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Santeiros de Arrifana


Se me fora dada possibilidade de retrogradar no tempo e de novo dar vida aos ambientes extintos da velha Arrifana, com certeza não deixava de o fazer, quando mais não fosse para visitar todas as «lojas» de escultores de santos que tanto abundaram aqui, pelo menos nos sécs. XVII e XVIII. Sem pretensões de crítico entendido em matéria de arte, sempre apreciei muito a obra dos 'imaginários» em todas as suas formas de expressão — da vulgar e ingénua à reveladora do mais apurado senso estético. Presentemente, parece que esse meu pendor natural mais se me arraigou ainda na alma, por efeito de saudável reacção contra os ventos iconoclastas desencadeados no nosso tempo. Não faz pena, amigo leitor, ver por aí, nos múltiplos e variados ferros-velhos, tantas imagens de santos que foram objecto de entranhada devoção dos nossos maiores?
Mas como ia dizendo, no caso de me ser possível reconstituir o passado, havia de aproveitar a primeira oportunidade para conversar demoradamente com os «imaginários» que viveram outrora no burgo de Arrifana. Era à porta de António Teixeira (o do Penedo) que iria bater em primeiro lugar, por ser ele talvez, dentre todos, o mais favorecido de talento. P. Leal refere-se a este «escultor insigne» e esmerado pintor que, segundo diz, nunca recebeu «lições de mestre». Ele é o autor da «imagem do Senhor dos Passos, que vai na sua procissão, reputada obra-prima, e ainda de muitas das imagens que adornam várias igrejas e capelas da cidade e arredores». Como preito de profunda admiração, havia de o saudar cortesmente, para logo encaminhar nossas falas no sentido de indagar do seu modo de conceber a imaginária, dos modelos escolhidos para as suas obras e sobretudo em ordem a saber que estranhas influências possam ter actuado no seu espírito como factores determinantes da génese da sua criação artística.
«Escultor insigne» sem haver «lições, de mestre»? Estou convencido de que não foi bem assim. A meu ver, a arte de António Teixeira — mesmo que não se lhe reconheçam todos os primores que lhe atribui P. Leal — foi uma esplêndida floração em cujas raízes se deverá assinalar a acção fecunda de várias gerações de «imaginários» que anteriormente a ele, constituíram em Arrifana uma verdadeira escola de esculpir em madeira, ainda que algumas vezes de somenos valia. E quem me diz que o referido escultor (o do Penedo) não contou entre os seus ascendentes um João Figueiredo Penedo, «escultor imaginário», que «se recebeu» com uma Úrsula Fer.a de S.a, na Matriz de S. Mart.° de Arrifana, em 7-8-1710? Para findar, direi mais que experimentaria sumo regalo se um dia pudesse ver uma exposição de arte sacra em que figurassem as obras ainda existentes de tantos «imaginários» (incluindo Manuel Velho) que viveram e amaram tão nobre mester na terra de Penafiel.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1970-10-30, p.04

Artes e Ofícios





As artes e ofícios que floresceram outrora em Arrifana de Sousa não podem deixar de ser considerados factores importantes do seu progresso. Como tais merecem ser postos em relevância no «festivo ciclo» ainda decorrente, Deus louvado! Humildes embora alguns desses mesteres deram todos quota parte de valia para o engrandecimento do burgo: daí a razão de ser desta singela evocação.
Um dia me ocorreu a ideia de organizar um pinturesco cortejo (em escrita, é bem de ver) de quantos artífices, oriundos ou moradores na terra, me iam aparecendo ao longo de velhos manuscritos, a cuja leitura era muito dado então. Nesse fito, cheguei mesmo a juntar boa soma de nomes de mesteirais que vai agora servir de base a esta anotação ligeira. Apontarei a esmo artes e ofícios, sem me prender com distinções de nobreza já que a houve em certo modo também nesta matéria, tida vulgarmente de natureza plebeia. Mais queria acrescentar ainda ter-me valido, nesta amena tarefa, dos livros de registo paroquial de S. Martinho de Arrifana de Sousa. Vem a propósito dizer-se que estes «livros findos» só tiveram início no ano de 1610 coisa mui lamentável, sobretudo para os apaixonados linhagistas. Como é sabido, o registo paroquial dos baptizados, casamentos e óbitos só começou a ser obrigatório em toda a parte a partir do Concílio Tridentino e por isso é que a quase totalidade dos livros existentes só teve princípio no último quartel do séc. XVI, ou depois disso. Dentro do nosso concelho, constitui uma excepção o registo paroquial de S. Miguel de Paredes, freguesia que o conta desde 1542graças à iniciativa do Abade António Dias, que já então o iniciara.
Avezado como sou a divagações, vejo-me agora com míngua de espaço para versar hoje o tema das artes e ofícios de Arrifana... Tenho de contentar-me por isso com transcrever somente um termo de casamento do L.o 3.° do R. Paroq. desta freguesia de S. Martinho, que lá vem a fls. 50 maneira prática até de se mostrar a utilidade variada de tais livros do passado. O assento diz assim: «António Ferreira de Sousa, preto forro q. ficou do Padre Manuel Delgado Duarte deste lugar, official de Sapateiro, vindo de Pernambuco em pequeno, e criado neste ditto lugar em Casa do ditto Padre, e nelle sempre morador; se recebeo em Matrimonio por palavras de presente em face da Igreja, e na minha presença e das testemunhas infra asignadas na forma do sagrado Concílio Tridentino e Constituiçam deste Bispado; Com Jacinta Correa, mulher branca, filha legitima de Paulo Ribeiro, peneireiro, e de sua mulher Anna Correa, a tripeira do Pelourinho, deste lugar, e freguesia. Aos vinte e sette de Março do anno de mil e settesentos, e dezanove. Sem bênçãos por nam ser tempo dellas, e ella ter //...//; de que fiz este termo na verdade, dia, mes e anno ut supra.
O Rector Manoel Carn.ro da Silva».
No termo transcrito, além do mais, surge à baila um «official de Sapateiro», um «peneireiro», mai-la sua mulher, «a tripeira do Pelourinho»... Côr e vida de velhos manuscritos!
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1970-07-24, p.01

Garceses de Arrifana




Ninguém poderá descrever fielmente a vida social e político-administrativa de Arrifana e Penafiel de Sousa, ao longo dos últimos quatro séculos, sem incluir, na urdidura desse trabalho, extenso capítulo respeitante ao papel de relevo desempenhado na história da nossa terra pela família Garcês. (Leite de Vasc., na sua Antroponímia Port., ao tratar do apelido Garcês, afirma que o seu étimo «deve ser um patronímico», pois já no séc. XV aparece a forma com — s; não se estranhe por isso que não use a tradicional grafia com — z). Todo o homem culto, desconhecedor da actuação pública e particular dos membros desta linhagem, há-de aperceber-se decerto da importância que tiveram, dentro do meio do seu tempo, ao deparar, na rua Direita, com a frontaria do solar, algo modesto sem deixar de ser característico, que foi moradia secular dos Garceses. Mais convencido ficará ao observar na Igreja matriz de Penafiel a Capela do Senhor dos Passos, outrora seu fidalgo senhorio. Não estaria a carácter nem seria decoroso expor aqui a frondosa árvore da sua genealogia, à luz de uma «candeia». De resto, sem desfazer em ninguém, estas coisas sempre hão-de ser matéria fastidiosa para o comum dos mortais. Contentar-me-ei, pois, em apontar somente a via pela qual os Garceses de Arrifana vão entroncar no burguês João Correia — o que muito bem conhece quem folheia nobiliários. Neste caso não haverá complicações de maior. Foi assim, desta maneira: uma filha do rico mercador e da segunda mulher deste (Brites Eanes de Madureira), chamada Brites Correia, casara-se com Antão Garcês, natural do Porto, descendente dos Garceses desta cidade. Daqui, quer dizer, do tronco avoengo de Antão Garcês e de sua mulher Brites Correia, é que proveio toda a estirpe dos Garceses nados e criados em Penafiel e seu termo, ramificados depois por terras mui distantes. A maior parte deles viveu sempre à lei da nobreza, como diziam os antigos, mas alguns, devido aos vaivéns da fortuna, ficaram reduzidos à condição de plebeus mal remediados.
Parece-me que seria acertado, neste ano do Bicentenário, fazer-se uma evocação de todos os Garceses que no decorrer dos séculos lograram acrescentar algum lustre à terra do seu berço graças ao devotado esforço despendido em favor da grei penafidelense ou ao renome alcançado em qualquer parte, pelo brilho da inteligência e prestimosa actividade. Nesta linha de ideias, como ora sói dizer-se, havemos de prestar aqui homenagem — muito singela embora aos Garceses de todos os tempos que de qualquer forma foram obreiros do progresso da sua terra. Deveras simpático ao «Monaquino» associá-los ao momento festivo do Bicentenário que nos é dado viver.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1970-05-15, p.06

 

Sob o Olhar do S.or dos Passos




Quem decidir ocupar-se do problema da fundação da igreja de S. Martinho de Arrifana necessariamente tem de referir-se ao que se passou naquele tempo à volta da capela do Senhor dos Passos, adjunta à nave lateral esquerda da Matriz de Penafiel. Não se conhecem bem as razões que levaram o povo de Arrifana a preferir para local da erecção da nova igreja o terreno ocupado então pelo templo do Espírito Santo que o mercador João Correia havia reconstruído todo à sua custa, no gosto da época manuelina, havia poucas dezenas de anos — cuja capela-mor destinara a sua jazida e lugar de sepultura da família. Fazia-se mister erguer um templo mais amplo capaz de comportar os fiéis das três igrejas (a de Moazares, Espírito Santo e Louredo) então incorporadas na única comunidade paroquial de S. Martinho de Arrifana. Vai daí, por amor disso, projectar-se o desmantelamento de toda a obra de arte levantada pela mão do rico mercador, com tão devotado empenho como avultado dispêndio. Daqui se originou renhida contenda entre a população do burgo e um filho de João Correia, de nome Gonçalo, que saiu a terreiro a pugnar pelos direitos adquiridos por seu pai. Como remate da demanda, acordou-se em manter de pé a capela-mor do Espírito Santo, tal-qualmente se encontra ainda hoje, demolido tão só o que era então corpo da igreja. Salvou-se, desta sorte, de destruição total um apreciável exemplar histórico do nosso património artístico, de que Penafiel deve orgulhar-se. O ajuste entre as partes litigantes fora firmado juridicamente por uma escritura pública lavrada na cidade do Porto, nas casas de morada do tabelião Ruy de Couros aos 7 dias de Junho de 1559. Tinha, muito interesse para o nosso caso conhecer--se o texto desse convénio, mas infelizmente não existem arquivados os livros de notas desse tabelião do Porto. Que me conste, também não se sabe do paradeiro da cópia desse documento que existira outrora no cartório paroquial de Arrifana de Sousa.
É pena, porque dessa escritura talvez surgisse nova luz sobre o incidente de que acabámos de falar. Por que espécie de teimosia o povo arrifanense insistia na demolição do templo do Espírito Santo, onde João Correia despendera tanto dinheiro da sua bolsa? Carência de outro lugar adequado para edificação da nova igreja, não é crível. Acaso haveria ingratidão e malquerença votada à memória de quem fora insigne benemérito de Arrifana? Tudo é possível na alma do povo, tão susceptível de inconstância nas ideias e sentimentos. Mas afinal ainda não disse quem fora João Correia. Decerto que já lhe teremos admirado o retrato na lâmina de bronze da sua campa e lido também algumas das várias referências escritas a seu respeito, desde há muito. Apesar disso, estou certo de que o amável leitor gostaria de contemplar comigo certas facetas da sua personalidade algo misteriosa. Fica combinado — será para a próxima vez.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1970-04-24, p.04

«Santo» Mercador?





João Correia entregara a alma a Deus no ano de 1537. Um Reitor de S. Martinho de Arrifana, o P.e L.do Manuel Rangel de Araújo, asseverou em 1624 que ele falecera «com reputação de Santo» (como consta da gazeta «O Século XIX», publicada em Penafiel em 1864). Ocorreu a sua morte, em odor de santidade, diz o aludido Pároco, «pelas muitas obras de caridade que em sua vida fez aos pobres, e zêlo pelo culto divino, pelo que deu a todas as egrejas, capellas e confrarias d'este lugar e freguezia, mandando vir varias imagens e retabulos de Flandres à sua custa». Para não falar de outras coisas mais, direi que bem formosa vista havia de oferecer a capela-mor da igreja do Espírito Santo com o seu «retábulo antigo de Flandres à sua custa». Para não falar de outras coisas mais, direi que bem formosa vista havia de oferecer a capela-mor da igreja do Espírito Santo com o seu «retábulo antigo de Flandres, que elle mandou vir, todo dourado em que está Nossa Senhora do Rosário e S. Matheus, outros muitos Santos, tudo estofado em ouro». E a propósito, um parêntesis: não seria de muito interesse fazer-se um inventário, e até mesmo organizar-se em Penafiel uma exposição das imagens antigas de real valor existentes na cidade e concelho, o que era com certeza meio indirecto de obstar a que a voragem dos mercenários e amadores de antiguidades levasse para fora da nossa terra o pouco que nos resta do património histórico-artístico do passado?
João Correia para dar testemunho aos vindouros da sua Fé católica quis ser sepultado na capela-mor da igreja que reconstruiu e ficar retratado na lâmina de bronze, vinda também de Flandres, para cobertura da sua campa de pé, está ele, mãos erguidas e rosário pendente, em atitude, de quem reza com devoção. (Queria lembrar nesta altura um trabalho do malogrado historiador e arqueólogo Dr. Pedro Vitorino, intitulado Uma Lamina Sepulcral de Bronze — publicado em 1926 na Ilustração Moderna, n.º 8 — que não tenho visto citado e julgo ser o que de melhor se escreveu até hoje acerca da lâmina da Igreja Matriz de Penafiel). Tudo isso não seria uma hábil forma de exibicionismo da parte do rico mercador? Não o creio. O Reitor Rangel de Araújo não ousaria ser menos verdadeiro: João Correia «morreu com reputação de Santo». Não deixará, no entanto, de ser objecto de estranheza, para quem o ignore ainda, tomar-se conhecimento de que o mercador de grosso trato do burgo arrifanense foi um católico converso do Judaísmo. De judeu de raça e crença religiosa tornara-se um dia cristão-novo convicto. Bem queria eu vir aqui expor dados seguros a respeito da origem e ascendência deste João de Arrifana, mas as «memórias» correntes de que sou conhecedor não me dão garantia de certeza indiscutível.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1970-05-01, p.06

S. Martinho de Arrifana





Nos tempos mais chegados do século de quinhentos, assinala-se grande progresso no burgo de Arrifana. Não se pretende analisá-lo desta vez em pormenor nem apontar os factores que intervieram na sua génese, mas tão-somentee pôr em relevo um facto importante de natureza eclesiástica, consequente desse fenómeno evolutivo: a criação da paróquia de S. Martinho de Arrifana na segunda metade do séc. XVI. Este acontecimento é sinal bem manifesto de que a povoação, tão minúscula como apagada no séc. XIII, já havia conquistado ascendência socioeconómica, bastante considerável em relação ao tempo, sobre todos os lugares circunvizinhos a par de uma preponderância de carácter, digamos, político-administrativo, resultante de ter sido preferida para cabeça concelhia das terras de Penafiel, desde os fins do séc. XIV. Só assim se explica que fosse levado a bom termo o projecte duma radical alteração de todo o quadro paroquial em que estava inserida desde o começo da sua existência. Como é sabido, a circunstância dessa profunda reforma ir de encontro aos direitos seculares da igreja matriz de Moazares, de tão nobres tradições, sem contar outros entraves originados no próprio seio do burgo arrifanense, havia de tornar difícil a realização da tarefa projectada. Mas desçamos a pormenores. Como se pode verificar no Censual da Mitra, a igreja do Espírito Santo de Arrifana era «capela» da igreja de S. Martinho de Moazares — condição que deveria ser existente desde o primeiro templo ali fundado com essa invocação, provavelmente no séc. XIV. Conhecido é que o vocábulo «capela» exprimia naquele tempo a existência de um especial regime paroquial sujeito à dependência de outra freguesia ou mosteiro, quer dizer, representava canonicamente um estado de subordinação (cf. Introdução de A Diocese e a Mitra do Porto, fls. 52, p. Dr. Cândido A. Dias dos Santos). Compreende-se, pois, que Arrifana ao pretender apossar-se do orago e seculares direitos de primazia de Moazares, provocasse uma forte reacção de protesto da parte dos lugares mais afectos à sua velha matriz. A este propósito, é costume apresentar-se como símbolo bem curioso dessa animosidade o caso do lavrador de Aveleda que ficara cego na altura em que S. Martinho ia ser conduzido em procissão para a nova igreja de Arrifana, o que se encontra descrito no opúsculo A Freguesia de S. Martinho de Moazares, p. 30, da autoria de A. Miranda. Outra reacção não menos adversa se verificou contra o projecto da construção de novo templo para servir de matriz em Arrifana. Mas isso obriga a delongas que hoje não me são consentidas.
M0NAQUIN0

A Matriz de Arrifana





Não será impertinência repetir que se engana redondamente quem acreditar nos dizeres da inscrição existente na porta principal da chamada capela de S. Cristóvão, em Penafiel. Aquele despropósito apresenta-se-nos como algo de afrontoso da ilustração dos penafidelenses e deveria ser eliminado em nome do decoro intelectual de todos nós — tanto mais que a capela ainda é hoje pertença da Igreja e não de modo algum propriedade particular. E mais que evidente ser destituída de fundamento sério a data atribuída à erecção do templo, bem como não deixa de ser erro menos crasso a afirmação de ter sido «a primeira matriz de Arrifana de Sousa» seja no ano apontado de 1741 ou mesmo em qualquer outra época remota. Como já foi exposto, no séc. XVII e XVIII figura na documentação com o nome de «ermida de S. Bartolomeu», pertencente à freguesia de S. Mart.° de Arrifana de Sousa: anteriormente ao segundo quartel do séc. XVI, fora de facto a sede da paróquia de S. Tiago de Louredo, mas nunca poderia ter sido a matriz de Arrifana. Não me parece fácil provar-se que a povoação ou burgo de Arrifana de Sousa fizera parte algum dia da área paroquial de Louredo. O topónimo Arrifana, como já se viu, aparece pela primeira vez no ano de 1258, no final da inquirição concernente à freg.a de S. Mart.° de Moazares, e nunca se encontra registado nos textos referentes à paróquia de Louredo
Nas Memórias do Mosteiro de Bustelo (ms., fls. 122 v.) Fr. A. Meireles diz-nos que o Abade D. Fr. João Anes emprazou a Fernão Gonçalves e sua mulher, em 9-12-1452, «uma morada de casas sitas em Arrifana q. partia com a igreja de Santo Espírito». Não se sabe de quando dataria o templo do Espírito Santo em Arrifana.
Abílio Miranda, no seu opúsculo A Igreja Matriz da Cidade de Penafiel [1942), admite a hipótese de ter sido de fábrica românica, o que não se me afigura muito provável. Seja como for, o que mais interessava ao nosso caso era saber qual a categoria canónica desse templo dedicado ao Espírito Santo. Igreja paroquial ou não, creio bem haver estado sempre na dependência da freguesia de S. Martinho de Moazares e nunca eclesiasticamente subordinada à de S. Tiago de Louredo. Assim penso baseado na convicção de que essa igreja de Arrifana se encontrava edificada num lugar que sempre pertencera à paróquia de Moazares que exercia, por outro lado, o direito de apresentar o pároco na igreja de S. Tiago de Louredo. Demais, no Censual da Mitra (1542), depois de se falar da taxa e apresentação de S. Martinho de Moazares, diz-se expressamente que «a igreja do samto espiritu da Rifana é sua capela». Embora o significado do vocábulo «capela» fosse diferente do sentido que se lhe atribui em nossos dias, é fora de dúvida que não deixava de expressar uma certa subordinação eclesiástica, que neste caso se dava em relação à igreja de Moazares e não à de Louredo. Em suma, não se encontra prova alguma de que a igreja de S. Tiago de Louredo fora em qualquer tempo «a primeira matriz de Arrifana de Sousa».
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1970-04-10, p.06

S. Tiago de Louredo





A ermida de Louredo haverá tomado por orago S. Cristóvão já nos fins do séc. XVIII quando no Monte do Povo se erigiu novo templo «com o tt.° e invocação de S. Bartlomeo», facto mais ou menos coevo da mudança de local da feira, de 24 de Agosto. A memória paroquial de S. Mart.° de Penafiel de 1858 foi o documento até hoje mais antigo onde encontrei mencionada a capela com o nome de S. Cristóvão; na memória de 1758 é designada ainda por «ermida de S. Bartholameu», o mesmo sucedendo no Catálogo de D. Rodrigo da Cunha (1623). Antes disso, até 1569 - ano em que a paróquia de S. Tiago de Louredo foi em parte incorporada na freg.a de S. Mart.° de Arrifana - não nos aparece, em Penafiel, igreja paroquial com a denominação de S. Bartolomeu. A existência da paróquia de S. Tiago, com sede em Louredo, está sobejamente comprovada por documentos da maior valia, tanto de natureza civil como de carácter eclesiástico. Recorremos a fontes das mais fidedignas: as Inquirições e os Censuais da diocese do Porto. «A «inquisitio» de 1258 ocupa-se da igreja «Sancti Iacobi de Louredo», com relativo pormenor. Por ela se vê que a paróquia medieval de S. Tiago de Louredo compreendia, além do mais, a área da actual freguesia de S. Tiago de Sub-Arrifana, incluindo o lugar de Monterroso. Não se fala em S. Bartolomeu. A Inquirição de D. Dinis é muito mais reduzida e a paróquia vem mencionada como sendo de «sanctiago de Riba de Sousa de Louredo». (Este «Riba de sousa» parece que devia arredar para sempre a hipótese de que foi a família dos Sousas que originou o determinativo de Arrifana, freguesia contígua, que se estendia também, na sua delimitação, até junto da margem esquerda do Sousa). Entre a documentação de origem eclesiástica merece ser apontado em primeiro lugar o testemunho do Censual do Cabido que não se refere a nenhuma igreja de S. Bartolomeu, ao enumerar as paróquias do Arcediagado de Penafiel, registando «Ecclesia Santi Iacobi i santiaginho». Além desta prova, podemos ainda aduzir uma outra tirada do Censual da Mitra, do ano de 1542—há longo tempo perdido (suposto até mesmo por alguns nunca ter existido) e que um jovem sacerdote, inteligente e culto, actual Assistente da Fac. de Letras do Porto, felizmente encontrou, havendo-o escolhido para tema da sua dissertação de Licenciatura. A organização desse cartulário é apenas 21 anos anterior à incorporação da igreja de Louredo na freg.a de S. Martinho de Arrifana e também se refere somente à «igreja de Santiago e santiaguinho». A igreja paroquial de S. Bartolomeu de Louredo não existiu, pois, antes do ano de 1542, nem é crível ter existido depois, no curto espaço de tempo que vai até 1509, a partir de cuja data a Igreja de Louredo passou a constituir uma simples ermida da paróquia de S. Mart.° de Arrifana. Valeria a pena tentar uma explicação do equívoco de Fr. A. Meireles? Agora não é oportuno fazê-lo. De resto, não é resto, como lá diz Horácio na sua Carta aos pisões, que «o sono também pega algumas vezes em Homero»?
MONAQUINO

Arrifana




Como é bem sabido, neste ano decorrente, vão perfazer-se, muito em breve, duzentos anos sobre a data em que o nome arcaico de Arrifana fora sacrificado ao advento da nova cidade, que tomou assento no lugar da antiga vila. A multissecular Arrifana de Sousa fora riscada da toponímia regional e surgia, em sua vez, o nome e cidade de Penafiel, para subida honra da nossa terra.
Ninguém haverá contentado o acerto dessa mudança toponomástica. Havia razões, de carácter histórico e político, a inculcar tal mutação, como adiante se verá. De resto, qual de nós seria capaz de preferir uma cidade denominada Arrifana à custa da rejeição do sugestivo topónimo Penafiel? Este é um nome mais expressivo e eufónico, mais simpático, por ser mais nosso, na cor latina que apresenta, ao invés da filiação árabe que hoje ninguém impugna existir na palavra Arrifana. (Não se veja ressaibo algum de racismo, ao fazer tal asserto, embora não seja de estranhar surpreender-se, no mais íntimo de todo o português de lei, uma semi-inconsciente antipatia ancestral por tudo que possa sugerir a lembrança da velha opressão da moirama). Depois que Fr. João de Sousa, afamado arabista, publicou, em 1760, o seu trabalho Vestígios da Língua Arábica em Portugal, creio que nenhum escritor verdadeiramente culto se permitiu apontar uma etimologia de origem diferente. O que sucedeu com muitos, até os nossos dias - desde o Dr. António de Almeida ao P.e Monteiro de Aguiar - foi, baseados na «autoridade» de Fr. João, atribuírem como ele erradamente o vocábulo árabe «Arrahana», com o significado de «horta», como étimo de Arrifana, em vez de «Arríhâna», «Alrihanat» ou «arrayan», nome de «mirto», em língua arábica.
Devo dizer que não exprimo opinião original nesta matéria, por nada conhecer de filologia árabe: limito-me a transmitir conclusões de abalizados autores modernos. Mais acrescento não me responsabilizar pela exactidão das formas arábicas transliteradas, por dificuldades da ordem gráfica. O leitor curioso de tais etimologias encontrará uma informação segura na obra póstuma do nosso maior arabista, David Lopes, publicada em 1968, com o título Nomes A'rabes de Terras Portuguesas - colectânea do Dr. J. Pedro Machado. Para este mesmo assunto poderá consultar-se ainda, com vantagem, o vol. XXXVIII da G. Enciclopédia Port. e Bras. (Apêndice), v. Arrifana. O topónimo Arrifana não procedeu, é certo, de qualquer «horta», nem tão pouco de, «arraião» ou «murta» que fosse plantada pelos sarracenos, a quando da sua passagem ou permanência, que não foi muito efectiva, na nossa terra. Então quando e como é que entrou essa palavra no vocabulário e toponímia da nossa região?
Já não há hoje cabimento para uma resposta, que não pode ser sucinta, pois o assunto envolve certa complexidade. Depois assim veremos.
MONAQUINO

Divagações...





Eugénio de Castro, em «Chamas duma Candeia Velha», escreveu:

A candeia está velha, o azebre esverdinhado,
Manchando-a, atesta bem a idade que a corcova;
Mas o azeite, que a enche, é copioso e doirado,
E na candeia velha arde uma chama nova!

Nos meus tempos de Coimbra, conheci muito bem o Poeta - já um tanto alquebrado de forcas físicas, levemente coxeante, apegado a uma bengala, sem contudo haver perdido aquela aristocracia tão peculiar do seu porte e da sua Arte de fazer Versos. (Apesar de vivermos em maré francamente democrática, nas ideias e nos costumes, a aristocracia ainda infunde respeito, dada a superioridade que patenteia, quando é verdadeira!) Julgo que Eugénio de Castro terá morrido de desgosto por lhe terem demolido a sua Casa, na Alta, que a Universidade cobria com sua sombra, imolada em holocausto à nova Cidade Universitária. O P.e Américo dos Gaiatos - poeta também a seu modo, e da mais fina sensibilidade, que o visitava amiúde - contara-me como ficou dolorosamente impressionado quando um dia lhe entrara em casa e surpreendera o Poeta, no meio dos livros, desordenadamente dispostos, da sua magnífica biblioteca, que já começara a ser desmantelada - de pé, ensimesmado, meditabundo, como possuído de mágoa fatal... Ao recordar este facto, experimento sempre também uma impressão dolorida - tanto mais que ali mesmo fora gentilmente recebido por Eugénio de Castro. E já que me pus a folhear o meu livro de recordações coimbrãs, vou permitir-me dizer como conheci a esposa do Poeta, já enferma, pouco tempo antes do seu passamento. Fui vê-la com o P.e Américo a um dos quartos do Hospital da Univ., pois queria muito conhecê-la, tantas coisas me dissera ele da sua autêntica fidalguia. Fomos os dois, e, de facto, ainda lhe pude ouvir palavras de clara expressão de quem era uma verdadeira Fidalga. A «candeia velha» do Poeta coimbrão manteve-se, até final, bem cheia do «copioso e doirado» azeite e, por isso, ardeu sempre nela «uma chama nova». E que grande, chama! Agora estoutra «candeia», também velha de muitos anos, pertença de uma pobre beócio, - é que não tem nada que se pareça com a do Poeta. Só numa coisa: no «azebre esverdinhado». Sim, que a chama foi sempre mortiça, devido à má qualidade do azeite que a encheu toda a vida. Por vezes, inesperadamente - como há pouco sucedeu - nova e grossa camada de «azebre esverdinhado» se acrescenta. Desta vez, foi uma impertinente «asiática» que me tirou todo o apetite de fazer alguma coisa.
E tanto para se dizer neste ano do bicentenário...
Hoje, passei o tempo em divagações, bem gratas ao meu espírito; amanhã, se Deus quiser, será à volta das coisas da nossa antiga Arrifana, muito queridas também.

MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1970-01-30, p.06