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Abade de Marecos




Tem-se dito muito mal dos Abades e mais clero do séc. XVIII e também dos que viveram noutros séculos. Há
quem se deleite em esquadrinhar toda a sorte de mazelas, reais ou imaginárias, dos clérigos dos tempos idos (quanto aos do tempo presente nem vale a pena falar...). Os que se dão à tarefa de revolver papéis velhos certo é que hão-de encontrar, por força das circunstâncias, a par de muita coisa edificante, factos denunciadores de falta de limpidez de carácter e míngua de aprumo moral. Tal acontece por ter existido sempre a fragilidade do humano barro de que todos somos formados, que sempre hei-de acompanhar o homem até o fim dos séculos. Agora o que não é aceitável e merece franca reprovação é haver quem ande à cata disso por amor do prazer mórbido de infamar ou denegrir o nome de outrem. Do que fica dito, pois, claramente se deduz o bom propósito que me leva a falar dum Abade de Marecos que nesta freguesia viveu no final do séc. de seiscentos e mais dum quarto do séc. de setecentos.
Quando há bastantes anos subi pela vez primeira até junto da igreja de S. André de Marecos, prendeu-me a atenção uma inscrição gravada na frontaria do templo, por cima da porta principal, de fácil leitura. Creio serem estes os dizeres:
O Abb.e F. C. P. A MANDOU FAZER A. D. 1728» Li-a desta maneira: O Abade Francisco Coutinho Pereira a mandou fazer no ano do Senhor (Anno Domini) de 1728. Pude verificar mais tarde que não me enganei quanto ao nome do Abade. Vim a saber donde fora oriundo e que, pelo lado paterno, entroncava na distinta família que viveu na Casa da Seara, na margem direita do Douro, freg.a de Magrelos, do conc.o do Marco, cuja genealogia é bem conhecida, por andar nos nobiliários, A Casa da Seara de Magrelos ligou-se por casamento com uma de Entre-os-Rios e
daí talvez ser denominada também da Seara uma Casa nesta povoação, onde tem vivido há muitas dezenas de anos a ilustre família Barroso Pereira.
O P.e Coutinho Pereira tivera quatro irmãos clérigos: dois religiosos de S. Francisco, um beneditino e outro membro da Comp.ª de Jesus. Um deles, o franciscano P.e Fr. Manuel do E. S., faleceu na residência paroquial de seu irmão, em 8-11-1717, tendo ido a enterrar ao convento de S. Ant.° de Arrifana de Sousa.
O Ab.e Francisco C. P. sucedera ao Ab.e Domingos Pinto, cujo falecimento ocorreu a 13-1-1685. Foi pároco de Marecos mais de 45 anos, pois ainda era o Abade desta freg.ª quando morreu em 13-12-1730. Foi sepultado na capela-mor da sua igreja paroquial. Já não há hoje lugar para o elogio deste Abade. Ficará para outra vez. O louvor que se há-de tecer a este antigo pároco de Marecos será todo fundamentado no testamento com que faleceu de que tenho em minhas mãos uma cópia fiel.
MONAQUINO

Santiaguinho




Sempre fui mui devoto de S. Tiago. (Isto de franquear as portas da nossa intimidade não era de bom tom em tempos idos, mas «conto com a vossa benevolência», como diziam os antigos pregadores). Pois é verdade, sempre tive particular simpatia e muita veneração por S. Tiago Maior, Às vezes ponho-me a excogitar em ordem a descobrir no subconsciente as razões de tamanha devoção, Vem-me então à lembrança a Estrada de Santiago que na idade da puerícia contemplava repetidamente em claras noites de estio. O meu grande sonho de então em ir em piedosa romagem a Santiago de Compostela. E lá fui vezes sem conta na contemplação daquela via-láctea... Logo no começo do estudo da nossa história foi com certo entusiasmo que ouvi falar do patrocínio militar do Santo Apóstolo na cruzada da Reconquista («S. Tiago aos Mouros!»). Senti contentamento ao saber que o vale onde nasci fora ponto de passagem, desde tempos medievais, de inúmeros romeiros que se dirigiam a Compostela, vindos de Além-Tâmega e Além-Douro. Tornei-me mais devoto ainda quando tive conhecimento de que S. Tiago fora dado por orago, na Meia-Idade, a quatro igrejas paroquiais da nossa terra (a de Valpedre, Fonte Arcada, Capela e Louredo, transitando desta para Sub-Arrifana), sem contar uma capela pública na Rua ou Burgo de Entre-os-Rios. Que dizer, finalmente, do gosto que tive ao ser-me revelada a existência de uma «igreja» de Santiaguinho dentro da área da freg.a de Louredo? Os Censuais do Cabido e da Mitra referem-se a ela, mas as Inquirições nada dizem a seu respeito. No Cartulário de Fr. Gaspar Limpo, a fls. 24, lê-se o seguinte: «Item igreja de samtiaguo E samtiaguinho (...). Agora se chama samtiaguo de so(b) a Rifana Unida, a moazeres». Este texto do Censual da Mitra vem corroborar a expressão «ecclesia Santi Iacobi i santiaginho» do Censual do Cabido, i. e., confirma-nos na certeza de que, além da igreja paroquial de Louredo, houvera uma outra, dentro da mesma freguesia e nela incorporada, denominada de «samtiaguinho». A explicação deste facto será que a «igreja» de Santiaguinho começara por ser uma espécie de ermida em que se exercia o culto para facilitar o cumprimento dos preceitos aos fiéis dos lugares mais distantes como Outeiro e Monterroso situados a poente da igreja matriz, sita em Louredo, como está provado. Com o andar do tempo, esta solução tornara-se por ventura menos satisfatória e acabaram por mudar a sede da paróquia do lugar de Louredo para Santiaguinho, onde ainda hoje se encontra a igreja de Sub-Arrifana. Este acontecimento sucedeu antes de 1542, pois o Censual da Mitra, que data desse ano, informa-nos, como vimos, que as igrejas de S Tiago e Santiaguinho nesse tempo já se haviam fundido na simples denominação de «samtiaguo de so(b) a Rifana». De tudo isto se conclui não só que S. Tiago de Sub-Arrifana começou a existir anteriormente a 1542, mas também que a criação desta freguesia não fora uma consequência da incorporação da igreja de S. Tiago de Louredo na paróquia de S.Martinho de Arrifana de Sousa, pois sabe-se ter isto ocorrido no ano de 1569.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1970-04-03, p.06

Caso Estranho em Vila Cova






O último diálogo que tive com o povo foi nas imediações das fragas de S. Antão. Desci a encosta e fui bater à porta dos vizinhos de um lugar assente no sopé do Mozinho, que faz parte da freg.a de S. Paio da Portela. Muitas vezes encontrei este lugar em velhos manuscritos com o nome de Vila Cova. Tal denominação ajusta-se-lhe à maravilha, porque aquela aldeia é mesmo uma grande cova, toda aberta ao sol nascente, protegida de norte e sul por dois braços do Mozinho, que lhe oferece seu imponente dorso, a modos de anteparo, pelo lado do poente.
O facto de ter existido aqui uma vila medieval (cfr. Viterbo, v. Vila Cova) - se não sucessora de outra luso-romana - assegura-lhe uma existência multissecular. Mas não é esse o caso estranho da epígrafe. O que deveras me surpreendeu foi não ter encontrado, entre os anciãos que interroguei, um só que me indicasse onde ficava a Vila Cova. (A medo, ainda houve quem me apontasse o Cimo de Vila, onde existe uma só casa). Coisa tanto mais singular quanto é certo sabê-lo nome corrente ainda em meados do séc. XVIII. Isso está bem expresso, por ex., na memória paroquial de S. Paio da Portela, escrita em 20-4-1758, pelo Abade M. de Barros de Freitas, manuscrito existente na Torre do Tombo. Com a devida vénia, caro leitor, vou transcrever o passo que mais interessa ao nosso caso. É saboroso. Começa desta guisa: «Devide-se esta freguezia, em duas partes; parte de sima, e parte de bayxo em rezam de per meo della comtenuar, a estrada real, que vem da villa darifana de Souza, e de toda a Província Interanemse, para a confluência dos ditos dois rios Tamaga e Douro, vulgo chamado emtre ambos os rios, com lugar grande e aruado, com o nome de Vurgô e comtenua a dita estrada, para as partes de alem Douro e arouca.//...//. Parte de Sima chamase esta parte Villa Cova que compreende, logar do bayrro, com sete vezinhos, o logar da Cruz com sinco, o da costa com des, o do cazal com tres, o do (sic.) passos com sinco, o daldeja de Villa Cova com oyto, o do ribeiro com coatro, o do monte com dez, o de Villa da fê e preirô com tres»
«Estrada real» de Arrifana a Entre-os-Rios, Além Douro e Arouca; Burgo da Rua; Casal, Preiro e Vila de Ufe... Que temas tão ricos! Mas é forçoso reduzir o comentário do texto a mui breves considerações atinentes ao caso de Vila Cova. O vocábulo aldeia, de origem árabe, começou por antepor-se a vila - obliterado o significado desta - para eliminar depois toda a Vila Cova e ficar só ela reinante, por artes da lei do menor esforço. Na Portela de hoje só existe o topónimo Aldeia. O segundo ponto a considerar é que, tomado a rigor o texto, pode-se inferir que a medieva Vila Cova tinha domínio rural, ou pelo menos epónimo, para além da cova de que lhe viera o nome, pois se encontram englobados nela lugares já fora da sua área topográfica, como seja o Preiro e Vila de Ufe. E por hoje, tenho dito.
MONAQUINO