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A Ermida Renasceu...







A velha ermida de S. António, na freguesia de Lagares - talvez anterior ao séc. XVI - remoçou de algum modo da sua decrepitude por fins do século de seiscentos, graças à introdução que nela se fez do culto da Senhora da Lapa. Em 1757, novo surto de vitalidade experimentou ao ser escolhida para sede de confraria dos Santos Passos e das Almas, com o beneplácito de Bento XIV. Pelos seus estatutos sabemos prover-se naquele tempo a assistência espiritual e temporal dos confrades, pois os irmãos pobres, além dos sufrágios, tinham direito a médico, remédios e mortalha. Esplêndida acção social a igreja desenvolveu outrora através das confrarias; pena é que em nossos dias elas tivessem perdido tão simpática função humanitária!
Com o decorrer do tempo, o esfriamento do culto da Senhora da Lapa, aliado a outros factores, levou a ermida à beira da sua completa ruína. No segundo quartel do séc. XIX, surgiu um grupo de homens, cheios de ardorosa Fé, que se propuseram restaurar a capela da Senhora da Lapa. À frente, como já se disse, estava Manuel de Sousa Rangel. Esses beneméritos, «com esmolas por eles mesmos ofertadas e com outras que por sua diligência obtiveram, reedificaram, de 1844 a 1852, a sobredita capela, dando-lhe muito maiores dimensões». A partir de 1855, foi também construída, junto da reformada ermida, uma torre e uma casa «com destino a colégio», onde um capelão «dava aulas de primeiras letras e gramática latina e ensinava a doutrina cristã aos meninos». Foi ainda nesse tempo que se projectou um plano para erecção de «quinze capelas dos Passos e Calvário».
Já é tempo de nomear aqui os principais colaboradores de Manuel de S. Rangel. Foram eles os padres Fr. João e Fr. José, frades da Província da Soledade - egressos em 1834, por força da extinção dos conventos - e mais o P.e Joaquim Moreira da Rocha e Sousa - três irmãos nascidos na Casa da Aldeia de Baixo, em Lagares. É plurissecular a permanência neste lugar da família desses clérigos. A sua ascendência vai entroncar, no séc. XVI, com os pais do fundador da igreja da Misericórdia de Penafiel - o P.e L.° Amaro Moreira de Meireles. A relativa importância social e económica da Casa da Aldeia de Baixo deriva mais proximamente do facto de André de Sousa - f.° leg.o de António de Sousa e de Jerónimo Antónia, casados em 22-5-1693 e residentes na referida moradia - ter realizado o seu casamento, a 17-11-1727, com Antónia Moreira de Sousa, da Casa de Vila Meã, na freg.a da Capela. Este André e sua mulher Antónia foram os bisavôs paternos dos três sacerdotes acima mencionados. Um sobrinho destes eclesiásticos, chamado Manuel Moreira Rodrigues Lopes - f.° leg.o de seu irmão António e de sua mulher Violante Rosa Rodrigues Lopes, natural da Casa de Gilferros, casados em Lagares, a 28-8-1837 - foi quem herdou de Manuel de S. Rangel as suas casas e cerca, sitas na Senhora da Lapa, como consta do testamento com que este faleceu, registado no L.° 26 da Administração do conc.º de Penafiel.
MONAQUINO

Ao Redor da Senhora da Lapa




No «Relatório do Movimento R da Diocese do Porto» - relativo ao ano 1922-23, publicado em 1921 - o P.e Dr. H. Alves da Rocha, então pároco de Lagares e vigário da vara, escreveu uma pequena notícia histórica em que se aponta S. Antonino como orago da capela pública «onde se venera N. Sr.ª da Lapa e tem sua sede a confraria dos Santos Passos e das Almas». Tinha-se presente esta notícia ao ser redigido o ligeiro apontamento acerca da mencionada capela, aqui publicado na pretérita semana. O caso foi objecto de reflexão, mas não se lhe fez referência porque as fontes, em que se encontra baseada a afirmação do autor, não são consideradas fidedignas, e a hipótese formulada parece inaceitável. No entanto, é sabido que S. Antonino vive na tradição oral da freguesia e a imagem tem assento no altar-mor da capela.
Como e quando terá começado em Lagares o seu culto? Que santo «eremítico» e «mártir» terá sido ele?
Apesar de muita indagação, nada de certo consegui apurar a respeito de S. Antonino. Alguém poderia dar uma achega que espevitasse a luz da nossa candeia? Agradecia-se.
Posto isto, falemos dos obreiros da restauração da referida capela em meados do século passado. Entre todos foi seu maioral Manuel de Sousa Rangel. Este senhor Rangel nasceu na Casa de S. Julião em S. Tiago da Capela, a 6-3-1808, e
foi baptizada pelo P.e
Manuel de S.a Rangel, irmão de seu pai, sendo padrinho um seu tio-avô paterno, P. António de S.a Rangel - ao tempo pároco da freguesia. Manuel Rangel fora casado com D. Maria Pereira do Lago, da Casa do Souto, em Guilhufe, onde veio a falecer, sem descendência, a 3-4-1878.
O trisavô paterno de Manuel Rangel, chamado Manuel André nascido a 18-2-1642 e casado na freg.ª da Capela, com Antónia Luís da Rocha, em 30-1-1678 - já usava o sobrenome Rangel e vivera com seus pais Domingos Jorge e Isabel André na sua Casa de S. Julião. Há séculos radicada neste lugar, a família Rangel conta bastantes eclesiásticos e algum frade, em sucessivas gerações. O facto de Manuel Rangel ter posto a sua generosidade ao serviço da restauração de uma capela fora da área da sua freg.ª, explicar-se-á pela circunstância de sua mãe - Marta Teresa, casada com António de S.a Rangel ser natural de Quintandónega (sic), em Lagares; melhor, talvez por via de sua bisavó paterna - Catarina de Sousa, mulher de Manuel Rangel da Rocha (com quem casou a 5-5-1726) - ter ido para S. Julião da Casa de Aldeia de Baixo, da mesma paróquia lagarense. Esta razão deve ter influído bastante no ânimo de Manuel Rangel, pois encontrámo-lo a restaurar a velha ermida de mãos dadas com três sacerdotes irmãos, seus parentes pelo lado paterno, oriundos da Casa de Aldeia de Baixo. Vê-los-emos todos empenhados nessa meritória tarefa.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1969-11-21, p.06