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Tomar banhos e águas sulfúreas






Fez-se alusão da última vez a uma freira — irmã de José Urbano, Capitão-Mor de Penafiel — que do seu Convento da Madre de Deus de Monchique, no Porto, veio para as Quintãs de Valpedre, «afim de tomar banhos e agoas sulfureas». Esta breve informação, colhida no próprio assento do óbito da Religiosa D. Joana Bernardina do Amor Divino — falecida nas Quintãs em Fev.o de 1815 — sugere-nos um ligeiro comentário.
O amigo leitor, no caso de lhe haver merecido alguma atenção tal referência, talvez tenha perguntado a si mesmo se as mencionadas «agoas sulfureas» seriam as das Termas de S. Vicente ou da Torre. Bem sabido é que nenhuma das actuais estâncias termais existiam naqueles recuados tempos do princípio dos anos de oitocentos, pois que ambas remontam ao final do século passado. Que águas sulfúreas seriam então essas que a Freira do Amor Divino veio procurar à nossa terra, para alívio dos males que padecia? Cá por mim direi que foram as águas sulfurosas da Torre. Este meu pensar baseia-se no facto de Pinho Leal, no seu Portugal Antigo e Moderno (voc. Portela), ter escrito por volta de 1876, que essas «famosas águas» — erradamente «denominadas d'Entre os Rios» — começaram a usar-se desde 1790, «como medicamento interno», com «maravilhosos resultados em várias doenças, sobretudo em padecimentos de estômago». Não vale a pena discutir a historicidade do caso, mas penso que sempre havia de ser causa de muito agoniar os enfermos terem de ingerir tais águas sulfúreas...
Conforme nos garante o citado autor, «os médicos do Porto», nessa longínqua data, encontraram nelas mais «vantagens» que em quaisquer outras. Daí a sua comercialização. No tempo de P. Leal, as águas d'Entre os Rios «se exportavam constantemente em grande escala (engarrafadas) para todos os pontos de Portugal, e para o estrangeiro, principalmente para o Brasil».
Em 1815 e mesmo em 1876, as águas de S. Vicente, bem como o balíneo romano, ainda se encontravam soterradas, devido aos depósitos de aluvião ali acumulados.
Regressemos às Quintãs de Valpedre. Sem ter conseguido minorar os seus padecimentos, a freira do Mosteiro de Monchique aí falecia em 2-2-1815. Gravemente enferma, recebeu os sacramentos da Penitência e da Extrema-Unção. O não ter sido possível confortá-la com o «Sagrado Viático» leva a crer que o seu mal seria padecimento de estômago.
Morreu acarinhada pelo irmão José Urbano e pelos sobrinhos, filhos do «Capitão-Mor graduado». Quem sentiria mais profundamente a morte de D. Joana Bernardina seria sua irmã D. Casimira do Monte Carmelo, Religiosa também no Convento da Madre de Deus (se é que viva ainda então). Juntas, muito jovens talvez, foram da casa de seus pais professar no Mosteiro de S. Clara de Caminha. Em 1779, graças às diligências efectuadas por seu irmão José Urbano, transitaram juntas para o Convento da Madre de Deus de Monchique, no Porto. Para tanto, foi necessário obter um «Breve Apostólico» acompanhado do indispensável «Beneplácito Régio». Coisas deste género se passavam nesse tempo, e muito mais tarde ainda, no Reino de Portugal fidelíssimo, por intromissão indirecta do Estado nos domínios do Espiritual.
Por MONAQUINO

Donde os 3 mil cruzados?





A D. Perpétua Luísa foi a última a casar das três sobrinhas do Cónego Ribeiro Nunes. Casou um pouco tardiamente, no ano de 1747, pois tinha então cerca de 38 anos de idade. O tio Cón. Domingos, falecido em 1744, e que não chegou a lograr o contentamento de ver esta sobrinha consorciada com um membro da família dos Macedos Leites e Melos. Trata-se dum Cavaleiro que foi professo na Ordem de Cristo («com a tença de mil reis»), senhor da Casa e Qta. da Granja — em S. Mart.o de Lagares, no conc.o de Penafiel —, dono também de «todas as quintas, prazos e foros» que haviam pertencido a seus pais.
Este freire de Cristo encontrava-se então em estado de viuvez. Antes de casar com D. Perpétua Luísa, fora legítimo marido de D. Maria Josefa Moreira de Bessa, da Casa da Póvoa, em Pedorido, considerada naquele tempo das principais do conc.o de Paiva.
— Não estará lembrado o leitor de ter visto o Cavaleiro Frei Manuel Leite de Melo (desta forma assina ele em 1747) quando no ano de 1732 tomava parte na cerimónia do casamento de D. Mariana, irmã de D. Perpétua, na Capela da Quinta da Boavista, como testemunha do acto religioso e demais como primo que era, pelo lado materno, do esposado Jerónimo das Quintãs de Valpedre?
— Pois, exactamente, — era esse mesmo!
O referido viúvo Leite de Melo, nos anos de 47, vivia na dita Q.ta da Granja (aqui nasceu em 1684), na companhia de duas irmãs solteiras — D. Francisca Clara e D. Helena Teresa — quando resolveu casar segunda vez com D. Perpétua Luísa.
Como de costume, houve antes do casamento uma escritura dotal. Apesar do tio Cónego Domingos ter falecido e sem embargo de D. Teresa Angélica já se encontrar viúva, essa escritura foi lavrada na Quinta da Boavista, onde D. Perpétua morava há muitos anos. Lá compareceu o tabelião no dia 23 de Maio de 1747.
Estiveram então presentes, duma parte, «Donna Perpetua Luiza…, com seu Irmão, o rev. Domingos Ribeiro Nunes, Cónego na Cathedral»; e da outra, «frei Manuel Leite de Mello, Cavaleiro professo na Ordem de Christo».
Foram três as testemunhas: o P.e Jerónimo de Melo, da freg.a de Cabeça Santa, o Beneficiado da Sé P.e Manuel S.tos Veloso, e o P.e Tomás da Rocha Rebelo, da freg.a de Rans.
Pela sua parte, o Fr. Manuel disse que se dotava com a quinta da Granja, uma fazenda em S. Vic.te do Pinheiro, «duzentas e tantas medidas de segunda e cento e tantas de trigo», acrescentando ainda vários foros, direitos dominicais e prazos.
A soma de todos estes bens representava, naquele tempo, fortuna apreciável. O pior é que estava um tanto comprometida! Mas ouçamos a tal respeito o que disse o próprio Fr. Manuel: «que a dita sua futura esposa lhe dará de entrada tres mi! cruzados para elle esposado pagar as dividas que deve...».
De que fontes teria a noiva auferido os três mil cruzados com que iria solver o Cavaleiro as dívidas que o afrontavam?
— D. Perpétua tinha em guarda essa importância nas mãos de seu irmão Cón. Domingos, proveniente de quinhentos mil réis deixados pelo tio António — falecido no Brasil — acrescidos de seiscentos mil réis que herdou do tio Cónego. Há ainda a acrescentar que ela possuía muitas «pessas de ouro», avaliadas em cento e cincoenta mil réis, e o irmão Cónego também lhe oferecera duzentos mil réis.
E logo o Cón. Domingos, em presença do tabelião e testemunhas, «lanssou sobre hua meza os ditos tres mil cruzados e pela dita esposada e seu futuro marido forão contados... e os acharão certos».
Desta maneira, depois de assinarem todos os presentes, foi dada por finda a escritura de dote de casamento do Cavaleiro Fr. Manuel Leite de Melo com D. Perpétua Luísa.
Por MONAQUINO

 

Promessa a cumprir




Assim como há seres vivos que entram anualmente em hibernação, também o espírito humano de vez em quando cai numa espécie de letargia. Porque não à parte dos outros homens, estou sujeito a essa lei da natureza. Ainda há pouco isso me aconteceu. Claro que nesta época hiemal há a tentação de se deitarem as culpas ao flagelo das geadas, ao furor das procelas e quejandos fenómenos característicos da presente estação, — mas na realidade será mesmo essa a causa verdadeira do mal? Pouco entendo da matéria e da maior parte das coisas que sucedem dentro e fora de mim. Sem fazer profissão de pirronismo, julgo que todo o homem, por muito evoluído que seja ou dotado até duns tantos dons carismáticos (tanta vez moléstia da fantasia!) — só topa mistérios no seu íntimo e à sua roda. Não é isto que se dá com o comum dos homens?
Mas afinal, leitor amigo, era apenas meu intento dizer agora que ainda desta feita logrei sobreviver e, se não me engano, a luz da velha candeia vai de novo espevitar-se. E sem mais aquelas, por amor de descarrego da consciência, apresso-me a cumprir uma promessa, que fiz há meses, de falar aqui dos descendentes dum tal Francisco Pereira de Beça Veloso de Barbosa, oriundo de Penafiel, que alcançaram renome em terras do Brasil.
Num dos vários encontros com Abílio de Miranda nos últimos anos da sua vida, de que guardo grata memória, o venerando pesquisador das velharias penafidelenses mostrou-se-me deveras interessado em obter certos dados genealógicos respeitantes ao Dr. Ant,° de Almeida, a fim de poder satisfazer a curiosidade de um distinto cidadão brasileiro que havia pouco tempo viera à nossa cidade, propositadamente, à busca de tais elementos, por lhe constar que a sua pessoa estava ligada, por laços de sangue, à família do notável médico e historiador. Regozijei-me com a oportunidade que me era oferecida de poder ser prestável então ao bondoso e erudito A. de Miranda, porque, além de tudo mais, já nessa altura lhe devia valiosas informações congéneres. O esclarecimento pedido foi enviado pela mão do meu prezado amigo ao Dr. Benjamim Pereira Monteiro, residente na avenida Galogeras, no Rio de Janeiro — que tinha sido este o ilustre brasileiro que motivara a diligência havida. A breve trecho, por via do que se passara, o Dr. B. Pereira Monteiro endereçou-me longa e amistosa epístola, que dera início a interessante correspondência, mantida por muito tempo entre nós dois, com manifesto proveito cultural, ao menos para mim, sem falar já na simpatia e respeitosa amizade que dessa maneira se gerou entre ambos. Darei conta, na próxima vez, do conteúdo das missivas, sobretudo do referente à descendência de Francisco Pereira de Beça V. de Barbosa. Antes de terminar, não deixarei de dizer que uma troca de informações de carácter genealógico de gente de Portugal com remotos parentes radicados no Brasil algo haveria de contribuir para a realização prática dos objectivos da tão falada Comunidade Luso-Brasileira.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1971-02-05

Destino de Sobrenomes...





Algo fatigado das sendas da escravatura, apetece-me desta feita repoisar em Ordins. Este raro topónimo exerce sobre mim grande poder de sedução, por ter fundas raízes medievais. Mas isso são contas de outro rosário, pois agora só queria quedar-me um pouco em Ordins, para descanso e evocação de coisas de menos valia, passadas nos dois últimos séculos, à sombra da casa onde nasceu o P.e Simeão Lopes Barbosa.
Após o regresso do Brasil, este padre foi «assistente» no Porto e viveu os últimos anos no
l. de Rio Mau, então pertencente à freg.ª de Pedorido, pois só fora integrado na de Sebolido, por volta de 1805. O P.e Simeão faleceu em Rio Mau a 3-11-1773, tendo vindo a sepultar em Lagares. Alguns anos antes, mandara erigir, junto à casa que fora de seus pais, uma capela, da invocação da Senhora do Carmo e S. Libório, porque a igreja paroquial ficava distante e «o caminho incapas para o povo do mesmo lugar poder hir à missa e mais ofícios divinos». O processo canónico da erecção da capela não se encontra no arquivo diocesano do Porto. Felizmente, num livro de notas do tabelião Paulino José Barbosa, de Arrifana de Sousa, descobri uma escritura do património da referida capela, com a data de 28-2-1768, mediante a qual o P.e Simeão doou, para tal fim, «hum tapado», sito na agra de Bouça de Sós. A capela ainda existe, em relativo estado de conservação, precedida e independente de vistoso portal, de traça ao gosto da época, em granito bem trabalhado.
Valério Barbosa, irmão do P.e Simeão, ficou na casa paterna e casou com Josefa Ferreira, de quem houve dez filhos varões. Quatro deles, seguiram a carreira eclesiástica. O mais velho, também de nome Valério, faleceu sendo clérigo «in minoribus»; dos três restantes, o P.e Dr. Manuel Barbosa Ordins Adairão (donde viria este Adairão?), sendo simples minorista, fora advogado nos tribunais da Relação do Porto.
Em 1784 recebeu todas as ordens sacras e quando faleceu, em 13-11-1795, era o Reitor de Lagares. O irmão P.e Simeão Barbosa Ordins foi capelão «das missas da manham» nesta freg.ª, e o seu óbito ocorreu a 19-3-1812. Resta o último, o P.e Domingos Barbosa Ordins, que faleceu a 10-4-1621 e foi sepultado «na sua capela» de Ordins.
O filho de Valério e Josefa, chamado António, casou, a 30-1-1809, com Ana Rodrigues, tendo sido o herdeiro da casa dos pais. Os descendentes deste casal já não usaram o sobrenome Ordins, que substituíram por Valério. Manuel Barbosa Valério - f.º leg. de António Barbosa e de Ana Rodrigues, casado a 27-7-1841, na freg.a da Capela, com Joana Rosa Vieira de Melo - foi o bisavó paterno do Snr. Egídio Rodrigues Moreira, que mora com sua esposa e filhos, na casa onde nasceu o P.e Simeão Lopes Barbosa.
A voragem do tempo, neste caso, não respeitou nenhum dos sobrenomes queridos de antigas gerações: nem Lopes, nem Barbosa, nem Ordins, nem Valério.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1969-10-03

O Valério e o Simeão







Gosto do nome Valério. Era interessante estudarem-se as razões que às vezes nos levam a aborrecer ou simpatizar com os nomes das pessoas; os motivos da nossa predilecção ou antipatia por eles, são muito variados. Era um estudo que dava matéria bastante para longo tratado: relações da psicologia com a antroponímia. Reportando-me ao caso do nome Valério, parece-me que não andarei longe da verdade se disser que engracei com ele por lhe ter encontrado acentuado sabor latino e certa expressão de energia varonil. Seja como for, a verdade é que sempre gostei desse nome. Daí nasceu certamente a curiosidade, que tive em tempos, de saber quando e como ele entrara no sobrenome de uma família respeitável, há muito radicada na freg.a de Lagares. Após trabalhosa indagação, pude concluir que o sobrenome Barbosa - ainda sobrevivente e cheio de vitalidade em descendentes do mais antigo Valério - é muito mais velho que este. Não queria meter-me em explanações de carácter genealógico (há pessoas muito alérgicas a estas coisas...), mas para evitar o risco de não ser acreditado, o prezado leitor vai consentir que deixe aqui um ligeiro apontamento dessa natureza. Uma Isabel Barbosa - filha de Gaspar Lopes e de outra Isabel Barbosa, nascida em Ordins a 8-1-1622 - casou em Lagares, a 27-11-1645, com Manuel André, de S. Vic.te do Pinheiro Isabel Barbosa e Manuel André foram os avós paternos do primeiro Valério que encontrei na família - filho de Gonçalo Barbosa, de Ordins, e de sua mulher Ana Luís, natural de S. João da Foz do Sousa, casados nesta freg.a a 10-10-1693. Esse Valério foi baptizado, em 20-6-1696, por um seu tio paterno, o P.e Domingos Lopes Barbosa, tendo sido padrinhos o Reitor de Lagares - P.e João de Oliveira Vaz - mais Agostinha, irmã do pai do menino.
Agora dou conta de estar a faltar à promessa que fiz de versar seguidamente, até final, o tema da escravatura. De facto, desta vez, ainda não se viram aqui jeitos de peugada de escravos... Na verdade, tinha hoje em mente ocupar-me sobretudo de um Simeão - irmão inteiro de Valério - que se ordenou de sacerdote, viveu alguns anos no Brasil, foi senhor de um escravo e regressou daquelas paragens com uns bons milhares de cruzados. Tencionava falar dele e do seu escravo, mas aconteceu que a ideia, como diz o povo, puxou-me muito mais para o Valério. Talvez efeito da fascinação do nome...
Na próxima vez, sem desfazer no Valério, hei-de dar preferência ao P.e Simeão e
ao negro seu escravo.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1969-09-19, p.06


 

Donas e Escravos





Como é fácil supor, não eram somente os homens que tinham o direito de possuir escravos: estes também podiam ser propriedade de mulheres, solteiras ou viúvas - adquiridos por compra ou herança. A verdade disto está em parte exemplificada em dois casos de libertação de cativeiro de que nos vamos ocupar hoje.
No ano de 1758, Eugénia Maria de Santa Rosa, moradora na quinta de Segade, freg.a de Bustelo, era senhora de um escravo, chamado José Meneses, que ela herdara, à morte do seu pai, João da Cruz de Sousa. Um dia resolveu conceder-lhe inteira liberdade, para fazer uso dela «em toda a parte», como muito bem lhe aprouvesse. Neste propósito, aproveitou os bons ofícios do seu cunhado, Dr. António de Mendonça Barbosa - segundo creio, dono da quinta de Segade - para ele tratar, na qualidade de seu procurador, das formalidades requeridas, a fim de tornar efectiva essa libertação.
A 14 de Out.º, do referido ano de 1758, em casa do tabelião Bernardo Teixeira Pinto, na vila de Arrifana de Sousa, o bacharel Mendonça Barbosa, em nome da sua constituinte, «por cervisso de Deos, dava Carta de Alforria e Livardade ao dito escravo Joze Menezes». Liberdade completa, sem peias de qualquer natureza! Não era pequeno serviço de Deus libertar assim um homem das malhas apertadas da escravatura...
Contrasta a franca generosidade da Eugénia Maria com a liberdade condicionada que fora concedida a um mulato por uma viúva de Arrifana de Sousa, residente no lugar de S. Bartolomeu. Ela chamava-se Maria Leal Ribeira; o seu escravo era solteiro e tinha o nome de Manuel Pereira. Porque este a servira sempre com muita dedicação - «com muyta satisfaçam e fydelidade e inteyreza e verdade», como se lê no texto - houvera por bem libertá-lo da condição de cativo. A carta de alforria foi-Ihe passada a 25-1-1740. O acto revestiu-se de certa importância externa porque realizou-se numa das casas principais de Arrifana de Sousa, qual era a morada - no Largo da Sr.a da Ajuda - de Sebastião Pereira do Lago, que assinou como testemunha, juntamente com seu filho, o L.do Jacinto José Pereira Leal. O tabelião Tomás Teixeira de Sousa escreveu o documento. Até aqui, tudo muito certo. Mas agora o que não logro compreender é que a viúva Maria Ribeira mandasse exarar na carta de alforria «a condjçam e obrigaçam» de o mulato «se imbarquar para as partes do Brazil, sob pena de ficar sempre escravo - «como athe agora o hera» - se permanecesse «neste reyno de Portugal». Então nem ao menos num remoto cantinho deste reino? Bem o merecia quem serviu sempre com fidelidade, inteireza e verdade...
Que mesquinhez!
MONAQUINO
In jornal de Notícias de Penafiel, 1969-08-29, p.06

«Muito Mal Procedida...»








De novo se põe em foco a personalidade do P.e Mota de Sequeiros, observada mediante, a análise de um caso com certo ar picaresco, originado no mau comportamento de uma escrava - mulher solteira, de cor preta - de que ele era o senhor. Apesar de trivial, este caso poderá dar-nos uma pequena achega em ordem à perspectiva global que buscamos da vida dos escravos entre nós, na era de setecentos. Águeda era o nome da mulher preta que um dia ousara ausentar-se da quinta de Sequeiros - sem dar satisfações ao seu dono - para ir viver em casa de um José Coelho, morador na freg.a de S. Miguel de Rans. Certamente que este facto teve bastante retumbância no meio pequeno e sossegado de Luzim. O P.e Mota, já septuagenário - no desejo de não ver mais perturbada a paz da sua vida, requerida pela avançada idade - resolveu pôr cobro ao escândalo resultante de tamanho desaforo, concedendo à sua escrava uma carta de alforria, entremeada de áspera censura ao rebelde procedimento que teve. Para se formar um juízo mais exacto de como se passaram as coisas, parece-me bem transcrever alguns excertos dessa carta, que foi escrita pelo tabelião Tomás Teixeira de Sousa, em 19-8-1750. Em dada altura desse documento, o P.e Mota aparece a afirmar que «a ditta escrava hera e tem sido muito mal procedida e dezobedjente, sem temor de Deos, o que he publico e notório, e a elle outorgantte lhe não tinha convenjencia algua o querer a ditta escrava Ageda, soltejra, em sua caza delle outorgante, nem de sua famjlia, por todas as sobredittas rezoens e outros mais justtos e honestos respejttos». Mais disse «que de seu próprio motu, livre e geral vontade, sem constrangimentto de pessoa algua, por este publyquo Instromentto, destte dia e hora para todo o sempre, há a ditta sua escrava Ageda, soltejra pretta, por forra e livre, para que seja Senhora da sua pessoa e Liverdade, como se fosse pessoa Branqua». Entretanto a sua libertação ficava dependente de uma «clauzulla» importante, a saber: «a ditta escrava, vivendo neste Reyno, não viveria senão aredada, destta quinta de Sequejros e destta freguesia de Luzim, huma Legoa». Se acaso fizer o contrário, a carta de alforria «lhe não valerá, nem terá força, nem Vigor, em Juizo nem fora delle»; além disso, os herdeiros do outorgante «não lhe darão de esmolla seis mil e coatro sentos reis, em dinheiro, para princípio da sua vida». Enfim, não ficará «forra e livre» e seus herdeiros «a Imbarcarão para o Brazil e a venderão como escrava». A Águeda desta vez não terá sido desobediente ao seu amo.,.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1969-08-22, 0.06

Dois «Captivos» em Luzim







Em ordem a tornar mais conhecida a vida e costumes dos que estiveram sujeitos à escravatura dentro do nosso concelho, bem como o comportamento dos patrões tido para com eles - são hoje apresentados aqui dois «captivos» que viveram em S. João de Luzim, na primeira metade do séc. XVIII. Nesse meio século, está registada a presença de outros mais nessa freguesia - de muitos será desconhecida ainda a existência - mas importa agora que só apareçam os dois: um preto e um mulato.
O escravo de cor negra fora trazido para Luzim por um tal Jorge Monteiro, filho de modestos lavradores, residentes no lugar da Fonte, quando regressara de uma estadia no Brasil - sabemos como nesse tempo o Brasil era o maior campo de atracção para os emigrantes da metrópole. Apesar de ser adulto, não viera baptizado daquelas paragens de além-mar «por não saber a doutrina cristã». Foi em Luzim que recebeu o Baptismo depois de a haver aprendido. O Sacramento fora-lhe administrado em 2-2-1718, com certa solenidade, pelo Abade da freguesia - por nome Constantino Lobo de Araújo e Cerveyra. (Este pároco foi sucessor do Ab.e Bernardo Borges Mancilha - falecido a 11-4-1716 e sepultado na capela-mor da sua igreja; o Abade Araújo e Cerveira paroquiou a freguesia até 1739, ano em que ocorreu a sua morte, sendo também sepulto na igreja de Luzim). Ao neófito foi dado o nome de João, porventura em homenagem ao Padroeiro da freguesia. Manuel Gomes, do l. do Fundo, e Domingas, solteira, do l. do Bairral, foram os padrinhos; serviram de testemunhas o P.e
Arcanjo Ribeiro Giraldes - cura de Luzim e morador no l. de Lomar - e outras pessoas mais. Nada posso acrescentar, além do que fica dito, acerca do destino do escravo João. Sei que não morreu em casa do seu dono Jorge Monteiro, ou algures na freguesia - acaso por ter sido vendido para fora de Luzim.
Chegados quase ao extremo do espaço que nos é reservado, e o mulato sem aparecer! Já agora só poderei informar que esse escravo se chamava António de Sousa e que morreu em Luzim a 19-9-1730, com todos os Sacramentos, encontrando-se ao serviço do P.e José Pinto da Mota, senhor da quinta de Sequeiros, na mesma freguesia. Um «captivo» em casa de um padre?! É verdade, que tal consentia a mentalidade das gentes e a legislação do Estado naquele tempo - aos eclesiásticos e até aos conventos! Era então a coisa mais natural deste mundo... Mais direi, por fim, que na casa do P.e Pinto da Mota, além de uns sobrinhos, viviam duas escravas, uma das quais amargurou os últimos anos da sua velhice porque não tinha nenhum «temor de Deos».
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1969-08-08, p.06

O P.e Mota de Sequeiros





O P.José Pinto da Mota, da quinta de Sequeiros, em Luzim, já é nosso conhecido como proprietário que foi de três pessoas escravas. Aparte essa circunstância antipática - em certo modo desculpável à luz da ambiência sociológica da época - nada de menos digno me consta ter havido na sua vida sacerdotal. Esse padre, nascido em Sequeiros em 27-12-1679, foi para as «partes do Brazil» quando «mosso» porque os pais, de nome Domingos Fernandes e Isabel Francisca, para lá o «impuserão» (sic). Nessas paragens «asistira alguns annos e se hordenara de sacerdote para o que fizera seu património nas ditas partes do Brazil». Um dia, devido à morte do pai ou às saudades que o consumiam. «imbarquara para este Reyno» com intenção de estabelecer aqui morada permanente. Na qualidade de eclesiástico que era, não lhe consentiam as leis canónicas «avitar» na metrópole sem constituir novo património. (O património era uma garantia do decoro da vida do clero). Isabel Francisca, já viúva de Domingos Fernandes, resolvera esse problema do filho fazendo-lhe para tal fim, em 7-2-1729, uma doação de «toda a propriedade em que vivia, chamada a quebrada de Sequeiros», de que era «direito senhorio» a Igreja de Luzim. Foi desta maneira que o P.e Mota ficou a ser dono desta quinta. Aqui teve ao serviço um mulato, a que já se fez referência, bem como duas mulheres que não eram «pessoas branquas». Uma das escravas, por nome Sebastiana, servia em sua casa havia muitos anos, «com grande satisfação e provedade» e por isso o patrão quis deixá-la, após a morte dele, «forra e livre e desembargada como se fosse pessoa branqua». Para satisfazer tal desejo, mandou passar-lhe uma carta de alforria em 26-11-1731. Ao conceder-lhe a liberdade, mostrou-se muito pouco generoso, porque impôs a obrigação de ela continuar «athe a hora da sua morte, servindo-o com toda a umildade», sob pena de ficar sempre escrava e «pessoa imundua» (!), no caso de assim não proceder. Por falecimento dele, os herdeiros ficavam obrigados a entregar à Sebastiana duzentos mil reis, bem como todos os «vestidos» e «pessas de ouro» que ela então usasse, desde que tivesse cumprido «os condiçoins asjma declaradas». Em 1744, o P.e Mota vivia numa «grd.e e sumptuosa morada de cazas» que mandara construir em Sequeiros; nesse ano, pedira licença ao seu Prelado para erigir ai uma capela da invocação de S. Joaquim e S. Ana. Faleceu em 24-3-1752. Herdaram os bens que lhe pertenciam os sobrinhos José Pinto e Ana Maria. O óbito da sua escrava teve lugar em 3-10-1755. Pobre Sebastiana, pouco tempo gozou da sua alforria!
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel,1969-08-15