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Destino de Sobrenomes...





Algo fatigado das sendas da escravatura, apetece-me desta feita repoisar em Ordins. Este raro topónimo exerce sobre mim grande poder de sedução, por ter fundas raízes medievais. Mas isso são contas de outro rosário, pois agora só queria quedar-me um pouco em Ordins, para descanso e evocação de coisas de menos valia, passadas nos dois últimos séculos, à sombra da casa onde nasceu o P.e Simeão Lopes Barbosa.
Após o regresso do Brasil, este padre foi «assistente» no Porto e viveu os últimos anos no
l. de Rio Mau, então pertencente à freg.ª de Pedorido, pois só fora integrado na de Sebolido, por volta de 1805. O P.e Simeão faleceu em Rio Mau a 3-11-1773, tendo vindo a sepultar em Lagares. Alguns anos antes, mandara erigir, junto à casa que fora de seus pais, uma capela, da invocação da Senhora do Carmo e S. Libório, porque a igreja paroquial ficava distante e «o caminho incapas para o povo do mesmo lugar poder hir à missa e mais ofícios divinos». O processo canónico da erecção da capela não se encontra no arquivo diocesano do Porto. Felizmente, num livro de notas do tabelião Paulino José Barbosa, de Arrifana de Sousa, descobri uma escritura do património da referida capela, com a data de 28-2-1768, mediante a qual o P.e Simeão doou, para tal fim, «hum tapado», sito na agra de Bouça de Sós. A capela ainda existe, em relativo estado de conservação, precedida e independente de vistoso portal, de traça ao gosto da época, em granito bem trabalhado.
Valério Barbosa, irmão do P.e Simeão, ficou na casa paterna e casou com Josefa Ferreira, de quem houve dez filhos varões. Quatro deles, seguiram a carreira eclesiástica. O mais velho, também de nome Valério, faleceu sendo clérigo «in minoribus»; dos três restantes, o P.e Dr. Manuel Barbosa Ordins Adairão (donde viria este Adairão?), sendo simples minorista, fora advogado nos tribunais da Relação do Porto.
Em 1784 recebeu todas as ordens sacras e quando faleceu, em 13-11-1795, era o Reitor de Lagares. O irmão P.e Simeão Barbosa Ordins foi capelão «das missas da manham» nesta freg.ª, e o seu óbito ocorreu a 19-3-1812. Resta o último, o P.e Domingos Barbosa Ordins, que faleceu a 10-4-1621 e foi sepultado «na sua capela» de Ordins.
O filho de Valério e Josefa, chamado António, casou, a 30-1-1809, com Ana Rodrigues, tendo sido o herdeiro da casa dos pais. Os descendentes deste casal já não usaram o sobrenome Ordins, que substituíram por Valério. Manuel Barbosa Valério - f.º leg. de António Barbosa e de Ana Rodrigues, casado a 27-7-1841, na freg.a da Capela, com Joana Rosa Vieira de Melo - foi o bisavó paterno do Snr. Egídio Rodrigues Moreira, que mora com sua esposa e filhos, na casa onde nasceu o P.e Simeão Lopes Barbosa.
A voragem do tempo, neste caso, não respeitou nenhum dos sobrenomes queridos de antigas gerações: nem Lopes, nem Barbosa, nem Ordins, nem Valério.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1969-10-03

O Valério e o Simeão







Gosto do nome Valério. Era interessante estudarem-se as razões que às vezes nos levam a aborrecer ou simpatizar com os nomes das pessoas; os motivos da nossa predilecção ou antipatia por eles, são muito variados. Era um estudo que dava matéria bastante para longo tratado: relações da psicologia com a antroponímia. Reportando-me ao caso do nome Valério, parece-me que não andarei longe da verdade se disser que engracei com ele por lhe ter encontrado acentuado sabor latino e certa expressão de energia varonil. Seja como for, a verdade é que sempre gostei desse nome. Daí nasceu certamente a curiosidade, que tive em tempos, de saber quando e como ele entrara no sobrenome de uma família respeitável, há muito radicada na freg.a de Lagares. Após trabalhosa indagação, pude concluir que o sobrenome Barbosa - ainda sobrevivente e cheio de vitalidade em descendentes do mais antigo Valério - é muito mais velho que este. Não queria meter-me em explanações de carácter genealógico (há pessoas muito alérgicas a estas coisas...), mas para evitar o risco de não ser acreditado, o prezado leitor vai consentir que deixe aqui um ligeiro apontamento dessa natureza. Uma Isabel Barbosa - filha de Gaspar Lopes e de outra Isabel Barbosa, nascida em Ordins a 8-1-1622 - casou em Lagares, a 27-11-1645, com Manuel André, de S. Vic.te do Pinheiro Isabel Barbosa e Manuel André foram os avós paternos do primeiro Valério que encontrei na família - filho de Gonçalo Barbosa, de Ordins, e de sua mulher Ana Luís, natural de S. João da Foz do Sousa, casados nesta freg.a a 10-10-1693. Esse Valério foi baptizado, em 20-6-1696, por um seu tio paterno, o P.e Domingos Lopes Barbosa, tendo sido padrinhos o Reitor de Lagares - P.e João de Oliveira Vaz - mais Agostinha, irmã do pai do menino.
Agora dou conta de estar a faltar à promessa que fiz de versar seguidamente, até final, o tema da escravatura. De facto, desta vez, ainda não se viram aqui jeitos de peugada de escravos... Na verdade, tinha hoje em mente ocupar-me sobretudo de um Simeão - irmão inteiro de Valério - que se ordenou de sacerdote, viveu alguns anos no Brasil, foi senhor de um escravo e regressou daquelas paragens com uns bons milhares de cruzados. Tencionava falar dele e do seu escravo, mas aconteceu que a ideia, como diz o povo, puxou-me muito mais para o Valério. Talvez efeito da fascinação do nome...
Na próxima vez, sem desfazer no Valério, hei-de dar preferência ao P.e Simeão e
ao negro seu escravo.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1969-09-19, p.06


 

Um Sacristão no Mozinho?





Não sei como o topónimo Mozinho se radicou para sempre no monte mais importante da Terra de Penafiel. Na meia-idade, é sabido, abundavam no país os sacristães, a que, de modo geral, se dava o nome de mozinhos, se bem que não era denominação exclusiva. Os mozinhos eram moços, e outros sim adultos, que serviam nos templos, mediante remuneração, algumas vezes destinados à vida eclesiástica. Viterbo fala-nos até de uma Confraria de Moozinhos existente em Coimbra no ano de 1281. Há muito que desapareceram os nossos mozinhos. O mais novo do meu conhecimento vivia no final do séc. XVI. Vi-o num assento de baptismo, letra do tempo, da freg.a de S. Romão do Coronado, era de 2-12-1590. Espanha ainda tem hoje os monaguillos ou monacillos, irmãos dos nossos mozinhos, quanto ao nome e sua origem. No séc. XVIII, têm-me aparecido uns ermitães a morar junto a capelas confiadas à sua devota guarda. Vou referir-me apenas a dois, ambos chamados Domingos, que viveram nas cercanias da «Ermida da Senhora da Lapa ou Santo António» (sic), da freg.a de S. Martinho de Lagares. O primeiro, Domingos Alves, já se encontrava «Velho de ssetenta annos de hidade» quando fez o seu testamento, em 20-6-1710, que possuo em cópia, por inteiro. O meu regalo era transcrevê-lo todo aqui, tão formoso é aquele testamento! (E aonde o espaço para tanto?). O outro ermitão, Domingos do Sacramento - nome tão sugestivo! - vem nomeado numa escritura de doação, feita em 11-9-1748, de que também tenho cópia fiel. Os outorgantes dessa escritura, senhores que eram da «Caza de Ordins», disseram que doavam à referida «Capella e a seos eremitoes» um cerrado contíguo à mesma, porque estavam muito agradecidos ao Domingos do Sacramento, pelo seu grande zelo em manter «a dita Capella bem ornada e venerada». Tais ermitãos, a bem dizer eram sacristães daquele tempo, herdeiros do ofício dos mozinhos de antanho. (Ainda há poucos anos ouvi chamar «ermitão» ao sacristão do Bom Jesus, em Braga). Depois disto, alguém achará impossível imaginar um mozinho, em serviço de sacristão, junto da ermida de S. Antão (fora de dúvida, muito anterior a 1622), ou então muito perto do Mosteiro das Freiras? Por mim, teimo em vê-lo em tal sítio, a uma distância plurissecular, a projectar-se, no futuro, mercê de uma simpatia tão forte criada na alma do Povo que fez que ele identificasse o monte com a veneranda pessoa do Mozinho.
MONAQUINO