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«Meios-Cónegos» de Pegas




Na semana que passou, fiquei-me a assistir à boda do casamento de António Lopes com Ana Moreira, em Peroselo, realizada no dia 17 de Agosto de 1676. Decorreu ela mesmo à beirinha da Igreja, na casa conhecida hoje por moradia da quinta do Couto, não se pode duvidar, foi uma festa de família muito alegre e simpática, porque de muita intimidade. Lá estavam os familiares e próximos parentes da Casa da Igreja e lá estaria também a gente mais íntima da Casa de Pegas, onde foi nado e criado António Lopes. A atenção do meu espírito naquela hora não convergiu sobretudo para o lindo par dos recém-casados, mas antes se fixou em dois jovens «estudantes» ali presentes. Ambos foram «testemunhas» daquele «recebimento», como ficou expresso no assento do Livro do Registo Paroquial.
Um deles chamava-se João Lopes, irmão legítimo do noivo; era o outro de nome Manuel Moreira, irmão por inteiro da desposada Ana.
Amigos e companheiros de estudo no Porto, ambos se destinaram à vida sacerdotal. João Lopes
ordenou-se, mas veio a falecer, a 26-4-1686, em Peroselo, apenas com 36 anos de idade. A morte deste P.e João Lopes foi decerto muito sentida em toda a família. Digo isto porque, ao organizar a árvore genealógica da Casa de Pegas, apareceu-me em três gerações seguidas um padre com o nome de João Lopes.
Quanto ao seu companheiro e amigo Manuel Moreira, já os leitores sabem que se trata do jovem que um dia o povo havia de
canonizar, chamando-lhe «Cónego Santo».
A seu respeito só agora queria pôr em relevo o quanto contribuiu ele para a esplêndida floração de vocações sacerdotais, havidas no seu tempo em Peroselo
mercê do magnífico exemplo de vida mui virtuosa, do seu inesgotável amor de ajudar os outros e consequente prestígio social que adveio à sua pessoa de Padre. Para fugir a maior digressão, apenas me vou referir hoje a alguns sacerdotes de então, oriundos da Casa
de Pegas, que passaram como tantos outros pela Casa de S. André, no Porto.
Uma irmã de António Lopes marido de Ana Moreira chamada Francisca Dias, sucedeu na morada dos pais, tendo casado em 1688 com Tomé Rodrigues. Dos seis filhos nascidos deste casal, três foram sacerdotes exemplares e chegaram a fazer parte do Cabido da Catedral portuense, posto que não fossem de verdade Cónegos, no sentido estrito da palavra. Elementos integrados no Cabido, não usufruíam categoria tão alta como tantos que houve, chamavam-se «meios-cónegos» e também «benefiados». Foram eles os irmãos Jerónimo Lopes, Tomé Rodrigues e João Lopes. O P.e Jerónimo tomou posse duma «meia bacharelia» na Sé do Porto em 1714, tendo renunciado a ela em 1741, a favor do seu irmão P.e João Lopes, a fim de ser provido na freg.a de Vila Cova de Carros, no actual conc.o de Paredes. Acabara seus dias a 22-6-1788. O Beneficiado João Lopes faleceu no Porto, a 28-11-1771. Foi sepultado na Sé. O P.e Tomé Rodrigues foi empossado também em «meia bacharelia» em 13-2-1717. O seu falecimento ocorreu em 26-10-1768. Teve sepultura na Catedral do Porto.
A procissão dos semi-cónegos da Casa de Pegas ainda não terminou. Para não abusar da vossa paciência, não se vai hoje mais além. Fica para outra vez!
MONAQUINO

«Sobrinho que foi...»




Se é que merecem ao leitor algum interesse estas mal escrevinhadas notas, ainda pode suceder que retenha na memória o texto do epitáfio que haveria de ser gravado na «campa de pedra» destinada a cobrir a sepultura do Cónego Santo de Peroselo, caso fosse enterrado no adro da Capela de S. André, sita na freg.a de S. Ildefonso. Digo isto porque me importa relembrar aqui, neste momento, a parte final desse «letreiro» vocábulo por que é designada, um tanto rusticamente, a referida inscrição epigráfica, que vem lançada no testamento do Cónego Manuel Moreira. Como saberá — se bem se recorda, amigo leitor depois de vir indicado o nome e origem do Cónego, acaba ela por findar desta maneira: *«...Sobrinho que foi do fundador da Misericórdia de Arrifana de Sousa». É à volta deste tema que hoje se vai desenvolver o nosso entretenimento.
Manuel Moreira, que foi Cónego da Sé do Porto e oriundo de Peroselo, era na verdade legítimo sobrinho em 3.° grau, pelo lado materno —do P.e L.do Amaro Moreira, que fora Abade do Ermelo e insigne benfeitor da nossa Misericórdia cuja igreja fundou e dotara de enormes rendas, para brilho do culto e
valimento dos necessitados enfermos do seu Hospital. Isto já está dito redito, mas não há mal em repeti-lo, por causa da moléstia de que padece a memória dos homens. Tanto assim, que Penafiel se esqueceu até hoje de prestar homenagem condigna a quem tanto lhe dera...Verdade bem provada é também que o Cónego Manuel de Peroselo foi 3.o sobrinho dessa grande figura de homem e Padre o fundador da
Misericórdia. No entanto, não será despropósito recordar aqui a via por que o foi.
0 P.e L.do Amaro Moreira, filho legítimo de Gaspar G. Moreira e de Brites Duarte, nascera na Casa da Lousa morada de seus pais no lugar de Moreira da freg.a de S. Miguel de Gandra do actual conc.o de Paredes. Entre os 6 irmãos que tivera, conta-se uma Maria Gaspar Moreira, casada que foi com Gonçalo Rodrigues, da Casa de Lagares, freg.a do mesmo nome e orago de S. Martinho, no conc.o de Penafiel onde viveram com geração. Uma filha deste casal, chamada Maria Moreira, casara, a 6-5-1607, na igreja de Lagares, com Gonçalo Fernandes, natural de Peroselo. Moraram eles na Casa da Igreja desta freguesia e tiveram, entre outros filhos, Helena Moreira, nascida em 20-10-1616. Helena Moreira casou na igreja de Peroselo, a 9-2-1643, com Domingos do Couto, natural da freg.a de Rio Tinto. Residiram na dita Casa da Igreja, onde nasceu, a 16-9-1649, o filho Manuel Moreira, que veio a ser o Cónego Santo. Talqualmente soía exclamar, ao fim de engraçada conversa, o bom do Padre Américo do Gaiato em certos pontos, irmão gémeo do Cónego Manuel de Peroselo também eu, ao cabo desta lengalenga genealógica, apetecia-me dizer do benévolo leitor: Ora eis! Entretanto, ainda acrescentarei que não seria capaz de pintar com mais clareza e síntese o quadro da ascendência materna do nosso Cónego por mais tratos que desse à minha pobre imaginação. Mas, apesar de tudo, à face do que fica dito, poder-se-á atestar que o Rev. Manuel Moreira Cónego que foi da Sé Catedral do Porto não era oriundo de fraca cepa, quer dizer, ao menos pelo lado da mãe, era filho de boa gente gente de limpeza de sangue e lavada geração!
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1971-06-11, p.04