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Ribeiros em Peroselo?





Dois ribeiros nascem em Peroselo. A bem dizer, só existe aí um ribeiro. O «ribeiro das Lavras» que desce das bandas de Vilarinho e desemboca, após breve percurso, no ribeiro que tem sua origem junto à presa de Vilar — não é mais que um ribeirito ou simples regato. Ribeiro, sim, é o que vem de Valqueira, atravessa Peroselo, de lés a lés, mete-se por Fontão abaixo, corre ao fundo de Perosinho, para se ir lançar pressuroso no Tâmega, em Rio de Moinhos.
Não longe da sua nascente, gerou ele um topónimo que não se envergonha do seu progenitor: o Ribeiro, lugar contíguo ao de Valqueira. Casa do Ribeiro se denomina também uma moradia muito antiga, cujas paredes se erguem mesmo rentes às suas águas, naquele sítio. Aconteceu ainda que muitos dos descendentes da família que habitou ali — pelo menos desde meados do séc. XVI começaram a usar, no século de seiscentos, o apelido Ribeiro. No número destes, contam-se vários clérigos.
Desculpará o prezado leitor se descobriu qualquer artimanha, por inocente que seja, na feitura deste pequeno preâmbulo, — mas o fito que tive foi o de arranjar pretexto para falar aqui de dois eclesiásticos ligados, pelo lado paterno, à Casa do Ribeiro, em Peroselo: o Cónego Domingos Ribeiro Nunes e um Cónego, sobrinho deste, seu homónimo. Hoje só tentarei delinear tosco perfil do Cón. tio Domingos.
O pai deste eclesiástico nasceu na Casa do Ribeiro, no ano de 1648, e chamou-se João Gonçalves Ribeiro (o patronímico Gonçalves já era de tradição familiar muito velha). Casou ele com Maria do Couto, e teve geração. O filho Domingos veio à luz do dia em 1675. Aos oito meses de idade ficou órfão de mãe e foi uma 2.a mulher de João G. Ribeiro, de nome Maria Francisca, que o ajudou a criar-se, com desvelada dedicação maternal. Cresceu. Na idade das opções, escolheu a carreira eclesiástica. Sendo já presbítero e morador em Vilarinho, encontrámo-lo em Abraqão, a 2-8-1701, perante o Tabelião A. da Rocha Ferraz — do extinto conc.o de Portocarreiro — a receber das mãos de Maria Francisca uma doação de todos os bens que ela possuía. Doara-lhos por não ter filhos do seu 1.o marido — Belchior Gonçalves — nem os haver do segundo matrimónio, além de que se encontrava com «grave idade e muito doente» e só o P.e Domingos «della tratava e curava com grande amor e zello».
Mais tarde, o P.e D.os Ribeiro Nunes, induzido talvez pelo exemplo do seu conterrâneo Cón. Manuel Moreira, decidira empreender uma viagem a Roma, na mira de conseguir do Papa o benefício de uma conezia na Sé do Porto. Lá partiu pois, de longada para a Cidade Eterna, onde logrou alcançar que Sua Santidade «fosse servida fazer-lhe graça de o prover em o Canonicato e Prebenda» que havia possuído, na Catedral portucalense, o Rev. Luís de Sousa Carvalho.
Por uma petição que fez ao Cabido do Porto, após o seu regresso a Portugal, sabe-se que a sua ida a Roma o obrigara a «muitos gastos», sem contar o grave prejuízo de ter sido «roubado na viagem»! Estas circunstâncias devem ter influído no ânimo dos «R.dos Senhores do Cabido da dita Sé» para eles se apressarem a «mandar tirar as inquirições de puritate sanguinis» — condição indispensável, a da limpeza do sangue, para lhe ser dada a posse do benefício canonical.
As diligências de genere efectuaram-se em Peroselo, em 5-9-1709, e o acto da tomada de posse foi logo no dia 7, do mesmo mês e ano.
Desta sorte um Ribeiro de Peroselo se promoveu eclesiástica e socialmente.
Por MONAQUINO

Vida Prodigiosa




Como é já do nosso conhecimento, o P.e Henrique, da Casa da Roçada em Parada de Todeia, dá-nos no seu manuscrito genealógico uma visão de conjunto da vida e obras do Cón. Moreira de Peroselo. A natureza do assunto versado pedia isso mesmo. Ao entanto, o autor não deixou de intercalar a respeito dele um ou outro pormenor, muito sintético, que empresta na verdade pitoresco realce à singular personalidade do Rev.mo Cónego. Além dos mais já observados, conta-se o que escreveu acerca do género da sua indumentária de cotio. Isso tem certo interesse, de maneira que transcreve-se aqui:
«Constava o seu vestido de camisa de estopa grossa, gibão e calções largos de pano grosso, meias grossas de lã, capa tosca com fita (...) e um chapéu grande sem presilhas».
Vestimenta algo esquisita para um Cónego da Catedral! Entretanto, se não era traje de gala, também não devia ser destoante do modo de trajar das classes populares, em meio citadino, naquele tempo. Demais, a avaliar por certas extravagâncias na maneira de vestir em nossos dias, até seria figurino muito de aproveitar para certas elegâncias (não eclesiásticas) dos tempos que vão correndo... Agora, o que julgo deva ser notado, é a qualidade «grossa» das vestes, nada propícia à moleza dos sentidos e muito menos ao seu regalo. Que admira isso numa vida «que toda foi muito penitente»!
Os encómios de Mor.a da Cunha, em louvor da «prodigiosa vida» daquele membro prestigiante do Cabido da Sé do Porto, atingem o acúmen quando justamente nos diz que ele «era, por antonomásia, chamado Cónego Santo». Santo Cónego de verdade! Tão formoso foi o seu viver cristianíssimo como faleceu santamente da vida presente nas casas da sua morada, a S. André, extra-muros da cidade do Porto «com muitos sinais de predestinação».
No testamento que deixou, havia ordenado «que seu corpo fosse enterrado no Adro da Capela de S. André». Aconteceu, porém, que «alguns dos Cónegos» com certeza pela muita amizade e veneração que lhe votavam não acharam bem tal disposição; pois não descansaram sem «o desviarem desse intento». Para comprazer com os respeitáveis colegas, «fez um codicilo em seu testamento, em que determinou fosse sepultado na mesma Sé, em o Arco-Cruzeiro, adonde foi sepultado aos 12 de Fevereiro do ano de 1730, tendo falecido aos 11 do mesmo mês, com evidentes sinais de predestinado».
E desta maneira estamos chegados ao fim do esplêndido testemunho que nos legou o P.e Henrique acerca da pessoa veneranda do Cón. Manuel de Peroselo.
Antes de me despedir até a próxima semana, ainda queria fazer um curto acrescento ao que fica dito.
Várias vezes tenho pensado que neste santo Cónego andou encarnada, não sei bem como, uma alma de ermitão medievo, daqueles ermitães que viveram outrora pelos montes da nossa terra (segundo documentação, citada aqui, vai em dois anos, havia-os dessa espécie ou semelhantes, ainda no começo do séc. XVIII). Eram varões que consumiam a vida, lá nas alturas montesinas, a louvar de continuo o Senhor Deus, dia e noite, e a rogar-Lhe as melhores bênçãos para todos os irmãos — homens, não esquecendo fazendas e gados tudo sem distinção!
Em verdade, ele não fora Cónego ao modo da época florida, palaciana e cortesã de setecentos. Varão ilustrado (basta lembrar que frequentou a Universidade de Salamanca e permaneceu 12 anos em Roma); conhecedor de muitas e variadas gentes e terras («mui distantes e remotas», que percorreu sempre «a pé»); este homem, forte de alma e de corpo, passara grande parte da sua vida «recolhido» em S. André, a orar a Deus («para ele o tempo era pouco para a oração»), a dar-se a dura penitência («se abstinha de tudo que era regalo»), e a «remediar» toda a sorte de necessitados, quaisquer que eles fossem! Digam-me agora, Senhores, como hei-de eu deixar de gostar deste Cónego de Peroselo?
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1971-05-28, p.04

Prím. Cónego de Peroselo




O meu amigo leitor talvez conheça, ao menos de vista, o Cón. Manuel Moreira, que nasceu em Peroselo, na Casa da Q.ta da Igreja (hoje chamada do Couto), a 16-9-1649. Em tempos não muito distantes, falou-se dele, salvo erro, no Penafidelense, em 57, e de modo mais sucinto, em Penafidel, no ano de 65. No
caso de não lhe ser estranho este Cónego, não me desfaça o prazer de ora me debruçar sobre figura tão peregrina e tanto da minha paixão.
Ele é de verdade o primeiro dos Cónegos de Peroselo. Primeiro cronologicamente, segundo creio, e sem dúvida o primeiro também na ordem da importância. Para evitar suspeição de parcialidade, quem vai fazer aqui a apresentação da sua vera efígie será o P.e Henrique Moreira da Cunha conhecido genealogista da família dos Moreiras, nascido em Parada de Todeia, a 9-5-1695. Por especial deferência do saudoso Abílio Miranda, foi-me facultada a leitura e cópia dum nobiliário do referido autor, manuscrito, acabado em 26-12-1730, ano do óbito do nosso Cónego presentemente guardado na Biblioteca M. de Penafiel. No ramo 6.a (fls. 188-190) lá está delineado o perfil do Cón. Moreira, a traços largos, com alguns pormenores da sua vida, a que não falta gracioso tom de pitoresco. Desse retrato singelo apenas será dado à estampa, desta vez, cerca de meio-corpo — o restante sairá na semana que vem.
Vai aparecer tal e qual, afora grafia, acentos, pontuação e abreviaturas. Apontada esta circunstância, já começa a transcrição:
O filho de Helena Moreira (e de seu leg.o marido, Domingos do Couto, acrescento eu), o Mt.° Rev. P.e Manuel Moreira, ordenando-se de sacerdote do hábito de S. Pedro, foi para Salamanca, Universidade, onde se formou, e daí partiu para Roma, onde assistiu 12 anos, e de Roma veio feito Cónego da Sé do Porto.
Foi homem de muitas prendas e virtudes na sua vida, a qual toda foi muito penitente e nela nunca andou a cavalo; foi e veio de Roma sempre a pé, e a pé todos os anos, até o último da sua vida, foi à Senhora da Lapa e a S. Tiago da Galiza e a outras romarias importantes, mui distantes e remotas. Foi frequente na oração, casou muitas órfãs, amparou muitas viúvas; e quanto rendia o seu benefício era pouco para pobres, tanto assim que deixou os seus bens, que tinha livres, empenhados em conto de reis que gastou com os pobres e em obras pias. Alimentava-se com manjares grossos, comendo quotidianamente tão somente caldo adubado com unto e algum bocado de sardinha, ou um ovo muito poucas vezes, porque se abstinha de tudo que era regalo. Dormia sobre uma tábua, 2 até 3 horas da noite, porque o mais tempo era pouco para a sua oração.
Não vamos mais além. Entretanto, quem gostar de se alumiar com esta candeia ferrugenta, com certeza que não há-de considerar de ora avante a totalidade dos Cónegos do séc. XVIII desprovida de valiosas «prendas e virtudes» sobrenaturais.
MONAQUINO