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O Sargento-Mor





Não sei se o Sargento-Mor de que se vai falar se notabilizou por algum feito militar, ao menos por ocasião das invasões francesas, mas certo é que foi homem de bastante preponderância social em terras de Penafiel, no último quartel do séc XVIII e nas três primeiras décadas dos anos de oitocentos. Viveu a maior parte da sua vida em Lagares e também em Valpedre. Chamou-se José Urbano Pereira de Melo e Alvim. Quem for medianamente entendido na genealogia das principais famílias daquele tempo, nesta região, logo há-de descobrir pelos apelidos que ele pertencia à boa estirpe da gente que vivera mais de dois séculos nas Casas da Granja, em Lagares, e Quintãs de Valpedre.
José Urbano nasceu em Março de 1745 na Quinta da Boavista, em S. Ildefonso, muito perto da muralha fernandina do Porto. Os seus pais já são nossos conhecidos: José Pereira de Melo e Alvim e D. Teresa Angélica de Melo. Sabemos também que eles herdaram essa quinta das mãos do tio Cónego Ribeiro Nunes. Aí viveram em relativa tranquilidade até que um dia a desventura lhes foi bater à porta. Primeiramente, o falecimento do marido de D. Teresa; mais tarde, a viúva sofreu o grande desgosto de assistir à venda em hasta pública da Quinta da Boavista.
Nunca teria passado pela mente do Cónego Ribeiro Nunes a ideia de que tão infausto destino adviria à sua casa, capela e quinta, dentro de tão pouco tempo. Se o houvera previsto, com certeza o Cónego morreria de desgosto. Bem falíveis são os cálculos dos homens!
D. Teresa Angélica acolhera-se então junto da sua irmã D. Perpétua Luísa, na Casa da Granja, em Lagares. Esta já nessa ocasião era viúva do Cav.o Fr. Manuel Leite de Melo, que falecera em Janeiro de 1761.
José Urbano, à semelhança do avô paterno, ingressou na carreira das Armas. Em 1778, morava «defronte do Calvário» na cidade do Porto, mas em 1779 já residia também em Lagares. Novos rumos iam abrir-se agora para a sua vida. Assim, em 5-11-1781, na Capela de S. António da Granja, «com licença do Prelado», casava-se com uma sua parenta em 2.o grau, Dona Joana Thereza da Cunha Serqueira Pereyra de Mello Alvim, filha legitima de Manuel José Ribeiro de Macedo e Melo e de sua mulher D. Jacinta Bernarda de Carneiro e Melo, da Casa das Quintãs em Valpedre — neta paterna de Jerónimo de Macedo e Melo e de sua mulher D. Mariana Luísa Clara: neta pelo lado materno de Jacinto Carneiro Sequeira e Melo e de sua mulher D. Maria Josefa de São Jacinto, da freg.a do Salvador de Resende.
Por aqui se vê que José Urbano contraíra matrimónio com uma neta de uma irmã de sua mãe, muito nossa conhecida também: D. Mariana Luísa Clara, que fora casada com Jerónimo de Macedo e Melo, das Quintãs de Valpedre. José Urbano, além de Sargento-Mor, foi também Capitão-Mor. A sua residência preferida foi na Casa da Granja, se bem que estivesse, com frequência na Casa das Quintãs. Da última vez a fazê-lo, adoeceu aqui gravemente sobrevindo-lhe então a morte. Aí faleceu, cm 24-5-1831, e foi sepultado na igreja de Valpedre, em sepultura que era propriedade da sua Casa.
Já agora não resisto à tentação de contar ter sido também ocasionalmente que morreu nas Quintãs uma das duas irmãs de José Urbano que foram professas no Convento de Monchique, no Porto. Aconteceu isso com a Religiosa D. Joana Bernardina. Saíra «com Breve» do seu Mosteiro «afim de tomar banhos e aguas sulfureas», vindo hospedar-se «em casa de seo Irmão e sobrinhos na Quinta das Quintans». Mas não regressou ao Convento, porque no dia 2 de Fevereiro de 1815 «passou desta vida p.a a Eterna»...
Foi a sepultar na Igreja de Valpedre «envolta em seo habito» e seu Irmão «o Cap.am Mor Joze Urbano Per.a de Melo Alvim» mandou fazer-lhe «um oficio de Exequias».
Por MONAQUINO

 

Casa da Granja





No concelho de Penafiel, como acontece em muita outra parte, há várias casas e lugares da Granja. Nem admira que seja assim, ou não tivesse sido sempre a nossa terra — honra lhe seja! — desde tempos pré-históricos, terra de gente grangeeira. Tinha agora a tentação de discretear sobre a etimologia de granja, mas não me consente fazê-lo o receio de longo desvio do tema que me propus versar hoje. Vou restringir-me, pois, a resumido bosquejo da história de uma casa da Granja sita em S. Mart.o de Lagares.
O leitor já terá passado muita vez na estrada que atravessa a freguesia de Lagares, quer de Norte para Sul, se provindo de Fonte Arcada ou Sobreira; quer de Sul para Norte, quando procedente da freguesia de Canelas. Cá por mim, gosto imenso de fazer esse trajecto, em qualquer sentido! Mas descer dos altos de Canelas sempre será mais atraente. Ao começo, vastidão de horizontes; logo adiante, o encanto do tom pardacento do rústico semi-primitivo do aglomerado de Cabroelo, com sua ermida de S. Mateus. Mais abaixo, abre-se em nossa frente, de par em par, o vale de Lagares, com a Senhora da Lapa, em lugar altaneiro. Entretanto nossos olhos prendem-se nos longes da serra de Baltar. Fora de dúvida, é bonito cenário!
Passámos agora junto à igreja da freguesia da Capela, à Casa da Torre e ao típico lugar de S. Julião, com seu oratòriozinho, que já é em parte domínio da freg.a de Lagares. Mais umas centenas de metros e aparece-nos, ao nosso lado esquerdo, a vetusta Casa da Granja, cujo senhorio pertence hoje à família Barbosa da Fonseca de Sousa Andrade. A traça antiga desta moradia não está ainda totalmente desfigurada daquilo que fora no século de setecentos. Só me causa grande dor do coração o estado da Capela, de longa data votada a usos profanos. Esta impressão dolorosa faz-me vir à lembrança a invocação da Capela, dedicada a S. António, bem como o nome da Senhora viúva que a mandou erigir, por volta do ano de 1709: D. Inês Leite Barbosa da Cunha. Foi uma Dona distinta naquele meio aldeão. Decerto lembram-se ainda dum Manuel Leite de Melo, que foi Cavaleiro professo na Ordem de Cristo, oriundo da Casa da Granja. Era filho de D. Inês e de seu legítimo marido Sebastião de Macedo e Melo Barreto.
Os Melos entraram na Quinta da Granja com Maria de Melo, mulher de Jorge de Oliveira. Desde então ramificaram-se por diversas terras de Penafiel. Os Vieiras de Melo da freg.a da Capela estão ligados a esta Casa.
Com franqueza, ia-me esquecendo de que tinha em mira ocupar-me hoje também do 2.o casamento do Cavaleiro Fr. Manuel Leite de Melo.
Dono da referida Q.ta da Granja — já viúvo de uma Moreira da Casa da Póvoa, em Pedorido — em Maio de 1747, estava noivo de D. Perpétua Luísa, a última a casar das três sobrinhas do Cónego Domingos Ribeiro Nunes. O casamento dos dois realizou-se na igreja da freguesia de S. Ildefonso, em 12 de Junho do dito ano, sem grande pompa, por razões já referidas de outra vez.
Leite de Melo e Perpétua Luísa escolheram para sua residência a Casa da Granja. Não tiveram filhos.
Em Maio do ano de 1753, com a idade de 68 anos, pouco mais ou menos, o marido fizera o seu testamento, que me parece deveras curioso e por isso hei-de oferecer ao amigo leitor uma súmula das «últimas vontades» do Cavaleiro Fr. Manuel.
Espero que não se há-de agastar com isso.
Por MONAQUINO

 

Enquanto durar o mundo!






Prezado leitor, não perca ânimo e leve até final uma página amarelecida da vida antiga da Casa da Granja, em Lagares, pelo ano de 1753.
Começa desta maneira: Saibão quantos este Testamento virem em como eu Frey Manoel Leite de Mello, morador em a quinta da Granja... Já se sabe que é a fala dum Cavaleiro professo na Ordem de Cristo. Tinha 68 anos de idade e por causa de padecer de algumas moléstias, resolveu fazer o seu testamento.
Assim dispôs primeiramente: «Falecendo da vida presente, será meu corpo envolto em o hábito de Cristo que tenho com os paramentos que costumam levar os Cavaleiros, e será sepultado dentro da Igreja adonde sou freguês. Meu corpo será acompanhado à sepultura por vinte clérigos de Missa que a dirão por minha alma nesse dia e a cada um a esmola costumada nesta freguesia se lhe dará». Muitas outras Missas deixou ainda de «seis vinténs e cem réis» cada uma.
Mais ordenou que se fizessem quatro ofícios de vinte padres de Missa como era «uso da sua Casa». Ao pobre que viesse à porta por essa ocasião, seria dado um vintém, por uma só vez. Item declarou «que lhe assistirá música no seu acompanhamento e primeiros três ofícios», encomendando por fim a sua alma a Deus e ao Senhor Jesus Cristo e à Mãe e Senhora Maria Santíssima, ao seu Padroeiro S. Martinho e ao Anjo da Guarda e a todos os Santos e Santas da Corte do Céu. E assim acabou a sua disposição dos bens de alma.
De seguida é dos bens temporais que se ocupa. Quanto a isso, deixou no testamento que se cumprisse o que fora estabelecido na escritura dotal celebrada com sua mulher D. Perpétua Luísa Leite de Macedo. Ficaria, pois, usufrutuária dos bens do marido, contanto que não voltasse a casar, porque se o fizesse, apenas «se levantará com seu dote»!
Bem nos lembraremos de certo de já ter ouvido falar que Fr. Manuel e a esposa tinham na sua companhia duas irmãs do Cavaleiro, no estado de solteiras. Chamavam-se D. Francisca Clara e D. Helena Teresa. No caso de D. Perpétua não querer viver com elas, ficava obrigada a dar-lhes uma pipa de vinho, os olivais de S. Paio da Portela, que foram do património do seu irmão P.e Vicente Leite, e mais lhes serão semeados dois alqueires de linho.
O Cavaleiro não se esqueceu também das suas irmãs que eram Freiras no Convento de S. Clara da Vila de Amarante: D. Inês Maria Clara e D. Catarina Josefa de Melo. As duas Religiosas receberiam anualmente «um almude de azeite, doze arráteis de bom linho e um porco cevado ou quatro mil e oitocentos réis por ele», conforme já fora determinado na referida escritura dotal.
Finalmente, Fr. Manuel nomeou universal herdeiro de todos os seus bens de raiz o sobrinho Manuel José Ribeiro de Macedo e Melo, morador na Quinta das Quintãs de Valpedre, filho do seu primo Jerónimo Macedo de Araújo e de sua cunhada D. Mariana Luísa Clara Ribeiro. Como importante obrigação, impusera ao dito herdeiro o encargo de pôr trezentos mil réis a juros para com eles se pagar a um Capelão que celebrasse Missa na Capela da sua Quinta da Granja, todos os Domingos e Dias Santos, por alma dele e de todos os seus parentes, recebendo de esmola cem réis de cada vez — tudo isto enquanto durar o mundo.
Enquanto durar o mundo! Santa ingenuidade a deste Cavaleiro de Cristo em acreditar na possibilidade de se impor aos homens, para sempre, uma determinação emanada de qualquer vontade humana. Há quantas dezenas de anos aquelas pedras da Capela de S. António da Granja, na sua impressionante nudez, não são um clamoroso grito de condenação dos homens que outrora votaram ao abandono aquele lugar sagrado!
Por MONAQUINO

 

Donde os 3 mil cruzados?





A D. Perpétua Luísa foi a última a casar das três sobrinhas do Cónego Ribeiro Nunes. Casou um pouco tardiamente, no ano de 1747, pois tinha então cerca de 38 anos de idade. O tio Cón. Domingos, falecido em 1744, e que não chegou a lograr o contentamento de ver esta sobrinha consorciada com um membro da família dos Macedos Leites e Melos. Trata-se dum Cavaleiro que foi professo na Ordem de Cristo («com a tença de mil reis»), senhor da Casa e Qta. da Granja — em S. Mart.o de Lagares, no conc.o de Penafiel —, dono também de «todas as quintas, prazos e foros» que haviam pertencido a seus pais.
Este freire de Cristo encontrava-se então em estado de viuvez. Antes de casar com D. Perpétua Luísa, fora legítimo marido de D. Maria Josefa Moreira de Bessa, da Casa da Póvoa, em Pedorido, considerada naquele tempo das principais do conc.o de Paiva.
— Não estará lembrado o leitor de ter visto o Cavaleiro Frei Manuel Leite de Melo (desta forma assina ele em 1747) quando no ano de 1732 tomava parte na cerimónia do casamento de D. Mariana, irmã de D. Perpétua, na Capela da Quinta da Boavista, como testemunha do acto religioso e demais como primo que era, pelo lado materno, do esposado Jerónimo das Quintãs de Valpedre?
— Pois, exactamente, — era esse mesmo!
O referido viúvo Leite de Melo, nos anos de 47, vivia na dita Q.ta da Granja (aqui nasceu em 1684), na companhia de duas irmãs solteiras — D. Francisca Clara e D. Helena Teresa — quando resolveu casar segunda vez com D. Perpétua Luísa.
Como de costume, houve antes do casamento uma escritura dotal. Apesar do tio Cónego Domingos ter falecido e sem embargo de D. Teresa Angélica já se encontrar viúva, essa escritura foi lavrada na Quinta da Boavista, onde D. Perpétua morava há muitos anos. Lá compareceu o tabelião no dia 23 de Maio de 1747.
Estiveram então presentes, duma parte, «Donna Perpetua Luiza…, com seu Irmão, o rev. Domingos Ribeiro Nunes, Cónego na Cathedral»; e da outra, «frei Manuel Leite de Mello, Cavaleiro professo na Ordem de Christo».
Foram três as testemunhas: o P.e Jerónimo de Melo, da freg.a de Cabeça Santa, o Beneficiado da Sé P.e Manuel S.tos Veloso, e o P.e Tomás da Rocha Rebelo, da freg.a de Rans.
Pela sua parte, o Fr. Manuel disse que se dotava com a quinta da Granja, uma fazenda em S. Vic.te do Pinheiro, «duzentas e tantas medidas de segunda e cento e tantas de trigo», acrescentando ainda vários foros, direitos dominicais e prazos.
A soma de todos estes bens representava, naquele tempo, fortuna apreciável. O pior é que estava um tanto comprometida! Mas ouçamos a tal respeito o que disse o próprio Fr. Manuel: «que a dita sua futura esposa lhe dará de entrada tres mi! cruzados para elle esposado pagar as dividas que deve...».
De que fontes teria a noiva auferido os três mil cruzados com que iria solver o Cavaleiro as dívidas que o afrontavam?
— D. Perpétua tinha em guarda essa importância nas mãos de seu irmão Cón. Domingos, proveniente de quinhentos mil réis deixados pelo tio António — falecido no Brasil — acrescidos de seiscentos mil réis que herdou do tio Cónego. Há ainda a acrescentar que ela possuía muitas «pessas de ouro», avaliadas em cento e cincoenta mil réis, e o irmão Cónego também lhe oferecera duzentos mil réis.
E logo o Cón. Domingos, em presença do tabelião e testemunhas, «lanssou sobre hua meza os ditos tres mil cruzados e pela dita esposada e seu futuro marido forão contados... e os acharão certos».
Desta maneira, depois de assinarem todos os presentes, foi dada por finda a escritura de dote de casamento do Cavaleiro Fr. Manuel Leite de Melo com D. Perpétua Luísa.
Por MONAQUINO

 

Casou bem





Está hoje em cena D. Mariana por ser a primeira a casar das três sobrinhas do Cón. Ribeiro Nunes.
Foi no mês de Janeiro de 1732 que o Jerónimo de Araújo Leão de Macedo e Melo se consorciou com D. Mariana Luísa Clara Ribeiro. Com muitos dias de antecedência, em casa do Rev. Cónego Domingos — na Quinta da Boavista — um tabelião do Porto lançara no seu Livro de Notas uma escritura de dote a favor dos futuros esposados. Quanto ao dote, as coisas passaram-se, mais ou menos, como vou contar em resumo.
A noiva dissera que se dotava com quinhentos mil réis que lhe deixara seu tio António Ribeiro Nunes, falecido no Rio de Janeiro; a mãe de Mariana, a Snr.a Maria Ferreira da Cruz, que estava presente — já viúva do Alferes Manuel Ribeiro Nunes — deu em dote à sua filha duzentos mil réis; o tio Cónego Domingos, «pello muito amor que tinha à sobrinha», fizera-lhe mercê de quinhentos mil réis, sem levar em conta os quatrocentos mil réis que havia gastado com ela, «em pessas de ouro e prata, custosos vestidos, moveis e trastes de caza».
Por outro lado, o Capitão António de Araújo Leão — «para os encargos do dito matrimónio, se tivesse effeito» — dotara o filho Jerónimo com a «quinta ou Casal das Quintains, com todas as suas pertenssas», em que vivia em Valpedre, juntando-lhe as casas e terras que possuíram os seus tios P.e Agostinho da Rocha e P.e Manuel de Araújo — além de outros bens. E mais disse ainda que reservava para seu sustento e dos dois filhos solteiros — Manuel e António — o terço de todo o pão, vinho, azeite e castanhas, bem como de toda a espécie de legumes colhidos nas mesmas propriedades. No caso de não ficar a viver com seu filho e nora, utilizaria «a salla nova que fés e a cozinha da heira e a logea para ter sua besta, que pensará na dita quinta».
Esta escritura de dote, com que haviam de casar Jerónimo e Mariana, foi testemunhada pelo Abade Inocêncio Murrão de Morais Alão e pelo Governador das Armas da cidade do Porto, António Monteiro de Almeida; nela se encontram as suas assinaturas, assim como as de todos os intervenientes deste público documento. Só lhe falta a assinatura da mãe de D. Mariana, «que por dizer não sabia ler nem escrever, rogou a seu filho, o Rev. Con. Domingos Ribeiro Nunes (júnior), que por ella assignasse».
Decorrido mais de mês e meio, realizou-se, a 9-1-1732, o enlace matrimonial. Com licença do «Senhor Governador do Bispado», o casamento pode efectuar-se na Capela da Senhora da Conceição, pertença da mesma Quinta da Boavista.
Como era de esperar, assistiu como oficiante ao solene acto religioso o tio Cónego Domingos.
Foi um dia de muito júbilo na Casa da Boavista! Estiveram ali presentes «muitas pessoas», como se pode ler no assento do casamento. Lá estavam com certeza convidados das famílias da Cidade mais intimamente relacionadas com os dois Cónegos Domingos; fora de dúvida também foram presentes amigos e parentes dos noivos, vindos das freg.as de Peroselo, Gandra, Valpedre e Lagares. Serviram de testemunhas do acto religioso dois primos do noivo: Manuel Leite de Melo, senhor da Casa da Granja, em Lagares, e o P.e Jerónimo de Melo e Macedo, da Casa de Perosinho, sita em Gandra da Cabeça Santa.
Jerónimo e Mariana foram viver na sua Quinta das Quintãs, em Valpedre. Foi aí que lhes nasceu o primeiro filho, chamado Manuel, em 1-11-1733. Baptizou-o o tio Cónego Domingos, tendo sido padrinho o Rev.mo Doutor Frei Manuel dos Serafins — então «Geral dos Padres de S. Bento» — que fora irmão da avó paterna do neófito.
Longos e venturosos anos viveram nas Quintãs.
De verdade, foi um casamento muito abençoado por Deus!
Por MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1972-01-21,p.04

Mais Clérigos de Pegas







Tenho mesmo de acabar hoje este assunto dos eclesiásticos nascidos na Casa de Pegas, em Peroselo, para não abusar mais da vossa paciência, amigos leitores!
Em primeiro lugar, voltarei a dizer que os padres, de que me ocupei da última vez, tiveram três irmãs. Todas contraíram matrimónio. O casamento das duas mais velhas Maria e Ana Maria realizou-se em Peroselo, no ano de 1776. A Maria de Sousa recebeu-se com Custódio de Almeida, do L. de Quintã da mesma freg.a; o marido de Ana Maria, de nome António Alves, foi natural da Casa de Vilela, em Canelas, onde morou com a esposa. Em 1773, a mais nova das irmãs, chamada Custódia Maria, casou com António Lopes, da Casa de Real de Além, em Oldrões filho de Manuel Lopes, oriundo da Casa de Riba Boa, freg.a de Vila Cova de V. de A., e de sua m.er Ana Rodrigues, da Casa de Guilferros, freg.a de S. Mart.° de Lagares. Acrescentarei ainda que António Lopes era irmão do P.e Manuel R. Lopes e que o enlace matrimonial das três irmãs de Pegas foi celebrado na presença do P.e Jerónimo Lopes, tio delas, pelo lado materno, já conhecido Abade de Vila Cova de Carros. Custódia Maria foi que sucedeu na casa dos pais, onde viveu com seu esposo, tendo havido descendência. Segundo a minha conta, criaram sete filhos. Todos eles receberam no baptismo um nome já tradicional na família, repetido em sucessivas gerações. Mencionarei os rapazes, que foram quatro: Geraldo, Manuel, João e Jerónimo. O primeiro, Geraldo Rodrigues Lopes, casou em Melres, a 19-1-1815, com Joaquina Lopes da Rocha, da Casa de Vales Travassos. O Manuel, que ficou solteiro, deu honra à Casa onde nasceu, porque nos tempos calamitosos das invasões francesas ou mais tarde por ocasião das lutas liberais, ascendeu ao posto de Capitão. Faleceu em Pegas, mais ou menos com setenta anos, a 27-10-1853. Quanto ao João e Jerónimo, ingressaram na vida eclesiástica, dando assim continuidade a uma tradição já muito antiga na família. Das três irmãs que tiveram, somente nomearei aqui a Ana Maria, que foi a herdeira da Casa de Pegas. Em 1807, casou ela com Jerónimo de Sousa Moreira, da Casa da Quintã, de Peroselo, e tiveram seis filhos: três meninos e três meninas. Havia muito que dizer a respeito de cada uma das filhas de Ana Maria e Jerónimo, mas tenho que me limitar agora a apontar o rumo que seguiram na vida os três filhos varões. O mais velho, de nome Vitorino, ficou solteiro e viveu sempre na casa dos pais, que lhe coube em herança. Faleceu com 71 anos de idade, em 23-2-1879, tendo sido sepultado na Capela da Senhora da Conceição. Foi seu herdeiro o sobrinho e afilhado Vitorino R. Ferreira, nascido na Casa das Eiras. Quanto aos dois irmãos que teve, foram os últimos clérigos havidos em Pegas.
Com o P.e Tomé e o P.e Januário extinguiu-se uma tradição mantida ininterruptamente ao longo de três séculos de se contarem, em cada geração, alguns membros da Casa de Pegas, devotados a bem servir a Igreja, no exercício da vida eclesiástica.
MONAQUINO

A Ermida Renasceu...







A velha ermida de S. António, na freguesia de Lagares - talvez anterior ao séc. XVI - remoçou de algum modo da sua decrepitude por fins do século de seiscentos, graças à introdução que nela se fez do culto da Senhora da Lapa. Em 1757, novo surto de vitalidade experimentou ao ser escolhida para sede de confraria dos Santos Passos e das Almas, com o beneplácito de Bento XIV. Pelos seus estatutos sabemos prover-se naquele tempo a assistência espiritual e temporal dos confrades, pois os irmãos pobres, além dos sufrágios, tinham direito a médico, remédios e mortalha. Esplêndida acção social a igreja desenvolveu outrora através das confrarias; pena é que em nossos dias elas tivessem perdido tão simpática função humanitária!
Com o decorrer do tempo, o esfriamento do culto da Senhora da Lapa, aliado a outros factores, levou a ermida à beira da sua completa ruína. No segundo quartel do séc. XIX, surgiu um grupo de homens, cheios de ardorosa Fé, que se propuseram restaurar a capela da Senhora da Lapa. À frente, como já se disse, estava Manuel de Sousa Rangel. Esses beneméritos, «com esmolas por eles mesmos ofertadas e com outras que por sua diligência obtiveram, reedificaram, de 1844 a 1852, a sobredita capela, dando-lhe muito maiores dimensões». A partir de 1855, foi também construída, junto da reformada ermida, uma torre e uma casa «com destino a colégio», onde um capelão «dava aulas de primeiras letras e gramática latina e ensinava a doutrina cristã aos meninos». Foi ainda nesse tempo que se projectou um plano para erecção de «quinze capelas dos Passos e Calvário».
Já é tempo de nomear aqui os principais colaboradores de Manuel de S. Rangel. Foram eles os padres Fr. João e Fr. José, frades da Província da Soledade - egressos em 1834, por força da extinção dos conventos - e mais o P.e Joaquim Moreira da Rocha e Sousa - três irmãos nascidos na Casa da Aldeia de Baixo, em Lagares. É plurissecular a permanência neste lugar da família desses clérigos. A sua ascendência vai entroncar, no séc. XVI, com os pais do fundador da igreja da Misericórdia de Penafiel - o P.e L.° Amaro Moreira de Meireles. A relativa importância social e económica da Casa da Aldeia de Baixo deriva mais proximamente do facto de André de Sousa - f.° leg.o de António de Sousa e de Jerónimo Antónia, casados em 22-5-1693 e residentes na referida moradia - ter realizado o seu casamento, a 17-11-1727, com Antónia Moreira de Sousa, da Casa de Vila Meã, na freg.a da Capela. Este André e sua mulher Antónia foram os bisavôs paternos dos três sacerdotes acima mencionados. Um sobrinho destes eclesiásticos, chamado Manuel Moreira Rodrigues Lopes - f.° leg.o de seu irmão António e de sua mulher Violante Rosa Rodrigues Lopes, natural da Casa de Gilferros, casados em Lagares, a 28-8-1837 - foi quem herdou de Manuel de S. Rangel as suas casas e cerca, sitas na Senhora da Lapa, como consta do testamento com que este faleceu, registado no L.° 26 da Administração do conc.º de Penafiel.
MONAQUINO

Ao Redor da Senhora da Lapa




No «Relatório do Movimento R da Diocese do Porto» - relativo ao ano 1922-23, publicado em 1921 - o P.e Dr. H. Alves da Rocha, então pároco de Lagares e vigário da vara, escreveu uma pequena notícia histórica em que se aponta S. Antonino como orago da capela pública «onde se venera N. Sr.ª da Lapa e tem sua sede a confraria dos Santos Passos e das Almas». Tinha-se presente esta notícia ao ser redigido o ligeiro apontamento acerca da mencionada capela, aqui publicado na pretérita semana. O caso foi objecto de reflexão, mas não se lhe fez referência porque as fontes, em que se encontra baseada a afirmação do autor, não são consideradas fidedignas, e a hipótese formulada parece inaceitável. No entanto, é sabido que S. Antonino vive na tradição oral da freguesia e a imagem tem assento no altar-mor da capela.
Como e quando terá começado em Lagares o seu culto? Que santo «eremítico» e «mártir» terá sido ele?
Apesar de muita indagação, nada de certo consegui apurar a respeito de S. Antonino. Alguém poderia dar uma achega que espevitasse a luz da nossa candeia? Agradecia-se.
Posto isto, falemos dos obreiros da restauração da referida capela em meados do século passado. Entre todos foi seu maioral Manuel de Sousa Rangel. Este senhor Rangel nasceu na Casa de S. Julião em S. Tiago da Capela, a 6-3-1808, e
foi baptizada pelo P.e
Manuel de S.a Rangel, irmão de seu pai, sendo padrinho um seu tio-avô paterno, P. António de S.a Rangel - ao tempo pároco da freguesia. Manuel Rangel fora casado com D. Maria Pereira do Lago, da Casa do Souto, em Guilhufe, onde veio a falecer, sem descendência, a 3-4-1878.
O trisavô paterno de Manuel Rangel, chamado Manuel André nascido a 18-2-1642 e casado na freg.ª da Capela, com Antónia Luís da Rocha, em 30-1-1678 - já usava o sobrenome Rangel e vivera com seus pais Domingos Jorge e Isabel André na sua Casa de S. Julião. Há séculos radicada neste lugar, a família Rangel conta bastantes eclesiásticos e algum frade, em sucessivas gerações. O facto de Manuel Rangel ter posto a sua generosidade ao serviço da restauração de uma capela fora da área da sua freg.ª, explicar-se-á pela circunstância de sua mãe - Marta Teresa, casada com António de S.a Rangel ser natural de Quintandónega (sic), em Lagares; melhor, talvez por via de sua bisavó paterna - Catarina de Sousa, mulher de Manuel Rangel da Rocha (com quem casou a 5-5-1726) - ter ido para S. Julião da Casa de Aldeia de Baixo, da mesma paróquia lagarense. Esta razão deve ter influído bastante no ânimo de Manuel Rangel, pois encontrámo-lo a restaurar a velha ermida de mãos dadas com três sacerdotes irmãos, seus parentes pelo lado paterno, oriundos da Casa de Aldeia de Baixo. Vê-los-emos todos empenhados nessa meritória tarefa.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1969-11-21, p.06

Destino de Sobrenomes...





Algo fatigado das sendas da escravatura, apetece-me desta feita repoisar em Ordins. Este raro topónimo exerce sobre mim grande poder de sedução, por ter fundas raízes medievais. Mas isso são contas de outro rosário, pois agora só queria quedar-me um pouco em Ordins, para descanso e evocação de coisas de menos valia, passadas nos dois últimos séculos, à sombra da casa onde nasceu o P.e Simeão Lopes Barbosa.
Após o regresso do Brasil, este padre foi «assistente» no Porto e viveu os últimos anos no
l. de Rio Mau, então pertencente à freg.ª de Pedorido, pois só fora integrado na de Sebolido, por volta de 1805. O P.e Simeão faleceu em Rio Mau a 3-11-1773, tendo vindo a sepultar em Lagares. Alguns anos antes, mandara erigir, junto à casa que fora de seus pais, uma capela, da invocação da Senhora do Carmo e S. Libório, porque a igreja paroquial ficava distante e «o caminho incapas para o povo do mesmo lugar poder hir à missa e mais ofícios divinos». O processo canónico da erecção da capela não se encontra no arquivo diocesano do Porto. Felizmente, num livro de notas do tabelião Paulino José Barbosa, de Arrifana de Sousa, descobri uma escritura do património da referida capela, com a data de 28-2-1768, mediante a qual o P.e Simeão doou, para tal fim, «hum tapado», sito na agra de Bouça de Sós. A capela ainda existe, em relativo estado de conservação, precedida e independente de vistoso portal, de traça ao gosto da época, em granito bem trabalhado.
Valério Barbosa, irmão do P.e Simeão, ficou na casa paterna e casou com Josefa Ferreira, de quem houve dez filhos varões. Quatro deles, seguiram a carreira eclesiástica. O mais velho, também de nome Valério, faleceu sendo clérigo «in minoribus»; dos três restantes, o P.e Dr. Manuel Barbosa Ordins Adairão (donde viria este Adairão?), sendo simples minorista, fora advogado nos tribunais da Relação do Porto.
Em 1784 recebeu todas as ordens sacras e quando faleceu, em 13-11-1795, era o Reitor de Lagares. O irmão P.e Simeão Barbosa Ordins foi capelão «das missas da manham» nesta freg.ª, e o seu óbito ocorreu a 19-3-1812. Resta o último, o P.e Domingos Barbosa Ordins, que faleceu a 10-4-1621 e foi sepultado «na sua capela» de Ordins.
O filho de Valério e Josefa, chamado António, casou, a 30-1-1809, com Ana Rodrigues, tendo sido o herdeiro da casa dos pais. Os descendentes deste casal já não usaram o sobrenome Ordins, que substituíram por Valério. Manuel Barbosa Valério - f.º leg. de António Barbosa e de Ana Rodrigues, casado a 27-7-1841, na freg.a da Capela, com Joana Rosa Vieira de Melo - foi o bisavó paterno do Snr. Egídio Rodrigues Moreira, que mora com sua esposa e filhos, na casa onde nasceu o P.e Simeão Lopes Barbosa.
A voragem do tempo, neste caso, não respeitou nenhum dos sobrenomes queridos de antigas gerações: nem Lopes, nem Barbosa, nem Ordins, nem Valério.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1969-10-03

O Valério e o Simeão







Gosto do nome Valério. Era interessante estudarem-se as razões que às vezes nos levam a aborrecer ou simpatizar com os nomes das pessoas; os motivos da nossa predilecção ou antipatia por eles, são muito variados. Era um estudo que dava matéria bastante para longo tratado: relações da psicologia com a antroponímia. Reportando-me ao caso do nome Valério, parece-me que não andarei longe da verdade se disser que engracei com ele por lhe ter encontrado acentuado sabor latino e certa expressão de energia varonil. Seja como for, a verdade é que sempre gostei desse nome. Daí nasceu certamente a curiosidade, que tive em tempos, de saber quando e como ele entrara no sobrenome de uma família respeitável, há muito radicada na freg.a de Lagares. Após trabalhosa indagação, pude concluir que o sobrenome Barbosa - ainda sobrevivente e cheio de vitalidade em descendentes do mais antigo Valério - é muito mais velho que este. Não queria meter-me em explanações de carácter genealógico (há pessoas muito alérgicas a estas coisas...), mas para evitar o risco de não ser acreditado, o prezado leitor vai consentir que deixe aqui um ligeiro apontamento dessa natureza. Uma Isabel Barbosa - filha de Gaspar Lopes e de outra Isabel Barbosa, nascida em Ordins a 8-1-1622 - casou em Lagares, a 27-11-1645, com Manuel André, de S. Vic.te do Pinheiro Isabel Barbosa e Manuel André foram os avós paternos do primeiro Valério que encontrei na família - filho de Gonçalo Barbosa, de Ordins, e de sua mulher Ana Luís, natural de S. João da Foz do Sousa, casados nesta freg.a a 10-10-1693. Esse Valério foi baptizado, em 20-6-1696, por um seu tio paterno, o P.e Domingos Lopes Barbosa, tendo sido padrinhos o Reitor de Lagares - P.e João de Oliveira Vaz - mais Agostinha, irmã do pai do menino.
Agora dou conta de estar a faltar à promessa que fiz de versar seguidamente, até final, o tema da escravatura. De facto, desta vez, ainda não se viram aqui jeitos de peugada de escravos... Na verdade, tinha hoje em mente ocupar-me sobretudo de um Simeão - irmão inteiro de Valério - que se ordenou de sacerdote, viveu alguns anos no Brasil, foi senhor de um escravo e regressou daquelas paragens com uns bons milhares de cruzados. Tencionava falar dele e do seu escravo, mas aconteceu que a ideia, como diz o povo, puxou-me muito mais para o Valério. Talvez efeito da fascinação do nome...
Na próxima vez, sem desfazer no Valério, hei-de dar preferência ao P.e Simeão e
ao negro seu escravo.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1969-09-19, p.06


 

O P.e Simeão e o Negro Salvador







De longe a longe, à maneira de agradável passatempo, dou-me à leitura de velhos testamentos. Não a faço por contágio da doença muito em voga, de coleccionar antigualhas, senão que por estar convencido de terem fontes úteis de vária informação. Além de possibilitarem o conhecimento da personalidade dos testadores, podem ajudar a definir o carácter dos ambientes sociais em que decorreu a sua vida.
Há uns anos deram-me a ler o testamento do P.e Simeão Lopes Barbosa, da freg.ª de Lagares, já nosso conhecido, como irmão que foi de Valério Barbosa. Trata-se de um documento curioso, feito na cidade do Rio de Janeiro e nela aprovado, no escritório do Tabelião Custódio da Costa Gouveia, a 18-7-1741. O P.e Simeão estava em vésperas de regressar à metrópole numa «prezente frota». Resolveu fazer o testamento «por se temer da morte e por desejar pôr a sua alma no caminho da salvação». Depois de um formoso preâmbulo, que é uma firme e clara profissão de Fé católica, declara não ter herdeiro forçado «senão seu irmão Valério Barbosa», a quem deixa os seus haveres com certas obrigações a cumprir, que interessa especificar. Manda repartir nove mil e seiscentos reis pelos pobres que acompanharem seu corpo à sepultura; entregar igual quantia (à Irmandade do SS.mo Sacramento e outro tanto à Confraria do Senhor dos Passos, «da freguezia donde nasci». Mais quer que se mandem «dizer» quinhentas missas pela sua alma e igual número pela alma de seus pais; quinhentas «por quem tiver contas consigo» e outras tantas «por todos os amigos e inimigos». O irmão Valério há-de tirar da herança quatro mil cruzados para compra de bens de raiz, com os quais constitua património dos filhos, cujo rendimento será destinado a «sustentá-los no estudo»; caso assim não aconteça, «passará o dito legado à Santa Casa da Misericórdia de Arrifana». Fazendo uma estimativa do que possui, calcula que deve andar por uns «quatorze mil e quinhentos cruzados».
Depois de tanta generosidade com a família, com os amigos, e até com os inimigos - que terá deixado o P.e Simeão a um seu escravo negro, chamado Salvador? Ele mesmo vai responder com as palavras escritas no seu testamento: «levo hum negro que tenho, por nome Salvador, e por minha morte o deixo ao Convento de Santo António de Arrifana, para servir o dito convento emquanto for vivo». O Salvador teria vocação para irmão capucho? Creio que não. No entanto, a culpa de tal disposição testamentária não se deve imputar propriamente ao P.e Simeão, mas antes a ideias sociais deformadas, com séculos de existência.
MONAQUINO

Um Sacristão no Mozinho?





Não sei como o topónimo Mozinho se radicou para sempre no monte mais importante da Terra de Penafiel. Na meia-idade, é sabido, abundavam no país os sacristães, a que, de modo geral, se dava o nome de mozinhos, se bem que não era denominação exclusiva. Os mozinhos eram moços, e outros sim adultos, que serviam nos templos, mediante remuneração, algumas vezes destinados à vida eclesiástica. Viterbo fala-nos até de uma Confraria de Moozinhos existente em Coimbra no ano de 1281. Há muito que desapareceram os nossos mozinhos. O mais novo do meu conhecimento vivia no final do séc. XVI. Vi-o num assento de baptismo, letra do tempo, da freg.a de S. Romão do Coronado, era de 2-12-1590. Espanha ainda tem hoje os monaguillos ou monacillos, irmãos dos nossos mozinhos, quanto ao nome e sua origem. No séc. XVIII, têm-me aparecido uns ermitães a morar junto a capelas confiadas à sua devota guarda. Vou referir-me apenas a dois, ambos chamados Domingos, que viveram nas cercanias da «Ermida da Senhora da Lapa ou Santo António» (sic), da freg.a de S. Martinho de Lagares. O primeiro, Domingos Alves, já se encontrava «Velho de ssetenta annos de hidade» quando fez o seu testamento, em 20-6-1710, que possuo em cópia, por inteiro. O meu regalo era transcrevê-lo todo aqui, tão formoso é aquele testamento! (E aonde o espaço para tanto?). O outro ermitão, Domingos do Sacramento - nome tão sugestivo! - vem nomeado numa escritura de doação, feita em 11-9-1748, de que também tenho cópia fiel. Os outorgantes dessa escritura, senhores que eram da «Caza de Ordins», disseram que doavam à referida «Capella e a seos eremitoes» um cerrado contíguo à mesma, porque estavam muito agradecidos ao Domingos do Sacramento, pelo seu grande zelo em manter «a dita Capella bem ornada e venerada». Tais ermitãos, a bem dizer eram sacristães daquele tempo, herdeiros do ofício dos mozinhos de antanho. (Ainda há poucos anos ouvi chamar «ermitão» ao sacristão do Bom Jesus, em Braga). Depois disto, alguém achará impossível imaginar um mozinho, em serviço de sacristão, junto da ermida de S. Antão (fora de dúvida, muito anterior a 1622), ou então muito perto do Mosteiro das Freiras? Por mim, teimo em vê-lo em tal sítio, a uma distância plurissecular, a projectar-se, no futuro, mercê de uma simpatia tão forte criada na alma do Povo que fez que ele identificasse o monte com a veneranda pessoa do Mozinho.
MONAQUINO