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Prím. Cónego de Peroselo




O meu amigo leitor talvez conheça, ao menos de vista, o Cón. Manuel Moreira, que nasceu em Peroselo, na Casa da Q.ta da Igreja (hoje chamada do Couto), a 16-9-1649. Em tempos não muito distantes, falou-se dele, salvo erro, no Penafidelense, em 57, e de modo mais sucinto, em Penafidel, no ano de 65. No
caso de não lhe ser estranho este Cónego, não me desfaça o prazer de ora me debruçar sobre figura tão peregrina e tanto da minha paixão.
Ele é de verdade o primeiro dos Cónegos de Peroselo. Primeiro cronologicamente, segundo creio, e sem dúvida o primeiro também na ordem da importância. Para evitar suspeição de parcialidade, quem vai fazer aqui a apresentação da sua vera efígie será o P.e Henrique Moreira da Cunha conhecido genealogista da família dos Moreiras, nascido em Parada de Todeia, a 9-5-1695. Por especial deferência do saudoso Abílio Miranda, foi-me facultada a leitura e cópia dum nobiliário do referido autor, manuscrito, acabado em 26-12-1730, ano do óbito do nosso Cónego presentemente guardado na Biblioteca M. de Penafiel. No ramo 6.a (fls. 188-190) lá está delineado o perfil do Cón. Moreira, a traços largos, com alguns pormenores da sua vida, a que não falta gracioso tom de pitoresco. Desse retrato singelo apenas será dado à estampa, desta vez, cerca de meio-corpo — o restante sairá na semana que vem.
Vai aparecer tal e qual, afora grafia, acentos, pontuação e abreviaturas. Apontada esta circunstância, já começa a transcrição:
O filho de Helena Moreira (e de seu leg.o marido, Domingos do Couto, acrescento eu), o Mt.° Rev. P.e Manuel Moreira, ordenando-se de sacerdote do hábito de S. Pedro, foi para Salamanca, Universidade, onde se formou, e daí partiu para Roma, onde assistiu 12 anos, e de Roma veio feito Cónego da Sé do Porto.
Foi homem de muitas prendas e virtudes na sua vida, a qual toda foi muito penitente e nela nunca andou a cavalo; foi e veio de Roma sempre a pé, e a pé todos os anos, até o último da sua vida, foi à Senhora da Lapa e a S. Tiago da Galiza e a outras romarias importantes, mui distantes e remotas. Foi frequente na oração, casou muitas órfãs, amparou muitas viúvas; e quanto rendia o seu benefício era pouco para pobres, tanto assim que deixou os seus bens, que tinha livres, empenhados em conto de reis que gastou com os pobres e em obras pias. Alimentava-se com manjares grossos, comendo quotidianamente tão somente caldo adubado com unto e algum bocado de sardinha, ou um ovo muito poucas vezes, porque se abstinha de tudo que era regalo. Dormia sobre uma tábua, 2 até 3 horas da noite, porque o mais tempo era pouco para a sua oração.
Não vamos mais além. Entretanto, quem gostar de se alumiar com esta candeia ferrugenta, com certeza que não há-de considerar de ora avante a totalidade dos Cónegos do séc. XVIII desprovida de valiosas «prendas e virtudes» sobrenaturais.
MONAQUINO

«Capela imperfeita»





A devoção à Senhora da Lapa - iniciada no terreiro das Chans, à sombra benfazeja da igreja da Misericórdia, no começo de setecentos - tomou tal incremento, por meados do mesmo séc. XVIII, que daí provieram possibilidades económicas de se projectar e pôr em execução um plano de obras que tempos adversos sobrevindos não consentiram ser levado a bom termo. Desta sorte se poderia dizer - grosso modo - que a cidade também possui uma «capela imperfeita». Mais de uma vez me tenho quedado a contemplar, na tela da imaginação, o efeito estético que haviam de lograr nossos olhos se porventura tivera sido executado, no seu todo, o projecto então elaborado, ainda há pouco tempo existente na sacristia do templo da Misericórdia. O plano fora concebido de maneira a tornar mais rica de ornamentação a primitiva fábrica da igreja, sem deixar de se terem em conta as exigências de uma equilibrada elegância. Pinho Leal, no Dicionário, assim se expressa acerca das realizações então levadas a cabo: «Com as ofertas dos devotos, fizeram um grande obra, e uma boa torre a par da fachada da Igreja da Misericórdia, e um óptimo relógio».
A «torre da capela de N. S.ra da Lapa» já estava concluída em 1785; foi então considerada apta para nela se colocar o «óptimo relógio», como pode inferir-se do que há tempos aqui se escreveu sob a epígrafe «Aquele Relógio da Misericórdia..». Depois de erigida a donairosa torre, lançaram-se ainda em parte as bases que haviam de sustentar uma cúpula, a rematar todo o conjunto do artístico acrescento. Para além disto, não mais se avançou na execução do projecto, por carência de meios económicos que possibilitassem o acabamento da obra. É o mesmo citado autor a dar-nos as razões de tão crítica situação: «Com o tempo foi afroixando a devoção dos fiéis, e, por consequência, rareando as esmolas para continuar as obras; ficando apenas o rendimento indispensável para o culto divino».
Foi desta guisa que ficou mutilado plano tão promissor de aformoseamento da parte exterior da igreja da Misericórdia.
Para concluir, importava dizer ainda qual foi o factor determinante da génese da devoção à Senhora da Lapa em toda a nossa região. Não estarei fora da verdade se disser que ela se deve atribuir à intensa irradiação para todo o norte do país do acendrado culto prestado à Senhora no seu famoso Santuário da Serra da Lapa, no actual concelho de Cernancelhe, onde remonta ao ano de 1493.
Quem pretender conhecer toda a história desse Santuário terá muito proveito em ler a excelente monografia Terras da Beira - Cernancelhe e seu Alfoz, da autoria do Ab. Vasco Moreira, publicada em 1929.
MONAQUINO

A Ermida Renasceu...







A velha ermida de S. António, na freguesia de Lagares - talvez anterior ao séc. XVI - remoçou de algum modo da sua decrepitude por fins do século de seiscentos, graças à introdução que nela se fez do culto da Senhora da Lapa. Em 1757, novo surto de vitalidade experimentou ao ser escolhida para sede de confraria dos Santos Passos e das Almas, com o beneplácito de Bento XIV. Pelos seus estatutos sabemos prover-se naquele tempo a assistência espiritual e temporal dos confrades, pois os irmãos pobres, além dos sufrágios, tinham direito a médico, remédios e mortalha. Esplêndida acção social a igreja desenvolveu outrora através das confrarias; pena é que em nossos dias elas tivessem perdido tão simpática função humanitária!
Com o decorrer do tempo, o esfriamento do culto da Senhora da Lapa, aliado a outros factores, levou a ermida à beira da sua completa ruína. No segundo quartel do séc. XIX, surgiu um grupo de homens, cheios de ardorosa Fé, que se propuseram restaurar a capela da Senhora da Lapa. À frente, como já se disse, estava Manuel de Sousa Rangel. Esses beneméritos, «com esmolas por eles mesmos ofertadas e com outras que por sua diligência obtiveram, reedificaram, de 1844 a 1852, a sobredita capela, dando-lhe muito maiores dimensões». A partir de 1855, foi também construída, junto da reformada ermida, uma torre e uma casa «com destino a colégio», onde um capelão «dava aulas de primeiras letras e gramática latina e ensinava a doutrina cristã aos meninos». Foi ainda nesse tempo que se projectou um plano para erecção de «quinze capelas dos Passos e Calvário».
Já é tempo de nomear aqui os principais colaboradores de Manuel de S. Rangel. Foram eles os padres Fr. João e Fr. José, frades da Província da Soledade - egressos em 1834, por força da extinção dos conventos - e mais o P.e Joaquim Moreira da Rocha e Sousa - três irmãos nascidos na Casa da Aldeia de Baixo, em Lagares. É plurissecular a permanência neste lugar da família desses clérigos. A sua ascendência vai entroncar, no séc. XVI, com os pais do fundador da igreja da Misericórdia de Penafiel - o P.e L.° Amaro Moreira de Meireles. A relativa importância social e económica da Casa da Aldeia de Baixo deriva mais proximamente do facto de André de Sousa - f.° leg.o de António de Sousa e de Jerónimo Antónia, casados em 22-5-1693 e residentes na referida moradia - ter realizado o seu casamento, a 17-11-1727, com Antónia Moreira de Sousa, da Casa de Vila Meã, na freg.a da Capela. Este André e sua mulher Antónia foram os bisavôs paternos dos três sacerdotes acima mencionados. Um sobrinho destes eclesiásticos, chamado Manuel Moreira Rodrigues Lopes - f.° leg.o de seu irmão António e de sua mulher Violante Rosa Rodrigues Lopes, natural da Casa de Gilferros, casados em Lagares, a 28-8-1837 - foi quem herdou de Manuel de S. Rangel as suas casas e cerca, sitas na Senhora da Lapa, como consta do testamento com que este faleceu, registado no L.° 26 da Administração do conc.º de Penafiel.
MONAQUINO

«Uma Grande Obra»







No próximo ano a igreja da Misericórdia não deixará de estar presente no espírito de quantos se propõem celebrar conscientemente o bicentenário da cidade, já que no decurso de 1970 também serão contados duzentos anos sobre a data em que ela foi escolhida para Catedral da efémera diocese de Penafiel. Ao contemplar-se o templo, deste ângulo de perspectiva - por natural associação de ideias - não teremos forçosamente de pensar que o facto determinante de ser dado a Arrifana de Sousa o título de cidade se fundamentou na circunstância da vila daquele tempo carecer de um ornamento capaz de a habilitar a receber, condignamente, o honroso privilégio de ser elevada à categoria de sede episcopal, por virtude da criação da nova diocese de Penafiel? E se não tivera sido esse plano do Marquês de Pombal, quanto tempo a cabeça do nosso concelho não permaneceria na qualidade de simples vila? Mas não é meu intuito aprofundar agora tão importante assunto da história penafidelense: é meu propósito apenas dar um pouco de desenvolvimento à breve referência, aqui há tempos feita, relativa ao culto da Senhora da Lapa em Penafiel, na sua capela que faz parte da igreja da Misericórdia. Isto será prova, em certa maneira, de que a Catedral de outrora já está bem presente em nosso espírito.
Pinho Leal no seu Dicionário (v. Penafiel) faz uma ligeira descrição do modo como nasceu e lançou fortes raízes na alma do povo essa devoção mariana, mercê de piedosa indústria de pessoas certamente bem-intencionadas - ingénuas artes, curiosas no seu aspecto etnográfico, mas sem valia apreciável, se não dignas de reprovação, no campo puramente religioso.
Parece-me bem transcrever aqui parte dessa narrativa do aludido autor. Diz ele que «no princípio do séc. XVIII, apareceu no cunhal exterior da capela-mor da igreja da Misericórdia, pintada, uma imagem de N. S.ra da Lapa. Não se sabe por que razão a não queriam ali; pelo que a mandaram lavar, mas como não saísse a pintura, a mandaram raspar. Foi o mesmo que nada: a pintura, cada vez aparecia mais viva, e ainda hoje se conserva, como se fosse acabada de pintar!
O povo principiou a ter esta Senhora em grande devoção, e resolveu fazer-lhe uma capela, no lugar da pintura, e que ainda hoje existe» (ano de 1875).
Que a devoção à Senhora da Lapa se tornou notável em Penafiel no século de setecentos, não pode haver dúvida alguma, pois que lá está ainda a comprová-lo «uma grande obra», segundo a expressão do mesmo Pinho Leal - projectada, e em grande parte erigida, no exterior da igreja da Misericórdia, em conjugação artística, não muito destoante, com a primitiva fábrica do templo.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1969-12-05, p.05

«Capela de S, Cristóvão»?







O último número do jornal «O Penafidelense», de 14 do corrente mês, traz inserta, na primeira página, uma nota assinada por Maria Marcos, sob a epígrafe «A Capela de S. Cristóvão», a propósito de uma «festinha» que nela «teve lugar no dia 14 do mês passado», celebrada, como era de esperar, com autêntico fervor e dignidade litúrgica. Fui induzido à leitura dessa nota, por causa do título de que vem encimada, pois supus tratar-se de alguma informação de carácter histórico, atinente à «capela» de S. Cristóvão de Louredo - anteriormente aos meados do séc. XVI, igreja paroquial, sob o patrocínio de orago diferente - que ultimamente me tem dado que pensar, como aqui hei-de expor, na primeira oportunidade. Mas não era da «capela» de Louredo que se tratava; aliás, a própria autora cuidara de elucidar o leitor: «a capela de S. Cristóvão é uma capelinha muito antiga, dependente da igreja da Misericórdia, que fica num dos pontos mais bonitos da cidade - a Praça Municipal». De seguida, dá-nos a razão de ser da presente invocação da capela: «restaurada aqui há anos, foi ali colocada uma lindíssima imagem de S, Cristóvão, ideia que partiu dos motoristas desta cidade, a fim de os proteger, e bem assim a todos os viajantes». Sem curar agora de saber das implicações que a reforma do calendário litúrgico possa haver trazido ao caso, direi que nada me parece estar mal - sobretudo digna de muita simpatia, a «ideia que partiu dos motoristas», da cidade de Penafiel - a não ser apresentar-se-me, como coisa menos acertada, o substituir-se a originária invocação da capela, com idade superior a duzentos anos, por uma outra que não tem ligação alguma com a história da igreja da Misericórdia.
O povo tem razão quando diz que não é bonito nem se deve fazer, «despir um santo para vestir outro». Não será este o caso de se «despir» a Senhora da Lapa da sua capela para se «vestir» nela S. Cristóvão? Ao menos, por enquanto, lá está ainda a imagem, em pedra, da Senhora da Lapa, colocada, em seu nicho, a atestar a posse secular da sua invocação. Merecia a pena dizer-se algo mais a respeito da história da Senhora da Lapa em Penafiel de Sousa. Hoje, já não posso fazê-lo, por míngua de espaço. Será para a próxima vez, se Deus assim quiser... e os homens o consentirem. Já agora, só mais umas palavrinhas, como que à maneira de pós-escrito. Antigamente, quem valia aos viandantes era a Senhora da Guia - ainda vemos suas ermidas, à margem das estradas «velhas»; se não temos a protecção de S. Cristóvão, em meio de tantos perigos que nos cercam, nas estradas dos nossos dias - que há-de ser nós? S. Cristóvão nos valha!
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1969-10-24, p.06

Senhora da Lapa no Concelho de Penafiel





No concelho de Penafiel existem pelo menos duas capelas particulares originariamente dedicadas a N. Senhora da Lapa - em relativo estado de conservação, embora talvez haja mais de setenta anos que não se
exerça nelas culto divino. A tradição oral terá esquecido a primitiva invocação, mas esta não pode ser posta em dúvida, porque a prová-la estão os processos canónicos da erecção das duas capelas, guardados no arquivo diocesano do Porto. A mais antiga, e melhor conservada, foi construída junto às casas da morada do morgado das Quintas, em S. Vicente do Pinheiro. O capitão Manuel da Cunha Coelho - herdeiro do morgadio e casado com D. Sebastiana da Cunha e Beça Leitão - foi quem mandou edificá-la no ano de 1696. Em breve parêntese, direi que ouvi falar muitas vezes a várias pessoas acerca do último «morgadinho das Quintães», António da Cunha
Coelho Barbosa, e de sua mulher, D. Carlota Máxima da Cunha - irmã de Gaspar de Baltar, o fundador de «O Primeiro de Janeiro». A outra capela é de mais recente fundação. Erigiu-se em 1767, no lugar de Perosinho, freguesia de Cabeça Santa, junto à casa de campo de um Domingos Pereira - «homem de negócio da praça da cidade do Porto e morador no bairro e freguesia de
Miragaia» - que então era senhor de uma quinta em Perosinho, hoje pertença da Casa de Mesão Frio. Não conheço
mais capelas particulares, sob a protecção da Senhora
da Lapa, dentro do nosso concelho. Além da capela incorporada na igreja da Misericórdia de Penafiel, a que já se fez referência, uma outra existe entre nós, que é pública e bastante afamada, onde se venera a Senhora, desde, tempos imemoriais. É a capela da Senhora da Lapa, em Lagares. No ano de 1622, o seu orago era S. António, cuja imagem ainda se encontra exposta à veneração dos fiéis, no retábulo do altar-mor; em 1710, a ermida já era nomeada como sendo da Senhora da Lapa ou S. António» (no altar-mor, do lado do Evangelho, está também a imagem de S. Antonino que, em tempos idos, era muito festejado). Mais tarde, porventura dentro do mesmo século dezoito, começou a denominar-se, simultaneamente, Capela da Senhora da Lapa e do Senhor dos Passos. O edifício da velha ermida sofreu profunda transformação em meados do século passado: Toda ela foi reconstruída, desde os seus fundamentos, e muito ampliada, no período decorrente de 1844 a 1855. Quiseram transformá-la num verdadeiro «santuário» - espécie de arremedo, ainda que bastante pálido, do Santuário da Senhora da Lapa, na província da Beira Alta.
O grande obreiro desse empreendimento - que pôs ao serviço da Senhora da Lapa, em Lagares, toda a sua alma e muito do seu dinheiro - foi um particular que não era natural da freguesia. Desse insigne benfeitor e seus valiosos cooperadores há-de falar a nossa modesta crónica.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1969-11-14, p.06

Ao Redor da Senhora da Lapa




No «Relatório do Movimento R da Diocese do Porto» - relativo ao ano 1922-23, publicado em 1921 - o P.e Dr. H. Alves da Rocha, então pároco de Lagares e vigário da vara, escreveu uma pequena notícia histórica em que se aponta S. Antonino como orago da capela pública «onde se venera N. Sr.ª da Lapa e tem sua sede a confraria dos Santos Passos e das Almas». Tinha-se presente esta notícia ao ser redigido o ligeiro apontamento acerca da mencionada capela, aqui publicado na pretérita semana. O caso foi objecto de reflexão, mas não se lhe fez referência porque as fontes, em que se encontra baseada a afirmação do autor, não são consideradas fidedignas, e a hipótese formulada parece inaceitável. No entanto, é sabido que S. Antonino vive na tradição oral da freguesia e a imagem tem assento no altar-mor da capela.
Como e quando terá começado em Lagares o seu culto? Que santo «eremítico» e «mártir» terá sido ele?
Apesar de muita indagação, nada de certo consegui apurar a respeito de S. Antonino. Alguém poderia dar uma achega que espevitasse a luz da nossa candeia? Agradecia-se.
Posto isto, falemos dos obreiros da restauração da referida capela em meados do século passado. Entre todos foi seu maioral Manuel de Sousa Rangel. Este senhor Rangel nasceu na Casa de S. Julião em S. Tiago da Capela, a 6-3-1808, e
foi baptizada pelo P.e
Manuel de S.a Rangel, irmão de seu pai, sendo padrinho um seu tio-avô paterno, P. António de S.a Rangel - ao tempo pároco da freguesia. Manuel Rangel fora casado com D. Maria Pereira do Lago, da Casa do Souto, em Guilhufe, onde veio a falecer, sem descendência, a 3-4-1878.
O trisavô paterno de Manuel Rangel, chamado Manuel André nascido a 18-2-1642 e casado na freg.ª da Capela, com Antónia Luís da Rocha, em 30-1-1678 - já usava o sobrenome Rangel e vivera com seus pais Domingos Jorge e Isabel André na sua Casa de S. Julião. Há séculos radicada neste lugar, a família Rangel conta bastantes eclesiásticos e algum frade, em sucessivas gerações. O facto de Manuel Rangel ter posto a sua generosidade ao serviço da restauração de uma capela fora da área da sua freg.ª, explicar-se-á pela circunstância de sua mãe - Marta Teresa, casada com António de S.a Rangel ser natural de Quintandónega (sic), em Lagares; melhor, talvez por via de sua bisavó paterna - Catarina de Sousa, mulher de Manuel Rangel da Rocha (com quem casou a 5-5-1726) - ter ido para S. Julião da Casa de Aldeia de Baixo, da mesma paróquia lagarense. Esta razão deve ter influído bastante no ânimo de Manuel Rangel, pois encontrámo-lo a restaurar a velha ermida de mãos dadas com três sacerdotes irmãos, seus parentes pelo lado paterno, oriundos da Casa de Aldeia de Baixo. Vê-los-emos todos empenhados nessa meritória tarefa.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1969-11-21, p.06

Aquele Relógio da Misericórdia...







Houve tempo em que meus olhos muitas vezes poisaram em vão no mostrador do relógio daquela torre da Misericórdia: volviam-se contristados por encontrar sempre o ponteiro a marcar a mesma hora. A atitude parada daquele relógio - no meu parecer espécie de teimosia de quem não queria associar-se à vida circunstante da cidade - causava-me certa mágoa. Então não era tão simpático, dizia eu, que ele fosse qual relógio falante a ajudar os homens na arte difícil da boa economia do tempo? Assim ajuizava até descobrir um dia que tal modo de ser era resultado do peso dos anos que tinha - cansaço da sua idade avançada! Por mero acaso, fui encontrar no L.° de Notas do tabelião António Gomes Guimarães, de Penafiel, uma certidão que me habilitou a calcular o número exacto dos seus anos. Segundo reza, no dia 2 de Set.° de 1782, o Provedor da Misericórdia P.e Dr. Manuel Caetano Moreira - e toda a Mesa da Santa Casa mandaram lavrar uma escritura de contrato com o « Mestre Belijoeyro» Manuel de Sousa, da freg.a e lugar de Valongo, pela qual este se obrigava a fazer um relógio para a «Torre de nossa Senhora da Lapa» (sic.) O ajuste da obra já tivera lugar em 11-8-1782, como consta do Livro dos Termos e Acórdãos da Santa Casa, a fls. 22. Mestre Manuel de Sousa comprometeu-se a fazer - dentro de 8 meses, a partir do referido dia 11 de Agosto - «hum Relogio de corda de oyto dias com Bodas de botam boas, exceto as duas dos pezos que seram de ferro com toda a gravidade e segurança feito com Ruquetes de asso posto e asentado na Torre //...// com seu ponteiro no mostrador». Tudo por conta e risco do relojoeiro, à excepção das cordas e pesos, que ficavam a expensas da Misericórdia. A obra foi contratada em «trinta e tres moedas de quatro mil e oyto centos cada hua que fazem o importe de cento simcoenta e oyto mil e quatro centos Reis». No acto da escritura, Manuel de Sousa recebeu por conta do seu trabalho a quantia de dezasseis moedas e meia - moedas de oiro e prata; a outra metade do importe total seria satisfeita depois de ter sido assente o relógio e ser «visto e examinado por pessoas peritas e inteligentes».
Graças à solicitude e bom gosto da Ex.ma Mesa da Santa Casa—o relógio da Misericórdia conseguiu debelar os achaques próprios da velhice: uma vez remoçado, voltou a marcar todas as horas «com seu ponteiro no mostrador». Válido ainda com perto de duzentos anos! A minha modesta homenagem à sua longevidade, extensiva ao Mestre relojoeiro de Valongo, pela competência evidenciada na execução da sua obra.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1969-07-04, p.06

Um Sacristão no Mozinho?





Não sei como o topónimo Mozinho se radicou para sempre no monte mais importante da Terra de Penafiel. Na meia-idade, é sabido, abundavam no país os sacristães, a que, de modo geral, se dava o nome de mozinhos, se bem que não era denominação exclusiva. Os mozinhos eram moços, e outros sim adultos, que serviam nos templos, mediante remuneração, algumas vezes destinados à vida eclesiástica. Viterbo fala-nos até de uma Confraria de Moozinhos existente em Coimbra no ano de 1281. Há muito que desapareceram os nossos mozinhos. O mais novo do meu conhecimento vivia no final do séc. XVI. Vi-o num assento de baptismo, letra do tempo, da freg.a de S. Romão do Coronado, era de 2-12-1590. Espanha ainda tem hoje os monaguillos ou monacillos, irmãos dos nossos mozinhos, quanto ao nome e sua origem. No séc. XVIII, têm-me aparecido uns ermitães a morar junto a capelas confiadas à sua devota guarda. Vou referir-me apenas a dois, ambos chamados Domingos, que viveram nas cercanias da «Ermida da Senhora da Lapa ou Santo António» (sic), da freg.a de S. Martinho de Lagares. O primeiro, Domingos Alves, já se encontrava «Velho de ssetenta annos de hidade» quando fez o seu testamento, em 20-6-1710, que possuo em cópia, por inteiro. O meu regalo era transcrevê-lo todo aqui, tão formoso é aquele testamento! (E aonde o espaço para tanto?). O outro ermitão, Domingos do Sacramento - nome tão sugestivo! - vem nomeado numa escritura de doação, feita em 11-9-1748, de que também tenho cópia fiel. Os outorgantes dessa escritura, senhores que eram da «Caza de Ordins», disseram que doavam à referida «Capella e a seos eremitoes» um cerrado contíguo à mesma, porque estavam muito agradecidos ao Domingos do Sacramento, pelo seu grande zelo em manter «a dita Capella bem ornada e venerada». Tais ermitãos, a bem dizer eram sacristães daquele tempo, herdeiros do ofício dos mozinhos de antanho. (Ainda há poucos anos ouvi chamar «ermitão» ao sacristão do Bom Jesus, em Braga). Depois disto, alguém achará impossível imaginar um mozinho, em serviço de sacristão, junto da ermida de S. Antão (fora de dúvida, muito anterior a 1622), ou então muito perto do Mosteiro das Freiras? Por mim, teimo em vê-lo em tal sítio, a uma distância plurissecular, a projectar-se, no futuro, mercê de uma simpatia tão forte criada na alma do Povo que fez que ele identificasse o monte com a veneranda pessoa do Mozinho.
MONAQUINO