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Enquanto durar o mundo!






Prezado leitor, não perca ânimo e leve até final uma página amarelecida da vida antiga da Casa da Granja, em Lagares, pelo ano de 1753.
Começa desta maneira: Saibão quantos este Testamento virem em como eu Frey Manoel Leite de Mello, morador em a quinta da Granja... Já se sabe que é a fala dum Cavaleiro professo na Ordem de Cristo. Tinha 68 anos de idade e por causa de padecer de algumas moléstias, resolveu fazer o seu testamento.
Assim dispôs primeiramente: «Falecendo da vida presente, será meu corpo envolto em o hábito de Cristo que tenho com os paramentos que costumam levar os Cavaleiros, e será sepultado dentro da Igreja adonde sou freguês. Meu corpo será acompanhado à sepultura por vinte clérigos de Missa que a dirão por minha alma nesse dia e a cada um a esmola costumada nesta freguesia se lhe dará». Muitas outras Missas deixou ainda de «seis vinténs e cem réis» cada uma.
Mais ordenou que se fizessem quatro ofícios de vinte padres de Missa como era «uso da sua Casa». Ao pobre que viesse à porta por essa ocasião, seria dado um vintém, por uma só vez. Item declarou «que lhe assistirá música no seu acompanhamento e primeiros três ofícios», encomendando por fim a sua alma a Deus e ao Senhor Jesus Cristo e à Mãe e Senhora Maria Santíssima, ao seu Padroeiro S. Martinho e ao Anjo da Guarda e a todos os Santos e Santas da Corte do Céu. E assim acabou a sua disposição dos bens de alma.
De seguida é dos bens temporais que se ocupa. Quanto a isso, deixou no testamento que se cumprisse o que fora estabelecido na escritura dotal celebrada com sua mulher D. Perpétua Luísa Leite de Macedo. Ficaria, pois, usufrutuária dos bens do marido, contanto que não voltasse a casar, porque se o fizesse, apenas «se levantará com seu dote»!
Bem nos lembraremos de certo de já ter ouvido falar que Fr. Manuel e a esposa tinham na sua companhia duas irmãs do Cavaleiro, no estado de solteiras. Chamavam-se D. Francisca Clara e D. Helena Teresa. No caso de D. Perpétua não querer viver com elas, ficava obrigada a dar-lhes uma pipa de vinho, os olivais de S. Paio da Portela, que foram do património do seu irmão P.e Vicente Leite, e mais lhes serão semeados dois alqueires de linho.
O Cavaleiro não se esqueceu também das suas irmãs que eram Freiras no Convento de S. Clara da Vila de Amarante: D. Inês Maria Clara e D. Catarina Josefa de Melo. As duas Religiosas receberiam anualmente «um almude de azeite, doze arráteis de bom linho e um porco cevado ou quatro mil e oitocentos réis por ele», conforme já fora determinado na referida escritura dotal.
Finalmente, Fr. Manuel nomeou universal herdeiro de todos os seus bens de raiz o sobrinho Manuel José Ribeiro de Macedo e Melo, morador na Quinta das Quintãs de Valpedre, filho do seu primo Jerónimo Macedo de Araújo e de sua cunhada D. Mariana Luísa Clara Ribeiro. Como importante obrigação, impusera ao dito herdeiro o encargo de pôr trezentos mil réis a juros para com eles se pagar a um Capelão que celebrasse Missa na Capela da sua Quinta da Granja, todos os Domingos e Dias Santos, por alma dele e de todos os seus parentes, recebendo de esmola cem réis de cada vez — tudo isto enquanto durar o mundo.
Enquanto durar o mundo! Santa ingenuidade a deste Cavaleiro de Cristo em acreditar na possibilidade de se impor aos homens, para sempre, uma determinação emanada de qualquer vontade humana. Há quantas dezenas de anos aquelas pedras da Capela de S. António da Granja, na sua impressionante nudez, não são um clamoroso grito de condenação dos homens que outrora votaram ao abandono aquele lugar sagrado!
Por MONAQUINO

 

Donde os 3 mil cruzados?





A D. Perpétua Luísa foi a última a casar das três sobrinhas do Cónego Ribeiro Nunes. Casou um pouco tardiamente, no ano de 1747, pois tinha então cerca de 38 anos de idade. O tio Cón. Domingos, falecido em 1744, e que não chegou a lograr o contentamento de ver esta sobrinha consorciada com um membro da família dos Macedos Leites e Melos. Trata-se dum Cavaleiro que foi professo na Ordem de Cristo («com a tença de mil reis»), senhor da Casa e Qta. da Granja — em S. Mart.o de Lagares, no conc.o de Penafiel —, dono também de «todas as quintas, prazos e foros» que haviam pertencido a seus pais.
Este freire de Cristo encontrava-se então em estado de viuvez. Antes de casar com D. Perpétua Luísa, fora legítimo marido de D. Maria Josefa Moreira de Bessa, da Casa da Póvoa, em Pedorido, considerada naquele tempo das principais do conc.o de Paiva.
— Não estará lembrado o leitor de ter visto o Cavaleiro Frei Manuel Leite de Melo (desta forma assina ele em 1747) quando no ano de 1732 tomava parte na cerimónia do casamento de D. Mariana, irmã de D. Perpétua, na Capela da Quinta da Boavista, como testemunha do acto religioso e demais como primo que era, pelo lado materno, do esposado Jerónimo das Quintãs de Valpedre?
— Pois, exactamente, — era esse mesmo!
O referido viúvo Leite de Melo, nos anos de 47, vivia na dita Q.ta da Granja (aqui nasceu em 1684), na companhia de duas irmãs solteiras — D. Francisca Clara e D. Helena Teresa — quando resolveu casar segunda vez com D. Perpétua Luísa.
Como de costume, houve antes do casamento uma escritura dotal. Apesar do tio Cónego Domingos ter falecido e sem embargo de D. Teresa Angélica já se encontrar viúva, essa escritura foi lavrada na Quinta da Boavista, onde D. Perpétua morava há muitos anos. Lá compareceu o tabelião no dia 23 de Maio de 1747.
Estiveram então presentes, duma parte, «Donna Perpetua Luiza…, com seu Irmão, o rev. Domingos Ribeiro Nunes, Cónego na Cathedral»; e da outra, «frei Manuel Leite de Mello, Cavaleiro professo na Ordem de Christo».
Foram três as testemunhas: o P.e Jerónimo de Melo, da freg.a de Cabeça Santa, o Beneficiado da Sé P.e Manuel S.tos Veloso, e o P.e Tomás da Rocha Rebelo, da freg.a de Rans.
Pela sua parte, o Fr. Manuel disse que se dotava com a quinta da Granja, uma fazenda em S. Vic.te do Pinheiro, «duzentas e tantas medidas de segunda e cento e tantas de trigo», acrescentando ainda vários foros, direitos dominicais e prazos.
A soma de todos estes bens representava, naquele tempo, fortuna apreciável. O pior é que estava um tanto comprometida! Mas ouçamos a tal respeito o que disse o próprio Fr. Manuel: «que a dita sua futura esposa lhe dará de entrada tres mi! cruzados para elle esposado pagar as dividas que deve...».
De que fontes teria a noiva auferido os três mil cruzados com que iria solver o Cavaleiro as dívidas que o afrontavam?
— D. Perpétua tinha em guarda essa importância nas mãos de seu irmão Cón. Domingos, proveniente de quinhentos mil réis deixados pelo tio António — falecido no Brasil — acrescidos de seiscentos mil réis que herdou do tio Cónego. Há ainda a acrescentar que ela possuía muitas «pessas de ouro», avaliadas em cento e cincoenta mil réis, e o irmão Cónego também lhe oferecera duzentos mil réis.
E logo o Cón. Domingos, em presença do tabelião e testemunhas, «lanssou sobre hua meza os ditos tres mil cruzados e pela dita esposada e seu futuro marido forão contados... e os acharão certos».
Desta maneira, depois de assinarem todos os presentes, foi dada por finda a escritura de dote de casamento do Cavaleiro Fr. Manuel Leite de Melo com D. Perpétua Luísa.
Por MONAQUINO

 

Casou bem





Está hoje em cena D. Mariana por ser a primeira a casar das três sobrinhas do Cón. Ribeiro Nunes.
Foi no mês de Janeiro de 1732 que o Jerónimo de Araújo Leão de Macedo e Melo se consorciou com D. Mariana Luísa Clara Ribeiro. Com muitos dias de antecedência, em casa do Rev. Cónego Domingos — na Quinta da Boavista — um tabelião do Porto lançara no seu Livro de Notas uma escritura de dote a favor dos futuros esposados. Quanto ao dote, as coisas passaram-se, mais ou menos, como vou contar em resumo.
A noiva dissera que se dotava com quinhentos mil réis que lhe deixara seu tio António Ribeiro Nunes, falecido no Rio de Janeiro; a mãe de Mariana, a Snr.a Maria Ferreira da Cruz, que estava presente — já viúva do Alferes Manuel Ribeiro Nunes — deu em dote à sua filha duzentos mil réis; o tio Cónego Domingos, «pello muito amor que tinha à sobrinha», fizera-lhe mercê de quinhentos mil réis, sem levar em conta os quatrocentos mil réis que havia gastado com ela, «em pessas de ouro e prata, custosos vestidos, moveis e trastes de caza».
Por outro lado, o Capitão António de Araújo Leão — «para os encargos do dito matrimónio, se tivesse effeito» — dotara o filho Jerónimo com a «quinta ou Casal das Quintains, com todas as suas pertenssas», em que vivia em Valpedre, juntando-lhe as casas e terras que possuíram os seus tios P.e Agostinho da Rocha e P.e Manuel de Araújo — além de outros bens. E mais disse ainda que reservava para seu sustento e dos dois filhos solteiros — Manuel e António — o terço de todo o pão, vinho, azeite e castanhas, bem como de toda a espécie de legumes colhidos nas mesmas propriedades. No caso de não ficar a viver com seu filho e nora, utilizaria «a salla nova que fés e a cozinha da heira e a logea para ter sua besta, que pensará na dita quinta».
Esta escritura de dote, com que haviam de casar Jerónimo e Mariana, foi testemunhada pelo Abade Inocêncio Murrão de Morais Alão e pelo Governador das Armas da cidade do Porto, António Monteiro de Almeida; nela se encontram as suas assinaturas, assim como as de todos os intervenientes deste público documento. Só lhe falta a assinatura da mãe de D. Mariana, «que por dizer não sabia ler nem escrever, rogou a seu filho, o Rev. Con. Domingos Ribeiro Nunes (júnior), que por ella assignasse».
Decorrido mais de mês e meio, realizou-se, a 9-1-1732, o enlace matrimonial. Com licença do «Senhor Governador do Bispado», o casamento pode efectuar-se na Capela da Senhora da Conceição, pertença da mesma Quinta da Boavista.
Como era de esperar, assistiu como oficiante ao solene acto religioso o tio Cónego Domingos.
Foi um dia de muito júbilo na Casa da Boavista! Estiveram ali presentes «muitas pessoas», como se pode ler no assento do casamento. Lá estavam com certeza convidados das famílias da Cidade mais intimamente relacionadas com os dois Cónegos Domingos; fora de dúvida também foram presentes amigos e parentes dos noivos, vindos das freg.as de Peroselo, Gandra, Valpedre e Lagares. Serviram de testemunhas do acto religioso dois primos do noivo: Manuel Leite de Melo, senhor da Casa da Granja, em Lagares, e o P.e Jerónimo de Melo e Macedo, da Casa de Perosinho, sita em Gandra da Cabeça Santa.
Jerónimo e Mariana foram viver na sua Quinta das Quintãs, em Valpedre. Foi aí que lhes nasceu o primeiro filho, chamado Manuel, em 1-11-1733. Baptizou-o o tio Cónego Domingos, tendo sido padrinho o Rev.mo Doutor Frei Manuel dos Serafins — então «Geral dos Padres de S. Bento» — que fora irmão da avó paterna do neófito.
Longos e venturosos anos viveram nas Quintãs.
De verdade, foi um casamento muito abençoado por Deus!
Por MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1972-01-21,p.04