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Tomar banhos e águas sulfúreas






Fez-se alusão da última vez a uma freira — irmã de José Urbano, Capitão-Mor de Penafiel — que do seu Convento da Madre de Deus de Monchique, no Porto, veio para as Quintãs de Valpedre, «afim de tomar banhos e agoas sulfureas». Esta breve informação, colhida no próprio assento do óbito da Religiosa D. Joana Bernardina do Amor Divino — falecida nas Quintãs em Fev.o de 1815 — sugere-nos um ligeiro comentário.
O amigo leitor, no caso de lhe haver merecido alguma atenção tal referência, talvez tenha perguntado a si mesmo se as mencionadas «agoas sulfureas» seriam as das Termas de S. Vicente ou da Torre. Bem sabido é que nenhuma das actuais estâncias termais existiam naqueles recuados tempos do princípio dos anos de oitocentos, pois que ambas remontam ao final do século passado. Que águas sulfúreas seriam então essas que a Freira do Amor Divino veio procurar à nossa terra, para alívio dos males que padecia? Cá por mim direi que foram as águas sulfurosas da Torre. Este meu pensar baseia-se no facto de Pinho Leal, no seu Portugal Antigo e Moderno (voc. Portela), ter escrito por volta de 1876, que essas «famosas águas» — erradamente «denominadas d'Entre os Rios» — começaram a usar-se desde 1790, «como medicamento interno», com «maravilhosos resultados em várias doenças, sobretudo em padecimentos de estômago». Não vale a pena discutir a historicidade do caso, mas penso que sempre havia de ser causa de muito agoniar os enfermos terem de ingerir tais águas sulfúreas...
Conforme nos garante o citado autor, «os médicos do Porto», nessa longínqua data, encontraram nelas mais «vantagens» que em quaisquer outras. Daí a sua comercialização. No tempo de P. Leal, as águas d'Entre os Rios «se exportavam constantemente em grande escala (engarrafadas) para todos os pontos de Portugal, e para o estrangeiro, principalmente para o Brasil».
Em 1815 e mesmo em 1876, as águas de S. Vicente, bem como o balíneo romano, ainda se encontravam soterradas, devido aos depósitos de aluvião ali acumulados.
Regressemos às Quintãs de Valpedre. Sem ter conseguido minorar os seus padecimentos, a freira do Mosteiro de Monchique aí falecia em 2-2-1815. Gravemente enferma, recebeu os sacramentos da Penitência e da Extrema-Unção. O não ter sido possível confortá-la com o «Sagrado Viático» leva a crer que o seu mal seria padecimento de estômago.
Morreu acarinhada pelo irmão José Urbano e pelos sobrinhos, filhos do «Capitão-Mor graduado». Quem sentiria mais profundamente a morte de D. Joana Bernardina seria sua irmã D. Casimira do Monte Carmelo, Religiosa também no Convento da Madre de Deus (se é que viva ainda então). Juntas, muito jovens talvez, foram da casa de seus pais professar no Mosteiro de S. Clara de Caminha. Em 1779, graças às diligências efectuadas por seu irmão José Urbano, transitaram juntas para o Convento da Madre de Deus de Monchique, no Porto. Para tanto, foi necessário obter um «Breve Apostólico» acompanhado do indispensável «Beneplácito Régio». Coisas deste género se passavam nesse tempo, e muito mais tarde ainda, no Reino de Portugal fidelíssimo, por intromissão indirecta do Estado nos domínios do Espiritual.
Por MONAQUINO

O Sargento-Mor





Não sei se o Sargento-Mor de que se vai falar se notabilizou por algum feito militar, ao menos por ocasião das invasões francesas, mas certo é que foi homem de bastante preponderância social em terras de Penafiel, no último quartel do séc XVIII e nas três primeiras décadas dos anos de oitocentos. Viveu a maior parte da sua vida em Lagares e também em Valpedre. Chamou-se José Urbano Pereira de Melo e Alvim. Quem for medianamente entendido na genealogia das principais famílias daquele tempo, nesta região, logo há-de descobrir pelos apelidos que ele pertencia à boa estirpe da gente que vivera mais de dois séculos nas Casas da Granja, em Lagares, e Quintãs de Valpedre.
José Urbano nasceu em Março de 1745 na Quinta da Boavista, em S. Ildefonso, muito perto da muralha fernandina do Porto. Os seus pais já são nossos conhecidos: José Pereira de Melo e Alvim e D. Teresa Angélica de Melo. Sabemos também que eles herdaram essa quinta das mãos do tio Cónego Ribeiro Nunes. Aí viveram em relativa tranquilidade até que um dia a desventura lhes foi bater à porta. Primeiramente, o falecimento do marido de D. Teresa; mais tarde, a viúva sofreu o grande desgosto de assistir à venda em hasta pública da Quinta da Boavista.
Nunca teria passado pela mente do Cónego Ribeiro Nunes a ideia de que tão infausto destino adviria à sua casa, capela e quinta, dentro de tão pouco tempo. Se o houvera previsto, com certeza o Cónego morreria de desgosto. Bem falíveis são os cálculos dos homens!
D. Teresa Angélica acolhera-se então junto da sua irmã D. Perpétua Luísa, na Casa da Granja, em Lagares. Esta já nessa ocasião era viúva do Cav.o Fr. Manuel Leite de Melo, que falecera em Janeiro de 1761.
José Urbano, à semelhança do avô paterno, ingressou na carreira das Armas. Em 1778, morava «defronte do Calvário» na cidade do Porto, mas em 1779 já residia também em Lagares. Novos rumos iam abrir-se agora para a sua vida. Assim, em 5-11-1781, na Capela de S. António da Granja, «com licença do Prelado», casava-se com uma sua parenta em 2.o grau, Dona Joana Thereza da Cunha Serqueira Pereyra de Mello Alvim, filha legitima de Manuel José Ribeiro de Macedo e Melo e de sua mulher D. Jacinta Bernarda de Carneiro e Melo, da Casa das Quintãs em Valpedre — neta paterna de Jerónimo de Macedo e Melo e de sua mulher D. Mariana Luísa Clara: neta pelo lado materno de Jacinto Carneiro Sequeira e Melo e de sua mulher D. Maria Josefa de São Jacinto, da freg.a do Salvador de Resende.
Por aqui se vê que José Urbano contraíra matrimónio com uma neta de uma irmã de sua mãe, muito nossa conhecida também: D. Mariana Luísa Clara, que fora casada com Jerónimo de Macedo e Melo, das Quintãs de Valpedre. José Urbano, além de Sargento-Mor, foi também Capitão-Mor. A sua residência preferida foi na Casa da Granja, se bem que estivesse, com frequência na Casa das Quintãs. Da última vez a fazê-lo, adoeceu aqui gravemente sobrevindo-lhe então a morte. Aí faleceu, cm 24-5-1831, e foi sepultado na igreja de Valpedre, em sepultura que era propriedade da sua Casa.
Já agora não resisto à tentação de contar ter sido também ocasionalmente que morreu nas Quintãs uma das duas irmãs de José Urbano que foram professas no Convento de Monchique, no Porto. Aconteceu isso com a Religiosa D. Joana Bernardina. Saíra «com Breve» do seu Mosteiro «afim de tomar banhos e aguas sulfureas», vindo hospedar-se «em casa de seo Irmão e sobrinhos na Quinta das Quintans». Mas não regressou ao Convento, porque no dia 2 de Fevereiro de 1815 «passou desta vida p.a a Eterna»...
Foi a sepultar na Igreja de Valpedre «envolta em seo habito» e seu Irmão «o Cap.am Mor Joze Urbano Per.a de Melo Alvim» mandou fazer-lhe «um oficio de Exequias».
Por MONAQUINO

 

Casa da Granja





No concelho de Penafiel, como acontece em muita outra parte, há várias casas e lugares da Granja. Nem admira que seja assim, ou não tivesse sido sempre a nossa terra — honra lhe seja! — desde tempos pré-históricos, terra de gente grangeeira. Tinha agora a tentação de discretear sobre a etimologia de granja, mas não me consente fazê-lo o receio de longo desvio do tema que me propus versar hoje. Vou restringir-me, pois, a resumido bosquejo da história de uma casa da Granja sita em S. Mart.o de Lagares.
O leitor já terá passado muita vez na estrada que atravessa a freguesia de Lagares, quer de Norte para Sul, se provindo de Fonte Arcada ou Sobreira; quer de Sul para Norte, quando procedente da freguesia de Canelas. Cá por mim, gosto imenso de fazer esse trajecto, em qualquer sentido! Mas descer dos altos de Canelas sempre será mais atraente. Ao começo, vastidão de horizontes; logo adiante, o encanto do tom pardacento do rústico semi-primitivo do aglomerado de Cabroelo, com sua ermida de S. Mateus. Mais abaixo, abre-se em nossa frente, de par em par, o vale de Lagares, com a Senhora da Lapa, em lugar altaneiro. Entretanto nossos olhos prendem-se nos longes da serra de Baltar. Fora de dúvida, é bonito cenário!
Passámos agora junto à igreja da freguesia da Capela, à Casa da Torre e ao típico lugar de S. Julião, com seu oratòriozinho, que já é em parte domínio da freg.a de Lagares. Mais umas centenas de metros e aparece-nos, ao nosso lado esquerdo, a vetusta Casa da Granja, cujo senhorio pertence hoje à família Barbosa da Fonseca de Sousa Andrade. A traça antiga desta moradia não está ainda totalmente desfigurada daquilo que fora no século de setecentos. Só me causa grande dor do coração o estado da Capela, de longa data votada a usos profanos. Esta impressão dolorosa faz-me vir à lembrança a invocação da Capela, dedicada a S. António, bem como o nome da Senhora viúva que a mandou erigir, por volta do ano de 1709: D. Inês Leite Barbosa da Cunha. Foi uma Dona distinta naquele meio aldeão. Decerto lembram-se ainda dum Manuel Leite de Melo, que foi Cavaleiro professo na Ordem de Cristo, oriundo da Casa da Granja. Era filho de D. Inês e de seu legítimo marido Sebastião de Macedo e Melo Barreto.
Os Melos entraram na Quinta da Granja com Maria de Melo, mulher de Jorge de Oliveira. Desde então ramificaram-se por diversas terras de Penafiel. Os Vieiras de Melo da freg.a da Capela estão ligados a esta Casa.
Com franqueza, ia-me esquecendo de que tinha em mira ocupar-me hoje também do 2.o casamento do Cavaleiro Fr. Manuel Leite de Melo.
Dono da referida Q.ta da Granja — já viúvo de uma Moreira da Casa da Póvoa, em Pedorido — em Maio de 1747, estava noivo de D. Perpétua Luísa, a última a casar das três sobrinhas do Cónego Domingos Ribeiro Nunes. O casamento dos dois realizou-se na igreja da freguesia de S. Ildefonso, em 12 de Junho do dito ano, sem grande pompa, por razões já referidas de outra vez.
Leite de Melo e Perpétua Luísa escolheram para sua residência a Casa da Granja. Não tiveram filhos.
Em Maio do ano de 1753, com a idade de 68 anos, pouco mais ou menos, o marido fizera o seu testamento, que me parece deveras curioso e por isso hei-de oferecer ao amigo leitor uma súmula das «últimas vontades» do Cavaleiro Fr. Manuel.
Espero que não se há-de agastar com isso.
Por MONAQUINO

 

Donde os 3 mil cruzados?





A D. Perpétua Luísa foi a última a casar das três sobrinhas do Cónego Ribeiro Nunes. Casou um pouco tardiamente, no ano de 1747, pois tinha então cerca de 38 anos de idade. O tio Cón. Domingos, falecido em 1744, e que não chegou a lograr o contentamento de ver esta sobrinha consorciada com um membro da família dos Macedos Leites e Melos. Trata-se dum Cavaleiro que foi professo na Ordem de Cristo («com a tença de mil reis»), senhor da Casa e Qta. da Granja — em S. Mart.o de Lagares, no conc.o de Penafiel —, dono também de «todas as quintas, prazos e foros» que haviam pertencido a seus pais.
Este freire de Cristo encontrava-se então em estado de viuvez. Antes de casar com D. Perpétua Luísa, fora legítimo marido de D. Maria Josefa Moreira de Bessa, da Casa da Póvoa, em Pedorido, considerada naquele tempo das principais do conc.o de Paiva.
— Não estará lembrado o leitor de ter visto o Cavaleiro Frei Manuel Leite de Melo (desta forma assina ele em 1747) quando no ano de 1732 tomava parte na cerimónia do casamento de D. Mariana, irmã de D. Perpétua, na Capela da Quinta da Boavista, como testemunha do acto religioso e demais como primo que era, pelo lado materno, do esposado Jerónimo das Quintãs de Valpedre?
— Pois, exactamente, — era esse mesmo!
O referido viúvo Leite de Melo, nos anos de 47, vivia na dita Q.ta da Granja (aqui nasceu em 1684), na companhia de duas irmãs solteiras — D. Francisca Clara e D. Helena Teresa — quando resolveu casar segunda vez com D. Perpétua Luísa.
Como de costume, houve antes do casamento uma escritura dotal. Apesar do tio Cónego Domingos ter falecido e sem embargo de D. Teresa Angélica já se encontrar viúva, essa escritura foi lavrada na Quinta da Boavista, onde D. Perpétua morava há muitos anos. Lá compareceu o tabelião no dia 23 de Maio de 1747.
Estiveram então presentes, duma parte, «Donna Perpetua Luiza…, com seu Irmão, o rev. Domingos Ribeiro Nunes, Cónego na Cathedral»; e da outra, «frei Manuel Leite de Mello, Cavaleiro professo na Ordem de Christo».
Foram três as testemunhas: o P.e Jerónimo de Melo, da freg.a de Cabeça Santa, o Beneficiado da Sé P.e Manuel S.tos Veloso, e o P.e Tomás da Rocha Rebelo, da freg.a de Rans.
Pela sua parte, o Fr. Manuel disse que se dotava com a quinta da Granja, uma fazenda em S. Vic.te do Pinheiro, «duzentas e tantas medidas de segunda e cento e tantas de trigo», acrescentando ainda vários foros, direitos dominicais e prazos.
A soma de todos estes bens representava, naquele tempo, fortuna apreciável. O pior é que estava um tanto comprometida! Mas ouçamos a tal respeito o que disse o próprio Fr. Manuel: «que a dita sua futura esposa lhe dará de entrada tres mi! cruzados para elle esposado pagar as dividas que deve...».
De que fontes teria a noiva auferido os três mil cruzados com que iria solver o Cavaleiro as dívidas que o afrontavam?
— D. Perpétua tinha em guarda essa importância nas mãos de seu irmão Cón. Domingos, proveniente de quinhentos mil réis deixados pelo tio António — falecido no Brasil — acrescidos de seiscentos mil réis que herdou do tio Cónego. Há ainda a acrescentar que ela possuía muitas «pessas de ouro», avaliadas em cento e cincoenta mil réis, e o irmão Cónego também lhe oferecera duzentos mil réis.
E logo o Cón. Domingos, em presença do tabelião e testemunhas, «lanssou sobre hua meza os ditos tres mil cruzados e pela dita esposada e seu futuro marido forão contados... e os acharão certos».
Desta maneira, depois de assinarem todos os presentes, foi dada por finda a escritura de dote de casamento do Cavaleiro Fr. Manuel Leite de Melo com D. Perpétua Luísa.
Por MONAQUINO

 

Casa de Pegas




Na toponímia do concelho de Penafiel há vários lugares de Pegas e mais que uma casa do mesmo nome. Ninguém duvidará terem sido esses pássaros corvídeos tão vulgares nas regiões nortenhas, chamados pegas que alguma vez se aninharam para sempre naqueles sítios. São topónimos muito velhos!
Em Peroselo, lá se encontre uma Casa de Pegas, no lugar de Outrela, que fica pegado a um monte. No caso presente, não sei por que artes veio à Casa tal designação, mas já me aconteceu topar algures uma morada assim denominada porque nela havia umas pegas, domesticadas e palreiras (isto por lhes terem cortado a trava), as quais andavam à solta e eram atraente passatempo do rapazio das vizinhanças.
Passei outrora amiudadas vezes à porta da Casa de Pegas. Ave corvídea nunca lobriguei lá nenhuma, mas é certo que era frequente quedar-me naquele sítio, por instantes, a pensar nas grandezas antigas da Casa e no infortúnio que um dia a visitara.
Que lhe hei-de eu fazer, leitor amigo, se este jeito que tenho de me pôr a meditar já me vem de nascença? Só há-de morrer comigo.
Casa de Pegas! Tanto sonhara conhecer-te por dentro, quer dizer, percorrer a tua senda familiar, através de várias idades e muitas gerações, mas só agora, na senectude, logro entrar um pouco na intimidade dessa vida plurissecular...
Por deficiências do registo paroquial, apenas nos é dado saber a data dum casamento ali havido no primeiro quartel de seiscentos, posto que se conheçam nomes de antepassados da Casa que remontam com certeza aos primórdios do século de quinhentos. É verdade que, no dia 8 de Dez.o de 1624, se casou Domingos Lopes, de S. Maria de Peroselo, com Natália Fernandes, filha de Sebastião Fernandes e de sua mulher Francisca Rodrigues, da freg.a de S. Romão de Vila Cova de Vez de Aviz, tendo sido dispensados em 3.o e 4.o graus de consanguinidade. Viveram eles em Outrela e tiveram um filho António Lopes, que se recebeu, em 21-11-1644, com Francisca Dias, do mesmo lugar e freg.a.
Foi António Lopes sucessor na Casa de seus pais e houve da sua mulher vários filhos. Além do P.e João Lopes, que faleceu em Peroselo, no ano de 1686; dum Domingos Lopes, casado em Vila Cova com Maria Fernandes, em 1667; duma Isabel Francisca, cujo recebimento com António Mendes, da Casa das Pedras, em Salvador de Gandra, se realizou em 1676; duma Francisca Dias Lopes, que ficou na casa paterna e casou, em 1688, com Tomé Rodrigues, da supradita Casa das Pedras: além desses quatro filhos, importa ainda lembrar aqui um outro, de nome António Lopes, homónimo de seu pai, o qual se casou, a 17-8-1676, com Ana Moreira, filha de Domingos do Couto e de sua mulher Helena Moreira, da Casa da Igreja, em Peroselo.
Quem houver tido a paciência de ler o que se escreveu aqui acerca dos pais do Cónego Santo, com certeza já concluiu que a Ana Moreira foi irmã inteira do Cónego Manuel Moreira. Estudante ainda, ele assistira ao seu casamento, na companhia do que havia ser o futuro Padre João Lopes. As duas Casas a da Igreja e a de Pegas ficaram então bem unidas.
Dilatei-me demais pelo caminho e não posso ir agora até onde me propusera chegar. Indulgentes e compreensivos, os prezados leitores desculparão.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1971-07-09

Autenticidade




Haverá quem não goste desta palavra autenticidade? O apreço que alimentamos por ela nos advém por ventura dos tempos de menino e moço, de quando algum dia pela vez primeiro fizemos telintar, sobre material duro, moeda de feição e metal duvidosos, tendo verificado por fim com grande mágoa e revolta interior que houvéramos sido ludibriados por outrem.
Isto de alguém não ser autêntico, nas diferentes relações humanas de cada dia, não se assemelha muito ao pecaminoso acto de se impingir moeda falsa a quem quer que trate ou conviva connosco? Entre as várias formas de convivência ou humano comércio, bem se entende ocupar lugar importante a arte de escrever muito apurada ou de jeito rústico até mesmo tratando-se de coisas de somenos valia. Nasce daí a responsabilidade de quem pretendeu em qualquer ocasião transmitir por escrito alguma coisa da sua lavra seja a presentes ou vindoiros.
Não dirá alguém, nesta altura, serem estes considerandos matéria impertinente e sobretudo desarticulada do tema de que, há semanas já, me venho ocupando aqui? Parece-me que assim não acontece, visto que o intento de todo este arrazoado visa a concluir, em primeiro lugar, que o P.e H. Moreira da Cunha foi homem de grande mérito literário ao elaborar em base de pura autenticidade o nobiliário que nos legou. Prova evidente de que assim procedeu, está no facto de ter gastado anos a percorrer várias terras compilando testemunhos orais ou escritos, em que assentou todas as afirmações do manuscrito, conforme honestamente confessa no breve prólogo que antecede a sua obra.
Demais, no trabalho que fez como por via de regra sucede nos livros antigos de carácter genealógico o P.e Henrique praticou omissão quase absoluta de datas referentes às pessoas e acontecimentos de que nos fala. Por causa disso, senti necessidade de consultar miudamente os livres velhos do Registo Paroquial de todas as freguesias de Penafiel e de muitas outras de concelhos circunvizinhos. Ao longo desta prolongada tarefa, jamais pude dar conta de qualquer inexactidão existente no manuscrito do P.e Moreira da Cunha quer dizer, tudo o que se encontra ai é rigorosamente autêntico. No caso particular respeitante ao Cónego Manuel Moreira de Peroselo, tenho a dizer mais que, além do recurso do registo paroquial e do seu testamento, transcrito nos livros da Provedoria, pude valer-me também doutra fonte, qual é a do Livro dos Termos das posses canonicais. Remonta este a 1614 e ainda é usado hoje para lançamento dos mesmos termos. O leitor amigo poderá imaginar a emoção que senti ao ler o termo de posse do Cónego Santo e também aquele breve registo do óbito e enterramento, onde o Cón. Alão deixou afirmado ter sido o Cón. Manuel Moreira um «varão de muita virtude». Esta nota «de muita virtude» é deveras singular e eloquente, pois não se encontra semelhante em nenhum outro assento obituário, dentre os muitos que lá foram exarados.
Julgo, por certa maneira, ter sido posta em relevo a autenticidade da obra do P.e Henrique de Parada. Honra seja dada ao seu carácter impoluto tanto mais bem merecida, quanto é certo alguns dos genealogistas do século em que viveu (o século XVIII, como sabem) não se terem pejado de forjar falsas ascendências na estulta mira de se glorificarem a si mesmos e à família donde provieram.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1971-06-18, p.04

«Sobrinho que foi...»




Se é que merecem ao leitor algum interesse estas mal escrevinhadas notas, ainda pode suceder que retenha na memória o texto do epitáfio que haveria de ser gravado na «campa de pedra» destinada a cobrir a sepultura do Cónego Santo de Peroselo, caso fosse enterrado no adro da Capela de S. André, sita na freg.a de S. Ildefonso. Digo isto porque me importa relembrar aqui, neste momento, a parte final desse «letreiro» vocábulo por que é designada, um tanto rusticamente, a referida inscrição epigráfica, que vem lançada no testamento do Cónego Manuel Moreira. Como saberá — se bem se recorda, amigo leitor depois de vir indicado o nome e origem do Cónego, acaba ela por findar desta maneira: *«...Sobrinho que foi do fundador da Misericórdia de Arrifana de Sousa». É à volta deste tema que hoje se vai desenvolver o nosso entretenimento.
Manuel Moreira, que foi Cónego da Sé do Porto e oriundo de Peroselo, era na verdade legítimo sobrinho em 3.° grau, pelo lado materno —do P.e L.do Amaro Moreira, que fora Abade do Ermelo e insigne benfeitor da nossa Misericórdia cuja igreja fundou e dotara de enormes rendas, para brilho do culto e
valimento dos necessitados enfermos do seu Hospital. Isto já está dito redito, mas não há mal em repeti-lo, por causa da moléstia de que padece a memória dos homens. Tanto assim, que Penafiel se esqueceu até hoje de prestar homenagem condigna a quem tanto lhe dera...Verdade bem provada é também que o Cónego Manuel de Peroselo foi 3.o sobrinho dessa grande figura de homem e Padre o fundador da
Misericórdia. No entanto, não será despropósito recordar aqui a via por que o foi.
0 P.e L.do Amaro Moreira, filho legítimo de Gaspar G. Moreira e de Brites Duarte, nascera na Casa da Lousa morada de seus pais no lugar de Moreira da freg.a de S. Miguel de Gandra do actual conc.o de Paredes. Entre os 6 irmãos que tivera, conta-se uma Maria Gaspar Moreira, casada que foi com Gonçalo Rodrigues, da Casa de Lagares, freg.a do mesmo nome e orago de S. Martinho, no conc.o de Penafiel onde viveram com geração. Uma filha deste casal, chamada Maria Moreira, casara, a 6-5-1607, na igreja de Lagares, com Gonçalo Fernandes, natural de Peroselo. Moraram eles na Casa da Igreja desta freguesia e tiveram, entre outros filhos, Helena Moreira, nascida em 20-10-1616. Helena Moreira casou na igreja de Peroselo, a 9-2-1643, com Domingos do Couto, natural da freg.a de Rio Tinto. Residiram na dita Casa da Igreja, onde nasceu, a 16-9-1649, o filho Manuel Moreira, que veio a ser o Cónego Santo. Talqualmente soía exclamar, ao fim de engraçada conversa, o bom do Padre Américo do Gaiato em certos pontos, irmão gémeo do Cónego Manuel de Peroselo também eu, ao cabo desta lengalenga genealógica, apetecia-me dizer do benévolo leitor: Ora eis! Entretanto, ainda acrescentarei que não seria capaz de pintar com mais clareza e síntese o quadro da ascendência materna do nosso Cónego por mais tratos que desse à minha pobre imaginação. Mas, apesar de tudo, à face do que fica dito, poder-se-á atestar que o Rev. Manuel Moreira Cónego que foi da Sé Catedral do Porto não era oriundo de fraca cepa, quer dizer, ao menos pelo lado da mãe, era filho de boa gente gente de limpeza de sangue e lavada geração!
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1971-06-11, p.04

Os «Bens d'Alma» do P.e Franc.o




Seja-me consentido falar outra vez do P.e Francisco Coutinho Pereira.
Sempre que passo na estrada de Penafiel, meus olhos se hão-de volver para a igreja de Marecos e lugares circunvizinhos, acudindo-me logo à lembrança todo o memorial que tenho arrecadado sobre a pessoa deste abade setecentista. Quase sem eu dar por isso, foi-se ele constituindo para mim numa espécie de símbolo dos Abades do século XVIII. Daí se compreenderá o empenho que tive de conhecer bem todo o seu modo de ser: acções, ideias e sentimentos que deram forma à sua personalidade. É muito natural, pois, que ao descobrir da estrada a Matriz de Marecos, prontamente me venha à memória ter sido o P.e Francisco quem «a mandou construir», no ano de 1728, sem esquecimento de que lá dorme o eterno sono, na capela-mor do templo, por expressa vontade sua. Conjuntamente me lembra também havê-la contemplado este Abade, no testamento, com «cem mil reis» avultada quantia naqueles tempos , dinheiro que o seu parente José Luís Pereira devia escrupulosamente administrar; «para com elles aprefeiçoar quanto for possível a Igreja por dentro com os dous altares Coletrais e mais quanto for possível». Alguns outros «bens d'alma» se encontram consignados ainda nas disposições testamentárias do Ab.e Coutinho Pereira. Entre mais coisas, lá vem declarado: «...e no dia do meu enterramento a cada pobre mayor darão de esmolla hum tostão a cada hum, e aos de fora da freguesia, não excedendo estes o numero dos cem, se dará a cada hum meyo tostão de esmolla, e excedendo, se lhes dará o que puder ser...». De seguida, assim determinou para maior bem da sua alma: «...e se me farão tres officios de dez Padres cada hum e me mandarão dizer logo duzentas missas no altar privilligiado da Capela de Barboza, de esmolla de tostão cada hua». «Bens d'alma considerou ele também as terras do «Cazal de Souteilo» e o «Campo das Senras» e «as cazas novas com seu tapado» e ainda mais «o campo chamado de Ametade e o Lameiro de Alem» tudo propriedade sua que deixou em herança aos parentes e familiares João e José Pereira, afim de constituírem o seu património (obrigatório por lei eclesiástica), no caso de se ordenarem, quer dizer, de abraçarem a vida sacerdotal.
E não cabe mais neste lugar referência alguma aos «bens d'alma» nomeados no testamento deste Sr. Abade.
A distância de perto de duzentos e cinquenta anos, após a morte do P.e Francisco, será ainda grande bem para a sua alma que os bons paroquianos de S. André de Marecos, ao transporem a porta principal da sua igreja matriz, não se esqueçam de evocar em prece saída do coração a memória dum Abade que tão amigo foi da freguesia que pastoreou não muito longe de meio século.
MONAQUINO

O Padre António do Médico




O mistério sempre exerceu poderosa atracção sobre o espírito do homem. Não se faz mister ir à Grécia aprendê-lo ou a outros povos antigos com fama de sapientes. O nosso Eça e o Ramalho eram sabedores dessa verdade ao empreenderem escrever, para gáudio seu, e por amor à Arte, O mistério da estrada de Sintra. Mesmo qualquer fabiano, com fumos de literalismo, não terá deixado de entretecer em prosa ou verso, os misteriozinhos da sua estrada na vida, na mira de glória fácil. É certo que as coisas deste mundo tornam-se naturalmente sedutoras ainda quando o véu que as envolve seja mais denso do que o queiroziano «manto diáfano da fantasia». Acusa-se a Idade-Média de ter sido apaixonada do legendário, quer dizer, amante do misterioso, mas os homens do nosso tempo — tão devotos da crítica objectiva, ou seja da «nudez forte da verdade» — não deixam de pagar também pesado tributo ao culto do humano mistério. É ver, até eu mesmo, estou para aqui agora em tentativas de tornar misteriosa uma epígrafe trivial, de fácil entendimento: O Padre António do Médico.
Que teia emaranhada poderá andar à volta dum padre e dum médico?
— Nenhuma, neste caso. Trata-se de coisa muito simples e bem esclarecida no Penafiel (Hontem e Hoje), p. 46, onde se diz:
«(...) o padre Antonio do Medico (Antonio Vitorino de Almeida, chamado do Medico, por ser filho do notavel medico Dr. Antonio de Almeida, sócio da Academia Real das Sciencias, que muito ilustrou Penafiel».
É verdade, um médico, que foi militante muito activo da facção liberal, em Penafiel e não fugiu por isso à fama de pedreiro-livre, — pai dum sacerdote!
O P.e António Vitorino nasceu na rua das Chans a 17-1-1795. Foi baptizado na Matriz da freguesia aos 29 do dito mês e ano, pelo P.e Custódio de Sousa Nogueira, tendo sido padrinhos o Dr. J. Per.ª Monteiro, avô materno do neófito, «por procuração que mostrou de seu filho Frei António dos Serafins, monge beneditino», e o P.e Francisco J. Per.ª Ferraz, como procurador de «sua Mana Dona Gertrudes Narciza». No assento do baptismo deste filho de referido médico (que se encontra no L.° 5.º dos B.os de S. Mart.o de Penafiel, fls. 216 v.), vem expressa a freg.a de S. João de Almedina, da cidade de Coimbra, como sendo a da naturalidade do Dr. A. de Almeida. Os pais de António Vitorino constituíram-lhe património em 5-4-1816, a fim de poder receber o subdiaconato. Ordenou-se de presbítero em 19.9.1818. Em 1821, foi pároco encomendado de S. Mart..o de Rio de Moinhos, mas a maior parte da sua vida decorreu sempre na cidade. No ano de 1844, já falecidos seus pais e contando 49 anos de idade, permanecia em Penafiel, como simples «confessor e capelão de missas». Foi um «desvelado protector» da Ordem Terc.a do Carmo.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1970-12-11, p.06

Promessa a cumprir




Assim como há seres vivos que entram anualmente em hibernação, também o espírito humano de vez em quando cai numa espécie de letargia. Porque não à parte dos outros homens, estou sujeito a essa lei da natureza. Ainda há pouco isso me aconteceu. Claro que nesta época hiemal há a tentação de se deitarem as culpas ao flagelo das geadas, ao furor das procelas e quejandos fenómenos característicos da presente estação, — mas na realidade será mesmo essa a causa verdadeira do mal? Pouco entendo da matéria e da maior parte das coisas que sucedem dentro e fora de mim. Sem fazer profissão de pirronismo, julgo que todo o homem, por muito evoluído que seja ou dotado até duns tantos dons carismáticos (tanta vez moléstia da fantasia!) — só topa mistérios no seu íntimo e à sua roda. Não é isto que se dá com o comum dos homens?
Mas afinal, leitor amigo, era apenas meu intento dizer agora que ainda desta feita logrei sobreviver e, se não me engano, a luz da velha candeia vai de novo espevitar-se. E sem mais aquelas, por amor de descarrego da consciência, apresso-me a cumprir uma promessa, que fiz há meses, de falar aqui dos descendentes dum tal Francisco Pereira de Beça Veloso de Barbosa, oriundo de Penafiel, que alcançaram renome em terras do Brasil.
Num dos vários encontros com Abílio de Miranda nos últimos anos da sua vida, de que guardo grata memória, o venerando pesquisador das velharias penafidelenses mostrou-se-me deveras interessado em obter certos dados genealógicos respeitantes ao Dr. Ant,° de Almeida, a fim de poder satisfazer a curiosidade de um distinto cidadão brasileiro que havia pouco tempo viera à nossa cidade, propositadamente, à busca de tais elementos, por lhe constar que a sua pessoa estava ligada, por laços de sangue, à família do notável médico e historiador. Regozijei-me com a oportunidade que me era oferecida de poder ser prestável então ao bondoso e erudito A. de Miranda, porque, além de tudo mais, já nessa altura lhe devia valiosas informações congéneres. O esclarecimento pedido foi enviado pela mão do meu prezado amigo ao Dr. Benjamim Pereira Monteiro, residente na avenida Galogeras, no Rio de Janeiro — que tinha sido este o ilustre brasileiro que motivara a diligência havida. A breve trecho, por via do que se passara, o Dr. B. Pereira Monteiro endereçou-me longa e amistosa epístola, que dera início a interessante correspondência, mantida por muito tempo entre nós dois, com manifesto proveito cultural, ao menos para mim, sem falar já na simpatia e respeitosa amizade que dessa maneira se gerou entre ambos. Darei conta, na próxima vez, do conteúdo das missivas, sobretudo do referente à descendência de Francisco Pereira de Beça V. de Barbosa. Antes de terminar, não deixarei de dizer que uma troca de informações de carácter genealógico de gente de Portugal com remotos parentes radicados no Brasil algo haveria de contribuir para a realização prática dos objectivos da tão falada Comunidade Luso-Brasileira.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1971-02-05

Dona Mariana Joaquina




Já é nossa conhecida a D. Mariana Joaquina. A sua apresentação aos leitores ocorreu na p. passada semana, quando se fez a transcrição do registro do casamento do Dr. Ant.o de Almeida, em
que ela entra em cena a receber por palavras de presente o referido médico do partido de Penafiel.
Lá está, como se viu, o seu fidalgo nome, por inteiro; D. Marianna Joaquina Pereira Bessa Velozo de Barboza e
Almeida. Formoso nome, sem dúvida, de ritmo harmonioso, muito ao sabor do séc. XVIII.
Há quem embirre seriamente com os extensos nomes antigos, ainda que genuínos e bem sonantes a ouvidos exigentes. Será uma questão de alergia... Por mim, permito-me dizer que não sofro desses inferiorizantes complexos — conquanto possua um nome retintamente plebeu. Mas já agora peço vénia para confessar aqui, muito à puridade, certas intimidades minhas, aliás, deveras inocentas. Dá-se o caso que, de tamanino, fora sempre um enamorado dos áridos nobiliários e das ressequidas árvores genealógicas. Até mesmo no verdor dos anos (será crível?), não me enfadaram demais o pó irritante e o activo odor característico dos revelhos manuscritos, de folhas e letras amarelecidas por acção do tempo.
- Pobre Monaquino, a muito te abrigas por amor das velharias! Para quê tanto padecer? E depois é que hão-de julgar que será um processo habilidoso de te singularizares, ou como diz o povo, de dar nas vistas...
- Não importa tal juízo dos homens, porque em verdade quem se propuser indagar alguma coisa de novo, passada nos tempos idos — a bem do enriquecimento do seu espírito e sem desvantagem para outrem — terá que ser e fazer mais ou menos assim. E tantas coisas há por descobrir, tantos aspectos inéditos a focar, dentro da história em geral, sem falar na antroponímia, etnografia e etnologia, respeitantes à gente das nossas terras...
- Bonita perlenga, não haja dúvida! A verdade é que te havias de esquecer com isso de prestar a atenção devida à D. Mariana Joaquina.
— Como Dona que é, há-de saber desculpar, e ora prometo ser mui atento venerador de sua Senhoria.
Mariana Joaquina foi nada e criada em Penafiel, na rua das Chans, onde moraram seus pais, - o Dr. Francisco José Pereira Monteiro e sua mulher Dona Anna Joaquina Bessa V. de Barboza. Nasceu a 28-11-1771 e baptizou-se na igreja Matriz a 9 de Dez. o do mesmo ano. Foi seu padrinho o Capitão Carlos Ferreira Grelho (os Grelhos de Penafiel já me consumiram a paciência, noutros tempos), natural da mesma rua, então assistente na sua Quinta da Ermida, em S. Maria de Coreixas, hoje freg.a extinta. O assento de baptismo de Mariana encontra-se no L.° 2 de Bapt.os de S. Mart.o de Penafiel, fls. 270 v..
D. Mariana Joaquina teve pelo menos dois irmãos, chamados António e Francisco. Em nota concisa dum artigo de Penafiel (n.° 1-2.o s.-p. 19-1963), vem uma referência aos dois. Conforme aí se lê, o irmão António foi religioso beneditino, com o nome de Fr. Ant.° dos Serafins, em cuja presença se receberão o Dr. Ant.º de Almeida e D. Mariana Joaq.ª.
Quanto ao irmão Francisco, diz o autor do citado artigo, emigrou para o Brasil, onde casou com geração. A ele, e à
sua descendência ilustre, hei-de referir-me ainda outra vez, proximamente.
São horas de me despedir. À Senhora de Barboza e Almeida e seu Ex.mo Marido, os meus sinceros respeitos.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1970-11-27, p.06

Retábulo-mor de Bustelo




Antes de mais, muita desculpa à Ex.ma Direcção do Notícias de Penafiel, — sempre tão acolhedora e compreensiva deste pobre velho, solitário do Mozinho por causa de vir hoje aqui intercalar um tema muito aparte daquele que prometera versar sem interrupção, até final, qual fora dar à estampa a documentação em posse, relacionada com a pessoa do Dr. A. de Almeida. A causa desta interposição, porque não dizê-lo? é o prazer que senti de me ter chegado às mãos, há poucos dias, um documento que o Prof. Robert C. Smith e o Prof. Flávio Gonçalves muito gostariam de certo ter conhecido, quando se ocuparam há anos da talha da igreja de S. Mig. de Bustelo, de Penafiel. O primeiro, como se sabe, é o notável historiador de Arte, professor na Univ. de Pensylvânia, autor de vários trabalhos em português, da sua especialidade, dos quais interessa agora citar apenas A Talha em Portugal (Lisboa-1962-1963). Nesta obra, volumosa e ilustrada, assente em rigorosa documentação aliás como todas as outras da sua autoria — Smith referiu-se à talha da igreja de Bustelo, a p. p. 109-110. Ao quedar-se em considerações sobre o retábulo da capela-mor, disse que era «lógico» à luz da análise dos dados estilísticos concluir que ele se devia à «arte de Manuel da Costa de Andrade e às lições de Miguel Francisco da Silva», acrescentando que, embora não tivesse «documentação» a esse respeito, tudo levava a crer ter sido executado entre 1745 -1750.
Mais tarde, Flávio Gonçalves — Prof. da E. S. de Belas-Artes do Porto e ilustre polígrafo — retomou o mesmo assunto em dois excelentes artigos publicados na secção Cultura e Arte do jornal O Comércio do Porto (13 de Abril e 25 de Maio de 1965), sob a epígrafe A construção da Igreja de S. Miguel de Bostelo e a sua talha dourada. Na última parte do 2.º artigo, encontra-se a seguinte afirmação: «Segundo o texto do L.° dos Óbitos de Bostelo, o retábulo-mor da igreja conventual data o mais tardar de 1742 -1743 — indicação que, a estar certa, se me afigura de importância, por provar que não só depois do retábulo da igreja de S. Ildefonso (Porto) começaram os arquitectos e entalhadores da zona portuense a aprender a lição do rococó».
Terá Flávio G., ou outrem, quem quer que seja, encontrado prova definitiva, a confirmar como «certa» a cronologia do citado L.° dos Óbitos? Ignoro. É por isso que informo os prezados leitores de que tenho presente uma escritura lavrada a 17-7-1742, do L.° de Notas do tabelião J. Francisco Teixeira, da cidade do Porto, na qual «Josephe de Afonceca, mestre emaginario e morador na rua das ortas da freguesia de São Ilfonço, extramuros», se ajustou e contratou com «frei João Bauptista, Dom Abbade do Mosteiro de Bostello» a fim de «lhe haver de fazer toda a obra do Retavello e trevuna da Capella mor do dito seu mosteiro».
A «indicação» do L.° dos Óbitos está, pois, mui «certa»!
Praza a Deus que o texto integral da referida escritura venha a ser publicado na parte documental dum futuro boletim de cultura de Penafiel.
MONAQUINO

O Casamento do Médico




Desconheço a data ao certo em que o Dr. Ant.o de Almeida deixou Coimbra — terra natal, em cuja Universidade se formou —, por lhe ter cabido em sorte vir exercer a sua profissão em Penafiel, onde foi médico do partido. Não resta dúvida, porém, de que antes de completar 26 anos de idade já estava a viver nesta cidade, sendo morador na rua dos Remédios. O valor humano da sua pessoa e a competência profissional, que logo se evidenciaram, impuseram sem demora o jovem médico ao respeito e admiração de todos. Este caso do Dr. A. de Almeida sugere um resumido apontamento de feição sociológica.
No nosso tempo dá gosto observar um aumento constante das facilidades, de vária ordem, destinadas a promover a elevação do homem. Caminha-se, a passos largos, para um relativo nivelamento, melhor se diria, para uma aproximação cada vez maior do nível de vida das diferentes classes sociais. Nisto está implícito também o louvável intento de se alcançar mais generalizado aproveitamento dos autênticos valores, que amanhã hão-de servir melhor os verdadeiros interesses da comunidade,
O que se passou com o médico Almeida era coisa rara naqueles tempos (de fora parte a promoção por via eclesiástica). Do assento do seu baptismo, sabemos que o pai tinha o ofício de barbeiro, em Coimbra; sua mãe, antes de casar, fora em «São Galhos» simples criada-de-servir. Sem dúvida, gente de condição humilde, mas muito honesta. Apesar de tudo, mercê do seu talento e esforçada vontade António de Almeida ilustrou-se invulgarmente e conquistou posição de assinalado relevo na sociedade do tempo. A sua ascenção na ordem social recebeu confirmação e ficou mais realçada quando se casou com uma distinta Senhora do meio penafidelense.É agora a oportunidade de inserir aqui o assento do casamento do notável médico.
Por cópia fiel, é o seguinte:
= Aos onze do Mes de Abril de mil sete centos, noventa e três, feitas as denunciaçois na forma do Sagrado Concílio Tridentino e Constituição do Bispado, com ordem do juizo, que passou o escrivão Barretto, de manhaa nesta Igreja de S. Martinho de Penafiel na presença de Fr. António dos Serafins, de minha licença a que também assisti eu Joze Mendes da Costa, e das testemunhas o Doutor Joze Pereira Monteiro e Francisco Joze Pereira Ferras, clérigo in minoribus, ambos desta Cidade, se receberão com palavras de presente — o Doutor António de Almeida, filho legitimo de Caetano de Almeida, e Francisca Thereza da Piedade, aquelle natural da Freguesia do Salvador (sic) da Cidade de Coimbra, e ella da Freguesia de S.Vicente, de Sangalhos Bispado de Aveiro: Nepto paterno de João de Almeida, natural de Toloza Priorado do Crato, e de sua mulher Thereza da Silva Caldeira, natural da Villa de Arganil: e materno de Domingos Francisco, e de sua mulher Maria Rodrigues de Bairros, da dicta de Sangalhos: — e D. Marianna Joaquina Pereira Bessa Velozo de Barbosa e Almeida, filha legitima de Francisco Joze Pereira Monteiro, e de D. Anna Joaquina Bessa, aquelle natural desta Cidade, e esta da Freguezia de S. Martinho de Recezinhos, e por acazo baptizada na de Santa Martha: Nepta paterna de Domingos Pereira Monteiro, natural de Santa Maria de Sobre Tâmega, e de sua mulher Jozefa Gomes Moreira, natural desta freguesia; materna de Bernardo Luiz de Bessa Velozo Barbosa desta mesma, e de Eugenia da Cunha da dicta de Recezinhos, e ambos assistentes nesta Cidade, ella na Rua das Chans, e elle na dos Remédios, e fis este assento que assigno com as testemunhas. Encomd.o Jozeph Mendes da Costa —Fr. António dos Serafins—Joze Pr.a Monteiro — Francisco Joze Pereira Ferras.
A' margem: Dr. António de Alm da e D. M.ria Joaq.a Per.a,
A. Mendes—Teve as bençois nupciais — Mendes =
S. Mart.o de Penafiel
L. I—C—F. 256 v.o
MONAQUINO

Solilóquio


Vozes desatinadas dos homens filhas do pertinaz orgulho que lhes consome a alma perturbam a cada passo a quietude da vida contemplativa que há longo tempo o Monaquino professou, na Tebaida do Mozinho. Ainda não há muitos dias estava ele todo absorto na meditação da contingência e vaidade das coisas deste mundo, senão quando estranha voz o veio apoquentar (provinda de certa varanda implantada no jornal «O Penafidelense»), que lhe dissipou por inteiro o espiritual deleite em que se encontrava enlevado. Aconteceu isto em 20/10/70.
A memória do Monaquino, já um tanto descalabrada, não foi capaz de reler fielmente (ipsis verbis) os dizeres dessa voz esquisita, mas as ideias e sentimentos que deles ressaltavam, podem expressar-se, mais ou menos, na seguinte forma sintética:
— Eu, advogado da verdade e da justiça, aqui declaro, do alto desta Varanda de Cultura, ter sido o primeiro escritor a concluir, com seguro fundamento, que o autor da «Descrição Hist. e Topog. da cidade de Penafiel» era natural de Coimbra. Para tanto levei a cabo conscienciosa investigação exaustiva, que se prolongou de Dez.° de 69 a Out.o de 70. Fiquem sabendo todos que só cabe a mim a glória de ter provado que o Dr. Ant.° de Almeida não foi nado em Penafiel, como alguma vez se afirmou.
Graças ao autodomínio adquirido à força de constantes penitências, na Tebaida o Monaquino pode escutar imperturbável e mansamente tão angelicais falas: porém, os inalienáveis direitos da Verdade é que logo se levantaram a pugnar pela sua legítima defesa. Por artes de uma espécie de desdobramento de personalidade, surgiu um curioso diálogo entre o Monaquino e a sua consciência. Começou esta a interrogá-lo da seguinte maneira:
— Dize-me cá, não foi certo que tu, Monaquino, neste ano da graça de 70,a 6 do mês de Fev.°, no «Notícias de Penafiel», afirmaste que o Dr. Ant.° de Almeida era de «origem conimbricense»?
Monaquino, na sua edificante modéstia, respondeu:
— Lá isso é verdade. Asseverei-o muito convicto da veracidade do facto, mas talvez não tivesse apresentado a minha afirmação devidamente documentada...
A Consciência, com gesto enérgico, retorquiu:
— Ó alma de Deus! pois não te lembras que, em abono da tua asserção, citaste então dois escritos do teu velho amigo Moreira da Rocha — um de 2 e outro de 23 de Fev.° de 1962 — publicados no mesmo sobredito jornal, em que se fala da naturalidade e vida do Dr. Ant.o de Almeida, com tais pormenores de datas, pessoas e lugares, que ninguém de boa fé deixará de reconhecer que o autor, ao dar-lhes publicidade, tivera diante dos olhos fontes de informação fidedignas, de incontestável autenticidade?
Monaquino, nesta altura da conversa, baixou a cabeça, em sinal de muita concentração de espírito, e alguns momentos após, dirigiu à Consciência as seguintes palavras:
— Leal e querida companheira, tens muita razão em tudo que disseste, mas hoje em dia rareia a gente que pensa e obra de boa fé! Por via disso, (quer dizer, por causa da ausência de integridade de carácter, de lisura e maneiras decentes dos homens), decidi-me publicar toda a documentação, em minha posse, respeitante ao Dr. Ant.° de Almeida, — que me foi doada em vida pelo meu inesquecível amigo M. Telda R., — que tenho arrecadada numa arca velha, ao canto da minha cela. O primeiro documento a sair é uma cópia do assento do baptismo do historiador Ant.° de Almeida.
Texto do referido documento:
= Aos três dias do mez de Agosto de mil sete centos e sessenta e sete annos Baptizei solenemente António filho de Caetano de Almeida, Barbeiro, e de sua mulher Francisca Thereza da Piedade morador (sic) no largo da Feira: Netto de João de Almeida natural de Teloza, e de Thereza da Silva Caldeira natural da Villa de Arganil; e materno de Domingos Francisco Laboira, e de Maria Rodrigues de Barros ambos do lugar e freguesia de São Vicente de São Galhos: Foi padrinho o R.do Cónego Antonio Vicente de Vasconcellos, tocou com procuração sua João António Bezerra Professor Régio, e madrinha Thereza de S.ta Rosa porteira do Recolhimento da Misericórdia tocou com procuração sua seu sobrinho o Doutor António Joze das Neves, e para constar mandei fazer este afsento que afsignei. Coimbra dia mez e atino ut supra = O Prior encomendado Manoel do Espírito Santo e Sousa =
Até à semana, se Deus quiser.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel

 

Outra vez artes e ofícios


Vai satisfazer-se em parte a promessa devida ao prezado leitor com nova referência às artes e ofícios havidos outrora em Arrifana de Sousa. Será informação mui sucinta. A natureza do assunto pedia espaço mais rasgado para se versar tema deveras interessante para a história de Penafiel. Por desgraça de todos nós a pobreza da Cidade é tanta que não consente sustentar-se um boletim cultural, onde se poderia tratar à vontade essa matéria e muito do mais que até agora não foi versado a preceito, respeitante ao património histórico da nossa terra. Por muito modesto que fosse, sempre havia de irradiar alguma luz benfazeja. Tanto mais para lamentar esta lacuna quanto é certo que tal género de publicação existe nalgumas vilas de Portugal, cabeças de concelho. Ficava bem a existência desse boletim em Penafiel, sobretudo agora que nos podemos orgulhar com razão de se terem franqueado novos caminhos para a instrução da nossa gente. Até quando esta «apagada e vil tristeza» de nos vermos privados de tão útil instrumento de cultura? Mas com este arrazoado, cá estou eu outra vez a alongar-me em divagações, quiçá algo inoportunas... Guardemo-nos de mais desvios e encaminhemo-nos a direito ao que fora proposto.
No ano de 1619 vivia em Arrifana de Sousa um albardeiro chamado Ant.° Fernandes. Muitos mais viveram aqui nesse tempo, como também sucedeu em todo o séc. de seiscentos. Podia citar-lhes os nomes e a data da sua existência, que tudo vem muito expresso nos L.oS I e II do Registo paroq. de S. Mart.0 de Arrifana. Nos anos de setecentos acontece outro tanto. Dentro desses dois séculos, na mesma fonte, a cada passo surge um ror de almocreves. Por via da brevidade, dispensamo-nos de alumiar algum. Bem se compreende que tendo sido Penafiel espécie de entroncamento de vários caminhos vindos da região do litoral e de outras partes distantes, em direcção às Beiras, Trás-os-Montes e terras do Minho aqui proliferassem albardeiros e almocreves, bem como todas as actividades atinentes ao comerciar e andanças das gentes daquelas épocas. A par de muitos carroceiros, estribeiros e ferradores, era possível nomear um sem número de ferreiros, serralheiros, fundidores e correeiros todos a trabalhar de mãos dadas no essencial e acessório daquilo que genericamente se pode chamar indústria da selaria. Não se fique a julgar, porém, que não existira no burgo arrifanense arte mais nobre que a feitura das albardas ou ofício mais distinto que o dos homens almocreves. Nesta terra não faltaram obreiros de apurado gosto dedicados a artes de relativa nobreza. Assim o havemos de ver.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1970-10-18, p.06

Santeiros de Arrifana


Se me fora dada possibilidade de retrogradar no tempo e de novo dar vida aos ambientes extintos da velha Arrifana, com certeza não deixava de o fazer, quando mais não fosse para visitar todas as «lojas» de escultores de santos que tanto abundaram aqui, pelo menos nos sécs. XVII e XVIII. Sem pretensões de crítico entendido em matéria de arte, sempre apreciei muito a obra dos 'imaginários» em todas as suas formas de expressão — da vulgar e ingénua à reveladora do mais apurado senso estético. Presentemente, parece que esse meu pendor natural mais se me arraigou ainda na alma, por efeito de saudável reacção contra os ventos iconoclastas desencadeados no nosso tempo. Não faz pena, amigo leitor, ver por aí, nos múltiplos e variados ferros-velhos, tantas imagens de santos que foram objecto de entranhada devoção dos nossos maiores?
Mas como ia dizendo, no caso de me ser possível reconstituir o passado, havia de aproveitar a primeira oportunidade para conversar demoradamente com os «imaginários» que viveram outrora no burgo de Arrifana. Era à porta de António Teixeira (o do Penedo) que iria bater em primeiro lugar, por ser ele talvez, dentre todos, o mais favorecido de talento. P. Leal refere-se a este «escultor insigne» e esmerado pintor que, segundo diz, nunca recebeu «lições de mestre». Ele é o autor da «imagem do Senhor dos Passos, que vai na sua procissão, reputada obra-prima, e ainda de muitas das imagens que adornam várias igrejas e capelas da cidade e arredores». Como preito de profunda admiração, havia de o saudar cortesmente, para logo encaminhar nossas falas no sentido de indagar do seu modo de conceber a imaginária, dos modelos escolhidos para as suas obras e sobretudo em ordem a saber que estranhas influências possam ter actuado no seu espírito como factores determinantes da génese da sua criação artística.
«Escultor insigne» sem haver «lições, de mestre»? Estou convencido de que não foi bem assim. A meu ver, a arte de António Teixeira — mesmo que não se lhe reconheçam todos os primores que lhe atribui P. Leal — foi uma esplêndida floração em cujas raízes se deverá assinalar a acção fecunda de várias gerações de «imaginários» que anteriormente a ele, constituíram em Arrifana uma verdadeira escola de esculpir em madeira, ainda que algumas vezes de somenos valia. E quem me diz que o referido escultor (o do Penedo) não contou entre os seus ascendentes um João Figueiredo Penedo, «escultor imaginário», que «se recebeu» com uma Úrsula Fer.a de S.a, na Matriz de S. Mart.° de Arrifana, em 7-8-1710? Para findar, direi mais que experimentaria sumo regalo se um dia pudesse ver uma exposição de arte sacra em que figurassem as obras ainda existentes de tantos «imaginários» (incluindo Manuel Velho) que viveram e amaram tão nobre mester na terra de Penafiel.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1970-10-30, p.04

Lá isso gostava eu!





A «Candeia Velha» fora rogada para dar sinal de vida e afirmar continuidade da sua permanência em «Notícias de Penafiel» a quando do encerramento das comemorações bicentenárias da cidade.
A ferrugem dos anos que tem e a sua luz mortiça deviam aconselhá-la a não ceder à tentação de ser pôr em lugar de evidência aparecendo em público em maré tão festiva. Assim pensava, mas depois pareceu-lhe não ficar nada mal a uma «Candeia Velha» figurar numa festa que é afinal um remate colectivo de toda a evocação de velharias da nossa terra, feita ao longo deste ano do Bicentenário. Vistas as coisas por este prisma, ninguém há-de reparar que a «Candeia entre na função.
No entanto, apesar de tudo, por amor de se guardar melhor de qualquer mofa ou detracção — que hoje em dia aparece sempre um contestante em toda a parte, seja por fás ou nefas resolveu fazer-se acompanhar à festa, de braço dado com um autor muito conhecido, do século passado, incansável divulgador das curiosidades históricas de todas as terras do País — o nosso Pinho Leal. Sabe-se que as suas afirmações são por vezes pouco válidas, mas creio que a passagem do Portugal Ant. e Mod. que vai transcrever-se aqui, deve merecer crédito ao leitor. Falando da nossa cidade, diz ele em certa altura: «Há em Penafiel diferentes indústrias, sendo a principal a fabricação de selas, selins, albardas e mais arreios para cavalgaduras, que se exportam em grande quantidade.
Mas a indústria que mais celebrizou a terra foi a fabricação de candeias de ferro, estanhadas, saindo desta cidade, anualmente, muitos centos de milheiros delas, que invadiam todos os mercados do Reino, indo ainda abastecer os estrangeiros. Chegaram a haver perto de 30 forjas, com 30 bigornas, que davam que fazer a 4 pessoas, cada bigorna — tudo a fazer candeias! De 1820 por diante, alguns oficiais (candeeiros) se foram estabelecer em Paredes de Aguiar de Sousa, no Porto e até em Lisboa.»
Acrescenta depois Pinho Leal: «Com a descoberta do petroline, decaiu muito esta indústria: mesmo assim, em 1874, só um negociante daqui, exportou, de uma vez, para o estrangeiro 200.000, por não ter mais naquela ocasião!».
O citado autor fala no mesmo passo doutra indústria da cidade: a da «factura de socos (tamancos)», também objecto de muita exportação, e «justamente reputados os mais bem acabados do Reino». Ele mesmo, em 1860, comprara numa feira em Penafiel uns tamancos por meia libra; «mas têm-se vendidos muitos a 4$50 reis cada par!». Alguma coisa escreveu ainda P. L. acerca de «botas e sapatos» de Penafiel antiga, mas são horas de acabar... Só direi, por fim, que gostava muito de ver tomar parte no cortejo do p. domingo em lugar de honra os albaldeiros, os ferreiros, (particular.te os candeeiros), os tamanqueiros e os sapateiros da nossa terra, em tempos idos. Lá isso gostava eu!
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1970-09-18, p.04

Retrospecção




Devido a jeito de espírito que me veio de nascença, mal posso observar panorama actual sem que não me apareça de permeio qualquer visão do passado. E é de tal feição às vezes que me torna alheio a importantes realidades presentes. Defeito ingénito, não lhe descubro remédio!
Isto vem para dizer que o singular fenómeno se havia de verificar comigo naquele dia 21 de Junho, deste ano corrente. Sucedeu então que me encaminhei para a igreja da Misericórdia de Penafiel na disposição de viver em plenitude aquela hora festiva —em íntima união com a distinta assembleia presente —, mas o estranho pendor de alma a que aludi e me acompanha para toda a parte, não me consentiu realizar plenamente tão elevado propósito. Em vez de permanecer só atento à memorável celebração — Deus me perdoe! o meu espírito andou a vaguear por muito longe daquele momento inolvidável, que teve para a cidade e concelho categoria de histórico. Que ror de coisas velhíssimas se haviam de apoderar da minha imaginação em conjuntura de tanta solenidade... De tudo o que mais me impressionou foi ver surgir ante meus olhos todas as figuras do passado que deram contributo valioso para a vida e esplendor daquele templo e robusteceram, ao longo dos séculos, a solidez da Santa Casa da Misericórdia. Apareceu-me em primeiro lugar, a pessoa veneranda do fundador daquela igreja. Que dignidade de porte a do Abade de Ermelo em quem se espelhava com limpidez toda a vincada nobreza da sua personalidade de sacerdote de coração magnânimo e de ilustre homem letrado! Lá o vi assistir em 12 de Maio de 1622 ao lançamento da primeira pedra do templo da Misericórdia. Mais o vi em 1631, no dia da inauguração, a contemplar, sem jactância, a obra que fizera erguer e escolhera para lugar da sua jazida e também da família. Transportei-me em espírito à freguesia de Ermelo a admirar a fertilização daquelas terras áridas irrigadas um dia pelo dinheiro que despendera em seu favor. Ainda o vi finalmente a escrever o longo testamento em que deixou deposta nas mãos da Santa Casa de Penafiel a imensa fortuna de que fora possuidor. Na verdade, em tempo algum, houve maior benfeitor da Misericórdia que o P.e L.do Amaro Moreira de Meireles.
Na companhia do Abade do Ermelo estava uma multidão de seus parentes próximos, seculares e eclesiásticos de várias ordens tudo gente muito grada —, mesmo de terras distantes, por onde se ramificara a frondosa árvore dos Moreyras e Meyreles. Transparecia-lhes no rosto certa ufania de pertencerem à mesma linhagem do Padre licenciado fundador da igreja da Misericórdia. Como Administradores da Santa Casa e das formas mais diversas todos ajudaram a levantar muito alto o nome de Arrifana de Sousa e o prestígio e benfazer da Misericórdia de Penafiel.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1970-07-03, p.06

Albergaria e Misericórdia





Em todos os tempos floresceram ao sol do Cristianismo as mais variadas instituições devotadas ao serviço dos homens, impregnadas de espírito sobrenatural, ao menos na sua origem. As confrarias, albergarias e hospitais da Idade-Média três nomes então aproximadamente sinónimos foram expressão desse sentimento cristão de amor ao próximo. As albergarias dessa época ficaram bem assinaladas na toponímia do país, mas dentro do concelho de Penafiel existe apenas o topónimo Hospital em S. Mig. de Paredes e S. Paio da Portela —, se bem que, nos dois casos, só indicativo de terem existido no local bens pertencentes à Ordem militar dos Hospitalários de Leça do Bailio. Transcreve-se da memória paroquial de 1758, referente à Portela, a passagem que assim o confirma: «Ha
no logar de corveira huma caza antiga, e forte de mediana altura, com boa portada, com a Cruz da Religiam de Malta aberta em huma das pedras sobre a porta, que serve de recibo das muitas rendas, que Balio de Lesa tem por esta terra». Sem embargo disso, não deve oferecer dúvida alguma a existência duma albergaria ou confraria do Espírito Santo em Arrifana de Sousa. Essa realidade explicará em grande parte o facto da Irmandade da Senhora da Misericórdia — fundada no Porto em 1499 —, logo no dealbar do século de quinhentos, haver lançado fundas raízes em nosso burgo. De feito, estabeleceu-se aqui, «com compromisso», no ano de 1509, todavia alguns anos antes, «sem compromisso, se lhe avia dado principio, do que se infere que o teve no mesmo tempo que na cidade do Porto» (V. Penha-Fidelis — H. da Mis. de Penafiel, A. M.). A experiência algo similar da Confraria do Santo Espírito teria preparado o terreno para se receber, com franca abertura, a fundação da Irmandade da Misericórdia. A nova confraria teve a sede defronte da actual Matriz, como é sabido, mais ou menos onde teria existido a albergaria, pois no lugar fronteiro se erguia a igreja medieva do Espírito Santo, como se tem repetido muita vez. A que data remontará a Capela de N. S. das Dores, templo privativo da Misericórdia, há muito mais dum século votado a usos profanos? Das linhas que restam da primitiva fábrica se deduz não ter sido edificada antes da Matriz. A mais bela e pujante floração da Irmandade havia de começar no fim do primeiro quartel do séc. XVII com a erecção da Igreja da Misericórdia principiada em Maio de 1622 graças à munificência do P.e L. do Amaro Moreira de Meireles.
A terminar, uma pergunta: Penafiel já deu alguma vez digno testemunho público de reconhecimento ao mais insigne benfeitor da Misericórdia? O templo, o túmulo do fundador e a inscrição da capela-mor não serão o bastante para lembrar às gerações dos nossos dias o nome ilustre do generoso Abade de Ermelo.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1970-06-19, p.06

«Ossos de Santos Garcez...»




A presente epígrafe é expressão contida numa das inscrições sepulcrais existentes na Capela do Senhor dos Passos da Igreja matriz de Penafiel. Não obstante já ter sido transcrita e comentada por diversos autores que se ocuparam dos Garceses de Arrifana de Sousa, vamos tomá-la aqui para tema de breve anotação marginal.
Encontra-se ela gravada numa pequena caixa de pedra colocada numa edícula aberta na parede lateral, à direita de quem entra na Capela. O texto completo dessa inscrição é o seguinte: «S(epultura) dos ossos de Santos Garcez da Mota faleceo em serviço delrei em Alemanha. A. 1644».
Não é caso único, mas quem não estiver familiarizado com a antroponímia de outras eras há-de fazer-lhe espécie achar-se a palavra «Santos» empregada como nome de pessoa quando nos tempos modernos sempre nos aparece usada em função de apelido ou sobrenome. Era assim naquele século de seiscentos. Quanto à identificação de Santos Garcês, não poderá existir dúvida alguma, dada a clareza a seu respeito havida nos registos genealógicos. Descendente de João Correia, pelo lado paterno, foram seus pais Cosme Garcês e sua mulher Ana da Mota que viveram em Arrifana de Sousa. O pai, Cosme Garcês, foi tabelião no julgado de Penafiel, cargo público que andara já sem interrupção nas mãos dos seus antepassados (o primeiro a exercê-lo foi Gervaz Garcês, filho de Antão Garcês e de Brites Correia, nossos conhecidos) e que havia de manter-se ainda na família por várias gerações. Santos Garcês era licenciado em Direito. Além de tudo mais, esta foi também uma das razões da sua estadia na Alemanha «em serviço delrei», a quando da ocorrência da sua morte. Mas desçamos a pormenores, a este propósito, por amor de maior glorificação da sua pessoa, e também da nossa terra. Situemo-nos dentro do quadro da política internacional portuguesa nessa época histórica de 1644. D. João IV, é certo, estava reinante, mas a independência pátria não alcançara ainda a indispensável consolidação, por causa da Espanha, mancomunada com a Alemanha, se negar sistematicamente a reconhecer os nossos direitos de nação livre. Eram passados mais de três anos após a aclamação do Rei e a guerra movida a Portugal nesse decurso reduzira-se a escaramuças, sem importância de maior. Só em Maio de 1644 havia de ferir-se a batalha de Montijo, que foi grande vitória do nosso exército. Outra acção, não menos importante que a militar, começou a desenvolver-se no campo da diplomacia internacional, nesse ano de quarenta e quatro, em ordem a promover «o equilíbrio europeu». Era urgente que o Estado português neutralizasse os manejos dos nossos inimigos na batalha diplomática a travar no território de Vestfália. Foi nesta difícil conjuntura que o L.do Santos Garcês foi convidado a prestar «serviço delrei em Alemanha».
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1970-05-22, p.06