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Casamento desfeito...





Após o consórcio de Mariana, seria de esperar o de Teresa. Decerto ninguém se há-de amofinar por eu ter preferido desta vez um casamento desfeito. Não é dissolvência de vínculo conjugal, mas apenas rescisão de mero contrato, despido de todo o carácter religioso ou canónico.
Se bem se lembram do que foi dito a propósito do enlace de Jerónimo e D. Mariana, já sabem que a Quinta das Quintãs, em Valpedre, fez parte do dote que o Capitão Ant.º de Araújo ofereceu ao filho para se casar. Talvez não se tenham esquecido também de que o Jerónimo tinha dois irmãos Manuel e António. O que não hão-de saber é que o irmão Manuel — filho mais velho do Capitão teria sido o herdeiro dessa mesma casa e quinta se não fora demanchado um contrato em que chegara a ajustar-se o seu casamento com uma jovem fidalga da vizinhança, moradora na solarenga casa da Quinta do Cabo, em Cimo de Vila de Valpedre.
Como decerto terão gosto de ficar a conhecer a distinta donzela, vai fazer-se a sua apresentação.
Direi, em primeiro lugar, que ela tinha um nome deveras formoso: D. Serafina Pinto da Cunha de São Miguel e Vasconcelos. Era filha de Pedro da Cunha Carneiro e de sua legítima esposa D. Maria Vieira Barbosa de São Miguel — esta oriunda da Quinta da Quintela, em Guilhufe. Sua mãe faleceu nova, em 1709, com 25 anos apenas, em Arrifana de Sousa, onde o marido exercia o importante cargo de Escrivão dos 0'rfãos da Comarca de Penafiel. Serafina tinha então dois meses de existência; Clara Maria, sua irmã mais velha, andava em dois anos e meio.
Pedro da C. Carneiro não quis contrair novas núpcias. As duas meninas cresceram em ambiente da mais carinhosa afeição, graças aos desvelos do pai e da avó paterna, que era madrinha de Serafina. Viveram em Arrifana de Sousa e frequentemente em Valpedre. No ano de 1724, Cunha Carneiro sofreu grande abalo moral com o falecimento da sua mãe, ocorrido na Quinta do Cabo. Foi numa altura em que as duas órfãs, em plena adolescência, mais careciam da companhia e do conselho amigo da avó, que tinha sido para elas a mais dedicada das mães.
A mais velha, Clara Maria, casou em Valpedre, a 11-2-1726, com o Capitão José de Castro Pereira, rico lavrador da Quinta de Bouça Cova, em Gondomar.
Pedro Carneiro, já adiantado na idade, pois nascido em 1668, e também enfraquecido de ânimo por causa dos infortúnios da vida, ardia em sumo desejo de que a sua filha mais nova não tardasse a contrair matrimónio. Sorria ao pai a ideia de que ela se casasse com o filho mais velho das Quintãs o nosso já conhecido Manuel de Araújo de Macedo e Melo. A Clara Maria estava longe, pois teve de ir viver com o marido para Gondomar. A Serafina se casasse nas Quintãs ficaria sempre bem perto do pai, servindo-lhe de amparo e conforto na velhice. E depois não era só fundirem-se as duas famílias numa espécie de única família, — eram as quintas do Cabo e Quintãs a erguerem uma só Casa, como não haveria outra em toda a redondeza!
Assim pensava Cunha Carneiro e assim veio a pensar também o Capitão Ant.o de Araújo. Quanto ao Manuel, não haja dúvida, gostava imenso da Serafina... Eis porque, no decorrer do ano de 1729, pais e filhos, das Quintãs e do Cabo, compareceram certo dia em casa dum tabelião e o casamento do Manuel com a D. Serafina ficou ali assegurado em longa escritura de dote, com as melhores garantias de eficiência.
Lavrou-se, é verdade, essa escritura dotal, mas o matrimónio é que nunca chegou a realizar-se!
Como li num documento da época, o facto deu-se «por respeito de algumas circunstâncias que houve».
O Manuel, desgostoso, nunca mais pensou em casar-se e de boamente concordou que a propriedade das Quintãs passasse para o irmão Jerónimo.
Serafina — nome tão angelical! — só podia encontrar deleite nas místicas núpcias que se oferecem a uma alma em Religião. No ano de 1731 era freira clarissa: «se achava Rellegiosa no Convento de Santa Clara da cidade do Porto».
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1972-02-11, p.04

 

Outra vez artes e ofícios


Vai satisfazer-se em parte a promessa devida ao prezado leitor com nova referência às artes e ofícios havidos outrora em Arrifana de Sousa. Será informação mui sucinta. A natureza do assunto pedia espaço mais rasgado para se versar tema deveras interessante para a história de Penafiel. Por desgraça de todos nós a pobreza da Cidade é tanta que não consente sustentar-se um boletim cultural, onde se poderia tratar à vontade essa matéria e muito do mais que até agora não foi versado a preceito, respeitante ao património histórico da nossa terra. Por muito modesto que fosse, sempre havia de irradiar alguma luz benfazeja. Tanto mais para lamentar esta lacuna quanto é certo que tal género de publicação existe nalgumas vilas de Portugal, cabeças de concelho. Ficava bem a existência desse boletim em Penafiel, sobretudo agora que nos podemos orgulhar com razão de se terem franqueado novos caminhos para a instrução da nossa gente. Até quando esta «apagada e vil tristeza» de nos vermos privados de tão útil instrumento de cultura? Mas com este arrazoado, cá estou eu outra vez a alongar-me em divagações, quiçá algo inoportunas... Guardemo-nos de mais desvios e encaminhemo-nos a direito ao que fora proposto.
No ano de 1619 vivia em Arrifana de Sousa um albardeiro chamado Ant.° Fernandes. Muitos mais viveram aqui nesse tempo, como também sucedeu em todo o séc. de seiscentos. Podia citar-lhes os nomes e a data da sua existência, que tudo vem muito expresso nos L.oS I e II do Registo paroq. de S. Mart.0 de Arrifana. Nos anos de setecentos acontece outro tanto. Dentro desses dois séculos, na mesma fonte, a cada passo surge um ror de almocreves. Por via da brevidade, dispensamo-nos de alumiar algum. Bem se compreende que tendo sido Penafiel espécie de entroncamento de vários caminhos vindos da região do litoral e de outras partes distantes, em direcção às Beiras, Trás-os-Montes e terras do Minho aqui proliferassem albardeiros e almocreves, bem como todas as actividades atinentes ao comerciar e andanças das gentes daquelas épocas. A par de muitos carroceiros, estribeiros e ferradores, era possível nomear um sem número de ferreiros, serralheiros, fundidores e correeiros todos a trabalhar de mãos dadas no essencial e acessório daquilo que genericamente se pode chamar indústria da selaria. Não se fique a julgar, porém, que não existira no burgo arrifanense arte mais nobre que a feitura das albardas ou ofício mais distinto que o dos homens almocreves. Nesta terra não faltaram obreiros de apurado gosto dedicados a artes de relativa nobreza. Assim o havemos de ver.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1970-10-18, p.06

Artes e Ofícios





As artes e ofícios que floresceram outrora em Arrifana de Sousa não podem deixar de ser considerados factores importantes do seu progresso. Como tais merecem ser postos em relevância no «festivo ciclo» ainda decorrente, Deus louvado! Humildes embora alguns desses mesteres deram todos quota parte de valia para o engrandecimento do burgo: daí a razão de ser desta singela evocação.
Um dia me ocorreu a ideia de organizar um pinturesco cortejo (em escrita, é bem de ver) de quantos artífices, oriundos ou moradores na terra, me iam aparecendo ao longo de velhos manuscritos, a cuja leitura era muito dado então. Nesse fito, cheguei mesmo a juntar boa soma de nomes de mesteirais que vai agora servir de base a esta anotação ligeira. Apontarei a esmo artes e ofícios, sem me prender com distinções de nobreza já que a houve em certo modo também nesta matéria, tida vulgarmente de natureza plebeia. Mais queria acrescentar ainda ter-me valido, nesta amena tarefa, dos livros de registo paroquial de S. Martinho de Arrifana de Sousa. Vem a propósito dizer-se que estes «livros findos» só tiveram início no ano de 1610 coisa mui lamentável, sobretudo para os apaixonados linhagistas. Como é sabido, o registo paroquial dos baptizados, casamentos e óbitos só começou a ser obrigatório em toda a parte a partir do Concílio Tridentino e por isso é que a quase totalidade dos livros existentes só teve princípio no último quartel do séc. XVI, ou depois disso. Dentro do nosso concelho, constitui uma excepção o registo paroquial de S. Miguel de Paredes, freguesia que o conta desde 1542graças à iniciativa do Abade António Dias, que já então o iniciara.
Avezado como sou a divagações, vejo-me agora com míngua de espaço para versar hoje o tema das artes e ofícios de Arrifana... Tenho de contentar-me por isso com transcrever somente um termo de casamento do L.o 3.° do R. Paroq. desta freguesia de S. Martinho, que lá vem a fls. 50 maneira prática até de se mostrar a utilidade variada de tais livros do passado. O assento diz assim: «António Ferreira de Sousa, preto forro q. ficou do Padre Manuel Delgado Duarte deste lugar, official de Sapateiro, vindo de Pernambuco em pequeno, e criado neste ditto lugar em Casa do ditto Padre, e nelle sempre morador; se recebeo em Matrimonio por palavras de presente em face da Igreja, e na minha presença e das testemunhas infra asignadas na forma do sagrado Concílio Tridentino e Constituiçam deste Bispado; Com Jacinta Correa, mulher branca, filha legitima de Paulo Ribeiro, peneireiro, e de sua mulher Anna Correa, a tripeira do Pelourinho, deste lugar, e freguesia. Aos vinte e sette de Março do anno de mil e settesentos, e dezanove. Sem bênçãos por nam ser tempo dellas, e ella ter //...//; de que fiz este termo na verdade, dia, mes e anno ut supra.
O Rector Manoel Carn.ro da Silva».
No termo transcrito, além do mais, surge à baila um «official de Sapateiro», um «peneireiro», mai-la sua mulher, «a tripeira do Pelourinho»... Côr e vida de velhos manuscritos!
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1970-07-24, p.01

«Com Pomposo Acompanhamento...»




Sem atavios de estilo, vai descrever-se aqui um préstito fúnebre, havido noutros tempos, com seu termo na igreja da Misericórdia de Arrifana de Sousa, que tivera de verdade «pomposo acompanhamento». Séquitos desta natureza devem interessar pouco ao leitor, mas o caso presente, creio eu, há-de merecer-lhe alguma curiosidade, se o não conhecer já doutra fonte.
O acontecimento teve lugar no ano de 1728. Encontra-se narrado em nobiliário manuscrito, guardado na Biblioteca M. de Penafiel, da autoria do genealogista P.e H. Moreira da Cunha, que li há muitos anos, de fio a pavio. O autor, depois de tecer encómios às «letras divinas e humanas» e «prendas e virtudes» dum sobrinho, em 3.º grau, do Abade do Ermelo (o nosso conhecido P.e Amaro Moreira), chamado José Monteiro Moreira — baptizado, a 16-5-1688, em S. Cristóvão de Louredo, freguesia onde moravam seus pais conta ele Moreira da Cunha que tal sobrinho fora casado com uma rica-dona da rua Nova de S. Nicolau, no Porto, de nome Josefa Joana Salazar. Filha única dum Familiar do S. Ofício e de sua mulher Josefa M.a de S. Rosa — esta, irmã do M. Rev. Padre-Mestre Fr. José dos Santos, Guardião que foi de vários conventos franciscanos —, D. Josefa Joana trouxera com dote «cincoenta e tantos contos de reis e uma das melhores casas da dita rua». José Moreira e sua mulher viveram alguns anos felizes, com quatro filhos que Deus lhes dera. Sendo estes ainda de menor idade, faleceu prematuramente sua mãe nas moradas da Quinta de Louredo, donde, foi conduzido o féretro para Arrifana de Sousa — caminho aproximado duma légua. «Com pomposo acompanhamento» saíra «ao cerrar da noite...». Cerca de trezentas pessoas, «todas a cavalo», em representação das casas principais de «duas a três léguas em circuito», iam na dianteira do cortejo fúnebre, seguidas de muita gente «a pé». Vinha depois grupo numeroso de eclesiásticos, superior a uma centena deles, «com suas sobrepelizes e tochas». Chegados que foram ao burgo de Arrifana, o corpo de D. Josefa, após longa encomendação, baixara naquela noite a uma campa aberta na capela-mor da igreja da Misericórdia. Nos dias seguintes houve «ofícios gerais», O terceiro desses actos litúrgicos realizou-se na mesma igreja com a presença de «todas as pessoas nobres daquelas vizinhanças» e a assistência «de mais de quinhentos sacerdotes», contando clérigos seculares, Abades e Reitores, frades e Prelados de várias Ordens.
Sempre eram tempos aqueles de sobeja clerezia!
Em face de tudo que escreveu o P.e Moreira da Cunha no seu nobiliário, pode concluir-se que a fundação do P.e Amaro Moreira — de fora parte os grandes benefícios trazidos à Misericórdia — muito contribuiu para engrandecer religiosa e socialmente Arrifana de Sousa e dar marcante relevo, na sociedade do século XVII e XVIII, aos membros da sua família, tão numerosa na região de Penafiel e terras circundantes.
MONAQUINO

Albergaria e Misericórdia





Em todos os tempos floresceram ao sol do Cristianismo as mais variadas instituições devotadas ao serviço dos homens, impregnadas de espírito sobrenatural, ao menos na sua origem. As confrarias, albergarias e hospitais da Idade-Média três nomes então aproximadamente sinónimos foram expressão desse sentimento cristão de amor ao próximo. As albergarias dessa época ficaram bem assinaladas na toponímia do país, mas dentro do concelho de Penafiel existe apenas o topónimo Hospital em S. Mig. de Paredes e S. Paio da Portela —, se bem que, nos dois casos, só indicativo de terem existido no local bens pertencentes à Ordem militar dos Hospitalários de Leça do Bailio. Transcreve-se da memória paroquial de 1758, referente à Portela, a passagem que assim o confirma: «Ha
no logar de corveira huma caza antiga, e forte de mediana altura, com boa portada, com a Cruz da Religiam de Malta aberta em huma das pedras sobre a porta, que serve de recibo das muitas rendas, que Balio de Lesa tem por esta terra». Sem embargo disso, não deve oferecer dúvida alguma a existência duma albergaria ou confraria do Espírito Santo em Arrifana de Sousa. Essa realidade explicará em grande parte o facto da Irmandade da Senhora da Misericórdia — fundada no Porto em 1499 —, logo no dealbar do século de quinhentos, haver lançado fundas raízes em nosso burgo. De feito, estabeleceu-se aqui, «com compromisso», no ano de 1509, todavia alguns anos antes, «sem compromisso, se lhe avia dado principio, do que se infere que o teve no mesmo tempo que na cidade do Porto» (V. Penha-Fidelis — H. da Mis. de Penafiel, A. M.). A experiência algo similar da Confraria do Santo Espírito teria preparado o terreno para se receber, com franca abertura, a fundação da Irmandade da Misericórdia. A nova confraria teve a sede defronte da actual Matriz, como é sabido, mais ou menos onde teria existido a albergaria, pois no lugar fronteiro se erguia a igreja medieva do Espírito Santo, como se tem repetido muita vez. A que data remontará a Capela de N. S. das Dores, templo privativo da Misericórdia, há muito mais dum século votado a usos profanos? Das linhas que restam da primitiva fábrica se deduz não ter sido edificada antes da Matriz. A mais bela e pujante floração da Irmandade havia de começar no fim do primeiro quartel do séc. XVII com a erecção da Igreja da Misericórdia principiada em Maio de 1622 graças à munificência do P.e L. do Amaro Moreira de Meireles.
A terminar, uma pergunta: Penafiel já deu alguma vez digno testemunho público de reconhecimento ao mais insigne benfeitor da Misericórdia? O templo, o túmulo do fundador e a inscrição da capela-mor não serão o bastante para lembrar às gerações dos nossos dias o nome ilustre do generoso Abade de Ermelo.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1970-06-19, p.06

«Ossos de Santos Garcez...»




A presente epígrafe é expressão contida numa das inscrições sepulcrais existentes na Capela do Senhor dos Passos da Igreja matriz de Penafiel. Não obstante já ter sido transcrita e comentada por diversos autores que se ocuparam dos Garceses de Arrifana de Sousa, vamos tomá-la aqui para tema de breve anotação marginal.
Encontra-se ela gravada numa pequena caixa de pedra colocada numa edícula aberta na parede lateral, à direita de quem entra na Capela. O texto completo dessa inscrição é o seguinte: «S(epultura) dos ossos de Santos Garcez da Mota faleceo em serviço delrei em Alemanha. A. 1644».
Não é caso único, mas quem não estiver familiarizado com a antroponímia de outras eras há-de fazer-lhe espécie achar-se a palavra «Santos» empregada como nome de pessoa quando nos tempos modernos sempre nos aparece usada em função de apelido ou sobrenome. Era assim naquele século de seiscentos. Quanto à identificação de Santos Garcês, não poderá existir dúvida alguma, dada a clareza a seu respeito havida nos registos genealógicos. Descendente de João Correia, pelo lado paterno, foram seus pais Cosme Garcês e sua mulher Ana da Mota que viveram em Arrifana de Sousa. O pai, Cosme Garcês, foi tabelião no julgado de Penafiel, cargo público que andara já sem interrupção nas mãos dos seus antepassados (o primeiro a exercê-lo foi Gervaz Garcês, filho de Antão Garcês e de Brites Correia, nossos conhecidos) e que havia de manter-se ainda na família por várias gerações. Santos Garcês era licenciado em Direito. Além de tudo mais, esta foi também uma das razões da sua estadia na Alemanha «em serviço delrei», a quando da ocorrência da sua morte. Mas desçamos a pormenores, a este propósito, por amor de maior glorificação da sua pessoa, e também da nossa terra. Situemo-nos dentro do quadro da política internacional portuguesa nessa época histórica de 1644. D. João IV, é certo, estava reinante, mas a independência pátria não alcançara ainda a indispensável consolidação, por causa da Espanha, mancomunada com a Alemanha, se negar sistematicamente a reconhecer os nossos direitos de nação livre. Eram passados mais de três anos após a aclamação do Rei e a guerra movida a Portugal nesse decurso reduzira-se a escaramuças, sem importância de maior. Só em Maio de 1644 havia de ferir-se a batalha de Montijo, que foi grande vitória do nosso exército. Outra acção, não menos importante que a militar, começou a desenvolver-se no campo da diplomacia internacional, nesse ano de quarenta e quatro, em ordem a promover «o equilíbrio europeu». Era urgente que o Estado português neutralizasse os manejos dos nossos inimigos na batalha diplomática a travar no território de Vestfália. Foi nesta difícil conjuntura que o L.do Santos Garcês foi convidado a prestar «serviço delrei em Alemanha».
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1970-05-22, p.06

3 Garceses na Alemanha




À maneira de exórdio, um ligeiro apontamento acerca dum capítulo importante da história geral do ano de 1644. A Europa desse tempo, cansada de muito guerrear por questões político-religiosas e ambições de predomínio, ansiava por fruir uma paz duradoira. Reclamava-se o termo definitivo duma luta que se arrastava há mais dum quarto de século e que ficou na história com o nome de «guerra dos trinta anos». As potências de maior relevância na política europeia haviam-se concertado para se reunirem na Alemanha a fim de se alcançar tão almejada pacificação. Foi escolhida a Vestfália para as negociações. Em ordem a obviar a desentendimentos resultantes das preocupações de primazia da França e da Suécia, foram estabelecidas assembleias separadas em Múnster e Osnaburgo — cidades desse território alemão, à distância duma quarentena de quilómetros uma da outra. Em Múnster, presidiam os franceses com a presença dos representantes dos países católicos; em Osnaburgo, os suecos tendo a seu lado os plenipotenciários protestantes.
Portugal viu claramente a óptima oportunidade que se lhe oferecia de cimentar a sua Restauração mediante as armas da diplomacia. Uma vez que a Espanha, de mãos dadas com a Alemanha, se opunha tenazmente a que os delegados de Portugal tomassem assento nas assembleias da Vestfália — D. João IV houve por bem determinar que os seus representantes se dirigissem à corte da rainha da Suécia (esta nação, bem como a França, Inglaterra, Holanda e Dinamarca tinham reconhecido a nossa independência) com o objectivo de que o patrocínio sueco lhes facilitasse o ingresso em Múnster e Osnaburgo.
Este prelúdio alongou-se. O intuito foi evidenciar a importância das dificuldades que encontraria a embaixada enviada por El-Rei. Foram escolhidos para missão tão difícil três Garceses descendentes de progenitores radicados em Arrifana de Sousa: o Des.or Rodrigo Botelho de Morais, na qualidade de Embaixador, o seu parente L. do Santos Garcês da Mota, como Secretário, e o sobrinho deste, Manuel Garcês da Mota. Com a ajuda dos suecos, conseguiram chegar a Osnaburgo. Botelho de Morais faleceu em breve e os inimigos de Portugal «apoderaram-se-lhe do cadáver». Santos Garcês também não sobreviveu muito tempo depois da morte do primo. A Manuel Garcês da Mota coube o encargo de trazer a D. João IV «as cartas da Rainha da Suécia» e os «ossos» do seu tio Santos Garcês, que depositou na Capela do S.or dos Passos, de S. Martinho de Arrifana. Isto consta do «Alvará de Mercê», que lhe concedeu El-Rei, do ofício de Escrivão do público e judicial, «que serviu e conservam seus descendentes, no julgado de Penafiel» — dado em Lisboa a 6 de Março de 1644 (L.º 2 dos registos, fls. 117).
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1970-05-29, p.06

O Mercador nos Nobiliários





Já que falei na origem judaica de João Correia sempre vou referir o que dele consta de memórias genealógicas, mais ou menos conhecidas, ainda que não possa abonar por inteiro a sua autenticidade. Segundo elas rezam, o rico mercador fora natural de Arrifana de Sousa. Quem o saberá? Talvez oriundo de alguma família de marranos que de Trás-os-Montes (terra abundante em judiarias, como se conhece bem da história) descesse a tomar assento no nosso burgo com o fito de encontrar aqui terreno mais propício a transacções comerciais. Fosse como fosse, a verdade é que o dito João, ao impulso do seu génio mercantil, tão peculiar da gente da sua raça, foi levado a tentar fortuna em longínquas paragens, fora do nosso reino. Atraíram-no os empórios do norte da Europa, tão afamados no tempo, e assim «passara à Inglaterra onde fora mercador». Aí enriqueceu e casou com uma inglesa ou flamenga, chamada D. Branca, que foi a sua primeira mulher. Por força de grave agitação político-religiosa viu-se obrigado a regressar a Portugal «com seus cabedais e com sua mulher D. Branca e mais duas filhas que dela tinha havido». Estabelecera-se com sua família no Porto. É de crer (que nessa época já estivesse em efervescência no país a cruzada anti-semita que foi origem de tantos dramas e teve fundas repercussões na vida privada e pública, de carácter religioso, politico e económico-social. Por sugestão do meio ambiente, algum cálculo talvez — sem excluir verdadeira convicção — resolveu o mercador abjurar o judaísmo e abraçar a Fé católica. D. Martim Correia — Deão da Sé do Porto — foi quem lhe ministrou o baptismo. A fim de memorar o facto, João começou a usar então o sobrenome «Correia» do ilustre capitular — à maneira de escudo protector contra suspeições e possíveis aleivosias de algum cristão-velho. D. Branca, sua mulher, e mais as duas filhas é que sofreram com isso profundo abalo psíquico: tresloucadas, ter-se-iam precipitado no Pego da Lada, junto ao cais da cidade, onde se finaram tragicamente. João Correia, depois de enviuvar em circunstâncias tão dramáticas para si, veio a contrair segundas núpcias com Brites Eanes de Madureira, de quem houve geração. Foi nessa altura da vida que reedificou a igreja do Espírito Santo em Arrifana de Sousa, de mãos dadas com sua mulher D. Brites. Segundo teria declarado em seu testamento, realizara esta obra em agradecimento a Deus «pello sacar do Judeismo convertendo-o a S.ta Fé Catholica». Mais acrescento por fim que tudo isto se fundamenta em escritos de genealogistas antigos e de muita nomeada: Alão de Morais, Felgueiras Gaio e Vasconcelos Cirne.
Há anos, por amável deferência do Il.mo Snr. Abílio Pacheco T. R. de Carvalho foi-me facultada a leitura dum trabalho da sua autoria em ordem a provar que João Correia fora «natural de Inglaterra». Embora muito dignas de consideração, as razões aduzidas por S. Ex.cia não me pareceram de todo convincentes.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1970-05-08, p.06

Sob o Olhar do S.or dos Passos




Quem decidir ocupar-se do problema da fundação da igreja de S. Martinho de Arrifana necessariamente tem de referir-se ao que se passou naquele tempo à volta da capela do Senhor dos Passos, adjunta à nave lateral esquerda da Matriz de Penafiel. Não se conhecem bem as razões que levaram o povo de Arrifana a preferir para local da erecção da nova igreja o terreno ocupado então pelo templo do Espírito Santo que o mercador João Correia havia reconstruído todo à sua custa, no gosto da época manuelina, havia poucas dezenas de anos — cuja capela-mor destinara a sua jazida e lugar de sepultura da família. Fazia-se mister erguer um templo mais amplo capaz de comportar os fiéis das três igrejas (a de Moazares, Espírito Santo e Louredo) então incorporadas na única comunidade paroquial de S. Martinho de Arrifana. Vai daí, por amor disso, projectar-se o desmantelamento de toda a obra de arte levantada pela mão do rico mercador, com tão devotado empenho como avultado dispêndio. Daqui se originou renhida contenda entre a população do burgo e um filho de João Correia, de nome Gonçalo, que saiu a terreiro a pugnar pelos direitos adquiridos por seu pai. Como remate da demanda, acordou-se em manter de pé a capela-mor do Espírito Santo, tal-qualmente se encontra ainda hoje, demolido tão só o que era então corpo da igreja. Salvou-se, desta sorte, de destruição total um apreciável exemplar histórico do nosso património artístico, de que Penafiel deve orgulhar-se. O ajuste entre as partes litigantes fora firmado juridicamente por uma escritura pública lavrada na cidade do Porto, nas casas de morada do tabelião Ruy de Couros aos 7 dias de Junho de 1559. Tinha, muito interesse para o nosso caso conhecer--se o texto desse convénio, mas infelizmente não existem arquivados os livros de notas desse tabelião do Porto. Que me conste, também não se sabe do paradeiro da cópia desse documento que existira outrora no cartório paroquial de Arrifana de Sousa.
É pena, porque dessa escritura talvez surgisse nova luz sobre o incidente de que acabámos de falar. Por que espécie de teimosia o povo arrifanense insistia na demolição do templo do Espírito Santo, onde João Correia despendera tanto dinheiro da sua bolsa? Carência de outro lugar adequado para edificação da nova igreja, não é crível. Acaso haveria ingratidão e malquerença votada à memória de quem fora insigne benemérito de Arrifana? Tudo é possível na alma do povo, tão susceptível de inconstância nas ideias e sentimentos. Mas afinal ainda não disse quem fora João Correia. Decerto que já lhe teremos admirado o retrato na lâmina de bronze da sua campa e lido também algumas das várias referências escritas a seu respeito, desde há muito. Apesar disso, estou certo de que o amável leitor gostaria de contemplar comigo certas facetas da sua personalidade algo misteriosa. Fica combinado — será para a próxima vez.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1970-04-24, p.04

A Matriz de Arrifana





Não será impertinência repetir que se engana redondamente quem acreditar nos dizeres da inscrição existente na porta principal da chamada capela de S. Cristóvão, em Penafiel. Aquele despropósito apresenta-se-nos como algo de afrontoso da ilustração dos penafidelenses e deveria ser eliminado em nome do decoro intelectual de todos nós — tanto mais que a capela ainda é hoje pertença da Igreja e não de modo algum propriedade particular. E mais que evidente ser destituída de fundamento sério a data atribuída à erecção do templo, bem como não deixa de ser erro menos crasso a afirmação de ter sido «a primeira matriz de Arrifana de Sousa» seja no ano apontado de 1741 ou mesmo em qualquer outra época remota. Como já foi exposto, no séc. XVII e XVIII figura na documentação com o nome de «ermida de S. Bartolomeu», pertencente à freguesia de S. Mart.° de Arrifana de Sousa: anteriormente ao segundo quartel do séc. XVI, fora de facto a sede da paróquia de S. Tiago de Louredo, mas nunca poderia ter sido a matriz de Arrifana. Não me parece fácil provar-se que a povoação ou burgo de Arrifana de Sousa fizera parte algum dia da área paroquial de Louredo. O topónimo Arrifana, como já se viu, aparece pela primeira vez no ano de 1258, no final da inquirição concernente à freg.a de S. Mart.° de Moazares, e nunca se encontra registado nos textos referentes à paróquia de Louredo
Nas Memórias do Mosteiro de Bustelo (ms., fls. 122 v.) Fr. A. Meireles diz-nos que o Abade D. Fr. João Anes emprazou a Fernão Gonçalves e sua mulher, em 9-12-1452, «uma morada de casas sitas em Arrifana q. partia com a igreja de Santo Espírito». Não se sabe de quando dataria o templo do Espírito Santo em Arrifana.
Abílio Miranda, no seu opúsculo A Igreja Matriz da Cidade de Penafiel [1942), admite a hipótese de ter sido de fábrica românica, o que não se me afigura muito provável. Seja como for, o que mais interessava ao nosso caso era saber qual a categoria canónica desse templo dedicado ao Espírito Santo. Igreja paroquial ou não, creio bem haver estado sempre na dependência da freguesia de S. Martinho de Moazares e nunca eclesiasticamente subordinada à de S. Tiago de Louredo. Assim penso baseado na convicção de que essa igreja de Arrifana se encontrava edificada num lugar que sempre pertencera à paróquia de Moazares que exercia, por outro lado, o direito de apresentar o pároco na igreja de S. Tiago de Louredo. Demais, no Censual da Mitra (1542), depois de se falar da taxa e apresentação de S. Martinho de Moazares, diz-se expressamente que «a igreja do samto espiritu da Rifana é sua capela». Embora o significado do vocábulo «capela» fosse diferente do sentido que se lhe atribui em nossos dias, é fora de dúvida que não deixava de expressar uma certa subordinação eclesiástica, que neste caso se dava em relação à igreja de Moazares e não à de Louredo. Em suma, não se encontra prova alguma de que a igreja de S. Tiago de Louredo fora em qualquer tempo «a primeira matriz de Arrifana de Sousa».
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1970-04-10, p.06

Igreja de S. Bartolomeu






No intuito de remover sérias dúvidas, resolvi certo dia - já lá vão bastantes anos - fazer demorada visita ao lugar de Louredo, em S. Martinho de Penafiel.
Queria observar de perto, em pormenor, a vulgarmente chamada «capela de S. Cristóvão», embora, por ser monumento de veneranda tradição, a tivesse contemplado muitas vezes, sempre que passava de fugida pela estrada. Quando me abeirei do templo, fiquei deveras surpreendido ao deparar com uma placa metálica fixada na porta principal, onde está uma inscrição a dizer que a «capela de S. Cristóvão data de 1741 e foi a primeira matriz da Arrifana de Sousa - restaurada em 1954». (Por debaixo estão gravadas as letras B. V., que soube mais tarde serem abreviatura do nome do penúltimo possuidor da Quinta de Louredo). Dado que seja canonicamente legítima a invocação «de S. Cristóvão» - há ainda a assinalar um duplo erro em frase tão curta: a «capela» não pode datar de 1741 e não foi «a primeira matriz da Arrifana de Sousa». A minha displicência subiu ao cúmulo ao encontrar o interior da «capela» pavimentado com cimento, afora outros desatinados enxertos. (Muito tarda entre nós a formação generalizada de uma consciência cívica, capaz de proteger com segurança todos os valores arqueológicos e artísticos de sorte que não se percam para sempre certas coisas que são por vezes o único documento comprovativo da veracidade dos factos de determinada época histórica. Por mais que a Igreja e o Estado envidem esforços para incentivar esse espírito de conservação - um insensato exibicionismo, para não dizer estulta vaidade, aliado a uma atrevida ignorância, há-de continuar a destruir ou desfigurar muitas obras do passado, em obediência a caprichos de uma inadequada modernização). A «capela» de S. Cristóvão» está erecta no mesmo lugar onde se ergueu outrora a igreja paroquial de S. Bartolomeu de Louredo - antes disso tivera por orago S. Tiago - cujos muros de fábrica medieva devem ser ainda em grande parte os do templo actual. A data de 1741 poder-se-ia tomar porventura pela do ano em que se operou nesta igreja uma reforma, relativamente importante, com o acrescentamento da capela-mor existente e arco de comunicação interior em ogiva, e talvez substituição das pedras primitivas dos arcos ogivais da porta principal e da que fica voltada a Sul. A contrariar esta hipótese está o facto do altar-mor e altares laterais em madeira parecerem-nos obra do séc. XVII. Tão pouco o ano de 1741 terá sido o da mudança do orago de S. Bartolomeu para o de S. Cristóvão, que teria acontecido na altura em que o local da feira com o nome daquele Santo se transferiu de Louredo para o Monte do Povo e Vinha do Monte, em cujas cercanias foi construída também nesse tempo nova capela dedicada ao mesmo Apóstolo. Tal suposição não é aceitável pois António de Almeida, baseado nos livros das actas da Câmara M. de Penafiel, nos garante que essa transferência se realizou pelo ano de 1771.
As considerações acerca da «primeira matriz» de Arrifana não terão lugar desta feita.
MONAQUINO
In jornal de Notícias de Penafiel, 1970-03-06, p.06

Arrifana




Como é bem sabido, neste ano decorrente, vão perfazer-se, muito em breve, duzentos anos sobre a data em que o nome arcaico de Arrifana fora sacrificado ao advento da nova cidade, que tomou assento no lugar da antiga vila. A multissecular Arrifana de Sousa fora riscada da toponímia regional e surgia, em sua vez, o nome e cidade de Penafiel, para subida honra da nossa terra.
Ninguém haverá contentado o acerto dessa mudança toponomástica. Havia razões, de carácter histórico e político, a inculcar tal mutação, como adiante se verá. De resto, qual de nós seria capaz de preferir uma cidade denominada Arrifana à custa da rejeição do sugestivo topónimo Penafiel? Este é um nome mais expressivo e eufónico, mais simpático, por ser mais nosso, na cor latina que apresenta, ao invés da filiação árabe que hoje ninguém impugna existir na palavra Arrifana. (Não se veja ressaibo algum de racismo, ao fazer tal asserto, embora não seja de estranhar surpreender-se, no mais íntimo de todo o português de lei, uma semi-inconsciente antipatia ancestral por tudo que possa sugerir a lembrança da velha opressão da moirama). Depois que Fr. João de Sousa, afamado arabista, publicou, em 1760, o seu trabalho Vestígios da Língua Arábica em Portugal, creio que nenhum escritor verdadeiramente culto se permitiu apontar uma etimologia de origem diferente. O que sucedeu com muitos, até os nossos dias - desde o Dr. António de Almeida ao P.e Monteiro de Aguiar - foi, baseados na «autoridade» de Fr. João, atribuírem como ele erradamente o vocábulo árabe «Arrahana», com o significado de «horta», como étimo de Arrifana, em vez de «Arríhâna», «Alrihanat» ou «arrayan», nome de «mirto», em língua arábica.
Devo dizer que não exprimo opinião original nesta matéria, por nada conhecer de filologia árabe: limito-me a transmitir conclusões de abalizados autores modernos. Mais acrescento não me responsabilizar pela exactidão das formas arábicas transliteradas, por dificuldades da ordem gráfica. O leitor curioso de tais etimologias encontrará uma informação segura na obra póstuma do nosso maior arabista, David Lopes, publicada em 1968, com o título Nomes A'rabes de Terras Portuguesas - colectânea do Dr. J. Pedro Machado. Para este mesmo assunto poderá consultar-se ainda, com vantagem, o vol. XXXVIII da G. Enciclopédia Port. e Bras. (Apêndice), v. Arrifana. O topónimo Arrifana não procedeu, é certo, de qualquer «horta», nem tão pouco de, «arraião» ou «murta» que fosse plantada pelos sarracenos, a quando da sua passagem ou permanência, que não foi muito efectiva, na nossa terra. Então quando e como é que entrou essa palavra no vocabulário e toponímia da nossa região?
Já não há hoje cabimento para uma resposta, que não pode ser sucinta, pois o assunto envolve certa complexidade. Depois assim veremos.
MONAQUINO

Arrifana no Mozinho





Arrifana de Sousa - vila de vinte e nove anos apenas, quatro séculos, mais ou menos, como sede do concelho, e mais de quinhentos anos de fundação - desaparecia oficialmente do nosso toponomástico em 1770, como todos sabem. Começara por ser simplesmente Arrifana mas juntara-se-lhe depois o determinativo «de Sousa», para se distinguir das numerosas povoações do mesmo nome havidas no Reino. Ainda existem hoje vinte e oito Arrifanas e duas Arrifaninhas. Por estranho que pareça, não é propriamente da Arrifana, sita nas proximidades do rio Sousa - seu elemento identificador - que vou ocupar-me agora: é de uma outra Arrifana, existente ainda, no concelho de Penafiel, em pleno monte Mozinho. Não estou enganado - esta Arrifana não é produto de imaginação, mas realidade incontestável! Coleccionador dos topónimos mais característicos da nossa terra - no aspecto arqueológico, histórico ou linguístico - fui levado um dia a interrogar alguém familiarizado, desde muito jovem, com a onomástica das sortes ou parcelas de montado, pertença de senhorios vários, situados na denominada Praina do Loureiro e suas circunvizinhanças (rica zona dolménica que foi, como ouvia amiúde ao P.e Monteiro de Aguiar), na área sul do Mozinho, termo de S. Paio da Portela e de S. Marinha da Figueira. A par de nomes já conhecidos, - Penedo do Corvo, S. Iria ou Mosteiro das Freiras, S. Antão, etc. - foi-me dado conhecer então, pela primeira vez, além de outros, o Penedo do Facho, as Conguinhas e, com grande surpresa, a «sorte maninha da Arrifana». O conhecimento de uma Arrifana no Mozinho, reveste-se, a meu ver, dum duplo interesse. Será prova, indirecta de que Arrifana de Sousa, na sua etimologia e fundação, não deve ligar-se - como aliás já se tem insinuado - a Arriana, nome da filha de D. Mumadona Dias e do conde Ermenegildo, herdeira por morte do pai, em 950, da villa de Novelas. Por outro lado, constitui o facto uma achega a confirmar a tese de que o topónimo Arrifana proviera de um vocábulo comum, arábico na origem, que tomara entre nós, como em todo o Pais, um significado ainda incerto. Tratar-se-ia de qualquer planta mourisca, da família das mirtáceas, hoje desaparecida, que outrora vegetasse em lugares montesinos? Não tive ocasião de observar in loco a natureza e configuração do terreno da Arrifana do Mozinho. Segundo me foi atestado, é uma espécie de cova ou poça, como diz o povo, no meio da qual está um penedo isolado, largo na base e adelgaçado na extremidade.
No coração de Arrifana de Sousa havia também o lugar do «Fraguedo». Seria ingenuidade perguntar se não terá sido um rochedo, de feitio determinado, a dar origem às Arrifanas? David Lopes, ao falar da ilhota de Arrifana, no Algarve, diz que «ela não é mais que um rochedo que se eleva a meia altura da rocha da costa; nos Açores, a palavra arrifana expressa um lugar onde há algum arrife, cujo significado também é de «penedo» e «cabeça de rocha». É isto um devaneio etimológico? Perdoem-me os cultores da verdadeira Filologia.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel 1970-02-20

 

«Uma Grande Obra»







No próximo ano a igreja da Misericórdia não deixará de estar presente no espírito de quantos se propõem celebrar conscientemente o bicentenário da cidade, já que no decurso de 1970 também serão contados duzentos anos sobre a data em que ela foi escolhida para Catedral da efémera diocese de Penafiel. Ao contemplar-se o templo, deste ângulo de perspectiva - por natural associação de ideias - não teremos forçosamente de pensar que o facto determinante de ser dado a Arrifana de Sousa o título de cidade se fundamentou na circunstância da vila daquele tempo carecer de um ornamento capaz de a habilitar a receber, condignamente, o honroso privilégio de ser elevada à categoria de sede episcopal, por virtude da criação da nova diocese de Penafiel? E se não tivera sido esse plano do Marquês de Pombal, quanto tempo a cabeça do nosso concelho não permaneceria na qualidade de simples vila? Mas não é meu intuito aprofundar agora tão importante assunto da história penafidelense: é meu propósito apenas dar um pouco de desenvolvimento à breve referência, aqui há tempos feita, relativa ao culto da Senhora da Lapa em Penafiel, na sua capela que faz parte da igreja da Misericórdia. Isto será prova, em certa maneira, de que a Catedral de outrora já está bem presente em nosso espírito.
Pinho Leal no seu Dicionário (v. Penafiel) faz uma ligeira descrição do modo como nasceu e lançou fortes raízes na alma do povo essa devoção mariana, mercê de piedosa indústria de pessoas certamente bem-intencionadas - ingénuas artes, curiosas no seu aspecto etnográfico, mas sem valia apreciável, se não dignas de reprovação, no campo puramente religioso.
Parece-me bem transcrever aqui parte dessa narrativa do aludido autor. Diz ele que «no princípio do séc. XVIII, apareceu no cunhal exterior da capela-mor da igreja da Misericórdia, pintada, uma imagem de N. S.ra da Lapa. Não se sabe por que razão a não queriam ali; pelo que a mandaram lavar, mas como não saísse a pintura, a mandaram raspar. Foi o mesmo que nada: a pintura, cada vez aparecia mais viva, e ainda hoje se conserva, como se fosse acabada de pintar!
O povo principiou a ter esta Senhora em grande devoção, e resolveu fazer-lhe uma capela, no lugar da pintura, e que ainda hoje existe» (ano de 1875).
Que a devoção à Senhora da Lapa se tornou notável em Penafiel no século de setecentos, não pode haver dúvida alguma, pois que lá está ainda a comprová-lo «uma grande obra», segundo a expressão do mesmo Pinho Leal - projectada, e em grande parte erigida, no exterior da igreja da Misericórdia, em conjugação artística, não muito destoante, com a primitiva fábrica do templo.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1969-12-05, p.05

Já no Regresso






Ia a caminho de Arrifana de Sousa, com deliberado propósito de fazer sintético comentário aos casos de escravatura observados ao longo deste viandar, senão quando, a meio da jornada, me vejo detido, de muito bom grado, por amor de uns escravos que me despertaram particular atenção. Desta vez, fregueses de Paço de Sousa. Dois deles, depararam-se-me por alturas de S. Ovaia de Esmegilde (lindo nome medievo: assim chamada a área de Paço de Sousa mais à banda do poente, que era freguesia à parte, ainda em meados do séc. XVI); para mais rigor de exactidão, direi antes que isso teve lugar nas casas que foram morada de Manuel da Cunha Osório, sitos em Sobcarreira. Este senhor Cunha Osório viveu à lei da nobreza. Seus pais também viveram assim: o L.do Mateus Dias Borges, natural de S. Tiago de Cernadelo, ao tempo do Arcebispado de Braga, e sua mulher Maria de Araújo da Cunha Osório Coutinho, de Esmegilde - casados em Paço de Sousa, a 4-2-1689. A importância social da família Cunha Osório, naquele tempo, ficou bem patente numa pedra de armas, assente na frontaria da sua casa, assim como numa capela, dedicada à Senhora da Conceição, que o referido licenciado mandou erigir, junto da moradia, no ano de 1717 - restaurada há poucos anos, com ausência de bom gosto. Várias gerações de Cunhas e Osórios residiram em Sobcarreira, donde se ramificaram por casas de preponderância, em Paço de Sousa e terras circunvizinhas. Apenas deixo anotado que os Cunhas Osórios de Sobcarreira se ligaram aos Beças Strech, da casa de Valbom, em Paço de Sousa, por casamento havido em 1802, Actualmente, julgo não existir na freguesia descendente algum legítimo dessa ilustre e velha estirpe.
Com tão dilatada divagação, quase nos íamos esquecendo dos escravos de Sobcarreira. Agora somos forçados a falar deles sumariamente. Chamaram-se Bernardo e Josefa e nunca experimentaram a ventura de se tornarem «aforros e livres». Faleceram em escravidão, por volta de 1740. Parece-me que os casos de libertação eram mais frequentes quando os possuidores dos escravos não tinham grandes meios de fortuna nem elevada posição social. Sujeitos esses patrões a uma vida mais dura - seria que se
tornavam naturalmente mais compreensivos do infortúnio dos cativos? Isto poderá ilustrar-se com um exemplo da mesma época, ocorrido também em Paço de Sousa. Um tal João Brás e sua mulher Rosa Maria, desta freg.a, concederam liberdade a um escravo, solteiro, de nome Caetano, com eles morador no lugar de Cadeade. Sem dúvida que se trata de gente de modesta condição; talvez por isso mesmo, mais humana... e cristã. A carta de alforria do Caetano tem a data de 15 de Fev.» de 1743 e foi escrita por Tomás Teixeira de Sousa, tabelião público na Vila de Arrifana de Sousa.

MONAQUINO

Donas e Escravos





Como é fácil supor, não eram somente os homens que tinham o direito de possuir escravos: estes também podiam ser propriedade de mulheres, solteiras ou viúvas - adquiridos por compra ou herança. A verdade disto está em parte exemplificada em dois casos de libertação de cativeiro de que nos vamos ocupar hoje.
No ano de 1758, Eugénia Maria de Santa Rosa, moradora na quinta de Segade, freg.a de Bustelo, era senhora de um escravo, chamado José Meneses, que ela herdara, à morte do seu pai, João da Cruz de Sousa. Um dia resolveu conceder-lhe inteira liberdade, para fazer uso dela «em toda a parte», como muito bem lhe aprouvesse. Neste propósito, aproveitou os bons ofícios do seu cunhado, Dr. António de Mendonça Barbosa - segundo creio, dono da quinta de Segade - para ele tratar, na qualidade de seu procurador, das formalidades requeridas, a fim de tornar efectiva essa libertação.
A 14 de Out.º, do referido ano de 1758, em casa do tabelião Bernardo Teixeira Pinto, na vila de Arrifana de Sousa, o bacharel Mendonça Barbosa, em nome da sua constituinte, «por cervisso de Deos, dava Carta de Alforria e Livardade ao dito escravo Joze Menezes». Liberdade completa, sem peias de qualquer natureza! Não era pequeno serviço de Deus libertar assim um homem das malhas apertadas da escravatura...
Contrasta a franca generosidade da Eugénia Maria com a liberdade condicionada que fora concedida a um mulato por uma viúva de Arrifana de Sousa, residente no lugar de S. Bartolomeu. Ela chamava-se Maria Leal Ribeira; o seu escravo era solteiro e tinha o nome de Manuel Pereira. Porque este a servira sempre com muita dedicação - «com muyta satisfaçam e fydelidade e inteyreza e verdade», como se lê no texto - houvera por bem libertá-lo da condição de cativo. A carta de alforria foi-Ihe passada a 25-1-1740. O acto revestiu-se de certa importância externa porque realizou-se numa das casas principais de Arrifana de Sousa, qual era a morada - no Largo da Sr.a da Ajuda - de Sebastião Pereira do Lago, que assinou como testemunha, juntamente com seu filho, o L.do Jacinto José Pereira Leal. O tabelião Tomás Teixeira de Sousa escreveu o documento. Até aqui, tudo muito certo. Mas agora o que não logro compreender é que a viúva Maria Ribeira mandasse exarar na carta de alforria «a condjçam e obrigaçam» de o mulato «se imbarquar para as partes do Brazil, sob pena de ficar sempre escravo - «como athe agora o hera» - se permanecesse «neste reyno de Portugal». Então nem ao menos num remoto cantinho deste reino? Bem o merecia quem serviu sempre com fidelidade, inteireza e verdade...
Que mesquinhez!
MONAQUINO
In jornal de Notícias de Penafiel, 1969-08-29, p.06

Episódio Lamentável






A senhora mestra da Doutrina ensinou-me que era muito feio meter-se a gente com a vida alheia; de sermões que ouvi, ficou-me a ideia de que a maledicência é uma erva daninha; doutos moralistas sempre me afirmaram que a detracção era autêntico flagelo social. Com esta formação de escola - como é possível encontrar sabor que me deleite nos escandalozinhos, reais ou imaginários, que surgem todos os dias? Assim, claro está, não me fica bem vir contar um «episódio lamentável», com seu quê de mexerico... No entanto, haverei desculpa se olhar à sua moralidade: em qualquer tempo, o homem é capaz de desvarios quando desamparado do bom senso e desprovido de autodomínio. Seja então! O episódio ocorreu há perto de 250 anos, nos arredores de Arrifana de Sousa. O Abade de Guilhufe e o de Marecos entraram em demanda por causa de umas dúvidas acerca dos limites de suas freguesias, no l. da Póvoa (lugar muito antigo...cfr. A Ara de Marecos, p. J. de Pinho—Penha-Fidelis). O pároco de Guilhufe - o maiato Bento Correia de Oliveira - conseguiu que o tribunal eclesiástico lhe desse inteira razão: nada menos de três sentenças contra o Abade de Marecos! A capela da Senhora do Desterro, que no Catálogo de D. Rodrigo da C. (1623) vem apontada como ermida de Marecos - ficou dentro da área atribuída a Guilhufe. Os fregueses de Marecos é que não levaram a coisa muito a bem. «Por contemplação» do seu Abade começaram a «fraudar por todas as vias a execução das Sentensas». Entre os desacatos cometidos, conta-se um que vem narrado na Nota de um tabelião do Porto (J. A. de Morais—P. 1—N. 253-4a s.). Vou resumi-lo.
No dia 18 de Abril de 1729, o juiz da Cruz e outros mais de Marecos foram-se à capela da Senhora e «tomarão a chave della», deixando a porta bem fechada. No domingo seguinte, o capelão da Senhora da Póvoa - P.e João de Sousa, residente em Guilhufe - compareceu no local, como de costume, a hora matutina, para celebrar a Missa «aos pastores». Devido à falta da chave, não conseguiu abrir a porta da capela e foi-se embora «sem dizer missa». Grave transtorno para os pastores e torturante arrelia para o pároco de Guilhufe! 0 Ab.e Correia de Oliveira apressou-se a suplicar ao Vigário Geral remédio para tamanha afronta: «despregar a fechadura da dita cappella e pôr-lhe outra com nova chave para se dizerem as missas dos pastores». A petição foi atendida, sem demora. E depois? Não sei mais nada... Melhor, sei dizer que o marco divisório das duas freguesias lá continua, com sua inscrição - todavia o senhorio da capela, há dezenas de anos, pertence a Marecos. A Senhora da Póvoa, hoje, dá a sua bênção a uns e outros fregueses. Que seja para todo o sempre... Amém!
MONAQUINO
In jornal de Notìcias de Penafiel

O Mozinho




Vejo-me em palpos de aranha por causa da promessa que fiz de dizer aqui qual a proveniência do nome singular com que agora me assino. Receio ser enfadonho e, além disso, não fica bem vir para um jornal ocupar-me de mim mesmo. É feio.... No entanto, entre perder simpatia a arriscar os créditos da honradez, não posso hesitar: vou cumprir a palavra dada, muito mau grado meu!
À força de me ouvir falar, com insistência e paixão, do nosso Monte Mozinho - por amor da sua beleza panorâmica e importância arqueológica - o povo começou a apelidar-me de Monaquino. Não sei por que arte a nossa gente descobriu palavra tão sugestiva e com ares de erudição. Bem certo é que o povo muitas vezes é Mestre, sem o saber. Engracei com o nome e adoptei-o como próprio, indo logo abrir a sua assinatura na Nota do tabelião de Arrifana de Sousa. Com certeza que gostei do seu todo por ter enxergado nele uma ascendência helénica.
Mas agora muito a sério: não me enganei com as aparências. O vocábulo monaquino vai justamente entroncar no grego monachós. Os latinos acharam expressivo o termo monachós e transplantaram-no para a sua língua. Em dada altura, dentro do latim, da sua forma monachus, por obra do sufixo - inus, surgiu a palavra derivada monachinus. Deste neologismo daquele tempo, em legítima filiação, era natural que nascesse, no português, um autêntico monaquino. Em abono da verdade, devo dizer que nunca li texto antigo onde ele se encontrasse, embora bons dicionaristas o apresentem, sem indicação da procedência (vide Elucidário - Viterbo - voc. monachino e molachino). O que não oferece dúvida alguma é que o monachinus evoluiu para monacinus, no latim vulgar, e que este é o étimo directo do nosso arcaico mozinho (com z e não com s), cuja existência está de sobejo documentada, ao longo de séculos.
Todo este arrazoado não visava tanto uma conclusão de carácter filológico, como à primeira vista poderia parecer; antes teve em mira mostrar quão estreitos são os laços de consanguinidade entre o moderno Monaquino e o medieval Mozinho.
Com um parentesco assim tão chegado, e tão abrasado amor do coração, diga-me o leitor amigo, por favor, como é possível que eu deixe de falar, amiudadas vezes, do nosso querido Mozinho?


MONAQUINO

In Jornal Notícias de Penafiel, 1969-05-02, p.04