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Tomar banhos e águas sulfúreas






Fez-se alusão da última vez a uma freira — irmã de José Urbano, Capitão-Mor de Penafiel — que do seu Convento da Madre de Deus de Monchique, no Porto, veio para as Quintãs de Valpedre, «afim de tomar banhos e agoas sulfureas». Esta breve informação, colhida no próprio assento do óbito da Religiosa D. Joana Bernardina do Amor Divino — falecida nas Quintãs em Fev.o de 1815 — sugere-nos um ligeiro comentário.
O amigo leitor, no caso de lhe haver merecido alguma atenção tal referência, talvez tenha perguntado a si mesmo se as mencionadas «agoas sulfureas» seriam as das Termas de S. Vicente ou da Torre. Bem sabido é que nenhuma das actuais estâncias termais existiam naqueles recuados tempos do princípio dos anos de oitocentos, pois que ambas remontam ao final do século passado. Que águas sulfúreas seriam então essas que a Freira do Amor Divino veio procurar à nossa terra, para alívio dos males que padecia? Cá por mim direi que foram as águas sulfurosas da Torre. Este meu pensar baseia-se no facto de Pinho Leal, no seu Portugal Antigo e Moderno (voc. Portela), ter escrito por volta de 1876, que essas «famosas águas» — erradamente «denominadas d'Entre os Rios» — começaram a usar-se desde 1790, «como medicamento interno», com «maravilhosos resultados em várias doenças, sobretudo em padecimentos de estômago». Não vale a pena discutir a historicidade do caso, mas penso que sempre havia de ser causa de muito agoniar os enfermos terem de ingerir tais águas sulfúreas...
Conforme nos garante o citado autor, «os médicos do Porto», nessa longínqua data, encontraram nelas mais «vantagens» que em quaisquer outras. Daí a sua comercialização. No tempo de P. Leal, as águas d'Entre os Rios «se exportavam constantemente em grande escala (engarrafadas) para todos os pontos de Portugal, e para o estrangeiro, principalmente para o Brasil».
Em 1815 e mesmo em 1876, as águas de S. Vicente, bem como o balíneo romano, ainda se encontravam soterradas, devido aos depósitos de aluvião ali acumulados.
Regressemos às Quintãs de Valpedre. Sem ter conseguido minorar os seus padecimentos, a freira do Mosteiro de Monchique aí falecia em 2-2-1815. Gravemente enferma, recebeu os sacramentos da Penitência e da Extrema-Unção. O não ter sido possível confortá-la com o «Sagrado Viático» leva a crer que o seu mal seria padecimento de estômago.
Morreu acarinhada pelo irmão José Urbano e pelos sobrinhos, filhos do «Capitão-Mor graduado». Quem sentiria mais profundamente a morte de D. Joana Bernardina seria sua irmã D. Casimira do Monte Carmelo, Religiosa também no Convento da Madre de Deus (se é que viva ainda então). Juntas, muito jovens talvez, foram da casa de seus pais professar no Mosteiro de S. Clara de Caminha. Em 1779, graças às diligências efectuadas por seu irmão José Urbano, transitaram juntas para o Convento da Madre de Deus de Monchique, no Porto. Para tanto, foi necessário obter um «Breve Apostólico» acompanhado do indispensável «Beneplácito Régio». Coisas deste género se passavam nesse tempo, e muito mais tarde ainda, no Reino de Portugal fidelíssimo, por intromissão indirecta do Estado nos domínios do Espiritual.
Por MONAQUINO

O Sargento-Mor





Não sei se o Sargento-Mor de que se vai falar se notabilizou por algum feito militar, ao menos por ocasião das invasões francesas, mas certo é que foi homem de bastante preponderância social em terras de Penafiel, no último quartel do séc XVIII e nas três primeiras décadas dos anos de oitocentos. Viveu a maior parte da sua vida em Lagares e também em Valpedre. Chamou-se José Urbano Pereira de Melo e Alvim. Quem for medianamente entendido na genealogia das principais famílias daquele tempo, nesta região, logo há-de descobrir pelos apelidos que ele pertencia à boa estirpe da gente que vivera mais de dois séculos nas Casas da Granja, em Lagares, e Quintãs de Valpedre.
José Urbano nasceu em Março de 1745 na Quinta da Boavista, em S. Ildefonso, muito perto da muralha fernandina do Porto. Os seus pais já são nossos conhecidos: José Pereira de Melo e Alvim e D. Teresa Angélica de Melo. Sabemos também que eles herdaram essa quinta das mãos do tio Cónego Ribeiro Nunes. Aí viveram em relativa tranquilidade até que um dia a desventura lhes foi bater à porta. Primeiramente, o falecimento do marido de D. Teresa; mais tarde, a viúva sofreu o grande desgosto de assistir à venda em hasta pública da Quinta da Boavista.
Nunca teria passado pela mente do Cónego Ribeiro Nunes a ideia de que tão infausto destino adviria à sua casa, capela e quinta, dentro de tão pouco tempo. Se o houvera previsto, com certeza o Cónego morreria de desgosto. Bem falíveis são os cálculos dos homens!
D. Teresa Angélica acolhera-se então junto da sua irmã D. Perpétua Luísa, na Casa da Granja, em Lagares. Esta já nessa ocasião era viúva do Cav.o Fr. Manuel Leite de Melo, que falecera em Janeiro de 1761.
José Urbano, à semelhança do avô paterno, ingressou na carreira das Armas. Em 1778, morava «defronte do Calvário» na cidade do Porto, mas em 1779 já residia também em Lagares. Novos rumos iam abrir-se agora para a sua vida. Assim, em 5-11-1781, na Capela de S. António da Granja, «com licença do Prelado», casava-se com uma sua parenta em 2.o grau, Dona Joana Thereza da Cunha Serqueira Pereyra de Mello Alvim, filha legitima de Manuel José Ribeiro de Macedo e Melo e de sua mulher D. Jacinta Bernarda de Carneiro e Melo, da Casa das Quintãs em Valpedre — neta paterna de Jerónimo de Macedo e Melo e de sua mulher D. Mariana Luísa Clara: neta pelo lado materno de Jacinto Carneiro Sequeira e Melo e de sua mulher D. Maria Josefa de São Jacinto, da freg.a do Salvador de Resende.
Por aqui se vê que José Urbano contraíra matrimónio com uma neta de uma irmã de sua mãe, muito nossa conhecida também: D. Mariana Luísa Clara, que fora casada com Jerónimo de Macedo e Melo, das Quintãs de Valpedre. José Urbano, além de Sargento-Mor, foi também Capitão-Mor. A sua residência preferida foi na Casa da Granja, se bem que estivesse, com frequência na Casa das Quintãs. Da última vez a fazê-lo, adoeceu aqui gravemente sobrevindo-lhe então a morte. Aí faleceu, cm 24-5-1831, e foi sepultado na igreja de Valpedre, em sepultura que era propriedade da sua Casa.
Já agora não resisto à tentação de contar ter sido também ocasionalmente que morreu nas Quintãs uma das duas irmãs de José Urbano que foram professas no Convento de Monchique, no Porto. Aconteceu isso com a Religiosa D. Joana Bernardina. Saíra «com Breve» do seu Mosteiro «afim de tomar banhos e aguas sulfureas», vindo hospedar-se «em casa de seo Irmão e sobrinhos na Quinta das Quintans». Mas não regressou ao Convento, porque no dia 2 de Fevereiro de 1815 «passou desta vida p.a a Eterna»...
Foi a sepultar na Igreja de Valpedre «envolta em seo habito» e seu Irmão «o Cap.am Mor Joze Urbano Per.a de Melo Alvim» mandou fazer-lhe «um oficio de Exequias».
Por MONAQUINO

 

Todos a uma mesa...





Quando há cerca de quinze dias houvemos de interromper a leitura da escritura do dote de casamento de José Pereira de Melo e da Teresa Angélica, não se tinha falado ainda da dádiva oferecida aos noivos pela D. Joana Maria, mãe do futuro esposado. Em primeiro lugar veremos hoje como a «Donna Viuva» foi também assaz generosa. Chegada a sua vez de falar, disse, cheia de contentamento, dotar o filho e a futura esposa com «a quinta do Outeiro», que possuía na freg.a da Raiva, incluindo «todas as medidas sabidas» ali pagas, e «o engenho de azeite», também sua pertença. Em seguida, o filho José vem dizer que se dota a si mesmo com «a fazenda que houve por Carta de compra», situada na dita freg.a. Além disso, o irmão deste, P.e Ant.° Per.a de Melo e Alvim, aparece também como doador, por ter «grande desejo» de ver o irmão José casado com a Teresa Angélica; faz-lhe doação de «hua morada de cazas», sitas na «Rua de simo da Lada», no Porto.
A tudo isto que fica dito, podiam acrescentar-se ainda certas disposições referentes a dinheiros e bens de alma, contidas na mesma escritura, mas para evitar delongas dá-se por terminada neste ponto a relação sucinta deste dote de casamento. Importa todavia não deixar de referir o que disse, em último lugar, o Cón. Ribeiro Nunes palavras que foram afinal um esclarecimento sintético do pensamento orientador de toda a dotação feita. O cónego «declarou» então o seguinte: «os ditos dotados viverão em esta quinta (da Boavista) com as dotadoras e dotador, e os terão todos a hua meza, e todo o dispêndio que fizerem sahirá dos rendimentos de todos os bens dotados, de parte a parte, nesta escritura...».
A expressão «todos a hua meza» merece ser sublinhada, porque muita sugestiva...
— Não é ela uma feliz imagem evocadora dos mais puros sentimentos familiares do Cónego Domingos?
De verdade, dera sempre testemunho de muita dedicação à família. Nos primeiros tempos da sua carreira eclesiástica, como já se disse, ele «tratava e curava com grande amor e zello» a segunda esposa de seu pai, aquando de «grave idade e muito doente»; pelo falecimento do Alferes Manuel Ribeiro Nunes, em Vilarinho de Peroselo, recebeu em sua casa da Boavista a cunhada viúva, Maria Ferreira da Cruz, que ali passou o resto dos seus dias, na companhia das filhas; a todos os sobrinhos ajudou o mais possível a elevarem-se na vida. Sem dúvida, trata-se duma simpática faceta da personalidade profundamente humana deste Cónego da primeira metade do século de setecentos...
Na mente do Cónego Domingos, o dizer-se «todos a hua meza» não equivalia sòmente a afirmar vida familiar em comum, em regime de inteira comunhão de bens, mas era mais que isso, — vida de perfeita sintonização de almas e corações!
O caro leitor desculpará de me ter deixado dominar por certo entusiasmo de momento, quase me esquecendo do fio da narrativa. Dou-me pressa em retomá-lo para chegarmos ainda hoje à festa do casamento de José e de Teresa Angélica.
Aos 7 dias de Julho de 1734, feitas as denunciações sem aparecer impedimento algum, na Capela da Senhora da Conceição, da Quinta da Boavista em presença de «muitas pessoas» — o Cónego Ribeiro Nunes recebeu em matrimónio, como manda a Santa Madre Igreja, José Pereira de Melo e Alvim com Teresa Angélica de Melo.
Se o casamento de Mariana se revestiu de certo aparato (socialmente falando), de não menor importância deve ter sido o de Teresa Angélica. Nesse particular, cada um de nós poderá imaginá-lo a seu bel-prazer. Quanto a mim, o que mais me prendeu a atenção foi o facto de Teresa não ter usado no dia do casamento, bem como em todo o tempo ao diante, nenhum dos apelidos de seus progenitores — segundo creio, porque eram de sabor plebeu.
O apelido «de Melo», que figura no assento de casamento e se há-de manter pela vida fora, com exclusão dos da sua família de origem, fora tomado de empréstimo!
Oh! vaidade das vaidades, de qualquer forma, sempre andaste ligada, em todos os tempos, a todos e a tudo que é humano...
Por MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1972-03-12, p.06

Casamento desfeito...





Após o consórcio de Mariana, seria de esperar o de Teresa. Decerto ninguém se há-de amofinar por eu ter preferido desta vez um casamento desfeito. Não é dissolvência de vínculo conjugal, mas apenas rescisão de mero contrato, despido de todo o carácter religioso ou canónico.
Se bem se lembram do que foi dito a propósito do enlace de Jerónimo e D. Mariana, já sabem que a Quinta das Quintãs, em Valpedre, fez parte do dote que o Capitão Ant.º de Araújo ofereceu ao filho para se casar. Talvez não se tenham esquecido também de que o Jerónimo tinha dois irmãos Manuel e António. O que não hão-de saber é que o irmão Manuel — filho mais velho do Capitão teria sido o herdeiro dessa mesma casa e quinta se não fora demanchado um contrato em que chegara a ajustar-se o seu casamento com uma jovem fidalga da vizinhança, moradora na solarenga casa da Quinta do Cabo, em Cimo de Vila de Valpedre.
Como decerto terão gosto de ficar a conhecer a distinta donzela, vai fazer-se a sua apresentação.
Direi, em primeiro lugar, que ela tinha um nome deveras formoso: D. Serafina Pinto da Cunha de São Miguel e Vasconcelos. Era filha de Pedro da Cunha Carneiro e de sua legítima esposa D. Maria Vieira Barbosa de São Miguel — esta oriunda da Quinta da Quintela, em Guilhufe. Sua mãe faleceu nova, em 1709, com 25 anos apenas, em Arrifana de Sousa, onde o marido exercia o importante cargo de Escrivão dos 0'rfãos da Comarca de Penafiel. Serafina tinha então dois meses de existência; Clara Maria, sua irmã mais velha, andava em dois anos e meio.
Pedro da C. Carneiro não quis contrair novas núpcias. As duas meninas cresceram em ambiente da mais carinhosa afeição, graças aos desvelos do pai e da avó paterna, que era madrinha de Serafina. Viveram em Arrifana de Sousa e frequentemente em Valpedre. No ano de 1724, Cunha Carneiro sofreu grande abalo moral com o falecimento da sua mãe, ocorrido na Quinta do Cabo. Foi numa altura em que as duas órfãs, em plena adolescência, mais careciam da companhia e do conselho amigo da avó, que tinha sido para elas a mais dedicada das mães.
A mais velha, Clara Maria, casou em Valpedre, a 11-2-1726, com o Capitão José de Castro Pereira, rico lavrador da Quinta de Bouça Cova, em Gondomar.
Pedro Carneiro, já adiantado na idade, pois nascido em 1668, e também enfraquecido de ânimo por causa dos infortúnios da vida, ardia em sumo desejo de que a sua filha mais nova não tardasse a contrair matrimónio. Sorria ao pai a ideia de que ela se casasse com o filho mais velho das Quintãs o nosso já conhecido Manuel de Araújo de Macedo e Melo. A Clara Maria estava longe, pois teve de ir viver com o marido para Gondomar. A Serafina se casasse nas Quintãs ficaria sempre bem perto do pai, servindo-lhe de amparo e conforto na velhice. E depois não era só fundirem-se as duas famílias numa espécie de única família, — eram as quintas do Cabo e Quintãs a erguerem uma só Casa, como não haveria outra em toda a redondeza!
Assim pensava Cunha Carneiro e assim veio a pensar também o Capitão Ant.o de Araújo. Quanto ao Manuel, não haja dúvida, gostava imenso da Serafina... Eis porque, no decorrer do ano de 1729, pais e filhos, das Quintãs e do Cabo, compareceram certo dia em casa dum tabelião e o casamento do Manuel com a D. Serafina ficou ali assegurado em longa escritura de dote, com as melhores garantias de eficiência.
Lavrou-se, é verdade, essa escritura dotal, mas o matrimónio é que nunca chegou a realizar-se!
Como li num documento da época, o facto deu-se «por respeito de algumas circunstâncias que houve».
O Manuel, desgostoso, nunca mais pensou em casar-se e de boamente concordou que a propriedade das Quintãs passasse para o irmão Jerónimo.
Serafina — nome tão angelical! — só podia encontrar deleite nas místicas núpcias que se oferecem a uma alma em Religião. No ano de 1731 era freira clarissa: «se achava Rellegiosa no Convento de Santa Clara da cidade do Porto».
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1972-02-11, p.04

 

Casariam mal?





Mal cabia em si de contente o Cón. Ribeiro Nunes sempre que lhe vinha à lembrança o feliz casamento da sobrinha Mariana com o Jerónimo das Quintãs de Valpedre. Coisa natural, sem dúvida, já que fora ele o artista principal de obra tão bem acabada. Preocupava-se todavia de não ter encontrado ainda quem houvera de ser digno consorte da sobrinha Teresa Angélica.
Não sei bem por que artes, certo dia foi descobrir, adentro dos muros da cidade do Porto, um jovem dotado dos melhores predicados requeridos para o seu caso. Tratava-se dum filho de família distinta, morador na «rua de Sima do Muro», onde vivia na companhia de sua mãe, D. Joana Maria de Melo e Alvim — «Donna Viuva que ficou do Cappitam Manuel Pinto Pereira». Chamava-se José Pereira de Melo e Alvim. O Cónego Domingos simpatizou com o rapaz por ter apelido indicativo de origem fidalga e além disso porque a sua mãe era senhora duma boa quinta, na freg.a da Raiva, em terras do conc.o de Paiva. Convém acrescentar ainda que ele era irmão do Rev. Fernando de S. Pedro — «Cónego secular do Evangelista» —, como irmão era também do clérigo P.e Ant.o Pereira de Melo e Alvim. A D. Joana Maria, quando soube dos desígnios do Cónego Ribeiro Nunes, parecia ter ficado aliviada do pesado luto da sua viuvez, por antever o filho casado com a prendada sobrinha dum Cónego da Sé Catedral, dono da Quinta da Boavista. Desde aí, começaram a estreitar-se as relações de amizade entre as duas famílias e deste modo, dia a dia, se iam entrelaçando mais, em mútua afeição, os corações do José e da Teresa.
Nada se estranhou por isso que dentro de pouco tempo se ajustasse o casamento entre os dois. O tio Cónego Domingos mandou vir então à sua Casa da Boavista o tabelião e foi lá que se lavrou a escritura de dote, no dia 8 de Junho de 1734. Uma cópia fiel desse curioso documento habilita-me a contar o que se passou nessa ocasião
Além do Cón. Ribeiro Nunes, dos futuros esposados e suas mães — ambas viúvas — estiveram presentes qualificadas testemunhas, quais foram o Deão da Sé portucalense, Jerónimo de Távora e Noronha, o Rev Arcediago do Porto, Dom Manuel de Noronha e Meneses, e ainda o Cón. Sebastião de Prada Lobo. Na presença de todos o tio Cón. Domingos começou por dizer que o José e a Teresa «estavam contratados por palavras de presente para, com o favor de Deos e graça do Divino Espirito Santo, haverem de cazar». Declarou em seguida que «recebendo-se hum com o outro, em face da Igreja», dotava à sua sobrinha e futuro marido «a quinta da Boavista, com todas as suas cazas, Cappella, e Campos e almazens». Mais acrescentou ainda que também Ihes dava em dote as «fazendas» e «casas» de Vilarinho e Valqueira, em Peroselo; um «olival» na Quebrada de Rio de Moinhos; «huas terras», na Salgã de Oldrões, bem como a «tapada» da Formiga, na freg.a de «Campanham».
Nesta altura, afigura-se-me ver o prezado leitor a interrogar-se a si mesmo se o nosso Cónego Domingos seria de verdade pessoa muito desprendida dos bens deste mundo.
Deixemos tal consideração mais para diante, que agora nos escasseia espaço para tratar do dote com que a mãe de Teresa Angélica presenteou os noivos.
A viúva Maria Ferreira da Cruz, depois da fala do seu cunhado Cón. Domingos, disse que, «atendendo ao grande gosto e contentamento que tinha em cazar a filha com o dito Joseph Pereira de Mello», dotava-lhes a sua «fazenda» da Quintã e o «serrado» da Devesa, em Peroselo, mais um «olival» na Salgã e «dous olivais», junto «à preza do Inferno», em Luzim.
Agora, de mau grado meu, tenho mesmo que interromper aqui a súmula do dote consignado na referida escritura, por me sentir fatigado de nomear tanta fazenda... O resto virá ao depois.
A avaliar pelo que já vimos, pergunto eu, caro leitor, acha que o José e a Teresa casariam mal?
Por MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1972-02-25, p.06

 

Três sobrinhas para casar


São três irmãs que vão casar, sobrinhas do cónego Domingos. Somente havia nomeado a Mariana mais a Teresa, mas hoje acrescento a Perpétua.Como as outras duas donzelas, fora esta um dia de casa de seus legítimos pais, em Vilarinho de Peroselo, para a Quinta da Boavista, junto aos muros da cidade do Porto, que pertencia ao seu tio cón. Domingos Ribeiro Nunes. Mas antes de prosseguir, será melhor justificar-me da omissão cometida.Foi o seguinte. As duas primeiras sobrinhas é que foram casadas pelo tio cónego; tendo ele falecido antes do consórcio da Perpétua Luísa, coube ao sobrinho, seu homónimo, o gosto de o realizar. Quer dizer, o Domingos (júnior) não só foi sucessor no canonicato do tio, mas também dele herdou a arte difícil de promover bons casamentos...Dada a justificação, vamos agora ocupar-nos do enlace matrimonial das três sobrinhas do cónego Domingos (sénior).Como tenho, na minha arca velha, abundante documentação a respeito de cada uma delas, vou contar as coisas bastante por miúdo, de modo que hoje não irei mais além da apresentação do noivo da Mariana Luísa Clara, que foi a primeira a casar. O senhor a desposar pela D. Mariana tem um nome completo de muita importância social, dentro da nossa região: Jerónimo de Araújo Leão de Macedo e Melo. Sem dúvida, nome muito bem sonante!Foi ele nascido em Valpedre, na Quinta das Quintãs. Esta casa e quinta, desde remotas eras, andou na posse dos Araújos — gente da melhor sociedade, no quadro geral das famílias de antanho de Valpedre, S. Vic. do Pinheiro e outras freguesias circunvizinhas. Não se pode duvidar da estirpe fidalga do noivo. Embora não se aprofunde aqui tal assunto — muito da predilecção dos linhagistas — sempre convém falar, em breve resenha, dos ascendentes mais próximos de Jerónimo.Foram seus pais o Capitão António de Araújo Leão e Águeda de Macedo e Melo, casados em 1701. Em primeiro lugar a ascendência paterna.O apelido Araújo entrou naquela Casa das Quintãs, pelo casamento de Isabel de Araújo com António da Rocha, avós do referido capitão, pelo lado do seu pai. A mãe de Isabel, chamada Ângela de Araújo — casada em 1604 com Gonçalo Fernandes — era filha de Cristóvão Soares e Isabel Carvalha. Cristóvão Soares era irmão do Ab.e Afonso Soares, fundador do Morgadio das Quintãs, em S. Vicente do Pinheiro.Jerónimo de Araújo Leão de Macedo e Melo, pelo lado materno, vai entroncar na mesma família dos Soares de S. Vicente do Pinheiro e na dos Macedos e Melos da freguesia de Fonte Arcada, sendo estes outrossim de fidalga geração. Ora veja-se como é.Águeda de Macedo e Melo, mãe de Jerónimo, era filha de Isabel Barbosa da Cunha — nascida esta na Quinta de Vila Verde, em S. Vicente do Pinheiro (dos Soares das Quintãs) — do seu legítimo 2.º marido Jerónimo de Macedo e Melo, moradores que foram em S. Tiago de Fonte Arcada.O pouco que se disse acerca da genealogia de Jerónimo bastará para ninguém pôr em dúvida a distinta linhagem do noivo de Mariana Luísa Clara.Esta sobrinha do cón. Domingos, nascida em Vilarinho de Peroselo, não poderia apresentar-se com fidalguia de pergaminhos, mas decerto possuía muita nobreza de alma e coração, aliada a uma educação primorosa que pudera adquirir em casa do seu tio, na Quinta da Boavista.Os amigos leitores querem assistir ao auspicioso enlace de Jerónimo e Mariana?Pois venham, que hão-de gostar!


 

MONAQUINO

Casou bem





Está hoje em cena D. Mariana por ser a primeira a casar das três sobrinhas do Cón. Ribeiro Nunes.
Foi no mês de Janeiro de 1732 que o Jerónimo de Araújo Leão de Macedo e Melo se consorciou com D. Mariana Luísa Clara Ribeiro. Com muitos dias de antecedência, em casa do Rev. Cónego Domingos — na Quinta da Boavista — um tabelião do Porto lançara no seu Livro de Notas uma escritura de dote a favor dos futuros esposados. Quanto ao dote, as coisas passaram-se, mais ou menos, como vou contar em resumo.
A noiva dissera que se dotava com quinhentos mil réis que lhe deixara seu tio António Ribeiro Nunes, falecido no Rio de Janeiro; a mãe de Mariana, a Snr.a Maria Ferreira da Cruz, que estava presente — já viúva do Alferes Manuel Ribeiro Nunes — deu em dote à sua filha duzentos mil réis; o tio Cónego Domingos, «pello muito amor que tinha à sobrinha», fizera-lhe mercê de quinhentos mil réis, sem levar em conta os quatrocentos mil réis que havia gastado com ela, «em pessas de ouro e prata, custosos vestidos, moveis e trastes de caza».
Por outro lado, o Capitão António de Araújo Leão — «para os encargos do dito matrimónio, se tivesse effeito» — dotara o filho Jerónimo com a «quinta ou Casal das Quintains, com todas as suas pertenssas», em que vivia em Valpedre, juntando-lhe as casas e terras que possuíram os seus tios P.e Agostinho da Rocha e P.e Manuel de Araújo — além de outros bens. E mais disse ainda que reservava para seu sustento e dos dois filhos solteiros — Manuel e António — o terço de todo o pão, vinho, azeite e castanhas, bem como de toda a espécie de legumes colhidos nas mesmas propriedades. No caso de não ficar a viver com seu filho e nora, utilizaria «a salla nova que fés e a cozinha da heira e a logea para ter sua besta, que pensará na dita quinta».
Esta escritura de dote, com que haviam de casar Jerónimo e Mariana, foi testemunhada pelo Abade Inocêncio Murrão de Morais Alão e pelo Governador das Armas da cidade do Porto, António Monteiro de Almeida; nela se encontram as suas assinaturas, assim como as de todos os intervenientes deste público documento. Só lhe falta a assinatura da mãe de D. Mariana, «que por dizer não sabia ler nem escrever, rogou a seu filho, o Rev. Con. Domingos Ribeiro Nunes (júnior), que por ella assignasse».
Decorrido mais de mês e meio, realizou-se, a 9-1-1732, o enlace matrimonial. Com licença do «Senhor Governador do Bispado», o casamento pode efectuar-se na Capela da Senhora da Conceição, pertença da mesma Quinta da Boavista.
Como era de esperar, assistiu como oficiante ao solene acto religioso o tio Cónego Domingos.
Foi um dia de muito júbilo na Casa da Boavista! Estiveram ali presentes «muitas pessoas», como se pode ler no assento do casamento. Lá estavam com certeza convidados das famílias da Cidade mais intimamente relacionadas com os dois Cónegos Domingos; fora de dúvida também foram presentes amigos e parentes dos noivos, vindos das freg.as de Peroselo, Gandra, Valpedre e Lagares. Serviram de testemunhas do acto religioso dois primos do noivo: Manuel Leite de Melo, senhor da Casa da Granja, em Lagares, e o P.e Jerónimo de Melo e Macedo, da Casa de Perosinho, sita em Gandra da Cabeça Santa.
Jerónimo e Mariana foram viver na sua Quinta das Quintãs, em Valpedre. Foi aí que lhes nasceu o primeiro filho, chamado Manuel, em 1-11-1733. Baptizou-o o tio Cónego Domingos, tendo sido padrinho o Rev.mo Doutor Frei Manuel dos Serafins — então «Geral dos Padres de S. Bento» — que fora irmão da avó paterna do neófito.
Longos e venturosos anos viveram nas Quintãs.
De verdade, foi um casamento muito abençoado por Deus!
Por MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1972-01-21,p.04

Promoção familiar





Em todos os tempos existiu no homem o desejo de se elevar económica e socialmente acima do meio em que nasceu, mas nunca talvez como hoje essa aspiração foi tão comum e os meios de a efectivar estiveram ao alcance de tantos.
A observação deste fenómeno hodierno, tão generalizado, dispõe-nos o espírito, por natural associação de ideias, a observar a singularidade de que se revestiu a promoção sócio-económica dum ramo dos Ribeiros Nunes de Peroselo, na primeira metade do séc. XVIII.
Da última vez, examinou-se aqui, resumidamente, o caminho trilhado pelo P.e Domingos Ribeiro Nunes para se tornar possuidor dum canonicato na Catedral do Porto. Vejamos agora a projecção que este facto teve no seu meio familiar.
O cón. Ribeiro Nunes teve um irmão, chamado Manuel, com o mesmo apelido, que morou em Vilarinho, freg.a de Peroselo, e foi casado com Maria Ferreira da Cruz, de cujo matrimónio houve filhos.
Dos rapazes nomeiam-se apenas o António e o Domingos, que seguiram a vida eclesiástica. O primeiro — P.e Ant.o Rib.o Nunes — que era o mais velho, foi pároco encomendado de Várzea de Ovelha e Abragão (desta paróquia, a partir de 1738), como mais tarde também «beneficiado» não sei de que igreja ou colegiada; quanto ao P.e Domingos — homónimo do seu tio cónego, já conhecido — foi o sucessor deste na conezia que possuía na Sé do Porto, havendo tomado posse em 30-4-1728, «por coadjutoria com futura sucessão; apenas recebida para isso a prima tonsura, condição mínima exigida naquele tempo para a recepção de benefício canonical. O P.e Ant.o Rib.o Nunes faleceu na casa que fora de seus pais, em Vilarinho, a 15-7-1769; o irmão cón. Domingos (júnior) morreu na cidade do Porto em 10-10-1755, e foi sepultado na Igreja dos Clérigos. Deixemos por ora outros pormenores da vida destes eclesiásticos para nos ocuparmos somente da elevação social de duas suas irmãs.
O cón. Domingos — tio dos dois clérigos de que falámos — em data para mim desconhecida, entrou na posse duma importante propriedade, «sita fora do postigo de Santo António do penedo» da cidade do Porto, a que se dava o nome de Quinta da Boavista. Foi aí que o cónego morou muitos anos e passou da vida presente em 1744. A casa devia ser muito ao gosto do séc. XVIII, pois até nem lhe faltava adjunta uma «Capella de Nossa Senhora da Conceipção», pertença da mesma quinta. Não há dúvida que tinha o ar distinto duma casa fidalga da época de setecentos.
Como o cón. Domingos era de temperamento muito afectivo e muito dedicado à família, trouxe para a sua companhia duas sobrinhas, filhas do irmão Manuel e de sua mulher Maria da Cruz.
Estou em dizer que então aquela morada da Boavista mais se aformoseou, porque mais batida do sol: com mais luz irradiada da presença juvenil daquelas duas meninas. Tinham elas recebido na pia baptismal, em Peroselo, o simples nome de Teresa e Mariana, mas por exigência do novo ambiente, em que agora se encontravam, passaram a denominarem-se Teresa Angélica e Mariana Luísa Clara.
Na aldeia de Vilarinho, o pai das meninas — honrado lavrador, muito considerado por todos — era agraciado também com a patente de Alferes.
O cónego não descurava entretanto a educação das sobrinhas ao nível corrente na classe média do tempo.
Tudo se ia preparando para não faltarem mais tarde pretendentes à mão das simpáticas donzelas, oriundos duma esfera social mais alta do que aquela donde provinham as sobrinhas do cón. Domingos.
Assim foi calculado e assim aconteceu, como ao diante se verá.
Por MONAQUINO

 

Ribeiros em Peroselo?





Dois ribeiros nascem em Peroselo. A bem dizer, só existe aí um ribeiro. O «ribeiro das Lavras» que desce das bandas de Vilarinho e desemboca, após breve percurso, no ribeiro que tem sua origem junto à presa de Vilar — não é mais que um ribeirito ou simples regato. Ribeiro, sim, é o que vem de Valqueira, atravessa Peroselo, de lés a lés, mete-se por Fontão abaixo, corre ao fundo de Perosinho, para se ir lançar pressuroso no Tâmega, em Rio de Moinhos.
Não longe da sua nascente, gerou ele um topónimo que não se envergonha do seu progenitor: o Ribeiro, lugar contíguo ao de Valqueira. Casa do Ribeiro se denomina também uma moradia muito antiga, cujas paredes se erguem mesmo rentes às suas águas, naquele sítio. Aconteceu ainda que muitos dos descendentes da família que habitou ali — pelo menos desde meados do séc. XVI começaram a usar, no século de seiscentos, o apelido Ribeiro. No número destes, contam-se vários clérigos.
Desculpará o prezado leitor se descobriu qualquer artimanha, por inocente que seja, na feitura deste pequeno preâmbulo, — mas o fito que tive foi o de arranjar pretexto para falar aqui de dois eclesiásticos ligados, pelo lado paterno, à Casa do Ribeiro, em Peroselo: o Cónego Domingos Ribeiro Nunes e um Cónego, sobrinho deste, seu homónimo. Hoje só tentarei delinear tosco perfil do Cón. tio Domingos.
O pai deste eclesiástico nasceu na Casa do Ribeiro, no ano de 1648, e chamou-se João Gonçalves Ribeiro (o patronímico Gonçalves já era de tradição familiar muito velha). Casou ele com Maria do Couto, e teve geração. O filho Domingos veio à luz do dia em 1675. Aos oito meses de idade ficou órfão de mãe e foi uma 2.a mulher de João G. Ribeiro, de nome Maria Francisca, que o ajudou a criar-se, com desvelada dedicação maternal. Cresceu. Na idade das opções, escolheu a carreira eclesiástica. Sendo já presbítero e morador em Vilarinho, encontrámo-lo em Abraqão, a 2-8-1701, perante o Tabelião A. da Rocha Ferraz — do extinto conc.o de Portocarreiro — a receber das mãos de Maria Francisca uma doação de todos os bens que ela possuía. Doara-lhos por não ter filhos do seu 1.o marido — Belchior Gonçalves — nem os haver do segundo matrimónio, além de que se encontrava com «grave idade e muito doente» e só o P.e Domingos «della tratava e curava com grande amor e zello».
Mais tarde, o P.e D.os Ribeiro Nunes, induzido talvez pelo exemplo do seu conterrâneo Cón. Manuel Moreira, decidira empreender uma viagem a Roma, na mira de conseguir do Papa o benefício de uma conezia na Sé do Porto. Lá partiu pois, de longada para a Cidade Eterna, onde logrou alcançar que Sua Santidade «fosse servida fazer-lhe graça de o prover em o Canonicato e Prebenda» que havia possuído, na Catedral portucalense, o Rev. Luís de Sousa Carvalho.
Por uma petição que fez ao Cabido do Porto, após o seu regresso a Portugal, sabe-se que a sua ida a Roma o obrigara a «muitos gastos», sem contar o grave prejuízo de ter sido «roubado na viagem»! Estas circunstâncias devem ter influído no ânimo dos «R.dos Senhores do Cabido da dita Sé» para eles se apressarem a «mandar tirar as inquirições de puritate sanguinis» — condição indispensável, a da limpeza do sangue, para lhe ser dada a posse do benefício canonical.
As diligências de genere efectuaram-se em Peroselo, em 5-9-1709, e o acto da tomada de posse foi logo no dia 7, do mesmo mês e ano.
Desta sorte um Ribeiro de Peroselo se promoveu eclesiástica e socialmente.
Por MONAQUINO

Regressou em liteira...





Haverá de certo quem nunca tenha visto uma liteira em museu ou antiga casa fidalga, conhecendo-a sòmente de velhas histórias que se contam ou de algum estudo acerca dos meios de condução utilizados pelo homem desde remotas eras. Se houver alguém que não saiba do que se trata, poderá valer-se dum vulgar dicionário onde estará definida como espécie de cadeirinha portátil, coberta e fechada, sustentada por dois varais compridos, levada a braço por dois homens ou conduzida por duas bestas, uma atrás, outra adiante. Como nota bem característica, acrescente-se ainda um conjunto de campainhas estrídulas, cujo alegre telintar tanto deleitava o ânimo de Camilo nas frequentes digressões que fazia em liteira, por terras do Minho e Trás-os-Montes. Veio-me agora à lembrança ter ouvido dizer que certo amador de velharias, depois de ter lido, na mocidade, Vinte Horas de Liteira, sonhara jornadear um dia na cadeirinha portátil, desde a póvoa de OveIhinha, no Marão, até portas a dentro da cidade do Porto talqualmente o itinerário percorrido pelo romancista, em vinte horas, na companhia do seu amigo António Joaquim. O simpático moço de então não chegou a realizar tal intento com receio de lhe faltar coragem para enfrentar a zombaria da gente ignara, obstinada em não reconhecer o valor documental e o encanto poético das coisas do passado.
Liteiras dos tempos idos, de quantos acontecimentos alegres e tristes não fostes vós testemunhas!
Transitaram elas ao longo das estradas velhas da nossa terra e por caminhos ínvios que davam acesso a povoações isoladas entre montes. Não se estranhe abonar isto que acabei de dizer com o testemunho colhido num assento do antigo registo paroquial de Peroselo, do ano de 1757. Encontra-se no L.o 3, fls. 195 v. Transcreve-se aqui, em grafia actualizada. É do seguinte teor:
O Rev. Jerónimo Rodrigues Lopes, natural de Peroselo e assistente actual que era na cidade do Porto, onde enfermando de uma grave enfermidade, depois de nela receber os sacramentos, reverteu em uma liteira para esta freguesia, onde chegou na noite de vinte nove de Novembro para os trinta do dito mês, do ano de mil setecentos e cinquenta e sete, onde sendo chamado pelas sete para oito horas da manhã, para examinar se necessitava de Sacramentos, me disseram não estava já em termos da repetição da Sagrada Eucaristia, e indo logo para lhe repetir o da Extrema-Unção me vieram ao caminho dar recado que tinha expirado e que fora absolvido por um sacerdote vizinho. Foi sepultado na Capela da Senhora da Conceição e ficou seu pai António Lopes obrigado aos bens de alma.
O P.e Jerónimo R. Lopes nasceu em Quintã, onde moraram seus pais António Lopes e Maria Pereira, casados a 17-11-1703. Era sobrinho do P.e Manuel Rodrigues, irmão do seu pai, e neto paterno de Manuel Lopes, oriundo da Casa de Pegas, casado com Ângela Rodrigues, de Quintã, em 10-8-1661.
O P.e Jerónimo vivia no Porto quando enfermou da mortal doença. Regressou à terra natal numa liteira... para morrer dentro de pouco tempo, após a chegada.
A surpresa de encontrar uma liteira em Peroselo, vinda daquela cidade, em meados do séc. XVIII, como que se dissipou em mim sob a impressão dolorosa das circunstâncias dramáticas determinantes da jornada e subsequente falecimento do P.e Jerónimo Rodrigues Lopes.
MONAQUINO

«Meios-Cónegos» de Pegas




Na semana que passou, fiquei-me a assistir à boda do casamento de António Lopes com Ana Moreira, em Peroselo, realizada no dia 17 de Agosto de 1676. Decorreu ela mesmo à beirinha da Igreja, na casa conhecida hoje por moradia da quinta do Couto, não se pode duvidar, foi uma festa de família muito alegre e simpática, porque de muita intimidade. Lá estavam os familiares e próximos parentes da Casa da Igreja e lá estaria também a gente mais íntima da Casa de Pegas, onde foi nado e criado António Lopes. A atenção do meu espírito naquela hora não convergiu sobretudo para o lindo par dos recém-casados, mas antes se fixou em dois jovens «estudantes» ali presentes. Ambos foram «testemunhas» daquele «recebimento», como ficou expresso no assento do Livro do Registo Paroquial.
Um deles chamava-se João Lopes, irmão legítimo do noivo; era o outro de nome Manuel Moreira, irmão por inteiro da desposada Ana.
Amigos e companheiros de estudo no Porto, ambos se destinaram à vida sacerdotal. João Lopes
ordenou-se, mas veio a falecer, a 26-4-1686, em Peroselo, apenas com 36 anos de idade. A morte deste P.e João Lopes foi decerto muito sentida em toda a família. Digo isto porque, ao organizar a árvore genealógica da Casa de Pegas, apareceu-me em três gerações seguidas um padre com o nome de João Lopes.
Quanto ao seu companheiro e amigo Manuel Moreira, já os leitores sabem que se trata do jovem que um dia o povo havia de
canonizar, chamando-lhe «Cónego Santo».
A seu respeito só agora queria pôr em relevo o quanto contribuiu ele para a esplêndida floração de vocações sacerdotais, havidas no seu tempo em Peroselo
mercê do magnífico exemplo de vida mui virtuosa, do seu inesgotável amor de ajudar os outros e consequente prestígio social que adveio à sua pessoa de Padre. Para fugir a maior digressão, apenas me vou referir hoje a alguns sacerdotes de então, oriundos da Casa
de Pegas, que passaram como tantos outros pela Casa de S. André, no Porto.
Uma irmã de António Lopes marido de Ana Moreira chamada Francisca Dias, sucedeu na morada dos pais, tendo casado em 1688 com Tomé Rodrigues. Dos seis filhos nascidos deste casal, três foram sacerdotes exemplares e chegaram a fazer parte do Cabido da Catedral portuense, posto que não fossem de verdade Cónegos, no sentido estrito da palavra. Elementos integrados no Cabido, não usufruíam categoria tão alta como tantos que houve, chamavam-se «meios-cónegos» e também «benefiados». Foram eles os irmãos Jerónimo Lopes, Tomé Rodrigues e João Lopes. O P.e Jerónimo tomou posse duma «meia bacharelia» na Sé do Porto em 1714, tendo renunciado a ela em 1741, a favor do seu irmão P.e João Lopes, a fim de ser provido na freg.a de Vila Cova de Carros, no actual conc.o de Paredes. Acabara seus dias a 22-6-1788. O Beneficiado João Lopes faleceu no Porto, a 28-11-1771. Foi sepultado na Sé. O P.e Tomé Rodrigues foi empossado também em «meia bacharelia» em 13-2-1717. O seu falecimento ocorreu em 26-10-1768. Teve sepultura na Catedral do Porto.
A procissão dos semi-cónegos da Casa de Pegas ainda não terminou. Para não abusar da vossa paciência, não se vai hoje mais além. Fica para outra vez!
MONAQUINO

S.t° André






Não será panegírico, nem coisa que se pareça, em louvor de S. André, embora haja devoção verdadeira ao insigne Apóstolo e Mártir, Razão mais comezinha posto que séria e válida motiva hoje pôr-se em relevo o nome glorioso do Santo.
É que ele está ligado a um antiquíssimo topónimo da cidade do Porto para mim evocador da parte mais interessante da vida operosa do Cón. Manuel Moreira, natural de Peroselo.
De facto, existe no Porto uma rua de pequena extensão, chamada de S. André, que entronca na de S. Ildefonso e desemboca na Praça dos Poveiros. Tomou tal denominação por ter havido outrora neste local uma capela da invocação do mesmo Santo. Ora foi por ali, mais ou menos naquele sítio, que habitou o Cón. Moreira. No seu tempo, há mais de 250 anos, a Cidade não se tinha espraiado ainda para fora das muralhas fernandinas: S. André era então um arrabalde. Dêmos lá uma fugida na companhia do conhecido P.e Henrique M. da Cunha que ele nos informará da admirável obra realizada pelo nosso Cónego, nas Casas da sua morada. Não me digam que não, venham daí, que hão-de gostar! (Não reparem nestes modos de menos cortesia, mas é esta paixão dos homens e coisas antigas, que me anda cá dentro, e me faz perder às vezes a devida compostura).
O P.e Henrique, após a enumeração de muitas «prendas e virtudes» do Cónego seu parente e contemporâneo, acrescenta, no mencionado manuscrito, o seguinte: «O M.to Rev. P.e Manuel Moreira... recolheu, nas suas Casas, sitas a S. André, extra-muros da cidade do Porto, a muitos estudantes para estudarem Gramática, Filosofia e Teologia, dando-lhas de graça, sem aluguer, e sustentando a muitos destes do mais preciso e necessário, como também a criminosos que em sua Casa se recolhiam, e outras muitas pessoas que iam a negócios, para o que tinha quatro camas sempre patentes para o seu agasalho, servindo a sua Casa de um contínuo hospital para todos que nela se queriam recolher, parentes ou estranhos».
Que pensa, prezado leitor, do que se acaba de saber, graças à solicitude do P.e Moreira da Cunha?
Matéria mui substanciosa, direi eu, para longo comentário, se não houvéramos de prosseguir.
E já continuamos na leitura do precioso nobiliário. Não seja razão para mofar ou rir o que se lê em seguida: «...e por desprezo da sua própria pessoa, com suas próprias mãos, plantava coives, hortaliças e videiras nos seus quintais para remediar pobres e hospitais».
Tenho lido várias vezes estes passos do manuscrito, mas parece que nunca me deram, como agora, expressão tão clara da rara beleza espiritual e finura de coração do Cónego de Peroselo. Se me fora possível recuar nas idades, havia de verdade ir-me «recolher» e rogar «agasalho» à sua casa, sita a S. André, a fim de admirar mais de perto a autêntica Caridade que lhe enchia toda a alma.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1971-05-21, p.04

Uma Carta...



Lembra-me agora insistentemente uma frase ouvida ao P.e Américo dos Gaiatos, em solene momento, em Coimbra, no verão de 1929. Achei-a então original, como original foi ele em toda a vida: «já não tenho tempo de perder tempo!».
Afadigado em ordenar nesta altura coisas velhas, arrecadadas ao longo de bastantes anos, dá-me vontade, de repetir e glosar o engraçado trocadilho do Amériquinho do Bairro (assim o designávamos então). Quer isto dizer que me sinto desejoso de confinar a minha actividade de espírito, no presente, só nos domínios do que é muito positivo e concreto. Defeito ou virtude, que o digam os entendidos...
Recorda-se alguém de se ter falado aqui do Dr. Benjamim Pereira Monteiro, da Avenida Calogeras, no Rio de Janeiro? Mesmo sem lembrança alguma disso, estará dentro da linha do falado concretismo — presentemente tanto da minha predilecção oferecer aos meus amigos a leitura de uma das cartas que recebi, há uns anos, do Dr. Benjamim. Vai na forma, grafia e acentuação de origem, que tem melhor sabor. Ei-la:
Rio de Janeiro 21-7-1962
Presado (...)
Foi com imenso prazer que recebi a sua carta e o folheto sobre Penafiel, folheto que já está em lugar de honra na minha pequena mas selecionada biblioteca. E não fosse a infausta notícia da morte de Abílio de Miranda seria um dia de várias bolas brancas.
As cópias de assentamentos vieram preencher lacunas que eu já considerava impossíveis. Como as conseguio o Senhor? E a lista dos filhos do licenciado Francisco José Pereira Monteiro foi um presente principesco!
Junto envio uma biografia de meu Pae João P. Monteiro, que era neto do Francisco Pereira Monteiro, filho do Licenciado Francisco José e nascido em Penafiel em 12-2-1767 e que não consegui saber quando para cá veio. Mando uma breve relação de alguns da família.
E tomo a liberdade de fazer umas perguntas
1.º As notas e assentamentos que me enviou foram obtidas no Arquivo Distrital dos Registos Paroquiais, do Porto? Aliás, escrevi para esse Arquivo 3 cartas e não tive resposta. Coisa rara, tratando-se de Repartição Portuguesa. Eu perguntava se era possível obter o assentamento de batismo de Francisco José, filho de Domingos Pereira Monteiro e de Josepha Gomes, nascido e batisado na freguesia de CONSTANCE (Santa Eulália, da comarca de Sobre Tâmega, bispado do Porto). E o Francisco José Pereira Monteiro de quem me enviou o assentamento de casamento com Ana Joaquina Beça Veloso de Barbosa. Deve ter nascido entre os anos de 1720 e 1740
2.º Existe em Penafiel uma Quinta, hoje chamada do Laranjal e que se chamou «CavaIum» e pertenceu a algum Pereira Monteiro?
3.º Os Veloso e os Barbosas eram de Penafiel?
4.º Será possível obter o assentamento do Bernardo Luiz de Beça e Barbosa e de seu pae o Licenciado Manuel de Beça Barbosa?
6.º Segundo o saudoso Abilio de Miranda ainda existem os Huet Bacelar, da casa do Fofo e que eram ligados aos Monteiro? Terão eles alguma documentação genealógica e poderia eu escrever a algum deles pedindo informações?
6.º Existe livro, artigos em jornaes, ou algum trabalho sobre genealogia de famílias de Penafiel ou sua região?
E assim continuaria a formular perguntas, mas, creio que já o estou a maçar demasiado.
Tudo que o (...) possa me enviar sobre genealogias ligadas à família eu agradeço de coração.
E espero, para o ano, mais uma vez entrar Tejo a dentro, ver a brancura da Torre de Belém, subir o Chiado e ir tomar com V. S. um Porto, no Porto. Minha senhora é Parisiense, e irá visitar a família. Iremos como sempre, a Fátima e a Lourdes, e não deixaremos de Pedir a Deus que o tenha, (...), em sua santa Guarda.
Um abraço agradecido de
Benjamim Pereira Monteiro
MONAQUINO

Retábulo-mor de Bustelo




Antes de mais, muita desculpa à Ex.ma Direcção do Notícias de Penafiel, — sempre tão acolhedora e compreensiva deste pobre velho, solitário do Mozinho por causa de vir hoje aqui intercalar um tema muito aparte daquele que prometera versar sem interrupção, até final, qual fora dar à estampa a documentação em posse, relacionada com a pessoa do Dr. A. de Almeida. A causa desta interposição, porque não dizê-lo? é o prazer que senti de me ter chegado às mãos, há poucos dias, um documento que o Prof. Robert C. Smith e o Prof. Flávio Gonçalves muito gostariam de certo ter conhecido, quando se ocuparam há anos da talha da igreja de S. Mig. de Bustelo, de Penafiel. O primeiro, como se sabe, é o notável historiador de Arte, professor na Univ. de Pensylvânia, autor de vários trabalhos em português, da sua especialidade, dos quais interessa agora citar apenas A Talha em Portugal (Lisboa-1962-1963). Nesta obra, volumosa e ilustrada, assente em rigorosa documentação aliás como todas as outras da sua autoria — Smith referiu-se à talha da igreja de Bustelo, a p. p. 109-110. Ao quedar-se em considerações sobre o retábulo da capela-mor, disse que era «lógico» à luz da análise dos dados estilísticos concluir que ele se devia à «arte de Manuel da Costa de Andrade e às lições de Miguel Francisco da Silva», acrescentando que, embora não tivesse «documentação» a esse respeito, tudo levava a crer ter sido executado entre 1745 -1750.
Mais tarde, Flávio Gonçalves — Prof. da E. S. de Belas-Artes do Porto e ilustre polígrafo — retomou o mesmo assunto em dois excelentes artigos publicados na secção Cultura e Arte do jornal O Comércio do Porto (13 de Abril e 25 de Maio de 1965), sob a epígrafe A construção da Igreja de S. Miguel de Bostelo e a sua talha dourada. Na última parte do 2.º artigo, encontra-se a seguinte afirmação: «Segundo o texto do L.° dos Óbitos de Bostelo, o retábulo-mor da igreja conventual data o mais tardar de 1742 -1743 — indicação que, a estar certa, se me afigura de importância, por provar que não só depois do retábulo da igreja de S. Ildefonso (Porto) começaram os arquitectos e entalhadores da zona portuense a aprender a lição do rococó».
Terá Flávio G., ou outrem, quem quer que seja, encontrado prova definitiva, a confirmar como «certa» a cronologia do citado L.° dos Óbitos? Ignoro. É por isso que informo os prezados leitores de que tenho presente uma escritura lavrada a 17-7-1742, do L.° de Notas do tabelião J. Francisco Teixeira, da cidade do Porto, na qual «Josephe de Afonceca, mestre emaginario e morador na rua das ortas da freguesia de São Ilfonço, extramuros», se ajustou e contratou com «frei João Bauptista, Dom Abbade do Mosteiro de Bostello» a fim de «lhe haver de fazer toda a obra do Retavello e trevuna da Capella mor do dito seu mosteiro».
A «indicação» do L.° dos Óbitos está, pois, mui «certa»!
Praza a Deus que o texto integral da referida escritura venha a ser publicado na parte documental dum futuro boletim de cultura de Penafiel.
MONAQUINO

Lá isso gostava eu!





A «Candeia Velha» fora rogada para dar sinal de vida e afirmar continuidade da sua permanência em «Notícias de Penafiel» a quando do encerramento das comemorações bicentenárias da cidade.
A ferrugem dos anos que tem e a sua luz mortiça deviam aconselhá-la a não ceder à tentação de ser pôr em lugar de evidência aparecendo em público em maré tão festiva. Assim pensava, mas depois pareceu-lhe não ficar nada mal a uma «Candeia Velha» figurar numa festa que é afinal um remate colectivo de toda a evocação de velharias da nossa terra, feita ao longo deste ano do Bicentenário. Vistas as coisas por este prisma, ninguém há-de reparar que a «Candeia entre na função.
No entanto, apesar de tudo, por amor de se guardar melhor de qualquer mofa ou detracção — que hoje em dia aparece sempre um contestante em toda a parte, seja por fás ou nefas resolveu fazer-se acompanhar à festa, de braço dado com um autor muito conhecido, do século passado, incansável divulgador das curiosidades históricas de todas as terras do País — o nosso Pinho Leal. Sabe-se que as suas afirmações são por vezes pouco válidas, mas creio que a passagem do Portugal Ant. e Mod. que vai transcrever-se aqui, deve merecer crédito ao leitor. Falando da nossa cidade, diz ele em certa altura: «Há em Penafiel diferentes indústrias, sendo a principal a fabricação de selas, selins, albardas e mais arreios para cavalgaduras, que se exportam em grande quantidade.
Mas a indústria que mais celebrizou a terra foi a fabricação de candeias de ferro, estanhadas, saindo desta cidade, anualmente, muitos centos de milheiros delas, que invadiam todos os mercados do Reino, indo ainda abastecer os estrangeiros. Chegaram a haver perto de 30 forjas, com 30 bigornas, que davam que fazer a 4 pessoas, cada bigorna — tudo a fazer candeias! De 1820 por diante, alguns oficiais (candeeiros) se foram estabelecer em Paredes de Aguiar de Sousa, no Porto e até em Lisboa.»
Acrescenta depois Pinho Leal: «Com a descoberta do petroline, decaiu muito esta indústria: mesmo assim, em 1874, só um negociante daqui, exportou, de uma vez, para o estrangeiro 200.000, por não ter mais naquela ocasião!».
O citado autor fala no mesmo passo doutra indústria da cidade: a da «factura de socos (tamancos)», também objecto de muita exportação, e «justamente reputados os mais bem acabados do Reino». Ele mesmo, em 1860, comprara numa feira em Penafiel uns tamancos por meia libra; «mas têm-se vendidos muitos a 4$50 reis cada par!». Alguma coisa escreveu ainda P. L. acerca de «botas e sapatos» de Penafiel antiga, mas são horas de acabar... Só direi, por fim, que gostava muito de ver tomar parte no cortejo do p. domingo em lugar de honra os albaldeiros, os ferreiros, (particular.te os candeeiros), os tamanqueiros e os sapateiros da nossa terra, em tempos idos. Lá isso gostava eu!
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1970-09-18, p.04

O Mercador nos Nobiliários





Já que falei na origem judaica de João Correia sempre vou referir o que dele consta de memórias genealógicas, mais ou menos conhecidas, ainda que não possa abonar por inteiro a sua autenticidade. Segundo elas rezam, o rico mercador fora natural de Arrifana de Sousa. Quem o saberá? Talvez oriundo de alguma família de marranos que de Trás-os-Montes (terra abundante em judiarias, como se conhece bem da história) descesse a tomar assento no nosso burgo com o fito de encontrar aqui terreno mais propício a transacções comerciais. Fosse como fosse, a verdade é que o dito João, ao impulso do seu génio mercantil, tão peculiar da gente da sua raça, foi levado a tentar fortuna em longínquas paragens, fora do nosso reino. Atraíram-no os empórios do norte da Europa, tão afamados no tempo, e assim «passara à Inglaterra onde fora mercador». Aí enriqueceu e casou com uma inglesa ou flamenga, chamada D. Branca, que foi a sua primeira mulher. Por força de grave agitação político-religiosa viu-se obrigado a regressar a Portugal «com seus cabedais e com sua mulher D. Branca e mais duas filhas que dela tinha havido». Estabelecera-se com sua família no Porto. É de crer (que nessa época já estivesse em efervescência no país a cruzada anti-semita que foi origem de tantos dramas e teve fundas repercussões na vida privada e pública, de carácter religioso, politico e económico-social. Por sugestão do meio ambiente, algum cálculo talvez — sem excluir verdadeira convicção — resolveu o mercador abjurar o judaísmo e abraçar a Fé católica. D. Martim Correia — Deão da Sé do Porto — foi quem lhe ministrou o baptismo. A fim de memorar o facto, João começou a usar então o sobrenome «Correia» do ilustre capitular — à maneira de escudo protector contra suspeições e possíveis aleivosias de algum cristão-velho. D. Branca, sua mulher, e mais as duas filhas é que sofreram com isso profundo abalo psíquico: tresloucadas, ter-se-iam precipitado no Pego da Lada, junto ao cais da cidade, onde se finaram tragicamente. João Correia, depois de enviuvar em circunstâncias tão dramáticas para si, veio a contrair segundas núpcias com Brites Eanes de Madureira, de quem houve geração. Foi nessa altura da vida que reedificou a igreja do Espírito Santo em Arrifana de Sousa, de mãos dadas com sua mulher D. Brites. Segundo teria declarado em seu testamento, realizara esta obra em agradecimento a Deus «pello sacar do Judeismo convertendo-o a S.ta Fé Catholica». Mais acrescento por fim que tudo isto se fundamenta em escritos de genealogistas antigos e de muita nomeada: Alão de Morais, Felgueiras Gaio e Vasconcelos Cirne.
Há anos, por amável deferência do Il.mo Snr. Abílio Pacheco T. R. de Carvalho foi-me facultada a leitura dum trabalho da sua autoria em ordem a provar que João Correia fora «natural de Inglaterra». Embora muito dignas de consideração, as razões aduzidas por S. Ex.cia não me pareceram de todo convincentes.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1970-05-08, p.06