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«Santo» Mercador?





João Correia entregara a alma a Deus no ano de 1537. Um Reitor de S. Martinho de Arrifana, o P.e L.do Manuel Rangel de Araújo, asseverou em 1624 que ele falecera «com reputação de Santo» (como consta da gazeta «O Século XIX», publicada em Penafiel em 1864). Ocorreu a sua morte, em odor de santidade, diz o aludido Pároco, «pelas muitas obras de caridade que em sua vida fez aos pobres, e zêlo pelo culto divino, pelo que deu a todas as egrejas, capellas e confrarias d'este lugar e freguezia, mandando vir varias imagens e retabulos de Flandres à sua custa». Para não falar de outras coisas mais, direi que bem formosa vista havia de oferecer a capela-mor da igreja do Espírito Santo com o seu «retábulo antigo de Flandres à sua custa». Para não falar de outras coisas mais, direi que bem formosa vista havia de oferecer a capela-mor da igreja do Espírito Santo com o seu «retábulo antigo de Flandres, que elle mandou vir, todo dourado em que está Nossa Senhora do Rosário e S. Matheus, outros muitos Santos, tudo estofado em ouro». E a propósito, um parêntesis: não seria de muito interesse fazer-se um inventário, e até mesmo organizar-se em Penafiel uma exposição das imagens antigas de real valor existentes na cidade e concelho, o que era com certeza meio indirecto de obstar a que a voragem dos mercenários e amadores de antiguidades levasse para fora da nossa terra o pouco que nos resta do património histórico-artístico do passado?
João Correia para dar testemunho aos vindouros da sua Fé católica quis ser sepultado na capela-mor da igreja que reconstruiu e ficar retratado na lâmina de bronze, vinda também de Flandres, para cobertura da sua campa de pé, está ele, mãos erguidas e rosário pendente, em atitude, de quem reza com devoção. (Queria lembrar nesta altura um trabalho do malogrado historiador e arqueólogo Dr. Pedro Vitorino, intitulado Uma Lamina Sepulcral de Bronze — publicado em 1926 na Ilustração Moderna, n.º 8 — que não tenho visto citado e julgo ser o que de melhor se escreveu até hoje acerca da lâmina da Igreja Matriz de Penafiel). Tudo isso não seria uma hábil forma de exibicionismo da parte do rico mercador? Não o creio. O Reitor Rangel de Araújo não ousaria ser menos verdadeiro: João Correia «morreu com reputação de Santo». Não deixará, no entanto, de ser objecto de estranheza, para quem o ignore ainda, tomar-se conhecimento de que o mercador de grosso trato do burgo arrifanense foi um católico converso do Judaísmo. De judeu de raça e crença religiosa tornara-se um dia cristão-novo convicto. Bem queria eu vir aqui expor dados seguros a respeito da origem e ascendência deste João de Arrifana, mas as «memórias» correntes de que sou conhecedor não me dão garantia de certeza indiscutível.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1970-05-01, p.06

Caso Estranho em Vila Cova






O último diálogo que tive com o povo foi nas imediações das fragas de S. Antão. Desci a encosta e fui bater à porta dos vizinhos de um lugar assente no sopé do Mozinho, que faz parte da freg.a de S. Paio da Portela. Muitas vezes encontrei este lugar em velhos manuscritos com o nome de Vila Cova. Tal denominação ajusta-se-lhe à maravilha, porque aquela aldeia é mesmo uma grande cova, toda aberta ao sol nascente, protegida de norte e sul por dois braços do Mozinho, que lhe oferece seu imponente dorso, a modos de anteparo, pelo lado do poente.
O facto de ter existido aqui uma vila medieval (cfr. Viterbo, v. Vila Cova) - se não sucessora de outra luso-romana - assegura-lhe uma existência multissecular. Mas não é esse o caso estranho da epígrafe. O que deveras me surpreendeu foi não ter encontrado, entre os anciãos que interroguei, um só que me indicasse onde ficava a Vila Cova. (A medo, ainda houve quem me apontasse o Cimo de Vila, onde existe uma só casa). Coisa tanto mais singular quanto é certo sabê-lo nome corrente ainda em meados do séc. XVIII. Isso está bem expresso, por ex., na memória paroquial de S. Paio da Portela, escrita em 20-4-1758, pelo Abade M. de Barros de Freitas, manuscrito existente na Torre do Tombo. Com a devida vénia, caro leitor, vou transcrever o passo que mais interessa ao nosso caso. É saboroso. Começa desta guisa: «Devide-se esta freguezia, em duas partes; parte de sima, e parte de bayxo em rezam de per meo della comtenuar, a estrada real, que vem da villa darifana de Souza, e de toda a Província Interanemse, para a confluência dos ditos dois rios Tamaga e Douro, vulgo chamado emtre ambos os rios, com lugar grande e aruado, com o nome de Vurgô e comtenua a dita estrada, para as partes de alem Douro e arouca.//...//. Parte de Sima chamase esta parte Villa Cova que compreende, logar do bayrro, com sete vezinhos, o logar da Cruz com sinco, o da costa com des, o do cazal com tres, o do (sic.) passos com sinco, o daldeja de Villa Cova com oyto, o do ribeiro com coatro, o do monte com dez, o de Villa da fê e preirô com tres»
«Estrada real» de Arrifana a Entre-os-Rios, Além Douro e Arouca; Burgo da Rua; Casal, Preiro e Vila de Ufe... Que temas tão ricos! Mas é forçoso reduzir o comentário do texto a mui breves considerações atinentes ao caso de Vila Cova. O vocábulo aldeia, de origem árabe, começou por antepor-se a vila - obliterado o significado desta - para eliminar depois toda a Vila Cova e ficar só ela reinante, por artes da lei do menor esforço. Na Portela de hoje só existe o topónimo Aldeia. O segundo ponto a considerar é que, tomado a rigor o texto, pode-se inferir que a medieva Vila Cova tinha domínio rural, ou pelo menos epónimo, para além da cova de que lhe viera o nome, pois se encontram englobados nela lugares já fora da sua área topográfica, como seja o Preiro e Vila de Ufe. E por hoje, tenho dito.
MONAQUINO