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Promoção familiar





Em todos os tempos existiu no homem o desejo de se elevar económica e socialmente acima do meio em que nasceu, mas nunca talvez como hoje essa aspiração foi tão comum e os meios de a efectivar estiveram ao alcance de tantos.
A observação deste fenómeno hodierno, tão generalizado, dispõe-nos o espírito, por natural associação de ideias, a observar a singularidade de que se revestiu a promoção sócio-económica dum ramo dos Ribeiros Nunes de Peroselo, na primeira metade do séc. XVIII.
Da última vez, examinou-se aqui, resumidamente, o caminho trilhado pelo P.e Domingos Ribeiro Nunes para se tornar possuidor dum canonicato na Catedral do Porto. Vejamos agora a projecção que este facto teve no seu meio familiar.
O cón. Ribeiro Nunes teve um irmão, chamado Manuel, com o mesmo apelido, que morou em Vilarinho, freg.a de Peroselo, e foi casado com Maria Ferreira da Cruz, de cujo matrimónio houve filhos.
Dos rapazes nomeiam-se apenas o António e o Domingos, que seguiram a vida eclesiástica. O primeiro — P.e Ant.o Rib.o Nunes — que era o mais velho, foi pároco encomendado de Várzea de Ovelha e Abragão (desta paróquia, a partir de 1738), como mais tarde também «beneficiado» não sei de que igreja ou colegiada; quanto ao P.e Domingos — homónimo do seu tio cónego, já conhecido — foi o sucessor deste na conezia que possuía na Sé do Porto, havendo tomado posse em 30-4-1728, «por coadjutoria com futura sucessão; apenas recebida para isso a prima tonsura, condição mínima exigida naquele tempo para a recepção de benefício canonical. O P.e Ant.o Rib.o Nunes faleceu na casa que fora de seus pais, em Vilarinho, a 15-7-1769; o irmão cón. Domingos (júnior) morreu na cidade do Porto em 10-10-1755, e foi sepultado na Igreja dos Clérigos. Deixemos por ora outros pormenores da vida destes eclesiásticos para nos ocuparmos somente da elevação social de duas suas irmãs.
O cón. Domingos — tio dos dois clérigos de que falámos — em data para mim desconhecida, entrou na posse duma importante propriedade, «sita fora do postigo de Santo António do penedo» da cidade do Porto, a que se dava o nome de Quinta da Boavista. Foi aí que o cónego morou muitos anos e passou da vida presente em 1744. A casa devia ser muito ao gosto do séc. XVIII, pois até nem lhe faltava adjunta uma «Capella de Nossa Senhora da Conceipção», pertença da mesma quinta. Não há dúvida que tinha o ar distinto duma casa fidalga da época de setecentos.
Como o cón. Domingos era de temperamento muito afectivo e muito dedicado à família, trouxe para a sua companhia duas sobrinhas, filhas do irmão Manuel e de sua mulher Maria da Cruz.
Estou em dizer que então aquela morada da Boavista mais se aformoseou, porque mais batida do sol: com mais luz irradiada da presença juvenil daquelas duas meninas. Tinham elas recebido na pia baptismal, em Peroselo, o simples nome de Teresa e Mariana, mas por exigência do novo ambiente, em que agora se encontravam, passaram a denominarem-se Teresa Angélica e Mariana Luísa Clara.
Na aldeia de Vilarinho, o pai das meninas — honrado lavrador, muito considerado por todos — era agraciado também com a patente de Alferes.
O cónego não descurava entretanto a educação das sobrinhas ao nível corrente na classe média do tempo.
Tudo se ia preparando para não faltarem mais tarde pretendentes à mão das simpáticas donzelas, oriundos duma esfera social mais alta do que aquela donde provinham as sobrinhas do cón. Domingos.
Assim foi calculado e assim aconteceu, como ao diante se verá.
Por MONAQUINO

 

Ribeiros em Peroselo?





Dois ribeiros nascem em Peroselo. A bem dizer, só existe aí um ribeiro. O «ribeiro das Lavras» que desce das bandas de Vilarinho e desemboca, após breve percurso, no ribeiro que tem sua origem junto à presa de Vilar — não é mais que um ribeirito ou simples regato. Ribeiro, sim, é o que vem de Valqueira, atravessa Peroselo, de lés a lés, mete-se por Fontão abaixo, corre ao fundo de Perosinho, para se ir lançar pressuroso no Tâmega, em Rio de Moinhos.
Não longe da sua nascente, gerou ele um topónimo que não se envergonha do seu progenitor: o Ribeiro, lugar contíguo ao de Valqueira. Casa do Ribeiro se denomina também uma moradia muito antiga, cujas paredes se erguem mesmo rentes às suas águas, naquele sítio. Aconteceu ainda que muitos dos descendentes da família que habitou ali — pelo menos desde meados do séc. XVI começaram a usar, no século de seiscentos, o apelido Ribeiro. No número destes, contam-se vários clérigos.
Desculpará o prezado leitor se descobriu qualquer artimanha, por inocente que seja, na feitura deste pequeno preâmbulo, — mas o fito que tive foi o de arranjar pretexto para falar aqui de dois eclesiásticos ligados, pelo lado paterno, à Casa do Ribeiro, em Peroselo: o Cónego Domingos Ribeiro Nunes e um Cónego, sobrinho deste, seu homónimo. Hoje só tentarei delinear tosco perfil do Cón. tio Domingos.
O pai deste eclesiástico nasceu na Casa do Ribeiro, no ano de 1648, e chamou-se João Gonçalves Ribeiro (o patronímico Gonçalves já era de tradição familiar muito velha). Casou ele com Maria do Couto, e teve geração. O filho Domingos veio à luz do dia em 1675. Aos oito meses de idade ficou órfão de mãe e foi uma 2.a mulher de João G. Ribeiro, de nome Maria Francisca, que o ajudou a criar-se, com desvelada dedicação maternal. Cresceu. Na idade das opções, escolheu a carreira eclesiástica. Sendo já presbítero e morador em Vilarinho, encontrámo-lo em Abraqão, a 2-8-1701, perante o Tabelião A. da Rocha Ferraz — do extinto conc.o de Portocarreiro — a receber das mãos de Maria Francisca uma doação de todos os bens que ela possuía. Doara-lhos por não ter filhos do seu 1.o marido — Belchior Gonçalves — nem os haver do segundo matrimónio, além de que se encontrava com «grave idade e muito doente» e só o P.e Domingos «della tratava e curava com grande amor e zello».
Mais tarde, o P.e D.os Ribeiro Nunes, induzido talvez pelo exemplo do seu conterrâneo Cón. Manuel Moreira, decidira empreender uma viagem a Roma, na mira de conseguir do Papa o benefício de uma conezia na Sé do Porto. Lá partiu pois, de longada para a Cidade Eterna, onde logrou alcançar que Sua Santidade «fosse servida fazer-lhe graça de o prover em o Canonicato e Prebenda» que havia possuído, na Catedral portucalense, o Rev. Luís de Sousa Carvalho.
Por uma petição que fez ao Cabido do Porto, após o seu regresso a Portugal, sabe-se que a sua ida a Roma o obrigara a «muitos gastos», sem contar o grave prejuízo de ter sido «roubado na viagem»! Estas circunstâncias devem ter influído no ânimo dos «R.dos Senhores do Cabido da dita Sé» para eles se apressarem a «mandar tirar as inquirições de puritate sanguinis» — condição indispensável, a da limpeza do sangue, para lhe ser dada a posse do benefício canonical.
As diligências de genere efectuaram-se em Peroselo, em 5-9-1709, e o acto da tomada de posse foi logo no dia 7, do mesmo mês e ano.
Desta sorte um Ribeiro de Peroselo se promoveu eclesiástica e socialmente.
Por MONAQUINO

«Meios-Cónegos» de Pegas




Na semana que passou, fiquei-me a assistir à boda do casamento de António Lopes com Ana Moreira, em Peroselo, realizada no dia 17 de Agosto de 1676. Decorreu ela mesmo à beirinha da Igreja, na casa conhecida hoje por moradia da quinta do Couto, não se pode duvidar, foi uma festa de família muito alegre e simpática, porque de muita intimidade. Lá estavam os familiares e próximos parentes da Casa da Igreja e lá estaria também a gente mais íntima da Casa de Pegas, onde foi nado e criado António Lopes. A atenção do meu espírito naquela hora não convergiu sobretudo para o lindo par dos recém-casados, mas antes se fixou em dois jovens «estudantes» ali presentes. Ambos foram «testemunhas» daquele «recebimento», como ficou expresso no assento do Livro do Registo Paroquial.
Um deles chamava-se João Lopes, irmão legítimo do noivo; era o outro de nome Manuel Moreira, irmão por inteiro da desposada Ana.
Amigos e companheiros de estudo no Porto, ambos se destinaram à vida sacerdotal. João Lopes
ordenou-se, mas veio a falecer, a 26-4-1686, em Peroselo, apenas com 36 anos de idade. A morte deste P.e João Lopes foi decerto muito sentida em toda a família. Digo isto porque, ao organizar a árvore genealógica da Casa de Pegas, apareceu-me em três gerações seguidas um padre com o nome de João Lopes.
Quanto ao seu companheiro e amigo Manuel Moreira, já os leitores sabem que se trata do jovem que um dia o povo havia de
canonizar, chamando-lhe «Cónego Santo».
A seu respeito só agora queria pôr em relevo o quanto contribuiu ele para a esplêndida floração de vocações sacerdotais, havidas no seu tempo em Peroselo
mercê do magnífico exemplo de vida mui virtuosa, do seu inesgotável amor de ajudar os outros e consequente prestígio social que adveio à sua pessoa de Padre. Para fugir a maior digressão, apenas me vou referir hoje a alguns sacerdotes de então, oriundos da Casa
de Pegas, que passaram como tantos outros pela Casa de S. André, no Porto.
Uma irmã de António Lopes marido de Ana Moreira chamada Francisca Dias, sucedeu na morada dos pais, tendo casado em 1688 com Tomé Rodrigues. Dos seis filhos nascidos deste casal, três foram sacerdotes exemplares e chegaram a fazer parte do Cabido da Catedral portuense, posto que não fossem de verdade Cónegos, no sentido estrito da palavra. Elementos integrados no Cabido, não usufruíam categoria tão alta como tantos que houve, chamavam-se «meios-cónegos» e também «benefiados». Foram eles os irmãos Jerónimo Lopes, Tomé Rodrigues e João Lopes. O P.e Jerónimo tomou posse duma «meia bacharelia» na Sé do Porto em 1714, tendo renunciado a ela em 1741, a favor do seu irmão P.e João Lopes, a fim de ser provido na freg.a de Vila Cova de Carros, no actual conc.o de Paredes. Acabara seus dias a 22-6-1788. O Beneficiado João Lopes faleceu no Porto, a 28-11-1771. Foi sepultado na Sé. O P.e Tomé Rodrigues foi empossado também em «meia bacharelia» em 13-2-1717. O seu falecimento ocorreu em 26-10-1768. Teve sepultura na Catedral do Porto.
A procissão dos semi-cónegos da Casa de Pegas ainda não terminou. Para não abusar da vossa paciência, não se vai hoje mais além. Fica para outra vez!
MONAQUINO

Letreiro na Campa




Segundo aprendi de cor nas lições da Ti Margarida do Muro (Senhora mestra da Doutrina, anciã muito respeitada por todos, que Deus lá tem há um ror de anos!), é conforme li mais tarde também na Cartilha do célebre Abade de Salamonde, sempre fui entendedor de que era grande pecado andar uma pessoa a fazer juízos temerários, acerca de quem quer que seja. Não sei bem se é ainda deste modo que se nomeia tal culpa e se todos dela pensam a mesma coisa, que a minha falta de forças fruto da longevidade — não me consente aguentar o passo lesto do ofuscante progresso teológico de hoje em dia. Valha-me Deus, é tão veloz a sua marcha que tenho mesmo de ficar para trás, a pensar, cheio de melancolia, se até agora não andámos todos enganados! Mas saiba ou não saiba a verdade inteira, seja lá como for, uma coisa é certa: a minha Consciência, aqui há anos, entrou em dada altura a acusar-me de ter incorrido no aludido pecado.
Foi o caso de ter formulado um mau juízo a respeito da honestidade intelectual do falado autor do manuscrito que trata da ramificação dos Moreiras. À certa, foi o Tentador que me meteu em cabeça a ideia de que tudo o que lá se encontra a respeito do Cónego Manuel Moreira era uma pura mistificação de P.e Henrique. Tamanha inquietação se apoderou do meu espírito que decidi logo buscar novas fontes capazes de me revelarem toda a verdade sobre o Cónego de Peroselo, sem qualquer sombra de dúvida.
Ocorreu-me primeiramente procurar o testamento com que faleceu. Esquadrinhei os livros dos tabeliães, e outros, mas não me aparecia. Até que um belo dia, estando a lidar com os Treslados e Registos da Provedoria — em ordem a outra finalidade saltou-mes diante de meus olhos surpresos, o suspirado testamento. Boa razão tinha o douto e saudoso Director do Arq. D. do Porto. Dr. Magalhães Basto, para repetir amiúde: «Na
investigação de documentos, também sucede muitas vezes andarmos à busca de alhos e sairem-nos bugalhos». Para mim. neste caso, foi excelente bugalho!
O primeiro passo desse texto a prender-me a atenção foi aquele em que o Cónego Santo deixou ordenado o seu enterramento. Nele assim dispôs:
«Mando que meu corpo seja envolto nas vestes sacerdotais e enterrado pegado às oliveiras que estão no adro da Capela de S. André desta freguesia (S. Ildefonso), defronte da porta principal dela, cam sua campa de pedra, com um letreiro por cima, que diga:
Aqui está sepultado o Reverendo Cónego Manuel Moreira, que o foi na do Porto, natural da freguesia de Santa Maria de Peroselo, sobrinho que foi do fundador da Misericórdia de Arrifana do Sousa».
O prezado leitor que haja lido o que se escreveu na semana passada acerca da sepultura do Cónego Moreira de Peroselo, com certeza, há-de conjecturar facilmente as considerações que tenho em mente fazer daqui a oito dias, fundamentado no excerto que acaba de ser transcrito. O Monaquino, por sua vez, fica a meditar nessa passagem e no resto do testamento do nosso Cónego, muito satisfeito por encontrar neste texto uma confirmação do testemunho que dele nos deixara o P.e Henrique de Parada.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1971-06-04, p.04

Vida Prodigiosa




Como é já do nosso conhecimento, o P.e Henrique, da Casa da Roçada em Parada de Todeia, dá-nos no seu manuscrito genealógico uma visão de conjunto da vida e obras do Cón. Moreira de Peroselo. A natureza do assunto versado pedia isso mesmo. Ao entanto, o autor não deixou de intercalar a respeito dele um ou outro pormenor, muito sintético, que empresta na verdade pitoresco realce à singular personalidade do Rev.mo Cónego. Além dos mais já observados, conta-se o que escreveu acerca do género da sua indumentária de cotio. Isso tem certo interesse, de maneira que transcreve-se aqui:
«Constava o seu vestido de camisa de estopa grossa, gibão e calções largos de pano grosso, meias grossas de lã, capa tosca com fita (...) e um chapéu grande sem presilhas».
Vestimenta algo esquisita para um Cónego da Catedral! Entretanto, se não era traje de gala, também não devia ser destoante do modo de trajar das classes populares, em meio citadino, naquele tempo. Demais, a avaliar por certas extravagâncias na maneira de vestir em nossos dias, até seria figurino muito de aproveitar para certas elegâncias (não eclesiásticas) dos tempos que vão correndo... Agora, o que julgo deva ser notado, é a qualidade «grossa» das vestes, nada propícia à moleza dos sentidos e muito menos ao seu regalo. Que admira isso numa vida «que toda foi muito penitente»!
Os encómios de Mor.a da Cunha, em louvor da «prodigiosa vida» daquele membro prestigiante do Cabido da Sé do Porto, atingem o acúmen quando justamente nos diz que ele «era, por antonomásia, chamado Cónego Santo». Santo Cónego de verdade! Tão formoso foi o seu viver cristianíssimo como faleceu santamente da vida presente nas casas da sua morada, a S. André, extra-muros da cidade do Porto «com muitos sinais de predestinação».
No testamento que deixou, havia ordenado «que seu corpo fosse enterrado no Adro da Capela de S. André». Aconteceu, porém, que «alguns dos Cónegos» com certeza pela muita amizade e veneração que lhe votavam não acharam bem tal disposição; pois não descansaram sem «o desviarem desse intento». Para comprazer com os respeitáveis colegas, «fez um codicilo em seu testamento, em que determinou fosse sepultado na mesma Sé, em o Arco-Cruzeiro, adonde foi sepultado aos 12 de Fevereiro do ano de 1730, tendo falecido aos 11 do mesmo mês, com evidentes sinais de predestinado».
E desta maneira estamos chegados ao fim do esplêndido testemunho que nos legou o P.e Henrique acerca da pessoa veneranda do Cón. Manuel de Peroselo.
Antes de me despedir até a próxima semana, ainda queria fazer um curto acrescento ao que fica dito.
Várias vezes tenho pensado que neste santo Cónego andou encarnada, não sei bem como, uma alma de ermitão medievo, daqueles ermitães que viveram outrora pelos montes da nossa terra (segundo documentação, citada aqui, vai em dois anos, havia-os dessa espécie ou semelhantes, ainda no começo do séc. XVIII). Eram varões que consumiam a vida, lá nas alturas montesinas, a louvar de continuo o Senhor Deus, dia e noite, e a rogar-Lhe as melhores bênçãos para todos os irmãos — homens, não esquecendo fazendas e gados tudo sem distinção!
Em verdade, ele não fora Cónego ao modo da época florida, palaciana e cortesã de setecentos. Varão ilustrado (basta lembrar que frequentou a Universidade de Salamanca e permaneceu 12 anos em Roma); conhecedor de muitas e variadas gentes e terras («mui distantes e remotas», que percorreu sempre «a pé»); este homem, forte de alma e de corpo, passara grande parte da sua vida «recolhido» em S. André, a orar a Deus («para ele o tempo era pouco para a oração»), a dar-se a dura penitência («se abstinha de tudo que era regalo»), e a «remediar» toda a sorte de necessitados, quaisquer que eles fossem! Digam-me agora, Senhores, como hei-de eu deixar de gostar deste Cónego de Peroselo?
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1971-05-28, p.04

Bons Tempos...




Era minha tenção ocupar-me ainda de uns tantos clérigos crescidos ao calor da residência paroquial de Marecos, em vida do Ab.e F. Coutinho Pereira. Vejo-me, porém, forçado a protelar tal intento, já que favónia monção me leva a mudar de rumo. Arribarei hoje a terras de S. Maria de Peroselo. Espero não incorrer, por via disso, no infamante labéu de oportunista... Vejamos porquê.
Há muito que anseio expandir-me em autênticas vibrações de alma que me brotem lá do fundo da minha adolescência e puerícia, idades em que tanto calcorreei os caminhos e os campos, mai-los montes de Peroselo. Mas não será esse o mote a desenvolver, que me falece a inspiração lírica para tanto. Também já alimentei no passado a veleidade de urdir um pequeno romance de feição histórica, em que entrassem os Reitores e mais Padres desta igreja de S. Maria, em franco e amigo convívio com toda a grei que viveu à sua roda, ao longo de séculos atrás. Da mesma sorte, por míngua de forças, não levei a cabo tão assinalada tarefa.
Andava-me ultimamente a bailar no pensamento, com estranha insistência, a ideia de escrever algum dia um pequeno ensaio sobre a vida sócio-económica da freguesia de Peroselo através de recuados tempos. Neste entrementes, vem a lume, no dia de Páscoa de 71, a nomeação de onze Cónegos para o Cabido da Sé do Porto, a somar aos que já faziam parte dele. Nova tão surpreendente logo me sugeriu encetar aqui um sintético capítulo do almejado projecto, encimado da seguinte epígrafe:
Do contributo que o Clero oriundo de Peroselo dera outrora para o lustre da Catedral portucalense e do proveito social e económico daí resultante para a sua terra e família.
Desta feita é para valer! Mas o núcleo das despretenciosas considerações, que fizer a tal respeito, confinar-se-á tão só dentro dos limites da primeira metade do século XVIII. Afigura-se-me deveras singular que uma freguesia que permaneceu até os nossos dias fechada entres montes quer dizer, privada de modernas vias de comunicação, a ligá-la ao perto e ao longe com centros mais evoluídos lograsse, numa época tão remota, contar nada menos de três Cónegos na Sé do Porto, acompanhados de número apreciável de Beneficiados dentre a sua parentela. Importa lembrar que isso aconteceu num tempo em que uma conezia era muito apetecida, devido ao poder de carácter religioso, social e económico tido nas mãos de um Cabido que dispunha de toda a sorte de influências, sem esquecer que auferia rendas pingues, o que dava possibilidade aos seus membros de receber avultados proventos.
Só me resta acrescentar hoje os nomes desses três Cónegos que nos bons tempos da primeira metade de setecentos tiveram a dita de arranjar assento nos cadeirais da Catedral do Porto. Um Manuel Moreira e dois Domingos Ribeiro Nunes. Que ricos tempos e venturosos Cónegos!
Monaquino

Prím. Cónego de Peroselo




O meu amigo leitor talvez conheça, ao menos de vista, o Cón. Manuel Moreira, que nasceu em Peroselo, na Casa da Q.ta da Igreja (hoje chamada do Couto), a 16-9-1649. Em tempos não muito distantes, falou-se dele, salvo erro, no Penafidelense, em 57, e de modo mais sucinto, em Penafidel, no ano de 65. No
caso de não lhe ser estranho este Cónego, não me desfaça o prazer de ora me debruçar sobre figura tão peregrina e tanto da minha paixão.
Ele é de verdade o primeiro dos Cónegos de Peroselo. Primeiro cronologicamente, segundo creio, e sem dúvida o primeiro também na ordem da importância. Para evitar suspeição de parcialidade, quem vai fazer aqui a apresentação da sua vera efígie será o P.e Henrique Moreira da Cunha conhecido genealogista da família dos Moreiras, nascido em Parada de Todeia, a 9-5-1695. Por especial deferência do saudoso Abílio Miranda, foi-me facultada a leitura e cópia dum nobiliário do referido autor, manuscrito, acabado em 26-12-1730, ano do óbito do nosso Cónego presentemente guardado na Biblioteca M. de Penafiel. No ramo 6.a (fls. 188-190) lá está delineado o perfil do Cón. Moreira, a traços largos, com alguns pormenores da sua vida, a que não falta gracioso tom de pitoresco. Desse retrato singelo apenas será dado à estampa, desta vez, cerca de meio-corpo — o restante sairá na semana que vem.
Vai aparecer tal e qual, afora grafia, acentos, pontuação e abreviaturas. Apontada esta circunstância, já começa a transcrição:
O filho de Helena Moreira (e de seu leg.o marido, Domingos do Couto, acrescento eu), o Mt.° Rev. P.e Manuel Moreira, ordenando-se de sacerdote do hábito de S. Pedro, foi para Salamanca, Universidade, onde se formou, e daí partiu para Roma, onde assistiu 12 anos, e de Roma veio feito Cónego da Sé do Porto.
Foi homem de muitas prendas e virtudes na sua vida, a qual toda foi muito penitente e nela nunca andou a cavalo; foi e veio de Roma sempre a pé, e a pé todos os anos, até o último da sua vida, foi à Senhora da Lapa e a S. Tiago da Galiza e a outras romarias importantes, mui distantes e remotas. Foi frequente na oração, casou muitas órfãs, amparou muitas viúvas; e quanto rendia o seu benefício era pouco para pobres, tanto assim que deixou os seus bens, que tinha livres, empenhados em conto de reis que gastou com os pobres e em obras pias. Alimentava-se com manjares grossos, comendo quotidianamente tão somente caldo adubado com unto e algum bocado de sardinha, ou um ovo muito poucas vezes, porque se abstinha de tudo que era regalo. Dormia sobre uma tábua, 2 até 3 horas da noite, porque o mais tempo era pouco para a sua oração.
Não vamos mais além. Entretanto, quem gostar de se alumiar com esta candeia ferrugenta, com certeza que não há-de considerar de ora avante a totalidade dos Cónegos do séc. XVIII desprovida de valiosas «prendas e virtudes» sobrenaturais.
MONAQUINO