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Regressou em liteira...





Haverá de certo quem nunca tenha visto uma liteira em museu ou antiga casa fidalga, conhecendo-a sòmente de velhas histórias que se contam ou de algum estudo acerca dos meios de condução utilizados pelo homem desde remotas eras. Se houver alguém que não saiba do que se trata, poderá valer-se dum vulgar dicionário onde estará definida como espécie de cadeirinha portátil, coberta e fechada, sustentada por dois varais compridos, levada a braço por dois homens ou conduzida por duas bestas, uma atrás, outra adiante. Como nota bem característica, acrescente-se ainda um conjunto de campainhas estrídulas, cujo alegre telintar tanto deleitava o ânimo de Camilo nas frequentes digressões que fazia em liteira, por terras do Minho e Trás-os-Montes. Veio-me agora à lembrança ter ouvido dizer que certo amador de velharias, depois de ter lido, na mocidade, Vinte Horas de Liteira, sonhara jornadear um dia na cadeirinha portátil, desde a póvoa de OveIhinha, no Marão, até portas a dentro da cidade do Porto talqualmente o itinerário percorrido pelo romancista, em vinte horas, na companhia do seu amigo António Joaquim. O simpático moço de então não chegou a realizar tal intento com receio de lhe faltar coragem para enfrentar a zombaria da gente ignara, obstinada em não reconhecer o valor documental e o encanto poético das coisas do passado.
Liteiras dos tempos idos, de quantos acontecimentos alegres e tristes não fostes vós testemunhas!
Transitaram elas ao longo das estradas velhas da nossa terra e por caminhos ínvios que davam acesso a povoações isoladas entre montes. Não se estranhe abonar isto que acabei de dizer com o testemunho colhido num assento do antigo registo paroquial de Peroselo, do ano de 1757. Encontra-se no L.o 3, fls. 195 v. Transcreve-se aqui, em grafia actualizada. É do seguinte teor:
O Rev. Jerónimo Rodrigues Lopes, natural de Peroselo e assistente actual que era na cidade do Porto, onde enfermando de uma grave enfermidade, depois de nela receber os sacramentos, reverteu em uma liteira para esta freguesia, onde chegou na noite de vinte nove de Novembro para os trinta do dito mês, do ano de mil setecentos e cinquenta e sete, onde sendo chamado pelas sete para oito horas da manhã, para examinar se necessitava de Sacramentos, me disseram não estava já em termos da repetição da Sagrada Eucaristia, e indo logo para lhe repetir o da Extrema-Unção me vieram ao caminho dar recado que tinha expirado e que fora absolvido por um sacerdote vizinho. Foi sepultado na Capela da Senhora da Conceição e ficou seu pai António Lopes obrigado aos bens de alma.
O P.e Jerónimo R. Lopes nasceu em Quintã, onde moraram seus pais António Lopes e Maria Pereira, casados a 17-11-1703. Era sobrinho do P.e Manuel Rodrigues, irmão do seu pai, e neto paterno de Manuel Lopes, oriundo da Casa de Pegas, casado com Ângela Rodrigues, de Quintã, em 10-8-1661.
O P.e Jerónimo vivia no Porto quando enfermou da mortal doença. Regressou à terra natal numa liteira... para morrer dentro de pouco tempo, após a chegada.
A surpresa de encontrar uma liteira em Peroselo, vinda daquela cidade, em meados do séc. XVIII, como que se dissipou em mim sob a impressão dolorosa das circunstâncias dramáticas determinantes da jornada e subsequente falecimento do P.e Jerónimo Rodrigues Lopes.
MONAQUINO

Aquela Casa...





Na verdade, teima em não me sair da ideia aquela Casa... A Casa de Pegas! Desculpem os prezados leitores se lhes causo enfado em falar dela outra vez. Isto de trazer para aqui coisas tão particulares do meu pensar não estará realmente bem. Porventura ser-me-á concedida alguma indulgência, se eu disser que esta é a maneira mais prática de atinar com as causas que originaram outrora a grandeza dessa Casa. Demais estou convencido que a sua história é útil para compreender bem a tal evolução sócio-económica da terra de Peroselo.
Estão lembrados ainda dos três «meios-cónegos» a que fiz referência na última vez que escrevi?
Um irmão destes, chamado Manuel Rodrigues, casou-se, a 2-7-1728, com Maria de Sousa, da Casa da Quintã. Viveram na Casa de Pegas, que lhes coube em herança, e tiveram geração. Conto-lhes oito filhos: cinco rapazes e três meninas. Está incluído um Tomé que talvez tenha falecido de menor idade; os restantes seguiram todos a carreira eclesiástica. É verdade, quatro clérigos que foram: o P.e Manuel, o P.e João, o P.e Geraldo e o P.e Jerónimo. O mais novo deles, o P.e Manuel Rodrigues Lopes, passou a maior parte da sua vida em Peroselo. Num inquérito, datado de 1794, aparece como residente na freguesia da sua naturalidade e é qualificado de padre «bom em ciência e procedimento».
O P.e João Lopes, tendo vivido «desde a idade dos cinco anos em casa de seus tios Beneficiados, na freg.a de S. Ildefonso», sempre se manteve por ali. Por mero acaso, recebeu a «ordem de Missa» na Galiza, em 1768. No ano de 1780, ainda morava «na rua de S. André».
O P.e Geraldo R. Lopes foi ordenado também de presbítero, na Galiza, aquando seu irmão João. Em Agosto de 1777 era «Abade Coadjutor» na Igreja de S. João Evangelista de Vila Cova de Carros, para vir a suceder ao Ab.e Jerónimo Lopes, seu tio, de que já se falou (por culpa minha, a data da morte deste pároco saiu errada: faleceu em 26-6-1780). O Ab.e Geraldo, depois de pastorear V. Cova de Carros cerca de 17 anos, adoeceu de grave «moléstia». Escreveu então o seu testamento que foi aprovado na véspera da sua morte, ocorrida a 26-6-1794.
De caso pensado, deixei para último lugar o P.e Jerónimo Rodrigues Lopes. Este foi o derradeiro «meio-cónego» de Pegas. Em 11-12-1750, o Ben.o João Lopes, seu tio pelo lado paterno, resignou no P.e Jerónimo a sua «meia bacharelia». O sobrinho tomou posse em 1750. Ainda em vida do tio P.e João, renunciou ao «Benefício» na Sé Catedral para ser provido na Abadia de Paços de Brandão, em que foi empossado a 4-11-1764.
E ponto final, que já são horas de findar.
MONAQUINO

«Meios-Cónegos» de Pegas




Na semana que passou, fiquei-me a assistir à boda do casamento de António Lopes com Ana Moreira, em Peroselo, realizada no dia 17 de Agosto de 1676. Decorreu ela mesmo à beirinha da Igreja, na casa conhecida hoje por moradia da quinta do Couto, não se pode duvidar, foi uma festa de família muito alegre e simpática, porque de muita intimidade. Lá estavam os familiares e próximos parentes da Casa da Igreja e lá estaria também a gente mais íntima da Casa de Pegas, onde foi nado e criado António Lopes. A atenção do meu espírito naquela hora não convergiu sobretudo para o lindo par dos recém-casados, mas antes se fixou em dois jovens «estudantes» ali presentes. Ambos foram «testemunhas» daquele «recebimento», como ficou expresso no assento do Livro do Registo Paroquial.
Um deles chamava-se João Lopes, irmão legítimo do noivo; era o outro de nome Manuel Moreira, irmão por inteiro da desposada Ana.
Amigos e companheiros de estudo no Porto, ambos se destinaram à vida sacerdotal. João Lopes
ordenou-se, mas veio a falecer, a 26-4-1686, em Peroselo, apenas com 36 anos de idade. A morte deste P.e João Lopes foi decerto muito sentida em toda a família. Digo isto porque, ao organizar a árvore genealógica da Casa de Pegas, apareceu-me em três gerações seguidas um padre com o nome de João Lopes.
Quanto ao seu companheiro e amigo Manuel Moreira, já os leitores sabem que se trata do jovem que um dia o povo havia de
canonizar, chamando-lhe «Cónego Santo».
A seu respeito só agora queria pôr em relevo o quanto contribuiu ele para a esplêndida floração de vocações sacerdotais, havidas no seu tempo em Peroselo
mercê do magnífico exemplo de vida mui virtuosa, do seu inesgotável amor de ajudar os outros e consequente prestígio social que adveio à sua pessoa de Padre. Para fugir a maior digressão, apenas me vou referir hoje a alguns sacerdotes de então, oriundos da Casa
de Pegas, que passaram como tantos outros pela Casa de S. André, no Porto.
Uma irmã de António Lopes marido de Ana Moreira chamada Francisca Dias, sucedeu na morada dos pais, tendo casado em 1688 com Tomé Rodrigues. Dos seis filhos nascidos deste casal, três foram sacerdotes exemplares e chegaram a fazer parte do Cabido da Catedral portuense, posto que não fossem de verdade Cónegos, no sentido estrito da palavra. Elementos integrados no Cabido, não usufruíam categoria tão alta como tantos que houve, chamavam-se «meios-cónegos» e também «benefiados». Foram eles os irmãos Jerónimo Lopes, Tomé Rodrigues e João Lopes. O P.e Jerónimo tomou posse duma «meia bacharelia» na Sé do Porto em 1714, tendo renunciado a ela em 1741, a favor do seu irmão P.e João Lopes, a fim de ser provido na freg.a de Vila Cova de Carros, no actual conc.o de Paredes. Acabara seus dias a 22-6-1788. O Beneficiado João Lopes faleceu no Porto, a 28-11-1771. Foi sepultado na Sé. O P.e Tomé Rodrigues foi empossado também em «meia bacharelia» em 13-2-1717. O seu falecimento ocorreu em 26-10-1768. Teve sepultura na Catedral do Porto.
A procissão dos semi-cónegos da Casa de Pegas ainda não terminou. Para não abusar da vossa paciência, não se vai hoje mais além. Fica para outra vez!
MONAQUINO

Casa de Pegas




Na toponímia do concelho de Penafiel há vários lugares de Pegas e mais que uma casa do mesmo nome. Ninguém duvidará terem sido esses pássaros corvídeos tão vulgares nas regiões nortenhas, chamados pegas que alguma vez se aninharam para sempre naqueles sítios. São topónimos muito velhos!
Em Peroselo, lá se encontre uma Casa de Pegas, no lugar de Outrela, que fica pegado a um monte. No caso presente, não sei por que artes veio à Casa tal designação, mas já me aconteceu topar algures uma morada assim denominada porque nela havia umas pegas, domesticadas e palreiras (isto por lhes terem cortado a trava), as quais andavam à solta e eram atraente passatempo do rapazio das vizinhanças.
Passei outrora amiudadas vezes à porta da Casa de Pegas. Ave corvídea nunca lobriguei lá nenhuma, mas é certo que era frequente quedar-me naquele sítio, por instantes, a pensar nas grandezas antigas da Casa e no infortúnio que um dia a visitara.
Que lhe hei-de eu fazer, leitor amigo, se este jeito que tenho de me pôr a meditar já me vem de nascença? Só há-de morrer comigo.
Casa de Pegas! Tanto sonhara conhecer-te por dentro, quer dizer, percorrer a tua senda familiar, através de várias idades e muitas gerações, mas só agora, na senectude, logro entrar um pouco na intimidade dessa vida plurissecular...
Por deficiências do registo paroquial, apenas nos é dado saber a data dum casamento ali havido no primeiro quartel de seiscentos, posto que se conheçam nomes de antepassados da Casa que remontam com certeza aos primórdios do século de quinhentos. É verdade que, no dia 8 de Dez.o de 1624, se casou Domingos Lopes, de S. Maria de Peroselo, com Natália Fernandes, filha de Sebastião Fernandes e de sua mulher Francisca Rodrigues, da freg.a de S. Romão de Vila Cova de Vez de Aviz, tendo sido dispensados em 3.o e 4.o graus de consanguinidade. Viveram eles em Outrela e tiveram um filho António Lopes, que se recebeu, em 21-11-1644, com Francisca Dias, do mesmo lugar e freg.a.
Foi António Lopes sucessor na Casa de seus pais e houve da sua mulher vários filhos. Além do P.e João Lopes, que faleceu em Peroselo, no ano de 1686; dum Domingos Lopes, casado em Vila Cova com Maria Fernandes, em 1667; duma Isabel Francisca, cujo recebimento com António Mendes, da Casa das Pedras, em Salvador de Gandra, se realizou em 1676; duma Francisca Dias Lopes, que ficou na casa paterna e casou, em 1688, com Tomé Rodrigues, da supradita Casa das Pedras: além desses quatro filhos, importa ainda lembrar aqui um outro, de nome António Lopes, homónimo de seu pai, o qual se casou, a 17-8-1676, com Ana Moreira, filha de Domingos do Couto e de sua mulher Helena Moreira, da Casa da Igreja, em Peroselo.
Quem houver tido a paciência de ler o que se escreveu aqui acerca dos pais do Cónego Santo, com certeza já concluiu que a Ana Moreira foi irmã inteira do Cónego Manuel Moreira. Estudante ainda, ele assistira ao seu casamento, na companhia do que havia ser o futuro Padre João Lopes. As duas Casas a da Igreja e a de Pegas ficaram então bem unidas.
Dilatei-me demais pelo caminho e não posso ir agora até onde me propusera chegar. Indulgentes e compreensivos, os prezados leitores desculparão.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1971-07-09