua Quinta das Quintãs, em Valpedre. Foi aí que lhes nasceu o primeiro filho, chamado Manuel, em 1-11-1733. Baptizou-o o tio Cónego Domingos, tendo sido padrinho o Rev.mo Doutor Frei Manuel dos Serafins — então «Geral dos Padres de S. Bento» — que fora irmão da avó paterna do neófito.
Longos e venturosos anos viveram nas Quintãs.
De verdade, foi um casamento muito abençoado por Deus!
Por MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1972-01-21,p.04

Promoção familiar





Em todos os tempos existiu no homem o desejo de se elevar económica e socialmente acima do meio em que nasceu, mas nunca talvez como hoje essa aspiração foi tão comum e os meios de a efectivar estiveram ao alcance de tantos.
A observação deste fenómeno hodierno, tão generalizado, dispõe-nos o espírito, por natural associação de ideias, a observar a singularidade de que se revestiu a promoção sócio-económica dum ramo dos Ribeiros Nunes de Peroselo, na primeira metade do séc. XVIII.
Da última vez, examinou-se aqui, resumidamente, o caminho trilhado pelo P.e Domingos Ribeiro Nunes para se tornar possuidor dum canonicato na Catedral do Porto. Vejamos agora a projecção que este facto teve no seu meio familiar.
O cón. Ribeiro Nunes teve um irmão, chamado Manuel, com o mesmo apelido, que morou em Vilarinho, freg.a de Peroselo, e foi casado com Maria Ferreira da Cruz, de cujo matrimónio houve filhos.
Dos rapazes nomeiam-se apenas o António e o Domingos, que seguiram a vida eclesiástica. O primeiro — P.e Ant.o Rib.o Nunes — que era o mais velho, foi pároco encomendado de Várzea de Ovelha e Abragão (desta paróquia, a partir de 1738), como mais tarde também «beneficiado» não sei de que igreja ou colegiada; quanto ao P.e Domingos — homónimo do seu tio cónego, já conhecido — foi o sucessor deste na conezia que possuía na Sé do Porto, havendo tomado posse em 30-4-1728, «por coadjutoria com futura sucessão; apenas recebida para isso a prima tonsura, condição mínima exigida naquele tempo para a recepção de benefício canonical. O P.e Ant.o Rib.o Nunes faleceu na casa que fora de seus pais, em Vilarinho, a 15-7-1769; o irmão cón. Domingos (júnior) morreu na cidade do Porto em 10-10-1755, e foi sepultado na Igreja dos Clérigos. Deixemos por ora outros pormenores da vida destes eclesiásticos para nos ocuparmos somente da elevação social de duas suas irmãs.
O cón. Domingos — tio dos dois clérigos de que falámos — em data para mim desconhecida, entrou na posse duma importante propriedade, «sita fora do postigo de Santo António do penedo» da cidade do Porto, a que se dava o nome de Quinta da Boavista. Foi aí que o cónego morou muitos anos e passou da vida presente em 1744. A casa devia ser muito ao gosto do séc. XVIII, pois até nem lhe faltava adjunta uma «Capella de Nossa Senhora da Conceipção», pertença da mesma quinta. Não há dúvida que tinha o ar distinto duma casa fidalga da época de setecentos.
Como o cón. Domingos era de temperamento muito afectivo e muito dedicado à família, trouxe para a sua companhia duas sobrinhas, filhas do irmão Manuel e de sua mulher Maria da Cruz.
Estou em dizer que então aquela morada da Boavista mais se aformoseou, porque mais batida do sol: com mais luz irradiada da presença juvenil daquelas duas meninas. Tinham elas recebido na pia baptismal, em Peroselo, o simples nome de Teresa e Mariana, mas por exigência do novo ambiente, em que agora se encontravam, passaram a denominarem-se Teresa Angélica e Mariana Luísa Clara.
Na aldeia de Vilarinho, o pai das meninas — honrado lavrador, muito considerado por todos — era agraciado também com a patente de Alferes.
O cónego não descurava entretanto a educação das sobrinhas ao nível corrente na classe média do tempo.
Tudo se ia preparando para não faltarem mais tarde pretendentes à mão das simpáticas donzelas, oriundos duma esfera social mais alta do que aquela donde provinham as sobrinhas do cón. Domingos.
Assim foi calculado e assim aconteceu, como ao diante se verá.
Por MONAQUINO

 

Ribeiros em Peroselo?





Dois ribeiros nascem em Peroselo. A bem dizer, só existe aí um ribeiro. O «ribeiro das Lavras» que desce das bandas de Vilarinho e desemboca, após breve percurso, no ribeiro que tem sua origem junto à presa de Vilar — não é mais que um ribeirito ou simples regato. Ribeiro, sim, é o que vem de Valqueira, atravessa Peroselo, de lés a lés, mete-se por Fontão abaixo, corre ao fundo de Perosinho, para se ir lançar pressuroso no Tâmega, em Rio de Moinhos.
Não longe da sua nascente, gerou ele um topónimo que não se envergonha do seu progenitor: o Ribeiro, lugar contíguo ao de Valqueira. Casa do Ribeiro se denomina também uma moradia muito antiga, cujas paredes se erguem mesmo rentes às suas águas, naquele sítio. Aconteceu ainda que muitos dos descendentes da família que habitou ali — pelo menos desde meados do séc. XVI começaram a usar, no século de seiscentos, o apelido Ribeiro. No número destes, contam-se vários clérigos.
Desculpará o prezado leitor se descobriu qualquer artimanha, por inocente que seja, na feitura deste pequeno preâmbulo, — mas o fito que tive foi o de arranjar pretexto para falar aqui de dois eclesiásticos ligados, pelo lado paterno, à Casa do Ribeiro, em Peroselo: o Cónego Domingos Ribeiro Nunes e um Cónego, sobrinho deste, seu homónimo. Hoje só tentarei delinear tosco perfil do Cón. tio Domingos.
O pai deste eclesiástico nasceu na Casa do Ribeiro, no ano de 1648, e chamou-se João Gonçalves Ribeiro (o patronímico Gonçalves já era de tradição familiar muito velha). Casou ele com Maria do Couto, e teve geração. O filho Domingos veio à luz do dia em 1675. Aos oito meses de idade ficou órfão de mãe e foi uma 2.a mulher de João G. Ribeiro, de nome Maria Francisca, que o ajudou a criar-se, com desvelada dedicação maternal. Cresceu. Na idade das opções, escolheu a carreira eclesiástica. Sendo já presbítero e morador em Vilarinho, encontrámo-lo em Abraqão, a 2-8-1701, perante o Tabelião A. da Rocha Ferraz — do extinto conc.o de Portocarreiro — a receber das mãos de Maria Francisca uma doação de todos os bens que ela possuía. Doara-lhos por não ter filhos do seu 1.o marido — Belchior Gonçalves — nem os haver do segundo matrimónio, além de que se encontrava com «grave idade e muito doente» e só o P.e Domingos «della tratava e curava com grande amor e zello».
Mais tarde, o P.e D.os Ribeiro Nunes, induzido talvez pelo exemplo do seu conterrâneo Cón. Manuel Moreira, decidira empreender uma viagem a Roma, na mira de conseguir do Papa o benefício de uma conezia na Sé do Porto. Lá partiu pois, de longada para a Cidade Eterna, onde logrou alcançar que Sua Santidade «fosse servida fazer-lhe graça de o prover em o Canonicato e Prebenda» que havia possuído, na Catedral portucalense, o Rev. Luís de Sousa Carvalho.
Por uma petição que fez ao Cabido do Porto, após o seu regresso a Portugal, sabe-se que a sua ida a Roma o obrigara a «muitos gastos», sem contar o grave prejuízo de ter sido «roubado na viagem»! Estas circunstâncias devem ter influído no ânimo dos «R.dos Senhores do Cabido da dita Sé» para eles se apressarem a «mandar tirar as inquirições de puritate sanguinis» — condição indispensável, a da limpeza do sangue, para lhe ser dada a posse do benefício canonical.
As diligências de genere efectuaram-se em Peroselo, em 5-9-1709, e o acto da tomada de posse foi logo no dia 7, do mesmo mês e ano.
Desta sorte um Ribeiro de Peroselo se promoveu eclesiástica e socialmente.
Por MONAQUINO

Mais Clérigos de Pegas







Tenho mesmo de acabar hoje este assunto dos eclesiásticos nascidos na Casa de Pegas, em Peroselo, para não abusar mais da vossa paciência, amigos leitores!
Em primeiro lugar, voltarei a dizer que os padres, de que me ocupei da última vez, tiveram três irmãs. Todas contraíram matrimónio. O casamento das duas mais velhas Maria e Ana Maria realizou-se em Peroselo, no ano de 1776. A Maria de Sousa recebeu-se com Custódio de Almeida, do L. de Quintã da mesma freg.a; o marido de Ana Maria, de nome António Alves, foi natural da Casa de Vilela, em Canelas, onde morou com a esposa. Em 1773, a mais nova das irmãs, chamada Custódia Maria, casou com António Lopes, da Casa de Real de Além, em Oldrões filho de Manuel Lopes, oriundo da Casa de Riba Boa, freg.a de Vila Cova de V. de A., e de sua m.er Ana Rodrigues, da Casa de Guilferros, freg.a de S. Mart.° de Lagares. Acrescentarei ainda que António Lopes era irmão do P.e Manuel R. Lopes e que o enlace matrimonial das três irmãs de Pegas foi celebrado na presença do P.e Jerónimo Lopes, tio delas, pelo lado materno, já conhecido Abade de Vila Cova de Carros. Custódia Maria foi que sucedeu na casa dos pais, onde viveu com seu esposo, tendo havido descendência. Segundo a minha conta, criaram sete filhos. Todos eles receberam no baptismo um nome já tradicional na família, repetido em sucessivas gerações. Mencionarei os rapazes, que foram quatro: Geraldo, Manuel, João e Jerónimo. O primeiro, Geraldo Rodrigues Lopes, casou em Melres, a 19-1-1815, com Joaquina Lopes da Rocha, da Casa de Vales Travassos. O Manuel, que ficou solteiro, deu honra à Casa onde nasceu, porque nos tempos calamitosos das invasões francesas ou mais tarde por ocasião das lutas liberais, ascendeu ao posto de Capitão. Faleceu em Pegas, mais ou menos com setenta anos, a 27-10-1853. Quanto ao João e Jerónimo, ingressaram na vida eclesiástica, dando assim continuidade a uma tradição já muito antiga na família. Das três irmãs que tiveram, somente nomearei aqui a Ana Maria, que foi a herdeira da Casa de Pegas. Em 1807, casou ela com Jerónimo de Sousa Moreira, da Casa da Quintã, de Peroselo, e tiveram seis filhos: três meninos e três meninas. Havia muito que dizer a respeito de cada uma das filhas de Ana Maria e Jerónimo, mas tenho que me limitar agora a apontar o rumo que seguiram na vida os três filhos varões. O mais velho, de nome Vitorino, ficou solteiro e viveu sempre na casa dos pais, que lhe coube em herança. Faleceu com 71 anos de idade, em 23-2-1879, tendo sido sepultado na Capela da Senhora da Conceição. Foi seu herdeiro o sobrinho e afilhado Vitorino R. Ferreira, nascido na Casa das Eiras. Quanto aos dois irmãos que teve, foram os últimos clérigos havidos em Pegas.
Com o P.e Tomé e o P.e Januário extinguiu-se uma tradição mantida ininterruptamente ao longo de três séculos de se contarem, em cada geração, alguns membros da Casa de Pegas, devotados a bem servir a Igreja, no exercício da vida eclesiástica.
MONAQUINO

Regressou em liteira...





Haverá de certo quem nunca tenha visto uma liteira em museu ou antiga casa fidalga, conhecendo-a sòmente de velhas histórias que se contam ou de algum estudo acerca dos meios de condução utilizados pelo homem desde remotas eras. Se houver alguém que não saiba do que se trata, poderá valer-se dum vulgar dicionário onde estará definida como espécie de cadeirinha portátil, coberta e fechada, sustentada por dois varais compridos, levada a braço por dois homens ou conduzida por duas bestas, uma atrás, outra adiante. Como nota bem característica, acrescente-se ainda um conjunto de campainhas estrídulas, cujo alegre telintar tanto deleitava o ânimo de Camilo nas frequentes digressões que fazia em liteira, por terras do Minho e Trás-os-Montes. Veio-me agora à lembrança ter ouvido dizer que certo amador de velharias, depois de ter lido, na mocidade, Vinte Horas de Liteira, sonhara jornadear um dia na cadeirinha portátil, desde a póvoa de OveIhinha, no Marão, até portas a dentro da cidade do Porto talqualmente o itinerário percorrido pelo romancista, em vinte horas, na companhia do seu amigo António Joaquim. O simpático moço de então não chegou a realizar tal intento com receio de lhe faltar coragem para enfrentar a zombaria da gente ignara, obstinada em não reconhecer o valor documental e o encanto poético das coisas do passado.
Liteiras dos tempos idos, de quantos acontecimentos alegres e tristes não fostes vós testemunhas!
Transitaram elas ao longo das estradas velhas da nossa terra e por caminhos ínvios que davam acesso a povoações isoladas entre montes. Não se estranhe abonar isto que acabei de dizer com o testemunho colhido num assento do antigo registo paroquial de Peroselo, do ano de 1757. Encontra-se no L.o 3, fls. 195 v. Transcreve-se aqui, em grafia actualizada. É do seguinte teor:
O Rev. Jerónimo Rodrigues Lopes, natural de Peroselo e assistente actual que era na cidade do Porto, onde enfermando de uma grave enfermidade, depois de nela receber os sacramentos, reverteu em uma liteira para esta freguesia, onde chegou na noite de vinte nove de Novembro para os trinta do dito mês, do ano de mil setecentos e cinquenta e sete, onde sendo chamado pelas sete para oito horas da manhã, para examinar se necessitava de Sacramentos, me disseram não estava já em termos da repetição da Sagrada Eucaristia, e indo logo para lhe repetir o da Extrema-Unção me vieram ao caminho dar recado que tinha expirado e que fora absolvido por um sacerdote vizinho. Foi sepultado na Capela da Senhora da Conceição e ficou seu pai António Lopes obrigado aos bens de alma.
O P.e Jerónimo R. Lopes nasceu em Quintã, onde moraram seus pais António Lopes e Maria Pereira, casados a 17-11-1703. Era sobrinho do P.e Manuel Rodrigues, irmão do seu pai, e neto paterno de Manuel Lopes, oriundo da Casa de Pegas, casado com Ângela Rodrigues, de Quintã, em 10-8-1661.
O P.e Jerónimo vivia no Porto quando enfermou da mortal doença. Regressou à terra natal numa liteira... para morrer dentro de pouco tempo, após a chegada.
A surpresa de encontrar uma liteira em Peroselo, vinda daquela cidade, em meados do séc. XVIII, como que se dissipou em mim sob a impressão dolorosa das circunstâncias dramáticas determinantes da jornada e subsequente falecimento do P.e Jerónimo Rodrigues Lopes.
MONAQUINO

Aquela Casa...





Na verdade, teima em não me sair da ideia aquela Casa... A Casa de Pegas! Desculpem os prezados leitores se lhes causo enfado em falar dela outra vez. Isto de trazer para aqui coisas tão particulares do meu pensar não estará realmente bem. Porventura ser-me-á concedida alguma indulgência, se eu disser que esta é a maneira mais prática de atinar com as causas que originaram outrora a grandeza dessa Casa. Demais estou convencido que a sua história é útil para compreender bem a tal evolução sócio-económica da terra de Peroselo.
Estão lembrados ainda dos três «meios-cónegos» a que fiz referência na última vez que escrevi?
Um irmão destes, chamado Manuel Rodrigues, casou-se, a 2-7-1728, com Maria de Sousa, da Casa da Quintã. Viveram na Casa de Pegas, que lhes coube em herança, e tiveram geração. Conto-lhes oito filhos: cinco rapazes e três meninas. Está incluído um Tomé que talvez tenha falecido de menor idade; os restantes seguiram todos a carreira eclesiástica. É verdade, quatro clérigos que foram: o P.e Manuel, o P.e João, o P.e Geraldo e o P.e Jerónimo. O mais novo deles, o P.e Manuel Rodrigues Lopes, passou a maior parte da sua vida em Peroselo. Num inquérito, datado de 1794, aparece como residente na freguesia da sua naturalidade e é qualificado de padre «bom em ciência e procedimento».
O P.e João Lopes, tendo vivido «desde a idade dos cinco anos em casa de seus tios Beneficiados, na freg.a de S. Ildefonso», sempre se manteve por ali. Por mero acaso, recebeu a «ordem de Missa» na Galiza, em 1768. No ano de 1780, ainda morava «na rua de S. André».
O P.e Geraldo R. Lopes foi ordenado também de presbítero, na Galiza, aquando seu irmão João. Em Agosto de 1777 era «Abade Coadjutor» na Igreja de S. João Evangelista de Vila Cova de Carros, para vir a suceder ao Ab.e Jerónimo Lopes, seu tio, de que já se falou (por culpa minha, a data da morte deste pároco saiu errada: faleceu em 26-6-1780). O Ab.e Geraldo, depois de pastorear V. Cova de Carros cerca de 17 anos, adoeceu de grave «moléstia». Escreveu então o seu testamento que foi aprovado na véspera da sua morte, ocorrida a 26-6-1794.
De caso pensado, deixei para último lugar o P.e Jerónimo Rodrigues Lopes. Este foi o derradeiro «meio-cónego» de Pegas. Em 11-12-1750, o Ben.o João Lopes, seu tio pelo lado paterno, resignou no P.e Jerónimo a sua «meia bacharelia». O sobrinho tomou posse em 1750. Ainda em vida do tio P.e João, renunciou ao «Benefício» na Sé Catedral para ser provido na Abadia de Paços de Brandão, em que foi empossado a 4-11-1764.
E ponto final, que já são horas de findar.
MONAQUINO

«Meios-Cónegos» de Pegas




Na semana que passou, fiquei-me a assistir à boda do casamento de António Lopes com Ana Moreira, em Peroselo, realizada no dia 17 de Agosto de 1676. Decorreu ela mesmo à beirinha da Igreja, na casa conhecida hoje por moradia da quinta do Couto, não se pode duvidar, foi uma festa de família muito alegre e simpática, porque de muita intimidade. Lá estavam os familiares e próximos parentes da Casa da Igreja e lá estaria também a gente mais íntima da Casa de Pegas, onde foi nado e criado António Lopes. A atenção do meu espírito naquela hora não convergiu sobretudo para o lindo par dos recém-casados, mas antes se fixou em dois jovens «estudantes» ali presentes. Ambos foram «testemunhas» daquele «recebimento», como ficou expresso no assento do Livro do Registo Paroquial.
Um deles chamava-se João Lopes, irmão legítimo do noivo; era o outro de nome Manuel Moreira, irmão por inteiro da desposada Ana.
Amigos e companheiros de estudo no Porto, ambos se destinaram à vida sacerdotal. João Lopes
ordenou-se, mas veio a falecer, a 26-4-1686, em Peroselo, apenas com 36 anos de idade. A morte deste P.e João Lopes foi decerto muito sentida em toda a família. Digo isto porque, ao organizar a árvore genealógica da Casa de Pegas, apareceu-me em três gerações seguidas um padre com o nome de João Lopes.
Quanto ao seu companheiro e amigo Manuel Moreira, já os leitores sabem que se trata do jovem que um dia o povo havia de
canonizar, chamando-lhe «Cónego Santo».
A seu respeito só agora queria pôr em relevo o quanto contribuiu ele para a esplêndida floração de vocações sacerdotais, havidas no seu tempo em Peroselo
mercê do magnífico exemplo de vida mui virtuosa, do seu inesgotável amor de ajudar os outros e consequente prestígio social que adveio à sua pessoa de Padre. Para fugir a maior digressão, apenas me vou referir hoje a alguns sacerdotes de então, oriundos da Casa
de Pegas, que passaram como tantos outros pela Casa de S. André, no Porto.
Uma irmã de António Lopes marido de Ana Moreira chamada Francisca Dias, sucedeu na morada dos pais, tendo casado em 1688 com Tomé Rodrigues. Dos seis filhos nascidos deste casal, três foram sacerdotes exemplares e chegaram a fazer parte do Cabido da Catedral portuense, posto que não fossem de verdade Cónegos, no sentido estrito da palavra. Elementos integrados no Cabido, não usufruíam categoria tão alta como tantos que houve, chamavam-se «meios-cónegos» e também «benefiados». Foram eles os irmãos Jerónimo Lopes, Tomé Rodrigues e João Lopes. O P.e Jerónimo tomou posse duma «meia bacharelia» na Sé do Porto em 1714, tendo renunciado a ela em 1741, a favor do seu irmão P.e João Lopes, a fim de ser provido na freg.a de Vila Cova de Carros, no actual conc.o de Paredes. Acabara seus dias a 22-6-1788. O Beneficiado João Lopes faleceu no Porto, a 28-11-1771. Foi sepultado na Sé. O P.e Tomé Rodrigues foi empossado também em «meia bacharelia» em 13-2-1717. O seu falecimento ocorreu em 26-10-1768. Teve sepultura na Catedral do Porto.
A procissão dos semi-cónegos da Casa de Pegas ainda não terminou. Para não abusar da vossa paciência, não se vai hoje mais além. Fica para outra vez!
MONAQUINO

Casa de Pegas




Na toponímia do concelho de Penafiel há vários lugares de Pegas e mais que uma casa do mesmo nome. Ninguém duvidará terem sido esses pássaros corvídeos tão vulgares nas regiões nortenhas, chamados pegas que alguma vez se aninharam para sempre naqueles sítios. São topónimos muito velhos!
Em Peroselo, lá se encontre uma Casa de Pegas, no lugar de Outrela, que fica pegado a um monte. No caso presente, não sei por que artes veio à Casa tal designação, mas já me aconteceu topar algures uma morada assim denominada porque nela havia umas pegas, domesticadas e palreiras (isto por lhes terem cortado a trava), as quais andavam à solta e eram atraente passatempo do rapazio das vizinhanças.
Passei outrora amiudadas vezes à porta da Casa de Pegas. Ave corvídea nunca lobriguei lá nenhuma, mas é certo que era frequente quedar-me naquele sítio, por instantes, a pensar nas grandezas antigas da Casa e no infortúnio que um dia a visitara.
Que lhe hei-de eu fazer, leitor amigo, se este jeito que tenho de me pôr a meditar já me vem de nascença? Só há-de morrer comigo.
Casa de Pegas! Tanto sonhara conhecer-te por dentro, quer dizer, percorrer a tua senda familiar, através de várias idades e muitas gerações, mas só agora, na senectude, logro entrar um pouco na intimidade dessa vida plurissecular...
Por deficiências do registo paroquial, apenas nos é dado saber a data dum casamento ali havido no primeiro quartel de seiscentos, posto que se conheçam nomes de antepassados da Casa que remontam com certeza aos primórdios do século de quinhentos. É verdade que, no dia 8 de Dez.o de 1624, se casou Domingos Lopes, de S. Maria de Peroselo, com Natália Fernandes, filha de Sebastião Fernandes e de sua mulher Francisca Rodrigues, da freg.a de S. Romão de Vila Cova de Vez de Aviz, tendo sido dispensados em 3.o e 4.o graus de consanguinidade. Viveram eles em Outrela e tiveram um filho António Lopes, que se recebeu, em 21-11-1644, com Francisca Dias, do mesmo lugar e freg.a.
Foi António Lopes sucessor na Casa de seus pais e houve da sua mulher vários filhos. Além do P.e João Lopes, que faleceu em Peroselo, no ano de 1686; dum Domingos Lopes, casado em Vila Cova com Maria Fernandes, em 1667; duma Isabel Francisca, cujo recebimento com António Mendes, da Casa das Pedras, em Salvador de Gandra, se realizou em 1676; duma Francisca Dias Lopes, que ficou na casa paterna e casou, em 1688, com Tomé Rodrigues, da supradita Casa das Pedras: além desses quatro filhos, importa ainda lembrar aqui um outro, de nome António Lopes, homónimo de seu pai, o qual se casou, a 17-8-1676, com Ana Moreira, filha de Domingos do Couto e de sua mulher Helena Moreira, da Casa da Igreja, em Peroselo.
Quem houver tido a paciência de ler o que se escreveu aqui acerca dos pais do Cónego Santo, com certeza já concluiu que a Ana Moreira foi irmã inteira do Cónego Manuel Moreira. Estudante ainda, ele assistira ao seu casamento, na companhia do que havia ser o futuro Padre João Lopes. As duas Casas a da Igreja e a de Pegas ficaram então bem unidas.
Dilatei-me demais pelo caminho e não posso ir agora até onde me propusera chegar. Indulgentes e compreensivos, os prezados leitores desculparão.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1971-07-09

Autenticidade




Haverá quem não goste desta palavra autenticidade? O apreço que alimentamos por ela nos advém por ventura dos tempos de menino e moço, de quando algum dia pela vez primeiro fizemos telintar, sobre material duro, moeda de feição e metal duvidosos, tendo verificado por fim com grande mágoa e revolta interior que houvéramos sido ludibriados por outrem.
Isto de alguém não ser autêntico, nas diferentes relações humanas de cada dia, não se assemelha muito ao pecaminoso acto de se impingir moeda falsa a quem quer que trate ou conviva connosco? Entre as várias formas de convivência ou humano comércio, bem se entende ocupar lugar importante a arte de escrever muito apurada ou de jeito rústico até mesmo tratando-se de coisas de somenos valia. Nasce daí a responsabilidade de quem pretendeu em qualquer ocasião transmitir por escrito alguma coisa da sua lavra seja a presentes ou vindoiros.
Não dirá alguém, nesta altura, serem estes considerandos matéria impertinente e sobretudo desarticulada do tema de que, há semanas já, me venho ocupando aqui? Parece-me que assim não acontece, visto que o intento de todo este arrazoado visa a concluir, em primeiro lugar, que o P.e H. Moreira da Cunha foi homem de grande mérito literário ao elaborar em base de pura autenticidade o nobiliário que nos legou. Prova evidente de que assim procedeu, está no facto de ter gastado anos a percorrer várias terras compilando testemunhos orais ou escritos, em que assentou todas as afirmações do manuscrito, conforme honestamente confessa no breve prólogo que antecede a sua obra.
Demais, no trabalho que fez como por via de regra sucede nos livros antigos de carácter genealógico o P.e Henrique praticou omissão quase absoluta de datas referentes às pessoas e acontecimentos de que nos fala. Por causa disso, senti necessidade de consultar miudamente os livres velhos do Registo Paroquial de todas as freguesias de Penafiel e de muitas outras de concelhos circunvizinhos. Ao longo desta prolongada tarefa, jamais pude dar conta de qualquer inexactidão existente no manuscrito do P.e Moreira da Cunha quer dizer, tudo o que se encontra ai é rigorosamente autêntico. No caso particular respeitante ao Cónego Manuel Moreira de Peroselo, tenho a dizer mais que, além do recurso do registo paroquial e do seu testamento, transcrito nos livros da Provedoria, pude valer-me também doutra fonte, qual é a do Livro dos Termos das posses canonicais. Remonta este a 1614 e ainda é usado hoje para lançamento dos mesmos termos. O leitor amigo poderá imaginar a emoção que senti ao ler o termo de posse do Cónego Santo e também aquele breve registo do óbito e enterramento, onde o Cón. Alão deixou afirmado ter sido o Cón. Manuel Moreira um «varão de muita virtude». Esta nota «de muita virtude» é deveras singular e eloquente, pois não se encontra semelhante em nenhum outro assento obituário, dentre os muitos que lá foram exarados.
Julgo, por certa maneira, ter sido posta em relevo a autenticidade da obra do P.e Henrique de Parada. Honra seja dada ao seu carácter impoluto tanto mais bem merecida, quanto é certo alguns dos genealogistas do século em que viveu (o século XVIII, como sabem) não se terem pejado de forjar falsas ascendências na estulta mira de se glorificarem a si mesmos e à família donde provieram.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1971-06-18, p.04

Peroselo




A predilecção e antipatia alimentadas em nós por este ou aquele nome fundamentam-se muitas vezes em razões que nós mesmos não chegamos bem a descortinar, tão fundo andam escondidas em nosso subconsciente. Acontecimentos jubilosos ou tristes momentos felizes que se viveram ou infortúnios que nos ensombraram a vida podem muito bem ter sido motivação decisiva de tal estado de simpatia ou aborrecimento por certos nomes, sejam próprios ou comuns.
Valerá a pena indagar porque o topónimo Peroselo me ecoa tão simpaticamente nas profundezas da alma? Com certeza não saberia decidir me entre as vozes que lá ressoam provindas dos meus avoengos maternos e a lembrança querida de muitas horas de folgança e alegre convivência, vividas em terras de Peroselo, no tempo da infância e juventude.
O leitor medianamente culto não ignora decerto que este topónimo, em sua etimologia, significa local de natureza pedregosa. Da primitiva palavra latina petra se formou o qualificativo petrosus (cf. Pedroso e Pedrosa), de que havia de derivar o diminutivo petroselus (em 882, Petroselo — P. M. H.). Com a sonorização da dental surda, aparece em 1258 (Inquis.) a forma Pedroselo, donde finalmente Peroselo e Proselo.
Não era, porém, o aspecto etimológico ou semântico do topónimo que me interessava sobretudo realçar neste momento, senão certas características, algo peculiares desta freguesia, evidenciadas ao longo de séculos e conservadas até os nossas dias.
Todo o agregado paroquial de Peroselo, devido às condições do meio físico povoação enclausurada entre montes viveu naturalmente através dos tempos em maior isolamento que as demais terras circunvizinhas. Tal circunstância, se fomentou por um lado mais íntima unidade social entre os fregueses, foi também causa relevante da estreita ligação de parentesco entre as principais famílias da paróquia. A tal ponto se verificou este último aspecto sem dúvida, nada útil à sanidade psíquica das pessoas que se tornou proverbial dizer-se: «em Peroselo, todos são primos uns dos outros». O minucioso estudo, em que de há muito ando empenhado,
acerca da história das diferentes Casas antigas da freguesia, já me levou à conclusão de que tal ditado não está muito fora da verdade. Se Deus quiser, em futuro não distante, hei-de publicar, em trabalho de conjunto, tudo o que me foi possível apurar a esse respeito. Por agora para não me arredar muito do tema que tenho estado a desenvolver aqui, desde Maio p. p.,somente me hei-de referir à ramificação dos Moreiras, dentro da freguesia de Peroselo, enquanto isso pode ter qualquer ligação com a pessoa do Cónego Manuel Moreira. Apenas acrescentarei hoje que a presença dos Moreiras em Peroselo se efectivou por uma dupla via, como havemos de provar na semana que vem.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1971-06-08, p.04

«Sobrinho que foi...»




Se é que merecem ao leitor algum interesse estas mal escrevinhadas notas, ainda pode suceder que retenha na memória o texto do epitáfio que haveria de ser gravado na «campa de pedra» destinada a cobrir a sepultura do Cónego Santo de Peroselo, caso fosse enterrado no adro da Capela de S. André, sita na freg.a de S. Ildefonso. Digo isto porque me importa relembrar aqui, neste momento, a parte final desse «letreiro» vocábulo por que é designada, um tanto rusticamente, a referida inscrição epigráfica, que vem lançada no testamento do Cónego Manuel Moreira. Como saberá — se bem se recorda, amigo leitor depois de vir indicado o nome e origem do Cónego, acaba ela por findar desta maneira: *«...Sobrinho que foi do fundador da Misericórdia de Arrifana de Sousa». É à volta deste tema que hoje se vai desenvolver o nosso entretenimento.
Manuel Moreira, que foi Cónego da Sé do Porto e oriundo de Peroselo, era na verdade legítimo sobrinho em 3.° grau, pelo lado materno —do P.e L.do Amaro Moreira, que fora Abade do Ermelo e insigne benfeitor da nossa Misericórdia cuja igreja fundou e dotara de enormes rendas, para brilho do culto e
valimento dos necessitados enfermos do seu Hospital. Isto já está dito redito, mas não há mal em repeti-lo, por causa da moléstia de que padece a memória dos homens. Tanto assim, que Penafiel se esqueceu até hoje de prestar homenagem condigna a quem tanto lhe dera...Verdade bem provada é também que o Cónego Manuel de Peroselo foi 3.o sobrinho dessa grande figura de homem e Padre o fundador da
Misericórdia. No entanto, não será despropósito recordar aqui a via por que o foi.
0 P.e L.do Amaro Moreira, filho legítimo de Gaspar G. Moreira e de Brites Duarte, nascera na Casa da Lousa morada de seus pais no lugar de Moreira da freg.a de S. Miguel de Gandra do actual conc.o de Paredes. Entre os 6 irmãos que tivera, conta-se uma Maria Gaspar Moreira, casada que foi com Gonçalo Rodrigues, da Casa de Lagares, freg.a do mesmo nome e orago de S. Martinho, no conc.o de Penafiel onde viveram com geração. Uma filha deste casal, chamada Maria Moreira, casara, a 6-5-1607, na igreja de Lagares, com Gonçalo Fernandes, natural de Peroselo. Moraram eles na Casa da Igreja desta freguesia e tiveram, entre outros filhos, Helena Moreira, nascida em 20-10-1616. Helena Moreira casou na igreja de Peroselo, a 9-2-1643, com Domingos do Couto, natural da freg.a de Rio Tinto. Residiram na dita Casa da Igreja, onde nasceu, a 16-9-1649, o filho Manuel Moreira, que veio a ser o Cónego Santo. Talqualmente soía exclamar, ao fim de engraçada conversa, o bom do Padre Américo do Gaiato em certos pontos, irmão gémeo do Cónego Manuel de Peroselo também eu, ao cabo desta lengalenga genealógica, apetecia-me dizer do benévolo leitor: Ora eis! Entretanto, ainda acrescentarei que não seria capaz de pintar com mais clareza e síntese o quadro da ascendência materna do nosso Cónego por mais tratos que desse à minha pobre imaginação. Mas, apesar de tudo, à face do que fica dito, poder-se-á atestar que o Rev. Manuel Moreira Cónego que foi da Sé Catedral do Porto não era oriundo de fraca cepa, quer dizer, ao menos pelo lado da mãe, era filho de boa gente gente de limpeza de sangue e lavada geração!
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1971-06-11, p.04

Letreiro na Campa




Segundo aprendi de cor nas lições da Ti Margarida do Muro (Senhora mestra da Doutrina, anciã muito respeitada por todos, que Deus lá tem há um ror de anos!), é conforme li mais tarde também na Cartilha do célebre Abade de Salamonde, sempre fui entendedor de que era grande pecado andar uma pessoa a fazer juízos temerários, acerca de quem quer que seja. Não sei bem se é ainda deste modo que se nomeia tal culpa e se todos dela pensam a mesma coisa, que a minha falta de forças fruto da longevidade — não me consente aguentar o passo lesto do ofuscante progresso teológico de hoje em dia. Valha-me Deus, é tão veloz a sua marcha que tenho mesmo de ficar para trás, a pensar, cheio de melancolia, se até agora não andámos todos enganados! Mas saiba ou não saiba a verdade inteira, seja lá como for, uma coisa é certa: a minha Consciência, aqui há anos, entrou em dada altura a acusar-me de ter incorrido no aludido pecado.
Foi o caso de ter formulado um mau juízo a respeito da honestidade intelectual do falado autor do manuscrito que trata da ramificação dos Moreiras. À certa, foi o Tentador que me meteu em cabeça a ideia de que tudo o que lá se encontra a respeito do Cónego Manuel Moreira era uma pura mistificação de P.e Henrique. Tamanha inquietação se apoderou do meu espírito que decidi logo buscar novas fontes capazes de me revelarem toda a verdade sobre o Cónego de Peroselo, sem qualquer sombra de dúvida.
Ocorreu-me primeiramente procurar o testamento com que faleceu. Esquadrinhei os livros dos tabeliães, e outros, mas não me aparecia. Até que um belo dia, estando a lidar com os Treslados e Registos da Provedoria — em ordem a outra finalidade saltou-mes diante de meus olhos surpresos, o suspirado testamento. Boa razão tinha o douto e saudoso Director do Arq. D. do Porto. Dr. Magalhães Basto, para repetir amiúde: «Na
investigação de documentos, também sucede muitas vezes andarmos à busca de alhos e sairem-nos bugalhos». Para mim. neste caso, foi excelente bugalho!
O primeiro passo desse texto a prender-me a atenção foi aquele em que o Cónego Santo deixou ordenado o seu enterramento. Nele assim dispôs:
«Mando que meu corpo seja envolto nas vestes sacerdotais e enterrado pegado às oliveiras que estão no adro da Capela de S. André desta freguesia (S. Ildefonso), defronte da porta principal dela, cam sua campa de pedra, com um letreiro por cima, que diga:
Aqui está sepultado o Reverendo Cónego Manuel Moreira, que o foi na do Porto, natural da freguesia de Santa Maria de Peroselo, sobrinho que foi do fundador da Misericórdia de Arrifana do Sousa».
O prezado leitor que haja lido o que se escreveu na semana passada acerca da sepultura do Cónego Moreira de Peroselo, com certeza, há-de conjecturar facilmente as considerações que tenho em mente fazer daqui a oito dias, fundamentado no excerto que acaba de ser transcrito. O Monaquino, por sua vez, fica a meditar nessa passagem e no resto do testamento do nosso Cónego, muito satisfeito por encontrar neste texto uma confirmação do testemunho que dele nos deixara o P.e Henrique de Parada.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1971-06-04, p.04

S.t° André






Não será panegírico, nem coisa que se pareça, em louvor de S. André, embora haja devoção verdadeira ao insigne Apóstolo e Mártir, Razão mais comezinha posto que séria e válida motiva hoje pôr-se em relevo o nome glorioso do Santo.
É que ele está ligado a um antiquíssimo topónimo da cidade do Porto para mim evocador da parte mais interessante da vida operosa do Cón. Manuel Moreira, natural de Peroselo.
De facto, existe no Porto uma rua de pequena extensão, chamada de S. André, que entronca na de S. Ildefonso e desemboca na Praça dos Poveiros. Tomou tal denominação por ter havido outrora neste local uma capela da invocação do mesmo Santo. Ora foi por ali, mais ou menos naquele sítio, que habitou o Cón. Moreira. No seu tempo, há mais de 250 anos, a Cidade não se tinha espraiado ainda para fora das muralhas fernandinas: S. André era então um arrabalde. Dêmos lá uma fugida na companhia do conhecido P.e Henrique M. da Cunha que ele nos informará da admirável obra realizada pelo nosso Cónego, nas Casas da sua morada. Não me digam que não, venham daí, que hão-de gostar! (Não reparem nestes modos de menos cortesia, mas é esta paixão dos homens e coisas antigas, que me anda cá dentro, e me faz perder às vezes a devida compostura).
O P.e Henrique, após a enumeração de muitas «prendas e virtudes» do Cónego seu parente e contemporâneo, acrescenta, no mencionado manuscrito, o seguinte: «O M.to Rev. P.e Manuel Moreira... recolheu, nas suas Casas, sitas a S. André, extra-muros da cidade do Porto, a muitos estudantes para estudarem Gramática, Filosofia e Teologia, dando-lhas de graça, sem aluguer, e sustentando a muitos destes do mais preciso e necessário, como também a criminosos que em sua Casa se recolhiam, e outras muitas pessoas que iam a negócios, para o que tinha quatro camas sempre patentes para o seu agasalho, servindo a sua Casa de um contínuo hospital para todos que nela se queriam recolher, parentes ou estranhos».
Que pensa, prezado leitor, do que se acaba de saber, graças à solicitude do P.e Moreira da Cunha?
Matéria mui substanciosa, direi eu, para longo comentário, se não houvéramos de prosseguir.
E já continuamos na leitura do precioso nobiliário. Não seja razão para mofar ou rir o que se lê em seguida: «...e por desprezo da sua própria pessoa, com suas próprias mãos, plantava coives, hortaliças e videiras nos seus quintais para remediar pobres e hospitais».
Tenho lido várias vezes estes passos do manuscrito, mas parece que nunca me deram, como agora, expressão tão clara da rara beleza espiritual e finura de coração do Cónego de Peroselo. Se me fora possível recuar nas idades, havia de verdade ir-me «recolher» e rogar «agasalho» à sua casa, sita a S. André, a fim de admirar mais de perto a autêntica Caridade que lhe enchia toda a alma.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1971-05-21, p.04

Vida Prodigiosa




Como é já do nosso conhecimento, o P.e Henrique, da Casa da Roçada em Parada de Todeia, dá-nos no seu manuscrito genealógico uma visão de conjunto da vida e obras do Cón. Moreira de Peroselo. A natureza do assunto versado pedia isso mesmo. Ao entanto, o autor não deixou de intercalar a respeito dele um ou outro pormenor, muito sintético, que empresta na verdade pitoresco realce à singular personalidade do Rev.mo Cónego. Além dos mais já observados, conta-se o que escreveu acerca do género da sua indumentária de cotio. Isso tem certo interesse, de maneira que transcreve-se aqui:
«Constava o seu vestido de camisa de estopa grossa, gibão e calções largos de pano grosso, meias grossas de lã, capa tosca com fita (...) e um chapéu grande sem presilhas».
Vestimenta algo esquisita para um Cónego da Catedral! Entretanto, se não era traje de gala, também não devia ser destoante do modo de trajar das classes populares, em meio citadino, naquele tempo. Demais, a avaliar por certas extravagâncias na maneira de vestir em nossos dias, até seria figurino muito de aproveitar para certas elegâncias (não eclesiásticas) dos tempos que vão correndo... Agora, o que julgo deva ser notado, é a qualidade «grossa» das vestes, nada propícia à moleza dos sentidos e muito menos ao seu regalo. Que admira isso numa vida «que toda foi muito penitente»!
Os encómios de Mor.a da Cunha, em louvor da «prodigiosa vida» daquele membro prestigiante do Cabido da Sé do Porto, atingem o acúmen quando justamente nos diz que ele «era, por antonomásia, chamado Cónego Santo». Santo Cónego de verdade! Tão formoso foi o seu viver cristianíssimo como faleceu santamente da vida presente nas casas da sua morada, a S. André, extra-muros da cidade do Porto «com muitos sinais de predestinação».
No testamento que deixou, havia ordenado «que seu corpo fosse enterrado no Adro da Capela de S. André». Aconteceu, porém, que «alguns dos Cónegos» com certeza pela muita amizade e veneração que lhe votavam não acharam bem tal disposição; pois não descansaram sem «o desviarem desse intento». Para comprazer com os respeitáveis colegas, «fez um codicilo em seu testamento, em que determinou fosse sepultado na mesma Sé, em o Arco-Cruzeiro, adonde foi sepultado aos 12 de Fevereiro do ano de 1730, tendo falecido aos 11 do mesmo mês, com evidentes sinais de predestinado».
E desta maneira estamos chegados ao fim do esplêndido testemunho que nos legou o P.e Henrique acerca da pessoa veneranda do Cón. Manuel de Peroselo.
Antes de me despedir até a próxima semana, ainda queria fazer um curto acrescento ao que fica dito.
Várias vezes tenho pensado que neste santo Cónego andou encarnada, não sei bem como, uma alma de ermitão medievo, daqueles ermitães que viveram outrora pelos montes da nossa terra (segundo documentação, citada aqui, vai em dois anos, havia-os dessa espécie ou semelhantes, ainda no começo do séc. XVIII). Eram varões que consumiam a vida, lá nas alturas montesinas, a louvar de continuo o Senhor Deus, dia e noite, e a rogar-Lhe as melhores bênçãos para todos os irmãos — homens, não esquecendo fazendas e gados tudo sem distinção!
Em verdade, ele não fora Cónego ao modo da época florida, palaciana e cortesã de setecentos. Varão ilustrado (basta lembrar que frequentou a Universidade de Salamanca e permaneceu 12 anos em Roma); conhecedor de muitas e variadas gentes e terras («mui distantes e remotas», que percorreu sempre «a pé»); este homem, forte de alma e de corpo, passara grande parte da sua vida «recolhido» em S. André, a orar a Deus («para ele o tempo era pouco para a oração»), a dar-se a dura penitência («se abstinha de tudo que era regalo»), e a «remediar» toda a sorte de necessitados, quaisquer que eles fossem! Digam-me agora, Senhores, como hei-de eu deixar de gostar deste Cónego de Peroselo?
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1971-05-28, p.04

Bons Tempos...




Era minha tenção ocupar-me ainda de uns tantos clérigos crescidos ao calor da residência paroquial de Marecos, em vida do Ab.e F. Coutinho Pereira. Vejo-me, porém, forçado a protelar tal intento, já que favónia monção me leva a mudar de rumo. Arribarei hoje a terras de S. Maria de Peroselo. Espero não incorrer, por via disso, no infamante labéu de oportunista... Vejamos porquê.
Há muito que anseio expandir-me em autênticas vibrações de alma que me brotem lá do fundo da minha adolescência e puerícia, idades em que tanto calcorreei os caminhos e os campos, mai-los montes de Peroselo. Mas não será esse o mote a desenvolver, que me falece a inspiração lírica para tanto. Também já alimentei no passado a veleidade de urdir um pequeno romance de feição histórica, em que entrassem os Reitores e mais Padres desta igreja de S. Maria, em franco e amigo convívio com toda a grei que viveu à sua roda, ao longo de séculos atrás. Da mesma sorte, por míngua de forças, não levei a cabo tão assinalada tarefa.
Andava-me ultimamente a bailar no pensamento, com estranha insistência, a ideia de escrever algum dia um pequeno ensaio sobre a vida sócio-económica da freguesia de Peroselo através de recuados tempos. Neste entrementes, vem a lume, no dia de Páscoa de 71, a nomeação de onze Cónegos para o Cabido da Sé do Porto, a somar aos que já faziam parte dele. Nova tão surpreendente logo me sugeriu encetar aqui um sintético capítulo do almejado projecto, encimado da seguinte epígrafe:
Do contributo que o Clero oriundo de Peroselo dera outrora para o lustre da Catedral portucalense e do proveito social e económico daí resultante para a sua terra e família.
Desta feita é para valer! Mas o núcleo das despretenciosas considerações, que fizer a tal respeito, confinar-se-á tão só dentro dos limites da primeira metade do século XVIII. Afigura-se-me deveras singular que uma freguesia que permaneceu até os nossos dias fechada entres montes quer dizer, privada de modernas vias de comunicação, a ligá-la ao perto e ao longe com centros mais evoluídos lograsse, numa época tão remota, contar nada menos de três Cónegos na Sé do Porto, acompanhados de número apreciável de Beneficiados dentre a sua parentela. Importa lembrar que isso aconteceu num tempo em que uma conezia era muito apetecida, devido ao poder de carácter religioso, social e económico tido nas mãos de um Cabido que dispunha de toda a sorte de influências, sem esquecer que auferia rendas pingues, o que dava possibilidade aos seus membros de receber avultados proventos.
Só me resta acrescentar hoje os nomes desses três Cónegos que nos bons tempos da primeira metade de setecentos tiveram a dita de arranjar assento nos cadeirais da Catedral do Porto. Um Manuel Moreira e dois Domingos Ribeiro Nunes. Que ricos tempos e venturosos Cónegos!
Monaquino

Prím. Cónego de Peroselo




O meu amigo leitor talvez conheça, ao menos de vista, o Cón. Manuel Moreira, que nasceu em Peroselo, na Casa da Q.ta da Igreja (hoje chamada do Couto), a 16-9-1649. Em tempos não muito distantes, falou-se dele, salvo erro, no Penafidelense, em 57, e de modo mais sucinto, em Penafidel, no ano de 65. No
caso de não lhe ser estranho este Cónego, não me desfaça o prazer de ora me debruçar sobre figura tão peregrina e tanto da minha paixão.
Ele é de verdade o primeiro dos Cónegos de Peroselo. Primeiro cronologicamente, segundo creio, e sem dúvida o primeiro também na ordem da importância. Para evitar suspeição de parcialidade, quem vai fazer aqui a apresentação da sua vera efígie será o P.e Henrique Moreira da Cunha conhecido genealogista da família dos Moreiras, nascido em Parada de Todeia, a 9-5-1695. Por especial deferência do saudoso Abílio Miranda, foi-me facultada a leitura e cópia dum nobiliário do referido autor, manuscrito, acabado em 26-12-1730, ano do óbito do nosso Cónego presentemente guardado na Biblioteca M. de Penafiel. No ramo 6.a (fls. 188-190) lá está delineado o perfil do Cón. Moreira, a traços largos, com alguns pormenores da sua vida, a que não falta gracioso tom de pitoresco. Desse retrato singelo apenas será dado à estampa, desta vez, cerca de meio-corpo — o restante sairá na semana que vem.
Vai aparecer tal e qual, afora grafia, acentos, pontuação e abreviaturas. Apontada esta circunstância, já começa a transcrição:
O filho de Helena Moreira (e de seu leg.o marido, Domingos do Couto, acrescento eu), o Mt.° Rev. P.e Manuel Moreira, ordenando-se de sacerdote do hábito de S. Pedro, foi para Salamanca, Universidade, onde se formou, e daí partiu para Roma, onde assistiu 12 anos, e de Roma veio feito Cónego da Sé do Porto.
Foi homem de muitas prendas e virtudes na sua vida, a qual toda foi muito penitente e nela nunca andou a cavalo; foi e veio de Roma sempre a pé, e a pé todos os anos, até o último da sua vida, foi à Senhora da Lapa e a S. Tiago da Galiza e a outras romarias importantes, mui distantes e remotas. Foi frequente na oração, casou muitas órfãs, amparou muitas viúvas; e quanto rendia o seu benefício era pouco para pobres, tanto assim que deixou os seus bens, que tinha livres, empenhados em conto de reis que gastou com os pobres e em obras pias. Alimentava-se com manjares grossos, comendo quotidianamente tão somente caldo adubado com unto e algum bocado de sardinha, ou um ovo muito poucas vezes, porque se abstinha de tudo que era regalo. Dormia sobre uma tábua, 2 até 3 horas da noite, porque o mais tempo era pouco para a sua oração.
Não vamos mais além. Entretanto, quem gostar de se alumiar com esta candeia ferrugenta, com certeza que não há-de considerar de ora avante a totalidade dos Cónegos do séc. XVIII desprovida de valiosas «prendas e virtudes» sobrenaturais.
MONAQUINO

O Facheiro


Senhor me perdoe, se é caso de vanglória, mas eu muito queria ser capaz de difundir alguma luz. Haverá alguém que não goste de fazer o jeito de alumiar a quem tropeça na escuridão? Antigamente, como é sabido, houve uma espécie de serviço público desempenhado por aquele a quem se dava o nome de facheiro. O facheiro estava encarregado de acender uma fogueira no cimo dos montes a fim de orientar os viandantes, em noites de treva densa, ou de prevenir as gentes de algum perigo iminente. Quem não conhece um Monte do Facho ou nunca reparou naqueles dois utensílios de ferro, de estranha forma de cesta, também chamados facheiros, que estão dependurados à entrada do nosso Museu?
A quando da segunda invasão francesa, segundo ouvi dizer aos anciãos, na minha juventude, o processo ainda estava em uso em terras de Penafiel. Assim acontecera em Rio de Moinhos, no alto do Senhor dos Remédios, para se avisar o povo da aproximação das hostes napoleónicas. E a propósito, ainda existirá em Peroselo a família dos Facheiros, que conheci muito bem no tempo de menino e moço? Útil e simpático ofício o de facheiro. Por amor do bem comum, tenho pena de não ser, não digo um luminar ou luzeiro - seria estulta pretensão! - mas ao menos um bom facheiro. Como não há esse emprego no nosso tempo, o remédio é ter paciência.
Neste século de luzes verdadeiramente estonteantes, já me contentava sequer em guiar algum ceguinho com a frouxa luz da minha pobre «candeia velha»... E agora, à maneira de fecho destas desalinhadas palavras, direi que para outra «vez, se Deus quiser, hei-de dar a razão de ser do nome esquisito por que hoje sou conhecido e com que me vou assinar:
MONAQUINO

In Jornal de Notícias de Penafiel, 1969-04-25, p.04