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Retábulo-mor de Bustelo




Antes de mais, muita desculpa à Ex.ma Direcção do Notícias de Penafiel, — sempre tão acolhedora e compreensiva deste pobre velho, solitário do Mozinho por causa de vir hoje aqui intercalar um tema muito aparte daquele que prometera versar sem interrupção, até final, qual fora dar à estampa a documentação em posse, relacionada com a pessoa do Dr. A. de Almeida. A causa desta interposição, porque não dizê-lo? é o prazer que senti de me ter chegado às mãos, há poucos dias, um documento que o Prof. Robert C. Smith e o Prof. Flávio Gonçalves muito gostariam de certo ter conhecido, quando se ocuparam há anos da talha da igreja de S. Mig. de Bustelo, de Penafiel. O primeiro, como se sabe, é o notável historiador de Arte, professor na Univ. de Pensylvânia, autor de vários trabalhos em português, da sua especialidade, dos quais interessa agora citar apenas A Talha em Portugal (Lisboa-1962-1963). Nesta obra, volumosa e ilustrada, assente em rigorosa documentação aliás como todas as outras da sua autoria — Smith referiu-se à talha da igreja de Bustelo, a p. p. 109-110. Ao quedar-se em considerações sobre o retábulo da capela-mor, disse que era «lógico» à luz da análise dos dados estilísticos concluir que ele se devia à «arte de Manuel da Costa de Andrade e às lições de Miguel Francisco da Silva», acrescentando que, embora não tivesse «documentação» a esse respeito, tudo levava a crer ter sido executado entre 1745 -1750.
Mais tarde, Flávio Gonçalves — Prof. da E. S. de Belas-Artes do Porto e ilustre polígrafo — retomou o mesmo assunto em dois excelentes artigos publicados na secção Cultura e Arte do jornal O Comércio do Porto (13 de Abril e 25 de Maio de 1965), sob a epígrafe A construção da Igreja de S. Miguel de Bostelo e a sua talha dourada. Na última parte do 2.º artigo, encontra-se a seguinte afirmação: «Segundo o texto do L.° dos Óbitos de Bostelo, o retábulo-mor da igreja conventual data o mais tardar de 1742 -1743 — indicação que, a estar certa, se me afigura de importância, por provar que não só depois do retábulo da igreja de S. Ildefonso (Porto) começaram os arquitectos e entalhadores da zona portuense a aprender a lição do rococó».
Terá Flávio G., ou outrem, quem quer que seja, encontrado prova definitiva, a confirmar como «certa» a cronologia do citado L.° dos Óbitos? Ignoro. É por isso que informo os prezados leitores de que tenho presente uma escritura lavrada a 17-7-1742, do L.° de Notas do tabelião J. Francisco Teixeira, da cidade do Porto, na qual «Josephe de Afonceca, mestre emaginario e morador na rua das ortas da freguesia de São Ilfonço, extramuros», se ajustou e contratou com «frei João Bauptista, Dom Abbade do Mosteiro de Bostello» a fim de «lhe haver de fazer toda a obra do Retavello e trevuna da Capella mor do dito seu mosteiro».
A «indicação» do L.° dos Óbitos está, pois, mui «certa»!
Praza a Deus que o texto integral da referida escritura venha a ser publicado na parte documental dum futuro boletim de cultura de Penafiel.
MONAQUINO

Solilóquio


Vozes desatinadas dos homens filhas do pertinaz orgulho que lhes consome a alma perturbam a cada passo a quietude da vida contemplativa que há longo tempo o Monaquino professou, na Tebaida do Mozinho. Ainda não há muitos dias estava ele todo absorto na meditação da contingência e vaidade das coisas deste mundo, senão quando estranha voz o veio apoquentar (provinda de certa varanda implantada no jornal «O Penafidelense»), que lhe dissipou por inteiro o espiritual deleite em que se encontrava enlevado. Aconteceu isto em 20/10/70.
A memória do Monaquino, já um tanto descalabrada, não foi capaz de reler fielmente (ipsis verbis) os dizeres dessa voz esquisita, mas as ideias e sentimentos que deles ressaltavam, podem expressar-se, mais ou menos, na seguinte forma sintética:
— Eu, advogado da verdade e da justiça, aqui declaro, do alto desta Varanda de Cultura, ter sido o primeiro escritor a concluir, com seguro fundamento, que o autor da «Descrição Hist. e Topog. da cidade de Penafiel» era natural de Coimbra. Para tanto levei a cabo conscienciosa investigação exaustiva, que se prolongou de Dez.° de 69 a Out.o de 70. Fiquem sabendo todos que só cabe a mim a glória de ter provado que o Dr. Ant.° de Almeida não foi nado em Penafiel, como alguma vez se afirmou.
Graças ao autodomínio adquirido à força de constantes penitências, na Tebaida o Monaquino pode escutar imperturbável e mansamente tão angelicais falas: porém, os inalienáveis direitos da Verdade é que logo se levantaram a pugnar pela sua legítima defesa. Por artes de uma espécie de desdobramento de personalidade, surgiu um curioso diálogo entre o Monaquino e a sua consciência. Começou esta a interrogá-lo da seguinte maneira:
— Dize-me cá, não foi certo que tu, Monaquino, neste ano da graça de 70,a 6 do mês de Fev.°, no «Notícias de Penafiel», afirmaste que o Dr. Ant.° de Almeida era de «origem conimbricense»?
Monaquino, na sua edificante modéstia, respondeu:
— Lá isso é verdade. Asseverei-o muito convicto da veracidade do facto, mas talvez não tivesse apresentado a minha afirmação devidamente documentada...
A Consciência, com gesto enérgico, retorquiu:
— Ó alma de Deus! pois não te lembras que, em abono da tua asserção, citaste então dois escritos do teu velho amigo Moreira da Rocha — um de 2 e outro de 23 de Fev.° de 1962 — publicados no mesmo sobredito jornal, em que se fala da naturalidade e vida do Dr. Ant.o de Almeida, com tais pormenores de datas, pessoas e lugares, que ninguém de boa fé deixará de reconhecer que o autor, ao dar-lhes publicidade, tivera diante dos olhos fontes de informação fidedignas, de incontestável autenticidade?
Monaquino, nesta altura da conversa, baixou a cabeça, em sinal de muita concentração de espírito, e alguns momentos após, dirigiu à Consciência as seguintes palavras:
— Leal e querida companheira, tens muita razão em tudo que disseste, mas hoje em dia rareia a gente que pensa e obra de boa fé! Por via disso, (quer dizer, por causa da ausência de integridade de carácter, de lisura e maneiras decentes dos homens), decidi-me publicar toda a documentação, em minha posse, respeitante ao Dr. Ant.° de Almeida, — que me foi doada em vida pelo meu inesquecível amigo M. Telda R., — que tenho arrecadada numa arca velha, ao canto da minha cela. O primeiro documento a sair é uma cópia do assento do baptismo do historiador Ant.° de Almeida.
Texto do referido documento:
= Aos três dias do mez de Agosto de mil sete centos e sessenta e sete annos Baptizei solenemente António filho de Caetano de Almeida, Barbeiro, e de sua mulher Francisca Thereza da Piedade morador (sic) no largo da Feira: Netto de João de Almeida natural de Teloza, e de Thereza da Silva Caldeira natural da Villa de Arganil; e materno de Domingos Francisco Laboira, e de Maria Rodrigues de Barros ambos do lugar e freguesia de São Vicente de São Galhos: Foi padrinho o R.do Cónego Antonio Vicente de Vasconcellos, tocou com procuração sua João António Bezerra Professor Régio, e madrinha Thereza de S.ta Rosa porteira do Recolhimento da Misericórdia tocou com procuração sua seu sobrinho o Doutor António Joze das Neves, e para constar mandei fazer este afsento que afsignei. Coimbra dia mez e atino ut supra = O Prior encomendado Manoel do Espírito Santo e Sousa =
Até à semana, se Deus quiser.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel

 

Arrifana no Mozinho





Arrifana de Sousa - vila de vinte e nove anos apenas, quatro séculos, mais ou menos, como sede do concelho, e mais de quinhentos anos de fundação - desaparecia oficialmente do nosso toponomástico em 1770, como todos sabem. Começara por ser simplesmente Arrifana mas juntara-se-lhe depois o determinativo «de Sousa», para se distinguir das numerosas povoações do mesmo nome havidas no Reino. Ainda existem hoje vinte e oito Arrifanas e duas Arrifaninhas. Por estranho que pareça, não é propriamente da Arrifana, sita nas proximidades do rio Sousa - seu elemento identificador - que vou ocupar-me agora: é de uma outra Arrifana, existente ainda, no concelho de Penafiel, em pleno monte Mozinho. Não estou enganado - esta Arrifana não é produto de imaginação, mas realidade incontestável! Coleccionador dos topónimos mais característicos da nossa terra - no aspecto arqueológico, histórico ou linguístico - fui levado um dia a interrogar alguém familiarizado, desde muito jovem, com a onomástica das sortes ou parcelas de montado, pertença de senhorios vários, situados na denominada Praina do Loureiro e suas circunvizinhanças (rica zona dolménica que foi, como ouvia amiúde ao P.e Monteiro de Aguiar), na área sul do Mozinho, termo de S. Paio da Portela e de S. Marinha da Figueira. A par de nomes já conhecidos, - Penedo do Corvo, S. Iria ou Mosteiro das Freiras, S. Antão, etc. - foi-me dado conhecer então, pela primeira vez, além de outros, o Penedo do Facho, as Conguinhas e, com grande surpresa, a «sorte maninha da Arrifana». O conhecimento de uma Arrifana no Mozinho, reveste-se, a meu ver, dum duplo interesse. Será prova, indirecta de que Arrifana de Sousa, na sua etimologia e fundação, não deve ligar-se - como aliás já se tem insinuado - a Arriana, nome da filha de D. Mumadona Dias e do conde Ermenegildo, herdeira por morte do pai, em 950, da villa de Novelas. Por outro lado, constitui o facto uma achega a confirmar a tese de que o topónimo Arrifana proviera de um vocábulo comum, arábico na origem, que tomara entre nós, como em todo o Pais, um significado ainda incerto. Tratar-se-ia de qualquer planta mourisca, da família das mirtáceas, hoje desaparecida, que outrora vegetasse em lugares montesinos? Não tive ocasião de observar in loco a natureza e configuração do terreno da Arrifana do Mozinho. Segundo me foi atestado, é uma espécie de cova ou poça, como diz o povo, no meio da qual está um penedo isolado, largo na base e adelgaçado na extremidade.
No coração de Arrifana de Sousa havia também o lugar do «Fraguedo». Seria ingenuidade perguntar se não terá sido um rochedo, de feitio determinado, a dar origem às Arrifanas? David Lopes, ao falar da ilhota de Arrifana, no Algarve, diz que «ela não é mais que um rochedo que se eleva a meia altura da rocha da costa; nos Açores, a palavra arrifana expressa um lugar onde há algum arrife, cujo significado também é de «penedo» e «cabeça de rocha». É isto um devaneio etimológico? Perdoem-me os cultores da verdadeira Filologia.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel 1970-02-20

 

Evocação de uma Jornada





Há meio século, por convite do P.e José Monteiro de Aguiar - oriundo da Casa do Bairro, em Galegos - tomei parte numa jornada de estudo que tinha por alvo a citânia do Mozinho, organizada por dois amigos de tão sapiente arqueólogo. Na manhã aprazada lá estávamos junto à igreja velha de Cidrões, à espera do Dr. Agostinho Lopes Coelho, da Casa de Lamego, em S. Vicente do Pinheiro, e do Tenente Coronel Lacerda Machado - promovido a General em 6-1-1932 - que então se encontrava a veranear nas Termas de S. Vicente. (Escusado será dizer que a estrada não atravessava ainda o Mozinho nas cercanias da Cidade Morta). Uma vez presentes, iniciámos a subida da íngreme encosta do monte, a passo muito lento, com pausas de permeio, a saborear o tema aliciante da animada conversa. Apesar da minha idade bastante juvenil não favorecer a compreensão e alcance de tudo que se ia dizendo, fiquei deveras encantado de ouvir falar, com tanta proficiência, da arqueologia e da pré-história, para mim um mundo até então quase desconhecido. Chegados ao cume do monte, em pleno coração da citânia - os três entregaram-se sem detença ao trabalho que ali os conduzira: a recolha, feita com critério verdadeiramente científico, de todos os elementos à vista capazes de contribuir para o conhecimento daquele oppidum, cujo nome e origem remota, ainda hoje se não descobriu ao certo. O P.e Monteiro de Aguiar, bem familiarizado com o Mozinho, apontava, prontamente, cheio de entusiasmo, as coisas de maior interesse arqueológico, descia depois ao pormenor, aventava hipóteses e fazia sugestões; o Tenente Coronel - humanista e homem de ciência - ouvia atento, formulava a sua douta opinião, para em seguida registar conscienciosamente as informações válidas que recebera; o Dr. Agostinho de Lamego - rectidão em pessoa e coração generoso - era o mais parco nas falas e com muita prudência emitia os seus juízos. Quanto a mim, pobre ignorante, ia servindo de moço da fita métrica e recolhia em silêncio no meu espírito, na medida do possível, o que brotava daquelas fontes abundantes em matéria de pré-história. Lacerda Machado - sócio da Academia de Ciências, membro de dois Institutos e autor de várias obras de investigação científica - não podia dispensar-se de elaborar uma memória fundada no que observara e ouvira naquela jornada do Mozinho. Apresentou-a no Instituto H. do Minho, em fins de 1919, e foi publicada depois em 1920 com o título Uma Cidade Morta.
Foi assim revelada ao mundo da cultura pela primeira vez - há 50 anos - a existência da grande riqueza arqueológica do nosso Mozinho.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel,1969-06-20, p.06

Caso Estranho em Vila Cova






O último diálogo que tive com o povo foi nas imediações das fragas de S. Antão. Desci a encosta e fui bater à porta dos vizinhos de um lugar assente no sopé do Mozinho, que faz parte da freg.a de S. Paio da Portela. Muitas vezes encontrei este lugar em velhos manuscritos com o nome de Vila Cova. Tal denominação ajusta-se-lhe à maravilha, porque aquela aldeia é mesmo uma grande cova, toda aberta ao sol nascente, protegida de norte e sul por dois braços do Mozinho, que lhe oferece seu imponente dorso, a modos de anteparo, pelo lado do poente.
O facto de ter existido aqui uma vila medieval (cfr. Viterbo, v. Vila Cova) - se não sucessora de outra luso-romana - assegura-lhe uma existência multissecular. Mas não é esse o caso estranho da epígrafe. O que deveras me surpreendeu foi não ter encontrado, entre os anciãos que interroguei, um só que me indicasse onde ficava a Vila Cova. (A medo, ainda houve quem me apontasse o Cimo de Vila, onde existe uma só casa). Coisa tanto mais singular quanto é certo sabê-lo nome corrente ainda em meados do séc. XVIII. Isso está bem expresso, por ex., na memória paroquial de S. Paio da Portela, escrita em 20-4-1758, pelo Abade M. de Barros de Freitas, manuscrito existente na Torre do Tombo. Com a devida vénia, caro leitor, vou transcrever o passo que mais interessa ao nosso caso. É saboroso. Começa desta guisa: «Devide-se esta freguezia, em duas partes; parte de sima, e parte de bayxo em rezam de per meo della comtenuar, a estrada real, que vem da villa darifana de Souza, e de toda a Província Interanemse, para a confluência dos ditos dois rios Tamaga e Douro, vulgo chamado emtre ambos os rios, com lugar grande e aruado, com o nome de Vurgô e comtenua a dita estrada, para as partes de alem Douro e arouca.//...//. Parte de Sima chamase esta parte Villa Cova que compreende, logar do bayrro, com sete vezinhos, o logar da Cruz com sinco, o da costa com des, o do cazal com tres, o do (sic.) passos com sinco, o daldeja de Villa Cova com oyto, o do ribeiro com coatro, o do monte com dez, o de Villa da fê e preirô com tres»
«Estrada real» de Arrifana a Entre-os-Rios, Além Douro e Arouca; Burgo da Rua; Casal, Preiro e Vila de Ufe... Que temas tão ricos! Mas é forçoso reduzir o comentário do texto a mui breves considerações atinentes ao caso de Vila Cova. O vocábulo aldeia, de origem árabe, começou por antepor-se a vila - obliterado o significado desta - para eliminar depois toda a Vila Cova e ficar só ela reinante, por artes da lei do menor esforço. Na Portela de hoje só existe o topónimo Aldeia. O segundo ponto a considerar é que, tomado a rigor o texto, pode-se inferir que a medieva Vila Cova tinha domínio rural, ou pelo menos epónimo, para além da cova de que lhe viera o nome, pois se encontram englobados nela lugares já fora da sua área topográfica, como seja o Preiro e Vila de Ufe. E por hoje, tenho dito.
MONAQUINO

Um Sacristão no Mozinho?





Não sei como o topónimo Mozinho se radicou para sempre no monte mais importante da Terra de Penafiel. Na meia-idade, é sabido, abundavam no país os sacristães, a que, de modo geral, se dava o nome de mozinhos, se bem que não era denominação exclusiva. Os mozinhos eram moços, e outros sim adultos, que serviam nos templos, mediante remuneração, algumas vezes destinados à vida eclesiástica. Viterbo fala-nos até de uma Confraria de Moozinhos existente em Coimbra no ano de 1281. Há muito que desapareceram os nossos mozinhos. O mais novo do meu conhecimento vivia no final do séc. XVI. Vi-o num assento de baptismo, letra do tempo, da freg.a de S. Romão do Coronado, era de 2-12-1590. Espanha ainda tem hoje os monaguillos ou monacillos, irmãos dos nossos mozinhos, quanto ao nome e sua origem. No séc. XVIII, têm-me aparecido uns ermitães a morar junto a capelas confiadas à sua devota guarda. Vou referir-me apenas a dois, ambos chamados Domingos, que viveram nas cercanias da «Ermida da Senhora da Lapa ou Santo António» (sic), da freg.a de S. Martinho de Lagares. O primeiro, Domingos Alves, já se encontrava «Velho de ssetenta annos de hidade» quando fez o seu testamento, em 20-6-1710, que possuo em cópia, por inteiro. O meu regalo era transcrevê-lo todo aqui, tão formoso é aquele testamento! (E aonde o espaço para tanto?). O outro ermitão, Domingos do Sacramento - nome tão sugestivo! - vem nomeado numa escritura de doação, feita em 11-9-1748, de que também tenho cópia fiel. Os outorgantes dessa escritura, senhores que eram da «Caza de Ordins», disseram que doavam à referida «Capella e a seos eremitoes» um cerrado contíguo à mesma, porque estavam muito agradecidos ao Domingos do Sacramento, pelo seu grande zelo em manter «a dita Capella bem ornada e venerada». Tais ermitãos, a bem dizer eram sacristães daquele tempo, herdeiros do ofício dos mozinhos de antanho. (Ainda há poucos anos ouvi chamar «ermitão» ao sacristão do Bom Jesus, em Braga). Depois disto, alguém achará impossível imaginar um mozinho, em serviço de sacristão, junto da ermida de S. Antão (fora de dúvida, muito anterior a 1622), ou então muito perto do Mosteiro das Freiras? Por mim, teimo em vê-lo em tal sítio, a uma distância plurissecular, a projectar-se, no futuro, mercê de uma simpatia tão forte criada na alma do Povo que fez que ele identificasse o monte com a veneranda pessoa do Mozinho.
MONAQUINO

A Prudencinha da Ameia





Encontro-me, com certeza, em dois lugares do Mozinho: a meditar nas fragas de S. Antão ou a caminho do Penedo do Corvo. Com este modo de ser, não me tomem por fala-só, misantropo ou imaturo. Gosto de viver longe do arruido do mundo, a contemplar horizontes rasgados e belezas sem par,- mas não prescindo de comunicar com os homens meus irmãos. Com os antigos direi que tudo que é do homem me interessa. Sinto dentro em mim que o homem é realmente um animal social, apesar dos mil desentendimentos. É por isso que de vez em quando saio da minha Tebaida e vou por essas terras além dialogar com o povo.
Há dias fui de longada até junto da Ameia, na freg.ª de Boelhe. Lá no fundo, todo o lugar se espelha nas águas límpidas do Tâmega. Haverá sítio mais bucólico em toda a redondeza? Sou um tanto suspeito. Também a Ameia me prende, ou melhor, prendem-me os meus avoengos. Está lá uma moradia habitada outrora por uma das minhas avós, de que foram antepassados Aleixo Marques e Madalena da Rocha, recebidos no ano do Senhor de 1612. A Casa da Ameia e sua quinta em redor mudaram de senhorio, no fim do século passado. Anos depois, a Prudencinha do Estremadouro e o Manelzinho do Bairral, unidos pelos laços do santo Matrimónio, para lá foram viver. Deus já foi servido levá-lo; ela, na cama, cristãmente resignada. Fui visitá-la. Com míngua de forças, mas lúcida e de memória pronta, como se tivera vinte anos. Anda nos oitenta e nove! Bisavó da Rosa Maria, que é mesmo um botão de rosa a desabrochar para a vida. Conversamos longamente. A bem dizer, foi só ela que falou. Contou coisas da mocidade e do seu tempo de casada. Era vê-la recordar as festas e romarias, as longas jornadas e os alegres cantares; as feiras de Penafiel, aonde se ia a pé, pelo Marco de Luzim e caminhos pedregosos; a travessia da Barca para as terras de Além Tâmega - todo um passado que já mal se conhece. O que melhor fixei, foi o retrato do seu marido, à maneira de pintura impressionista. Rapariga enamorada fora dizer ao pai qual o eleito do seu coração. Mal pronunciara o nome, o pai logo atalhou: - Escolheste bem. Olha, filha, ainda que tu percorresses o mundo inteiro com um prego bem aceso na mão, não descobririas um homem tão sério como o Manelzinho do Bairral.
Abençoada honradez do Manelzinho - que Deus haja - pois ainda hoje, ao ser relembrada, enche de felicidade o coração da Prudencinha!
MONAQUINO

O Mozinho




Vejo-me em palpos de aranha por causa da promessa que fiz de dizer aqui qual a proveniência do nome singular com que agora me assino. Receio ser enfadonho e, além disso, não fica bem vir para um jornal ocupar-me de mim mesmo. É feio.... No entanto, entre perder simpatia a arriscar os créditos da honradez, não posso hesitar: vou cumprir a palavra dada, muito mau grado meu!
À força de me ouvir falar, com insistência e paixão, do nosso Monte Mozinho - por amor da sua beleza panorâmica e importância arqueológica - o povo começou a apelidar-me de Monaquino. Não sei por que arte a nossa gente descobriu palavra tão sugestiva e com ares de erudição. Bem certo é que o povo muitas vezes é Mestre, sem o saber. Engracei com o nome e adoptei-o como próprio, indo logo abrir a sua assinatura na Nota do tabelião de Arrifana de Sousa. Com certeza que gostei do seu todo por ter enxergado nele uma ascendência helénica.
Mas agora muito a sério: não me enganei com as aparências. O vocábulo monaquino vai justamente entroncar no grego monachós. Os latinos acharam expressivo o termo monachós e transplantaram-no para a sua língua. Em dada altura, dentro do latim, da sua forma monachus, por obra do sufixo - inus, surgiu a palavra derivada monachinus. Deste neologismo daquele tempo, em legítima filiação, era natural que nascesse, no português, um autêntico monaquino. Em abono da verdade, devo dizer que nunca li texto antigo onde ele se encontrasse, embora bons dicionaristas o apresentem, sem indicação da procedência (vide Elucidário - Viterbo - voc. monachino e molachino). O que não oferece dúvida alguma é que o monachinus evoluiu para monacinus, no latim vulgar, e que este é o étimo directo do nosso arcaico mozinho (com z e não com s), cuja existência está de sobejo documentada, ao longo de séculos.
Todo este arrazoado não visava tanto uma conclusão de carácter filológico, como à primeira vista poderia parecer; antes teve em mira mostrar quão estreitos são os laços de consanguinidade entre o moderno Monaquino e o medieval Mozinho.
Com um parentesco assim tão chegado, e tão abrasado amor do coração, diga-me o leitor amigo, por favor, como é possível que eu deixe de falar, amiudadas vezes, do nosso querido Mozinho?


MONAQUINO

In Jornal Notícias de Penafiel, 1969-05-02, p.04

Monte de S. Antão


Num destes dias de sol refulgente, subi pela primeira vez ao Monte de S. Antão. Fui pelo caminho mais curto, depois de chegar ao Calvário. Encantado com a riqueza da paisagem - misto de aspereza e graciosidade - e surpreendido com a largueza do panorama. Mas onde fica situado o Monte de S. Antão? Não é muito conhecido, apesar de ser um braço do Mozinho, que se estende sobre a área de S. Paio da Portela - parte pequena de um grande todo. Queria agora perguntar a mim mesmo se era capaz de subir o Monte por amor das lindas vistas? Não era. A subida é muito íngreme. O que me arrastou para o Alto foi uma força misteriosa que se me entranhou na alma. Foi uma espécie de tentação irresistível de ver de perto e tocar um lugar santo - santificado pela presença, durante séculos, da imagem do Patriarca dos cenobitas, S. Antão, Abade, que ali estivera numa ermidinha, da sua invocação. Era uma ermida do povo. A inclemência do tempo e a incúria dos homens arruinou-a de vez, há cerca de trezentos anos. Não falta documentação que o ateste. A ermida arruinou-se e o Santo perdeu, juntamente com ela, o trono de maravilha que a natureza lhe ofertara. Não sei quem o despediu lá do Alto, donde, dia e noite, deitava a sua bênção aos fregueses de S. Paio e à gente das redondezas e aos animaizinhos entregues à sua guarda. Forçaram-no a descer. E o santo anacoreta, de semblante macerado, foi-se acolher à igreja da freguesia. Talvez por compaixão, ainda lhe deram um lugar de respeito. Segundo leio na memória do Abade de S. Paio, do ano de 1758, a imagem do «Milagroso confessor de Christo Senhor noso S. Antam" encontrava-se colocada, nessa data, no «retavolo» do altar-mor, do lado da Epístola, logo a seguir ao Padroeiro, que estava, como lhe é dado, da parte do Evangelho.
Depois, não sei quando nem porquê, teve de deixar também este lugar tão honroso. Mas ao menos, não o puseram fora da igreja, nem jamais lhe faltou a devoção dos fiéis, que amiúde lhe vão pedir a bênção, com muita Fé. Pior foi o destino de S. Iria que teve de abandonar o seu mosteiro, descer também do Mozinho, e acabar por ser levada para longe da sua terra, sem ter hoje uma única tecedeira que a venere. Um desterro... Não se fazia tal desfeita. Pobres santos, que tão amigos sois do povo e tantas vezes obrigados a andar em bolandas, por causa do desatino dos homens!
MONAQUINO
In Jornal Notícias de Penafiel, BPMP_IX-2-22(A)_19690509_p.04 Luz de Candeia Velha - Monte de S. Antão.docx