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O Sargento-Mor





Não sei se o Sargento-Mor de que se vai falar se notabilizou por algum feito militar, ao menos por ocasião das invasões francesas, mas certo é que foi homem de bastante preponderância social em terras de Penafiel, no último quartel do séc XVIII e nas três primeiras décadas dos anos de oitocentos. Viveu a maior parte da sua vida em Lagares e também em Valpedre. Chamou-se José Urbano Pereira de Melo e Alvim. Quem for medianamente entendido na genealogia das principais famílias daquele tempo, nesta região, logo há-de descobrir pelos apelidos que ele pertencia à boa estirpe da gente que vivera mais de dois séculos nas Casas da Granja, em Lagares, e Quintãs de Valpedre.
José Urbano nasceu em Março de 1745 na Quinta da Boavista, em S. Ildefonso, muito perto da muralha fernandina do Porto. Os seus pais já são nossos conhecidos: José Pereira de Melo e Alvim e D. Teresa Angélica de Melo. Sabemos também que eles herdaram essa quinta das mãos do tio Cónego Ribeiro Nunes. Aí viveram em relativa tranquilidade até que um dia a desventura lhes foi bater à porta. Primeiramente, o falecimento do marido de D. Teresa; mais tarde, a viúva sofreu o grande desgosto de assistir à venda em hasta pública da Quinta da Boavista.
Nunca teria passado pela mente do Cónego Ribeiro Nunes a ideia de que tão infausto destino adviria à sua casa, capela e quinta, dentro de tão pouco tempo. Se o houvera previsto, com certeza o Cónego morreria de desgosto. Bem falíveis são os cálculos dos homens!
D. Teresa Angélica acolhera-se então junto da sua irmã D. Perpétua Luísa, na Casa da Granja, em Lagares. Esta já nessa ocasião era viúva do Cav.o Fr. Manuel Leite de Melo, que falecera em Janeiro de 1761.
José Urbano, à semelhança do avô paterno, ingressou na carreira das Armas. Em 1778, morava «defronte do Calvário» na cidade do Porto, mas em 1779 já residia também em Lagares. Novos rumos iam abrir-se agora para a sua vida. Assim, em 5-11-1781, na Capela de S. António da Granja, «com licença do Prelado», casava-se com uma sua parenta em 2.o grau, Dona Joana Thereza da Cunha Serqueira Pereyra de Mello Alvim, filha legitima de Manuel José Ribeiro de Macedo e Melo e de sua mulher D. Jacinta Bernarda de Carneiro e Melo, da Casa das Quintãs em Valpedre — neta paterna de Jerónimo de Macedo e Melo e de sua mulher D. Mariana Luísa Clara: neta pelo lado materno de Jacinto Carneiro Sequeira e Melo e de sua mulher D. Maria Josefa de São Jacinto, da freg.a do Salvador de Resende.
Por aqui se vê que José Urbano contraíra matrimónio com uma neta de uma irmã de sua mãe, muito nossa conhecida também: D. Mariana Luísa Clara, que fora casada com Jerónimo de Macedo e Melo, das Quintãs de Valpedre. José Urbano, além de Sargento-Mor, foi também Capitão-Mor. A sua residência preferida foi na Casa da Granja, se bem que estivesse, com frequência na Casa das Quintãs. Da última vez a fazê-lo, adoeceu aqui gravemente sobrevindo-lhe então a morte. Aí faleceu, cm 24-5-1831, e foi sepultado na igreja de Valpedre, em sepultura que era propriedade da sua Casa.
Já agora não resisto à tentação de contar ter sido também ocasionalmente que morreu nas Quintãs uma das duas irmãs de José Urbano que foram professas no Convento de Monchique, no Porto. Aconteceu isso com a Religiosa D. Joana Bernardina. Saíra «com Breve» do seu Mosteiro «afim de tomar banhos e aguas sulfureas», vindo hospedar-se «em casa de seo Irmão e sobrinhos na Quinta das Quintans». Mas não regressou ao Convento, porque no dia 2 de Fevereiro de 1815 «passou desta vida p.a a Eterna»...
Foi a sepultar na Igreja de Valpedre «envolta em seo habito» e seu Irmão «o Cap.am Mor Joze Urbano Per.a de Melo Alvim» mandou fazer-lhe «um oficio de Exequias».
Por MONAQUINO

 

Casa da Granja





No concelho de Penafiel, como acontece em muita outra parte, há várias casas e lugares da Granja. Nem admira que seja assim, ou não tivesse sido sempre a nossa terra — honra lhe seja! — desde tempos pré-históricos, terra de gente grangeeira. Tinha agora a tentação de discretear sobre a etimologia de granja, mas não me consente fazê-lo o receio de longo desvio do tema que me propus versar hoje. Vou restringir-me, pois, a resumido bosquejo da história de uma casa da Granja sita em S. Mart.o de Lagares.
O leitor já terá passado muita vez na estrada que atravessa a freguesia de Lagares, quer de Norte para Sul, se provindo de Fonte Arcada ou Sobreira; quer de Sul para Norte, quando procedente da freguesia de Canelas. Cá por mim, gosto imenso de fazer esse trajecto, em qualquer sentido! Mas descer dos altos de Canelas sempre será mais atraente. Ao começo, vastidão de horizontes; logo adiante, o encanto do tom pardacento do rústico semi-primitivo do aglomerado de Cabroelo, com sua ermida de S. Mateus. Mais abaixo, abre-se em nossa frente, de par em par, o vale de Lagares, com a Senhora da Lapa, em lugar altaneiro. Entretanto nossos olhos prendem-se nos longes da serra de Baltar. Fora de dúvida, é bonito cenário!
Passámos agora junto à igreja da freguesia da Capela, à Casa da Torre e ao típico lugar de S. Julião, com seu oratòriozinho, que já é em parte domínio da freg.a de Lagares. Mais umas centenas de metros e aparece-nos, ao nosso lado esquerdo, a vetusta Casa da Granja, cujo senhorio pertence hoje à família Barbosa da Fonseca de Sousa Andrade. A traça antiga desta moradia não está ainda totalmente desfigurada daquilo que fora no século de setecentos. Só me causa grande dor do coração o estado da Capela, de longa data votada a usos profanos. Esta impressão dolorosa faz-me vir à lembrança a invocação da Capela, dedicada a S. António, bem como o nome da Senhora viúva que a mandou erigir, por volta do ano de 1709: D. Inês Leite Barbosa da Cunha. Foi uma Dona distinta naquele meio aldeão. Decerto lembram-se ainda dum Manuel Leite de Melo, que foi Cavaleiro professo na Ordem de Cristo, oriundo da Casa da Granja. Era filho de D. Inês e de seu legítimo marido Sebastião de Macedo e Melo Barreto.
Os Melos entraram na Quinta da Granja com Maria de Melo, mulher de Jorge de Oliveira. Desde então ramificaram-se por diversas terras de Penafiel. Os Vieiras de Melo da freg.a da Capela estão ligados a esta Casa.
Com franqueza, ia-me esquecendo de que tinha em mira ocupar-me hoje também do 2.o casamento do Cavaleiro Fr. Manuel Leite de Melo.
Dono da referida Q.ta da Granja — já viúvo de uma Moreira da Casa da Póvoa, em Pedorido — em Maio de 1747, estava noivo de D. Perpétua Luísa, a última a casar das três sobrinhas do Cónego Domingos Ribeiro Nunes. O casamento dos dois realizou-se na igreja da freguesia de S. Ildefonso, em 12 de Junho do dito ano, sem grande pompa, por razões já referidas de outra vez.
Leite de Melo e Perpétua Luísa escolheram para sua residência a Casa da Granja. Não tiveram filhos.
Em Maio do ano de 1753, com a idade de 68 anos, pouco mais ou menos, o marido fizera o seu testamento, que me parece deveras curioso e por isso hei-de oferecer ao amigo leitor uma súmula das «últimas vontades» do Cavaleiro Fr. Manuel.
Espero que não se há-de agastar com isso.
Por MONAQUINO