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Tomar banhos e águas sulfúreas






Fez-se alusão da última vez a uma freira — irmã de José Urbano, Capitão-Mor de Penafiel — que do seu Convento da Madre de Deus de Monchique, no Porto, veio para as Quintãs de Valpedre, «afim de tomar banhos e agoas sulfureas». Esta breve informação, colhida no próprio assento do óbito da Religiosa D. Joana Bernardina do Amor Divino — falecida nas Quintãs em Fev.o de 1815 — sugere-nos um ligeiro comentário.
O amigo leitor, no caso de lhe haver merecido alguma atenção tal referência, talvez tenha perguntado a si mesmo se as mencionadas «agoas sulfureas» seriam as das Termas de S. Vicente ou da Torre. Bem sabido é que nenhuma das actuais estâncias termais existiam naqueles recuados tempos do princípio dos anos de oitocentos, pois que ambas remontam ao final do século passado. Que águas sulfúreas seriam então essas que a Freira do Amor Divino veio procurar à nossa terra, para alívio dos males que padecia? Cá por mim direi que foram as águas sulfurosas da Torre. Este meu pensar baseia-se no facto de Pinho Leal, no seu Portugal Antigo e Moderno (voc. Portela), ter escrito por volta de 1876, que essas «famosas águas» — erradamente «denominadas d'Entre os Rios» — começaram a usar-se desde 1790, «como medicamento interno», com «maravilhosos resultados em várias doenças, sobretudo em padecimentos de estômago». Não vale a pena discutir a historicidade do caso, mas penso que sempre havia de ser causa de muito agoniar os enfermos terem de ingerir tais águas sulfúreas...
Conforme nos garante o citado autor, «os médicos do Porto», nessa longínqua data, encontraram nelas mais «vantagens» que em quaisquer outras. Daí a sua comercialização. No tempo de P. Leal, as águas d'Entre os Rios «se exportavam constantemente em grande escala (engarrafadas) para todos os pontos de Portugal, e para o estrangeiro, principalmente para o Brasil».
Em 1815 e mesmo em 1876, as águas de S. Vicente, bem como o balíneo romano, ainda se encontravam soterradas, devido aos depósitos de aluvião ali acumulados.
Regressemos às Quintãs de Valpedre. Sem ter conseguido minorar os seus padecimentos, a freira do Mosteiro de Monchique aí falecia em 2-2-1815. Gravemente enferma, recebeu os sacramentos da Penitência e da Extrema-Unção. O não ter sido possível confortá-la com o «Sagrado Viático» leva a crer que o seu mal seria padecimento de estômago.
Morreu acarinhada pelo irmão José Urbano e pelos sobrinhos, filhos do «Capitão-Mor graduado». Quem sentiria mais profundamente a morte de D. Joana Bernardina seria sua irmã D. Casimira do Monte Carmelo, Religiosa também no Convento da Madre de Deus (se é que viva ainda então). Juntas, muito jovens talvez, foram da casa de seus pais professar no Mosteiro de S. Clara de Caminha. Em 1779, graças às diligências efectuadas por seu irmão José Urbano, transitaram juntas para o Convento da Madre de Deus de Monchique, no Porto. Para tanto, foi necessário obter um «Breve Apostólico» acompanhado do indispensável «Beneplácito Régio». Coisas deste género se passavam nesse tempo, e muito mais tarde ainda, no Reino de Portugal fidelíssimo, por intromissão indirecta do Estado nos domínios do Espiritual.
Por MONAQUINO

O Sargento-Mor





Não sei se o Sargento-Mor de que se vai falar se notabilizou por algum feito militar, ao menos por ocasião das invasões francesas, mas certo é que foi homem de bastante preponderância social em terras de Penafiel, no último quartel do séc XVIII e nas três primeiras décadas dos anos de oitocentos. Viveu a maior parte da sua vida em Lagares e também em Valpedre. Chamou-se José Urbano Pereira de Melo e Alvim. Quem for medianamente entendido na genealogia das principais famílias daquele tempo, nesta região, logo há-de descobrir pelos apelidos que ele pertencia à boa estirpe da gente que vivera mais de dois séculos nas Casas da Granja, em Lagares, e Quintãs de Valpedre.
José Urbano nasceu em Março de 1745 na Quinta da Boavista, em S. Ildefonso, muito perto da muralha fernandina do Porto. Os seus pais já são nossos conhecidos: José Pereira de Melo e Alvim e D. Teresa Angélica de Melo. Sabemos também que eles herdaram essa quinta das mãos do tio Cónego Ribeiro Nunes. Aí viveram em relativa tranquilidade até que um dia a desventura lhes foi bater à porta. Primeiramente, o falecimento do marido de D. Teresa; mais tarde, a viúva sofreu o grande desgosto de assistir à venda em hasta pública da Quinta da Boavista.
Nunca teria passado pela mente do Cónego Ribeiro Nunes a ideia de que tão infausto destino adviria à sua casa, capela e quinta, dentro de tão pouco tempo. Se o houvera previsto, com certeza o Cónego morreria de desgosto. Bem falíveis são os cálculos dos homens!
D. Teresa Angélica acolhera-se então junto da sua irmã D. Perpétua Luísa, na Casa da Granja, em Lagares. Esta já nessa ocasião era viúva do Cav.o Fr. Manuel Leite de Melo, que falecera em Janeiro de 1761.
José Urbano, à semelhança do avô paterno, ingressou na carreira das Armas. Em 1778, morava «defronte do Calvário» na cidade do Porto, mas em 1779 já residia também em Lagares. Novos rumos iam abrir-se agora para a sua vida. Assim, em 5-11-1781, na Capela de S. António da Granja, «com licença do Prelado», casava-se com uma sua parenta em 2.o grau, Dona Joana Thereza da Cunha Serqueira Pereyra de Mello Alvim, filha legitima de Manuel José Ribeiro de Macedo e Melo e de sua mulher D. Jacinta Bernarda de Carneiro e Melo, da Casa das Quintãs em Valpedre — neta paterna de Jerónimo de Macedo e Melo e de sua mulher D. Mariana Luísa Clara: neta pelo lado materno de Jacinto Carneiro Sequeira e Melo e de sua mulher D. Maria Josefa de São Jacinto, da freg.a do Salvador de Resende.
Por aqui se vê que José Urbano contraíra matrimónio com uma neta de uma irmã de sua mãe, muito nossa conhecida também: D. Mariana Luísa Clara, que fora casada com Jerónimo de Macedo e Melo, das Quintãs de Valpedre. José Urbano, além de Sargento-Mor, foi também Capitão-Mor. A sua residência preferida foi na Casa da Granja, se bem que estivesse, com frequência na Casa das Quintãs. Da última vez a fazê-lo, adoeceu aqui gravemente sobrevindo-lhe então a morte. Aí faleceu, cm 24-5-1831, e foi sepultado na igreja de Valpedre, em sepultura que era propriedade da sua Casa.
Já agora não resisto à tentação de contar ter sido também ocasionalmente que morreu nas Quintãs uma das duas irmãs de José Urbano que foram professas no Convento de Monchique, no Porto. Aconteceu isso com a Religiosa D. Joana Bernardina. Saíra «com Breve» do seu Mosteiro «afim de tomar banhos e aguas sulfureas», vindo hospedar-se «em casa de seo Irmão e sobrinhos na Quinta das Quintans». Mas não regressou ao Convento, porque no dia 2 de Fevereiro de 1815 «passou desta vida p.a a Eterna»...
Foi a sepultar na Igreja de Valpedre «envolta em seo habito» e seu Irmão «o Cap.am Mor Joze Urbano Per.a de Melo Alvim» mandou fazer-lhe «um oficio de Exequias».
Por MONAQUINO

 

Enquanto durar o mundo!






Prezado leitor, não perca ânimo e leve até final uma página amarelecida da vida antiga da Casa da Granja, em Lagares, pelo ano de 1753.
Começa desta maneira: Saibão quantos este Testamento virem em como eu Frey Manoel Leite de Mello, morador em a quinta da Granja... Já se sabe que é a fala dum Cavaleiro professo na Ordem de Cristo. Tinha 68 anos de idade e por causa de padecer de algumas moléstias, resolveu fazer o seu testamento.
Assim dispôs primeiramente: «Falecendo da vida presente, será meu corpo envolto em o hábito de Cristo que tenho com os paramentos que costumam levar os Cavaleiros, e será sepultado dentro da Igreja adonde sou freguês. Meu corpo será acompanhado à sepultura por vinte clérigos de Missa que a dirão por minha alma nesse dia e a cada um a esmola costumada nesta freguesia se lhe dará». Muitas outras Missas deixou ainda de «seis vinténs e cem réis» cada uma.
Mais ordenou que se fizessem quatro ofícios de vinte padres de Missa como era «uso da sua Casa». Ao pobre que viesse à porta por essa ocasião, seria dado um vintém, por uma só vez. Item declarou «que lhe assistirá música no seu acompanhamento e primeiros três ofícios», encomendando por fim a sua alma a Deus e ao Senhor Jesus Cristo e à Mãe e Senhora Maria Santíssima, ao seu Padroeiro S. Martinho e ao Anjo da Guarda e a todos os Santos e Santas da Corte do Céu. E assim acabou a sua disposição dos bens de alma.
De seguida é dos bens temporais que se ocupa. Quanto a isso, deixou no testamento que se cumprisse o que fora estabelecido na escritura dotal celebrada com sua mulher D. Perpétua Luísa Leite de Macedo. Ficaria, pois, usufrutuária dos bens do marido, contanto que não voltasse a casar, porque se o fizesse, apenas «se levantará com seu dote»!
Bem nos lembraremos de certo de já ter ouvido falar que Fr. Manuel e a esposa tinham na sua companhia duas irmãs do Cavaleiro, no estado de solteiras. Chamavam-se D. Francisca Clara e D. Helena Teresa. No caso de D. Perpétua não querer viver com elas, ficava obrigada a dar-lhes uma pipa de vinho, os olivais de S. Paio da Portela, que foram do património do seu irmão P.e Vicente Leite, e mais lhes serão semeados dois alqueires de linho.
O Cavaleiro não se esqueceu também das suas irmãs que eram Freiras no Convento de S. Clara da Vila de Amarante: D. Inês Maria Clara e D. Catarina Josefa de Melo. As duas Religiosas receberiam anualmente «um almude de azeite, doze arráteis de bom linho e um porco cevado ou quatro mil e oitocentos réis por ele», conforme já fora determinado na referida escritura dotal.
Finalmente, Fr. Manuel nomeou universal herdeiro de todos os seus bens de raiz o sobrinho Manuel José Ribeiro de Macedo e Melo, morador na Quinta das Quintãs de Valpedre, filho do seu primo Jerónimo Macedo de Araújo e de sua cunhada D. Mariana Luísa Clara Ribeiro. Como importante obrigação, impusera ao dito herdeiro o encargo de pôr trezentos mil réis a juros para com eles se pagar a um Capelão que celebrasse Missa na Capela da sua Quinta da Granja, todos os Domingos e Dias Santos, por alma dele e de todos os seus parentes, recebendo de esmola cem réis de cada vez — tudo isto enquanto durar o mundo.
Enquanto durar o mundo! Santa ingenuidade a deste Cavaleiro de Cristo em acreditar na possibilidade de se impor aos homens, para sempre, uma determinação emanada de qualquer vontade humana. Há quantas dezenas de anos aquelas pedras da Capela de S. António da Granja, na sua impressionante nudez, não são um clamoroso grito de condenação dos homens que outrora votaram ao abandono aquele lugar sagrado!
Por MONAQUINO

 

Donde os 3 mil cruzados?





A D. Perpétua Luísa foi a última a casar das três sobrinhas do Cónego Ribeiro Nunes. Casou um pouco tardiamente, no ano de 1747, pois tinha então cerca de 38 anos de idade. O tio Cón. Domingos, falecido em 1744, e que não chegou a lograr o contentamento de ver esta sobrinha consorciada com um membro da família dos Macedos Leites e Melos. Trata-se dum Cavaleiro que foi professo na Ordem de Cristo («com a tença de mil reis»), senhor da Casa e Qta. da Granja — em S. Mart.o de Lagares, no conc.o de Penafiel —, dono também de «todas as quintas, prazos e foros» que haviam pertencido a seus pais.
Este freire de Cristo encontrava-se então em estado de viuvez. Antes de casar com D. Perpétua Luísa, fora legítimo marido de D. Maria Josefa Moreira de Bessa, da Casa da Póvoa, em Pedorido, considerada naquele tempo das principais do conc.o de Paiva.
— Não estará lembrado o leitor de ter visto o Cavaleiro Frei Manuel Leite de Melo (desta forma assina ele em 1747) quando no ano de 1732 tomava parte na cerimónia do casamento de D. Mariana, irmã de D. Perpétua, na Capela da Quinta da Boavista, como testemunha do acto religioso e demais como primo que era, pelo lado materno, do esposado Jerónimo das Quintãs de Valpedre?
— Pois, exactamente, — era esse mesmo!
O referido viúvo Leite de Melo, nos anos de 47, vivia na dita Q.ta da Granja (aqui nasceu em 1684), na companhia de duas irmãs solteiras — D. Francisca Clara e D. Helena Teresa — quando resolveu casar segunda vez com D. Perpétua Luísa.
Como de costume, houve antes do casamento uma escritura dotal. Apesar do tio Cónego Domingos ter falecido e sem embargo de D. Teresa Angélica já se encontrar viúva, essa escritura foi lavrada na Quinta da Boavista, onde D. Perpétua morava há muitos anos. Lá compareceu o tabelião no dia 23 de Maio de 1747.
Estiveram então presentes, duma parte, «Donna Perpetua Luiza…, com seu Irmão, o rev. Domingos Ribeiro Nunes, Cónego na Cathedral»; e da outra, «frei Manuel Leite de Mello, Cavaleiro professo na Ordem de Christo».
Foram três as testemunhas: o P.e Jerónimo de Melo, da freg.a de Cabeça Santa, o Beneficiado da Sé P.e Manuel S.tos Veloso, e o P.e Tomás da Rocha Rebelo, da freg.a de Rans.
Pela sua parte, o Fr. Manuel disse que se dotava com a quinta da Granja, uma fazenda em S. Vic.te do Pinheiro, «duzentas e tantas medidas de segunda e cento e tantas de trigo», acrescentando ainda vários foros, direitos dominicais e prazos.
A soma de todos estes bens representava, naquele tempo, fortuna apreciável. O pior é que estava um tanto comprometida! Mas ouçamos a tal respeito o que disse o próprio Fr. Manuel: «que a dita sua futura esposa lhe dará de entrada tres mi! cruzados para elle esposado pagar as dividas que deve...».
De que fontes teria a noiva auferido os três mil cruzados com que iria solver o Cavaleiro as dívidas que o afrontavam?
— D. Perpétua tinha em guarda essa importância nas mãos de seu irmão Cón. Domingos, proveniente de quinhentos mil réis deixados pelo tio António — falecido no Brasil — acrescidos de seiscentos mil réis que herdou do tio Cónego. Há ainda a acrescentar que ela possuía muitas «pessas de ouro», avaliadas em cento e cincoenta mil réis, e o irmão Cónego também lhe oferecera duzentos mil réis.
E logo o Cón. Domingos, em presença do tabelião e testemunhas, «lanssou sobre hua meza os ditos tres mil cruzados e pela dita esposada e seu futuro marido forão contados... e os acharão certos».
Desta maneira, depois de assinarem todos os presentes, foi dada por finda a escritura de dote de casamento do Cavaleiro Fr. Manuel Leite de Melo com D. Perpétua Luísa.
Por MONAQUINO

 

Casamento desfeito...





Após o consórcio de Mariana, seria de esperar o de Teresa. Decerto ninguém se há-de amofinar por eu ter preferido desta vez um casamento desfeito. Não é dissolvência de vínculo conjugal, mas apenas rescisão de mero contrato, despido de todo o carácter religioso ou canónico.
Se bem se lembram do que foi dito a propósito do enlace de Jerónimo e D. Mariana, já sabem que a Quinta das Quintãs, em Valpedre, fez parte do dote que o Capitão Ant.º de Araújo ofereceu ao filho para se casar. Talvez não se tenham esquecido também de que o Jerónimo tinha dois irmãos Manuel e António. O que não hão-de saber é que o irmão Manuel — filho mais velho do Capitão teria sido o herdeiro dessa mesma casa e quinta se não fora demanchado um contrato em que chegara a ajustar-se o seu casamento com uma jovem fidalga da vizinhança, moradora na solarenga casa da Quinta do Cabo, em Cimo de Vila de Valpedre.
Como decerto terão gosto de ficar a conhecer a distinta donzela, vai fazer-se a sua apresentação.
Direi, em primeiro lugar, que ela tinha um nome deveras formoso: D. Serafina Pinto da Cunha de São Miguel e Vasconcelos. Era filha de Pedro da Cunha Carneiro e de sua legítima esposa D. Maria Vieira Barbosa de São Miguel — esta oriunda da Quinta da Quintela, em Guilhufe. Sua mãe faleceu nova, em 1709, com 25 anos apenas, em Arrifana de Sousa, onde o marido exercia o importante cargo de Escrivão dos 0'rfãos da Comarca de Penafiel. Serafina tinha então dois meses de existência; Clara Maria, sua irmã mais velha, andava em dois anos e meio.
Pedro da C. Carneiro não quis contrair novas núpcias. As duas meninas cresceram em ambiente da mais carinhosa afeição, graças aos desvelos do pai e da avó paterna, que era madrinha de Serafina. Viveram em Arrifana de Sousa e frequentemente em Valpedre. No ano de 1724, Cunha Carneiro sofreu grande abalo moral com o falecimento da sua mãe, ocorrido na Quinta do Cabo. Foi numa altura em que as duas órfãs, em plena adolescência, mais careciam da companhia e do conselho amigo da avó, que tinha sido para elas a mais dedicada das mães.
A mais velha, Clara Maria, casou em Valpedre, a 11-2-1726, com o Capitão José de Castro Pereira, rico lavrador da Quinta de Bouça Cova, em Gondomar.
Pedro Carneiro, já adiantado na idade, pois nascido em 1668, e também enfraquecido de ânimo por causa dos infortúnios da vida, ardia em sumo desejo de que a sua filha mais nova não tardasse a contrair matrimónio. Sorria ao pai a ideia de que ela se casasse com o filho mais velho das Quintãs o nosso já conhecido Manuel de Araújo de Macedo e Melo. A Clara Maria estava longe, pois teve de ir viver com o marido para Gondomar. A Serafina se casasse nas Quintãs ficaria sempre bem perto do pai, servindo-lhe de amparo e conforto na velhice. E depois não era só fundirem-se as duas famílias numa espécie de única família, — eram as quintas do Cabo e Quintãs a erguerem uma só Casa, como não haveria outra em toda a redondeza!
Assim pensava Cunha Carneiro e assim veio a pensar também o Capitão Ant.o de Araújo. Quanto ao Manuel, não haja dúvida, gostava imenso da Serafina... Eis porque, no decorrer do ano de 1729, pais e filhos, das Quintãs e do Cabo, compareceram certo dia em casa dum tabelião e o casamento do Manuel com a D. Serafina ficou ali assegurado em longa escritura de dote, com as melhores garantias de eficiência.
Lavrou-se, é verdade, essa escritura dotal, mas o matrimónio é que nunca chegou a realizar-se!
Como li num documento da época, o facto deu-se «por respeito de algumas circunstâncias que houve».
O Manuel, desgostoso, nunca mais pensou em casar-se e de boamente concordou que a propriedade das Quintãs passasse para o irmão Jerónimo.
Serafina — nome tão angelical! — só podia encontrar deleite nas místicas núpcias que se oferecem a uma alma em Religião. No ano de 1731 era freira clarissa: «se achava Rellegiosa no Convento de Santa Clara da cidade do Porto».
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1972-02-11, p.04

 

Casariam mal?





Mal cabia em si de contente o Cón. Ribeiro Nunes sempre que lhe vinha à lembrança o feliz casamento da sobrinha Mariana com o Jerónimo das Quintãs de Valpedre. Coisa natural, sem dúvida, já que fora ele o artista principal de obra tão bem acabada. Preocupava-se todavia de não ter encontrado ainda quem houvera de ser digno consorte da sobrinha Teresa Angélica.
Não sei bem por que artes, certo dia foi descobrir, adentro dos muros da cidade do Porto, um jovem dotado dos melhores predicados requeridos para o seu caso. Tratava-se dum filho de família distinta, morador na «rua de Sima do Muro», onde vivia na companhia de sua mãe, D. Joana Maria de Melo e Alvim — «Donna Viuva que ficou do Cappitam Manuel Pinto Pereira». Chamava-se José Pereira de Melo e Alvim. O Cónego Domingos simpatizou com o rapaz por ter apelido indicativo de origem fidalga e além disso porque a sua mãe era senhora duma boa quinta, na freg.a da Raiva, em terras do conc.o de Paiva. Convém acrescentar ainda que ele era irmão do Rev. Fernando de S. Pedro — «Cónego secular do Evangelista» —, como irmão era também do clérigo P.e Ant.o Pereira de Melo e Alvim. A D. Joana Maria, quando soube dos desígnios do Cónego Ribeiro Nunes, parecia ter ficado aliviada do pesado luto da sua viuvez, por antever o filho casado com a prendada sobrinha dum Cónego da Sé Catedral, dono da Quinta da Boavista. Desde aí, começaram a estreitar-se as relações de amizade entre as duas famílias e deste modo, dia a dia, se iam entrelaçando mais, em mútua afeição, os corações do José e da Teresa.
Nada se estranhou por isso que dentro de pouco tempo se ajustasse o casamento entre os dois. O tio Cónego Domingos mandou vir então à sua Casa da Boavista o tabelião e foi lá que se lavrou a escritura de dote, no dia 8 de Junho de 1734. Uma cópia fiel desse curioso documento habilita-me a contar o que se passou nessa ocasião
Além do Cón. Ribeiro Nunes, dos futuros esposados e suas mães — ambas viúvas — estiveram presentes qualificadas testemunhas, quais foram o Deão da Sé portucalense, Jerónimo de Távora e Noronha, o Rev Arcediago do Porto, Dom Manuel de Noronha e Meneses, e ainda o Cón. Sebastião de Prada Lobo. Na presença de todos o tio Cón. Domingos começou por dizer que o José e a Teresa «estavam contratados por palavras de presente para, com o favor de Deos e graça do Divino Espirito Santo, haverem de cazar». Declarou em seguida que «recebendo-se hum com o outro, em face da Igreja», dotava à sua sobrinha e futuro marido «a quinta da Boavista, com todas as suas cazas, Cappella, e Campos e almazens». Mais acrescentou ainda que também Ihes dava em dote as «fazendas» e «casas» de Vilarinho e Valqueira, em Peroselo; um «olival» na Quebrada de Rio de Moinhos; «huas terras», na Salgã de Oldrões, bem como a «tapada» da Formiga, na freg.a de «Campanham».
Nesta altura, afigura-se-me ver o prezado leitor a interrogar-se a si mesmo se o nosso Cónego Domingos seria de verdade pessoa muito desprendida dos bens deste mundo.
Deixemos tal consideração mais para diante, que agora nos escasseia espaço para tratar do dote com que a mãe de Teresa Angélica presenteou os noivos.
A viúva Maria Ferreira da Cruz, depois da fala do seu cunhado Cón. Domingos, disse que, «atendendo ao grande gosto e contentamento que tinha em cazar a filha com o dito Joseph Pereira de Mello», dotava-lhes a sua «fazenda» da Quintã e o «serrado» da Devesa, em Peroselo, mais um «olival» na Salgã e «dous olivais», junto «à preza do Inferno», em Luzim.
Agora, de mau grado meu, tenho mesmo que interromper aqui a súmula do dote consignado na referida escritura, por me sentir fatigado de nomear tanta fazenda... O resto virá ao depois.
A avaliar pelo que já vimos, pergunto eu, caro leitor, acha que o José e a Teresa casariam mal?
Por MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1972-02-25, p.06

 

Três sobrinhas para casar


São três irmãs que vão casar, sobrinhas do cónego Domingos. Somente havia nomeado a Mariana mais a Teresa, mas hoje acrescento a Perpétua.Como as outras duas donzelas, fora esta um dia de casa de seus legítimos pais, em Vilarinho de Peroselo, para a Quinta da Boavista, junto aos muros da cidade do Porto, que pertencia ao seu tio cón. Domingos Ribeiro Nunes. Mas antes de prosseguir, será melhor justificar-me da omissão cometida.Foi o seguinte. As duas primeiras sobrinhas é que foram casadas pelo tio cónego; tendo ele falecido antes do consórcio da Perpétua Luísa, coube ao sobrinho, seu homónimo, o gosto de o realizar. Quer dizer, o Domingos (júnior) não só foi sucessor no canonicato do tio, mas também dele herdou a arte difícil de promover bons casamentos...Dada a justificação, vamos agora ocupar-nos do enlace matrimonial das três sobrinhas do cónego Domingos (sénior).Como tenho, na minha arca velha, abundante documentação a respeito de cada uma delas, vou contar as coisas bastante por miúdo, de modo que hoje não irei mais além da apresentação do noivo da Mariana Luísa Clara, que foi a primeira a casar. O senhor a desposar pela D. Mariana tem um nome completo de muita importância social, dentro da nossa região: Jerónimo de Araújo Leão de Macedo e Melo. Sem dúvida, nome muito bem sonante!Foi ele nascido em Valpedre, na Quinta das Quintãs. Esta casa e quinta, desde remotas eras, andou na posse dos Araújos — gente da melhor sociedade, no quadro geral das famílias de antanho de Valpedre, S. Vic. do Pinheiro e outras freguesias circunvizinhas. Não se pode duvidar da estirpe fidalga do noivo. Embora não se aprofunde aqui tal assunto — muito da predilecção dos linhagistas — sempre convém falar, em breve resenha, dos ascendentes mais próximos de Jerónimo.Foram seus pais o Capitão António de Araújo Leão e Águeda de Macedo e Melo, casados em 1701. Em primeiro lugar a ascendência paterna.O apelido Araújo entrou naquela Casa das Quintãs, pelo casamento de Isabel de Araújo com António da Rocha, avós do referido capitão, pelo lado do seu pai. A mãe de Isabel, chamada Ângela de Araújo — casada em 1604 com Gonçalo Fernandes — era filha de Cristóvão Soares e Isabel Carvalha. Cristóvão Soares era irmão do Ab.e Afonso Soares, fundador do Morgadio das Quintãs, em S. Vicente do Pinheiro.Jerónimo de Araújo Leão de Macedo e Melo, pelo lado materno, vai entroncar na mesma família dos Soares de S. Vicente do Pinheiro e na dos Macedos e Melos da freguesia de Fonte Arcada, sendo estes outrossim de fidalga geração. Ora veja-se como é.Águeda de Macedo e Melo, mãe de Jerónimo, era filha de Isabel Barbosa da Cunha — nascida esta na Quinta de Vila Verde, em S. Vicente do Pinheiro (dos Soares das Quintãs) — do seu legítimo 2.º marido Jerónimo de Macedo e Melo, moradores que foram em S. Tiago de Fonte Arcada.O pouco que se disse acerca da genealogia de Jerónimo bastará para ninguém pôr em dúvida a distinta linhagem do noivo de Mariana Luísa Clara.Esta sobrinha do cón. Domingos, nascida em Vilarinho de Peroselo, não poderia apresentar-se com fidalguia de pergaminhos, mas decerto possuía muita nobreza de alma e coração, aliada a uma educação primorosa que pudera adquirir em casa do seu tio, na Quinta da Boavista.Os amigos leitores querem assistir ao auspicioso enlace de Jerónimo e Mariana?Pois venham, que hão-de gostar!


 

MONAQUINO

Casou bem





Está hoje em cena D. Mariana por ser a primeira a casar das três sobrinhas do Cón. Ribeiro Nunes.
Foi no mês de Janeiro de 1732 que o Jerónimo de Araújo Leão de Macedo e Melo se consorciou com D. Mariana Luísa Clara Ribeiro. Com muitos dias de antecedência, em casa do Rev. Cónego Domingos — na Quinta da Boavista — um tabelião do Porto lançara no seu Livro de Notas uma escritura de dote a favor dos futuros esposados. Quanto ao dote, as coisas passaram-se, mais ou menos, como vou contar em resumo.
A noiva dissera que se dotava com quinhentos mil réis que lhe deixara seu tio António Ribeiro Nunes, falecido no Rio de Janeiro; a mãe de Mariana, a Snr.a Maria Ferreira da Cruz, que estava presente — já viúva do Alferes Manuel Ribeiro Nunes — deu em dote à sua filha duzentos mil réis; o tio Cónego Domingos, «pello muito amor que tinha à sobrinha», fizera-lhe mercê de quinhentos mil réis, sem levar em conta os quatrocentos mil réis que havia gastado com ela, «em pessas de ouro e prata, custosos vestidos, moveis e trastes de caza».
Por outro lado, o Capitão António de Araújo Leão — «para os encargos do dito matrimónio, se tivesse effeito» — dotara o filho Jerónimo com a «quinta ou Casal das Quintains, com todas as suas pertenssas», em que vivia em Valpedre, juntando-lhe as casas e terras que possuíram os seus tios P.e Agostinho da Rocha e P.e Manuel de Araújo — além de outros bens. E mais disse ainda que reservava para seu sustento e dos dois filhos solteiros — Manuel e António — o terço de todo o pão, vinho, azeite e castanhas, bem como de toda a espécie de legumes colhidos nas mesmas propriedades. No caso de não ficar a viver com seu filho e nora, utilizaria «a salla nova que fés e a cozinha da heira e a logea para ter sua besta, que pensará na dita quinta».
Esta escritura de dote, com que haviam de casar Jerónimo e Mariana, foi testemunhada pelo Abade Inocêncio Murrão de Morais Alão e pelo Governador das Armas da cidade do Porto, António Monteiro de Almeida; nela se encontram as suas assinaturas, assim como as de todos os intervenientes deste público documento. Só lhe falta a assinatura da mãe de D. Mariana, «que por dizer não sabia ler nem escrever, rogou a seu filho, o Rev. Con. Domingos Ribeiro Nunes (júnior), que por ella assignasse».
Decorrido mais de mês e meio, realizou-se, a 9-1-1732, o enlace matrimonial. Com licença do «Senhor Governador do Bispado», o casamento pode efectuar-se na Capela da Senhora da Conceição, pertença da mesma Quinta da Boavista.
Como era de esperar, assistiu como oficiante ao solene acto religioso o tio Cónego Domingos.
Foi um dia de muito júbilo na Casa da Boavista! Estiveram ali presentes «muitas pessoas», como se pode ler no assento do casamento. Lá estavam com certeza convidados das famílias da Cidade mais intimamente relacionadas com os dois Cónegos Domingos; fora de dúvida também foram presentes amigos e parentes dos noivos, vindos das freg.as de Peroselo, Gandra, Valpedre e Lagares. Serviram de testemunhas do acto religioso dois primos do noivo: Manuel Leite de Melo, senhor da Casa da Granja, em Lagares, e o P.e Jerónimo de Melo e Macedo, da Casa de Perosinho, sita em Gandra da Cabeça Santa.
Jerónimo e Mariana foram viver na sua Quinta das Quintãs, em Valpedre. Foi aí que lhes nasceu o primeiro filho, chamado Manuel, em 1-11-1733. Baptizou-o o tio Cónego Domingos, tendo sido padrinho o Rev.mo Doutor Frei Manuel dos Serafins — então «Geral dos Padres de S. Bento» — que fora irmão da avó paterna do neófito.
Longos e venturosos anos viveram nas Quintãs.
De verdade, foi um casamento muito abençoado por Deus!
Por MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1972-01-21,p.04

Santiaguinho




Sempre fui mui devoto de S. Tiago. (Isto de franquear as portas da nossa intimidade não era de bom tom em tempos idos, mas «conto com a vossa benevolência», como diziam os antigos pregadores). Pois é verdade, sempre tive particular simpatia e muita veneração por S. Tiago Maior, Às vezes ponho-me a excogitar em ordem a descobrir no subconsciente as razões de tamanha devoção, Vem-me então à lembrança a Estrada de Santiago que na idade da puerícia contemplava repetidamente em claras noites de estio. O meu grande sonho de então em ir em piedosa romagem a Santiago de Compostela. E lá fui vezes sem conta na contemplação daquela via-láctea... Logo no começo do estudo da nossa história foi com certo entusiasmo que ouvi falar do patrocínio militar do Santo Apóstolo na cruzada da Reconquista («S. Tiago aos Mouros!»). Senti contentamento ao saber que o vale onde nasci fora ponto de passagem, desde tempos medievais, de inúmeros romeiros que se dirigiam a Compostela, vindos de Além-Tâmega e Além-Douro. Tornei-me mais devoto ainda quando tive conhecimento de que S. Tiago fora dado por orago, na Meia-Idade, a quatro igrejas paroquiais da nossa terra (a de Valpedre, Fonte Arcada, Capela e Louredo, transitando desta para Sub-Arrifana), sem contar uma capela pública na Rua ou Burgo de Entre-os-Rios. Que dizer, finalmente, do gosto que tive ao ser-me revelada a existência de uma «igreja» de Santiaguinho dentro da área da freg.a de Louredo? Os Censuais do Cabido e da Mitra referem-se a ela, mas as Inquirições nada dizem a seu respeito. No Cartulário de Fr. Gaspar Limpo, a fls. 24, lê-se o seguinte: «Item igreja de samtiaguo E samtiaguinho (...). Agora se chama samtiaguo de so(b) a Rifana Unida, a moazeres». Este texto do Censual da Mitra vem corroborar a expressão «ecclesia Santi Iacobi i santiaginho» do Censual do Cabido, i. e., confirma-nos na certeza de que, além da igreja paroquial de Louredo, houvera uma outra, dentro da mesma freguesia e nela incorporada, denominada de «samtiaguinho». A explicação deste facto será que a «igreja» de Santiaguinho começara por ser uma espécie de ermida em que se exercia o culto para facilitar o cumprimento dos preceitos aos fiéis dos lugares mais distantes como Outeiro e Monterroso situados a poente da igreja matriz, sita em Louredo, como está provado. Com o andar do tempo, esta solução tornara-se por ventura menos satisfatória e acabaram por mudar a sede da paróquia do lugar de Louredo para Santiaguinho, onde ainda hoje se encontra a igreja de Sub-Arrifana. Este acontecimento sucedeu antes de 1542, pois o Censual da Mitra, que data desse ano, informa-nos, como vimos, que as igrejas de S Tiago e Santiaguinho nesse tempo já se haviam fundido na simples denominação de «samtiaguo de so(b) a Rifana». De tudo isto se conclui não só que S. Tiago de Sub-Arrifana começou a existir anteriormente a 1542, mas também que a criação desta freguesia não fora uma consequência da incorporação da igreja de S. Tiago de Louredo na paróquia de S.Martinho de Arrifana de Sousa, pois sabe-se ter isto ocorrido no ano de 1569.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1970-04-03, p.06